Entrevista com Mário Mendonça

 

Mário Mendonça é um dos maiores artistas brasileiros de arte sacra contemporânea. Em quatro décadas, pintou cerca de dois mil quadros e participou de exposições no Brasil e exterior, nas quais mostrou, principalmente, suas representações sacras.

Esta entrevista foi concedida por conversa telefônica, em setembro de 2003, alguns dias antes de comemorar os seus 40 anos de pintura, com lançamento de livro, inauguração do Espaço Mario Mendonça e vernissage da exposição Quatro décadas pintando Jesus Cristo.

 

Artenarede: O que levou você a pintar?

Mário Mendonça: Antes de aprender a escrever, eu já desenhava. Desde os 2 ou 3 anos, eu já tinha o hábito de ficar desenhando. A tal ponto que foi difícil a minha alfabetização. Ao invés de escrever as letras, eu desenhava cavalos...

"... Passado o choque, eu tinha a certeza que era isso
que eu iria fazer daí pra frente, isto é, me dedicar
especialmente a produzir arte sacra."
AR: E depois? Como foi a profissionalização?

MM: Bem, aqui no Brasil existe pouca valorização com relação a algumas artes, como música clássica e artes plásticas, por exemplo. Então tive que me dedicar a uma outra profissão, para poder me sustentar e a minha família. Mas sempre continuei produzindo minha arte. Fiz o que meu grande amigo Augusto Rodrigues dizia: "Trabalha para sustentar a sua arte."

No início dos anos 60, 1961 ou 1962, não sei ao certo, um de meus clientes - eu trabalhava em uma imobiliária - o grande pintor Emeric Marcier folheou um caderno onde eu desenhava em meus momentos de folga e, gostando do que viu, me convidou a ir em seu atelier, na rua Timóteo da Costa, no alto Leblon. Ao entrar, ocorreu um fenômeno: me deparei com um Cristo e fiquei completamente estático, extasiado. Passado o choque, eu tinha a certeza que era isso que eu iria fazer daí pra frente, isto é, me dedicar especialmente a produzir arte sacra. E foi o que fiz. Tive excelentes professores como Caterina Baratelli e Aluísio Carvão. Em 1963, realizei minha primeira exposição, no MAM. Aliás, essa foi a única exposição realizada neste local por um aluno recém formado...

AR: Parece desnecessário perguntar-lhe qual seu tema preferido...

MM: Sem dúvida alguma, o religioso. Faço naturezas mortas, paisagens, flores, mas estes outros temas servem como treino técnico para o tema religioso.

AR: Que material você utiliza para pintar?

MM: Bem, fora os afrescos - pintura em paredes - eu gosto muito do óleo. Pode ser qualquer suporte: tela, madeira... E tenho uma característica: uso a própria tela como paleta. Distribuo as cores em um pedaço da própria tela e vou incorporando aos poucos esta minha "paleta" ao trabalho.

AR: Quando pinta, você tem algum objetivo que quer atingir?

"Fazer o melhor possível. Ser rigorosíssimo, não fazer
concessão nenhuma. Embora exista emoção, tenho que
fazer o meu melhor."

 

MM: Fazer o melhor possível. Ser rigorosíssimo, não fazer concessão nenhuma. Embora exista emoção, tenho que fazer o meu melhor. Uma obra que faço tanto pode levar uma semana como pode levar 3 anos para ser terminada.

 

 

 

AR: E com relação a exposições, você gosta de expor?

MM: Não, não gosto de expor. Considero que a exposição é o striptease do artista plástico. Mas é necessária. Por um lado, fornece a subsistência do artista. Por outro, permite olhares diferentes para a sua obra. Cada pessoa vai ter um olhar diferente para a mesma obra e que, as vezes, o próprio artista nem percebe em sua própria obra. Tenho até um exemplo que explica bem essa situação. Certa vez, ao terminar um trabalho, dei 3 pinceladas no lugar da inscrição em uma cruz. Quando o trabalho foi visto por outras pessoas, elas "viram" um rosto no lugar da inscrição. "Seria o rosto de Deus"?, até perguntou uma delas...

AR: Entre as suas obras, existe alguma que você prefere?

MM: É sempre a última. Atualmente, estou trabalhando na "Tentação de Cristo". Nela, inverto o senso comum: o Cristo está nas trevas, o Demônio aparece iluminado. Afinal, não é Cristo que ilumina o Demônio enquanto este joga sombras em Cristo?

Mas gosto muito também de 3 obras que doei para o Museu de Arte Sacra do Rio de Janeiro.

AR: Quais são os seus próximos projetos?

MM: Tenho alguns afrescos e telas para terminar. A médio prazo, estou envolvido na exposição "21 jóias do Torah", com obras de pequena dimensão, a ser apresentada no Rio de Janeiro, São Paulo e Nova York.

AR: E a Internet? Como você encara o seu trabalho em relação a Internet?

"Sei que a Internet é importante, que a
comunicação com o mundo ficou tremendamente maior,
mas não consigo eu mesmo interagir com este mundo."

 

MM: Ainda não consigo me relacionar com a Internet. Sei que é importante, que a comunicação com o mundo ficou tremendamente maior mas não consigo eu mesmo interagir com este mundo. Tenho site - desenvolvido e mantido por outra pessoa - e sei que esta entrevista que estou dando será veiculada pela Internet, mas a minha interação pára por aí...

 

 

AR: O que você gostaria de acrescentar para nossos internautas?

MM: Estou no momento do agradecimento. Mesmo se tivesse 3 vidas a viver, não conseguiria agradecer por tudo o que tenho recebido.

 
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