Uma Conversa sobre Estética


Sônia Guaraldi


                    Acho importante,  para os artistas de todas as linguagens, uma conversa  sobre estética. Assunto vasto,  com questões  diversas, investigações difíceis,  e um caminho  que trilha a complexidade. 

                    Essa é uma área  que deve ser explorada, e  convidada a fazer parte das reflexões de todos aqueles  que direta ou indiretamente  estão envolvidos com arte e querem ampliar seus  conhecimentos.

Pintura de bisonte, em Altamira

                    O universo estético trata da  relação que temos com os objetos, quaisquer  que sejam  seus antecedentes ou origens. Ou seja, trata da relação que mantemos com  objetos em tempo histórico, como  a pintura pré-histórica  das cavernas de Altamira  ( Espanha), um templo maia, uma catedral gótica, um palácio renascentista, ou um produto artístico de cultura contemporânea - um quadro de Chagall, Pollock, um edifício de Gaudí ou um mural de  José Clemente Orozco.

Catedral gótica de Chartres

                   A essa  relação  com os objetos é que chamamos de estética. Sabemos, portanto, que, ao contrário do que ocorre com as obras  artísticas contemporâneas, os homens nem sempre mantiveram  com certos objetos  a mesma relação estética que mantemos hoje com eles.

                   

Templo maia, em Tikal
  Fayga Ostrower nos fala que a capacidade de  criar formas expressivas contém uma  dose imensa do componente afetivo.Para criar, o homem precisa entregar-se de corpo e alma,  identificando-se com a matéria em questão, identificando-se  com ela  a fim de poder sondar as possibilidades de configurá-la em novos desdobramentos. Diz ela que se hoje  em dia se entregasse  uma pedra bruta  a um excelente  designer, propondo-lhe projetar, com lascas, um instrumento cortante que fosse ao mesmo tempo funcional e bonito, há dúvidas de que ele pudesse, com todos os recursos tecnológicos,  apresentar soluções  melhores do que as produzidas pelos homens pré-históricos. ( A sensibilidade do Intelecto- pp267-Fayga Ostrower)

                              Reconhecemos, pois, que, além das considerações utilitaristas, existiam inconscientes mas verdadeiras motivações,  caracterizando o fazer, o como fazer. Entendemos  que, ao dar uma forma ou configuração a alguma matéria, o homem também se configura e dá forma ao  seu íntimo ser, na sua relação espiritual com a vida. Daí, a mensagem  contida nessas formas, continuar relevante para nós até hoje.

Obra de Bechara: sacos escrotais
Acho oportuno falar sobre a obra do artista José Bechara  que está presente na  XXV Bienal de S.Paulo com trabalhos feitos em couro de fetos bovinos. Ele diz que ficou surpreso com um anúncio de uma revista que vira na Itália ao lado de uma bota de milhares de dólares. A legenda avisava que o couro da mesma era de animal raro, de uma presa já morta. A partir daí, sentindo-se arrasado diante de tamanha  hipocrisia, sentiu a necessidade de vasculhar e entender essa situação. A obra deste artista nasce, assim, desta angústia. Ele dirigiu-se a um matadouro sem saber bem o que queria encontrar. Lá presenciou fetos bovinos já crescidos, misturados às vísceras de suas mães mortas. Ele acompanhou o processo de matança  para saber o que havia antes de cada pele de animal. Procurou assim, em suas obras preservar as marcas de idade, procedências, e   até pequenos acidentes como cortes em arame farpado no couro. É por isso que tetas e órgãos genitais estão presentes em suas obras como uma tentativa de registrar a existência  ou o registro do animal. Não cabe aqui avaliarmos a obra de ninguém mas apenas registrar uma experiência estética e simbólica do nosso tempo. (Jornal  O Globo- Segundo caderno-16/março de 2002. pp-12).

Sagrada Família, de Gaudi
Diz Fayga que a busca de ordenações  é nossa também. Ela nos atinge em nosso ser sensível. Consideramos como estética a  sensibilidade contemporânea  das relações estabelecidas pelo homem perante os objetos. Quando falamos em estética  estamos tratando de um campo temático, amplo  ou seja,  de tudo o que é objeto de relação , de comportamento ou da experiência de caráter estético que fale de uma paisagem natural, de uma flor, de um colibri ou de  um  objeto produzido pelo homem sem finalidade estética: uma jarra  de cristal, uma lâmpada, uma mesa ou um automóvel. Nesse universo incluímos  tanto os seres naturais quanto os objetos  artificiais produzidos pelo trabalho humano. Entre eles, o que chamamos obras de arte, que, em nossa época, ocupam um lugar privilegiado dentro do rico e variado universo estético, o  que  no momento nos interessa.

Afresco de Orozco

Mas é preciso entender primeiro a realidade estética  e saber que ela considera a totalidade, as manifestações diversas, naturais ou artificiais , artesanais ou artísticas, técnicas ou industriais. O estético na natureza, na arte, na vida pública ou privada, nos centros de trabalho ou de entretenimento, no lar ou na rua. Todos os  elementos desse  universo, por mais que se diferenciem  entre si, têm algo em comum ,que é o que justifica , a partir de nossa perspectiva contemporânea , sua inclusão nesse universo.Estamos falando  de   um modo de apropriação, contemplação  ou comportamento  humano  específico diante de seus objetos. Faz-se necessária  uma ciência  especial que se ocupe  desses objetos  e do comportamento humano em relação a eles, assim como  das condições individuais e sociais  em que ocorrem  esses objetos e esse comportamento.

