VICENTE DO REGO MONTEIRO

 

Vicente do Rego Monteiro

Mario Mendonça
 

El Greco levou cem anos para ser descoberto pelos historiadores de arte internacionais. Durante um século, esse grande gênio da pintura universal repousou serenamente no esquecimento, para depois despertar, triunfante, e ocupar definitivamente o seu espaço entre os mais importantes pintores do mundo. Isso acontece na arte com certa freqüência, e no Brasil temos caso semelhante, com um dos integrantes da Semana de 22: um pintor brasileiro mais conhecido na Europa do que entre nós, o pernambucano Vicente do Rego Monteiro. Para falar dele vamos explicar resumidamente a trajetória da arte no Brasil até a famosa Semana de 22, também conhecida como A Semana de Arte Moderna.

No início dos anos de 1700 a nossa pintura era feita por artistas autodidatas sem preparo técnico e qualquer base cultural, que, baseando-se em estampas européias (gravuras religiosas espanhola e italianas), decoravam as igrejas da época. Mas isso não impediu o aparecimento de um gênio como o Aleijadinho, influenciado em suas esculturas pelas gravuras góticas flamengas e alemães. Um historiador brasileiro tem uma frase que define com perfeição essa época: “Para os nossos artistas a estampa era o mestre mudo”.

Ano de 1816; chegada da Missão Francesa. D. João VI, de mudança para o Brasil, mandou buscar em Paris um grupo de artistas importantes para instalar em nosso país “o ensino oficial das Artes e Ofícios”. Entre eles estava o desenhista e pintor Jean Baptiste Debret, que retratou com rara competência e beleza a nossa natureza e costumes. O resultado da missão foi uma arte intelectualizada, fria, onde eram abafadas a personalidade e criatividade dos nossos artistas. Era arte européia made in Brazil. Dessa forma fomos seguindo, sempre clássicos ou neo-clássicos, realizando uma arte acadêmica sem criatividade, apesar de magnificamente realizada, tecnicamente falando. Utilizando-se de temas nacionais ou não, mas com toque e estilo absolutamente europeus.

Nesse período se destacaram, e são considerados mestres da nossa pintura, Pedro Américo, autor do quadro A Primeira Missa no Brasil; Vitor Meirelles; Rodolfo Amoedo e Zeferino da Costa. Eram pintores europeus nascidos no Brasil; recebiam uma viagem de prêmio (D. Pedro II ajudava alguns com os próprios recursos), passavam uma temporada no velho mundo e retornavam mais europeus do que nunca.

Finalmente, em 1922, um grupo de intelectuais resolveu se insurgir e sacudir o marasmo da arte existente e, corajosamente, partir em direção à uma arte brasileira, moderna, baseada na nossa realidade, rompendo, definitivamente, com tudo o que vinha sendo feito desde a Missão Francesa. E não somente na pintura, mas também na escultura, música, poesia, literatura e arquitetura. Foram líderes desse movimento, os escritores Graça Aranha, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade. O idealizador da exposição, realizada no saguão do Teatro Municipal de São Paulo, em fevereiro de 1922, foi o pintor Emiliano Di Cavalcanti. A exposição, batizada de Vanguarda, da qual fizeram parte escritores, pintores, escultores e músicos (Villa Lobos), sacudiu a arte em nossa terra, libertando-a das influências que a impediam de voar com as próprias asas. O pernambucano Vicente do Rego Monteiro foi um dos pintores que participou da grande coletiva de São Paulo. Curiosamente, conheci esse grande mestre em Recife, em 1969, quando lá realizei uma exposição de arte sacra.

Na inauguração, elogiou um São Francisco, dizendo: “este quadro está perfeito”. Naturalmente, um elogio carinhoso de um colega gentil. Voltamos a nos encontrar vários vezes no Rio, onde se hospedava na casa do poeta e crítico Walmir Ayala. Na sua exposição na Galeria Barcinski pediu-me para opinar sobre uma tela chamada frevo. Ansioso como uma criança e inseguro como todo grande artista, aguardava a opinião de um jovem colega de 32 anos. Aquele sim era um quadro perfeito.

