CHAGALL

 

CHAGALL

Mario Mendonça

 

A inveja não é um dos meus grandes defeitos, porém há mais ou menos vinte e poucos anos, tive uma certa inveja de Chagall, que declarou ao completar 80 anos: "A partir de agora vou somente pintar a Bíblia como eu a vejo". Isso significava não mais encomendas de galerias, colecionadores ou museus, enfim a liberdade total do artista. Essa independência consegui a partir do ano 2000, após quatro décadas de trabalho. Hoje mergulho na Bíblia como primeira opção da minha arte, com grande alegria e independência e consumação final de minha missão como artista-pintor.

Não há mais inveja e sim gratidão pelo exemplo dado por este gênio da arte. Na história da pintura mundial, se conseguirmos (é muito difícil) separar os dez maiores nomes Chagall será um deles. Marc Chagall nasceu em uma aldeia russa, Vitbsk, em 1887, filho de pais judeus, pobres e sem cultura. Uma casa simples, tranqüila, onde seu excêntrico avô se isolava no sótão para tocar violino (o Violinista no Telhado, um dos seus mais belos quadros, talvez seja uma homenagem a esse avô). Chagall era um menino sensível, via beleza em tudo, em uma moça, uma flor, a lua, uma árvore. Comovia-se com a velhice, com a tristeza, enfim, tinha as emoções à flor da pele e não sabia o que fazer com elas - não tardou a descobrir, começou a desenhar com carvão. Sua mãe, que compensava a sua falta de cultura com uma grande sensibilidade, o apoiou, achava que a vocação do filho era um sinal, um desígnio de Deus.

Começou a estudar na pequena academia da aldeia; mais tarde um político consegue que ele ingresse na academia de São Petersburgo e dali para Paris foi um passo. Estava pronto um dos maiores artistas do mundo.

As emoções canalizadas para a arte, o otimismo, a alegria, o espírito bom e puro (Chagall foi um menino até morrer, aos 96 anos de idade) moldaram o mestre criador do "surrealismo lírico". Um surrealismo diferente do de Salvador Dali, com seus sonhos curiosos, quase indecifráveis, incandescentes, fantásticos e, às vezes, aterradores. Chagall é a beleza, a cor da alegria, as pessoas soltas no espaço, as flores, os amores, o sonho bom do ser humano alegre.

Amores Chagall teve dois, Bela Rosenfeld, com quem se casou em 1915 (ela foi modelo para quadros de fantástica beleza, como À minha mulher, tela iniciada em 1933 e terminada em 1944, imenso, com 1,31x1,94). Após 30 anos de casamento, Bela faleceu e Chagall custou muito a se recuperar, ficou abatido, prostrado por meses e meses a fio. Ao se recuperar, deixa Paris e vai morar com a filha em uma pequena aldeia no Mediterrâneo. Em 1952, casa-se novamente e Valentine o acompanha até o fim (ou início?).

Acompanhei a obra de Chagall por vários lugares do mundo, Paris, onde o teto da Ópera é um marco na cidade; Israel, onde conheci os vitraux (pintura sobre vidro, no hospital judaico de Belém), protegidos por telas de aço por causa da guerra (alguns foram danificados) e as tapeçarias do parlamento do Estado, em Jerusalém; vi suas pinturas no Hermitage de São Petersburgo. Enfim, onde existisse algo importante desse pintor eu bebia, como bebo até hoje dessa fonte inesgotável de beleza.

Não vamos falar de prêmios, ganhou muitos. Em 1953, teve uma exposição retrospectiva, a maior dedicada a um pintor vivo. Prêmios não são tão importantes, são até perigosos. Van Gogh nunca recebeu nenhum prêmio, uma homenagem, uma comenda. Chagall teve todas as homenagens que um artista poderia ter, mas o prêmio maior foi para nós: ele ter existido.

Chagall foi um homem de paz. Quando entrevistado por um jornalista americano, que lhe fez três perguntas, se estava satisfeito com a sua vida, quais eram as suas convicções e como sentia a morte, Chagall respondeu: "Estou satisfeito e continuo acreditando na minha santíssima trindade, que é pessoal, Deus, a pintura e a música de Mozart". "Não tenho medo da morte, a única coisa que desejo é fazer livremente o que desejar".

Quanto ao mais, tudo seguirá. Existirão outros como Chagall, apaixonado por cores puras, música, poesia. Sempre existirão artistas atraídos pela luz.


Fonte: condominioeetc.com.br

 
Clique e leia comentários sobre esta notícia ( 2 )

Home - Quem somos - Obras - Regulamentos - Faq's - Fale conosco
Como anunciar - Artistas - Mural - Jogos - Link's - Livro de visitas
www.artenarede.com © 2008