                                              A realidade peculiar e o comportamento humano específico que constituem o objeto da Estética não podem  ser separados do todo em que se integram outras realidades  e outros comportamentos humanos. Ela está ligada às ciências como a psicologia , a economia , a sociologia, a lingüística, a semiologia, a teoria da informação, a literatura e outras. Os objetos, às vezes, trazem experiências já existentes em outras ciências mas  a Estética  as considera a partir de outro ângulo além daquele já percebido.

                                              É bom sabermos que a estética apareceu com Baumgarten  no século XVIII como um ramo da filosofia. Estética( do grego aisthesis que significa literalmente;sensação;percepção sensível;) é entendida como uma teoria do saber sensível. Desta forma, abre-se um leque enorme  de encaminhamentos e questionamentos  que vão fortalecendo  e firmando   esses pensamentos numa disciplina autônoma, apesar de,até hoje, muitos não a  aceitarem como uma verdadeira ciência.  Essa nova área  autônoma  unificadora de agires humanos  estaria ligada ,sobretudo,  à idéia  do sentir; não com o coração e o sentimento, mas com os sentidos, com a rede de percepções físicas. O estabelecimento de beleza  era constituído  como objetivo supremo deste novo saber ou julgar manifestado pelo pensamento  de acordo com o objeto de sensação.

Pollock em seu atelier

Diz Luís Carmelo que o belo definia o novo valor estético.O belo identificava-se  com as grandes obras dos gênios , não apenas pela sua  finalidade técnica.  Isso porque já existia toda uma rede de valores  que não se restringia apenas  à esfera técnico-científica  (simetria, proporção, perspectiva...), racional ou moral. Novas formas de olhar, comunicar e perceber o mundo eram impostas. O objeto deste novo julgar, centrado no belo, viria a evoluir  para uma metalinguagem da própria arte. Ela se explicaria a si mesma. 


                                         Não devemos no entanto nos esquecer  que acadêmicos ou não, vivemos em nossas vidas momentos de situação estética;por mais ingênua, simples ou espontânea que seja nossa atitude como sujeitos nela. Ante a flor  que se dá  de presente, o vestido que se escolhe, o rosto que cativa ou a canção que nos agrada, vivemos  essa relação  peculiar com o objeto que chamo de situação estética; ( Convite à estética-pp xvii). Diante de uma obra de arte,  a relação descrita acima é bem maior, embora  nem por isso deixe de ser imediata e espontânea. Se falarmos de um nível reflexivo, temos diante da obra uma relação mais teórica,   com diferentes  pontos de generalidade, como a relação mantida pelo crítico e pelo historiador de arte.

Chagall em seu atelier

Nessa altura do texto convém nos perguntarmos: Qual a importância da estética para o artista? Como ela interfere no processo criativo? Não será a estética mais uma teoria inútil? Discutirmos e refletirmos sobre essa questão é o melhor caminho . A estética não pretende ser uma teoria normativa e sim uma teoria fecunda para a prática artística. Ela interessa ao artista  por motivos teóricos quando  contribui para desenvolver a capacidade criadora. Estamos falando em todas as manifestações artísticas. Essa teoria estética, com todas as suas categorias e conceitos , traz e desencadeia os sinais de luta entre o velho e o novo, entre tradição e inovação. Ou seja, ela ajudará o artista a descobrir o papel que pode desempenhar com sua arte na sociedade de seu tempo, logicamente de acordo com a atividade que este artista exerça.

                                             Acreditamos que o artista não é por princípio um teórico, mas um pouco de teoria ajustada à prática não deve lhe faltar. Podemos  exemplificar com  alguns artistas-teóricos e reflexivos que deixaram suas marcas  no Renascimento , como Leonardo da Vinci e  Alberti, nos tempos modernos, com Goethe, Schiller e Shelley, e em nossa época- o que não deixa de ser sintomático – com aquela em que mais proliferam os criadores do porte de Kandinsky, Malevitch e Siqueiros na pintura; Stravisnky e Shoenberg na música; Eisentein no cinema; Eliot, Valéry, Machado e Octavio Paz na poesia e tantos outros.( convite à estética- pg 25)

                                        Percebemos então, que  a hostilidade do artista em relação à teoria não é absoluta e a muitos só  engrandeceu. Há idéias , normas ou convenções que, em determinado momento, são assumidas por artistas, e assim canalizam  a direção de suas práticas artísticas. Estamos falando da poética  de determinado movimento artístico, termo usado na atualidade. Fazem parte da poética os manifestos, os programas artísticos, as declarações  dos artistas  contra os princípios , normas e convenções  com as quais rompem ou  em prol dos novos  que impulsionam  suas práticas.

                                           Portanto, há teorias e teorias. Aquelas que  se estendem além da realidade a que respondem, que se distanciam da prática do artista  e se tornam infecundas; outras,  que apontam para uma consciência maior  da prática  artística. Essa visão da estética ajudará o artista  a evitar  as freqüentes confissões  de alguns acerca de seu  próprio ofício, nas quais nada  mais fazem senão repetir os lugares-comuns  já trilhados e desvinculados de uma vida atuante em consonância com o seu tempo. 

    Há muito ainda a ser dito sobre estética diante da complexidade de suas abordagens,  mas  entendemos que ela é inerente à natureza humana e por isso  importante  nas nossas reflexões sobre arte.

 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA


CARMELO, Luís. A estética como desconotação praticada pela Modernidade. \internet; abril 2000- Texto.

FISCHER, Ernest. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.  1976.
SANCHEZ, Adolfo Vasquez.  A necessidade da Arte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
MAE,   Ana Barbosa. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999.
Jornal  O Globo. Segundo Caderno- 16/03/2002

 
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