Vicente foi pintor, desenhista, inventor, poeta, cineasta, jornalista, ilustrador… Enfim, artista de uma criatividade fora do comum. Vivia intensamente; na maior parte de sua vida morou em Paris. Em uma de suas vindas a Recife, em 1932, compra com um cunhado um engenho de cana-de-açúcar e fabrica a cachaça “Gravatá” famosa na época e imortalizada no poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto. Com tudo isso, era mais artista do que industrial. O engenho faliu.

Em 1931, disputou o grande prêmio do Automóvel Clube da França pilotando uma Demo. Façanha ainda maior eram suas freqüentes viagens de Recife ao Rio, dirigindo um gordini, aos 71 anos de idade... Levava uma vida trepidante. Em termos de curriculum e realizações, desafio qualquer outro artista nacional que tenha conseguido o que Vicente atingiu.

Em 1911, viajou para a França, retornando três anos depois, fugindo da guerra. Em 1920, veio para o Rio de Janeiro, indo depois para São Paulo. Em 1922, volta para Paris em companhia de seu amigo Gilberto Freire. Publica livro sobre lendas e talismãs dos índios da Amazônia (Paris), desenha os costumes e máscaras para a peça Índios da Amazônia, encenada no teatro Femina (Paris, 1923). Sua tela Les Pauvres é adquirida pelo Palácio do Congresso de Liège, na Bélgica. Ilustra uma série de livros editados na França, Bélgica e outros países da Europa. Outra tela de sua autoria, Os Boxeadores, é adquirida pelo Museu de Grenoble (1928). Em 1925, o Museu Jeau du Paume adquire seu quadro O Menino e as Férias. Em 1934, traz para o Rio, Recife e São Paulo a exposição A Escola de Paris, da qual participa, com Picasso, Matisse, Braque e outros gênios daquela época. Pertencia ao grupo deles e por eles era respeitado. Promove o Congresso Inter-nacional de Poesia em Paris em 1952. O Museu de Arte Moderna de Paris adquire o seu quadro A Caça, de 1923.

Em 1955, a crítica da poesia da França lhe concede o prêmio máximo pelo seu livro Broussais. Logo após escreve outro livro, com prefácio de Bernanos. Com o livro La Chasité conquista, em 1924, novo prêmio de poesia. Mais uma tela sua é
adquirida pelo Museu de Arte Moderna de Paris, em 1964, Un Vérre à Vin.

Vicente, com uma pintura absolutamente pessoal e brasileira, conseguiu fazer parte da L'École de Paris. Na gloriosa época de Montparnasse, seus companheiros eram, nada mais nada menos, que Picasso, Braque, Matisse, Foujita, Modigliani, Soutine, Derain, Vlaminck, Van Dongen e outros que povoam as paredes dos principais museus do mundo e quebram os recordes de venda nos leilões internacionais. Nesse período se destacaram, e são considerados mestres da nossa pintura, Pedro Américo, autor do quadro A Primeira Missa no Brasil; Vitor Meirelles; Rodolfo Amoedo e Zeferino da Costa. Eram pintores europeus nascidos no Brasil; recebiam uma viagem de prêmio (D. Pedro II ajudava alguns com os próprios recursos), passavam uma temporada no velho mundo e retornavam mais europeus do que nunca.

Em 6 de junho de 1970, quando preparava-se para embarcar de Recife para o Rio, onde inauguraria uma grande exposição no Museu de arte Moderna, sentiu-se mal a caminho do aeroporto e foi vencido por um enfarte fulminante. Tinha 71 anos de idade. Suas obras seguiram órfãs e brilharam intensamente nas paredes do Museu.

Ninguém é profeta em sua terra.


Fonte: http://www.condominioeetc.com.br/site_revista9/arte_9.htm

 
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