SOUTINE

 

 

SOUTINE

 Mario Mendonça

( Neste texto, o autor faz um paralelo entre Soutine e Chagall.) 

Quero homenagear outro artista israelita, menos conhecido dos

leigos da pintura, porém da mesma grandeza de Chagall, Chain Soutine. A diferença entre ambos é que Chagall buscava a razão de sua arte no exterior, no sol, na flor, na mulher, enfim, na beleza da vida, que ele transformava em canto de otimismo iluminado. Isso fez com que mantivesse o espírito de uma criança alegre até sua morte, aos 96 anos de idade.

Chagall foi um otimista. Soutine, ao contrário, não olhava para fora, mergulhava no seu interior, que não era cor de rosa, e sim tendia para o escuro, para o negro mesmo, o que não impediu contudo de legar ao mundo uma obra do maior quilate . A coincidência entre ele e Chagall era grande, chegaram mesmo a se conhecer e serem vizinhos de ateliê.

Ambos judeus, nascidos em pequenas aldeias, oriundos de famílias pobres, os dois chegaram a Paris, capital de todas as artes, onde se desenvolveram e se transformaram em gênios da pintura. Chagall viveu muito, Soutine viveu pouco, 49 anos. Nasceu em Smilovitch, na Lituânia, em 1894, e faleceu em Paris, em 1943.

Chain Soutine
A alegria prolonga a vida, a angústia a encurta. Soutine, filho de um alfaiate de família extremamente pobre (penúltimo de onze filhos), teve uma infância penosa. Caráter difícil, humor instável, foi expulso da escola e passava os dias rabiscando nos muros da aldeia grandes rostos humanos, o que causava escândalo para os outros e boas surras para ele. Fugiu para a cidade de Minsk, onde freqüentou a escola de Belas Artes. Paralelamente, ganhava a vida como ajudante de fotógrafo. Em 1911, foi para Paris, onde foi logo reconhecido como um grande talento, pela técnica diferente e força de expressão.

A pintura de Soutine é violenta, de perder o fôlego. Dono de um temperamento cada vez mais difícil, isolado, recusava-se a expor; passou a vida escondendo a maior parte de suas obras. Mais tarde, muitas foram parar em mãos de colecionadores - somente um cole-cionador americano, Dr. Barnes, adquiriu de uma só vez cem telas do artista, as quais guardava sem mostrá-las ao público. Essa grande venda fez com que Soutine ficasse famoso da noite para o dia e salvou parte de sua obra, pois a inquietação do pintor fazia com que refizesse ou destruísse constantemente seu próprio trabalho. Nunca estava plenamente satisfeito com o que fazia, raspava, pintava por cima e, na maioria das vezes, destruía o quadro e começava outro. A sua pintura era seu interior, permanentemente conturbado. Van Gogh perto dele era um contemplativo (se bem que ele era um dos seguidores do mestre holandês).

Certa ocasião comprou em um matadouro uma carcaça de boi esfo-lado, pendurou-a com ganchos no teto de seu ateliê, regando-a de vez em quando com sangue fresco, que escorria por entre as tábuas do assoalho, gotejando nos cômodos dos vizinhos de baixo. Foi expulso do prédio. Hoje, as 3 versões dessa carcaça estão nos museus de Amsterdã, Grenoble e Buffalo.

Apesar de não expor, sua fama de pintor maldito aumentava cada vez mais, e os críticos da época lhe dedicavam importantes artigos. Viajava muito, sempre solitário, e era um completo boêmio. Com o estouro da Segunda Guerra Mundial, assustado por ser israelita, refu-giou-se em Touraine, na França.

A sua vida desregrada lhe causou uma perfuração intestinal em 1943. Foi levado às pressas para Paris, mas operado já tarde demais. Faleceu no dia 9 de agosto daquele ano. A sua pintura é a de um artista inquieto, inconformado, descontente consigo e com o mundo. Tinha acessos de inspiração e pintava freneticamente, não parando para se alimentar, tomar banho ou pensar em qualquer outra coisa. Chegava à exaustão, quando então parava, com uma série de quadros prontos. Fora desses períodos, entrava em indolência por longo tem-po, nada produzindo. Mantinha sempre o rosto fechado, com os olhos parecendo sempre olhar para dentro. O pintor Modigliani, amigo de Soutine, fez um retrato dele excepcional, dando a impressão dos o-lhos voltados para o interior do corpo.

Soutine era um homem obstinado, tenaz, leitor desordenado de filósofos,

romancistas e poetas, bem como contemplador de seus mestres Rembrandt (que também pintou uma famosa carcaça de boi) e Cezanne.

Hoje chegaram à conclusão de que o pintor necessitava da carga nervosa (quase a loucura) para pintar, do choque da inquietação, da angústia e da sonolência posterior para acumular forças para o retor-no ao trabalho. Considerava qualquer preparação para pintar inútil e até nociva. O método para ele era a "castração" da criação. Só acreditava na inspiração que chegava como uma tempestade, que o consumia, libertando-o após passar, quase destruindo-o.

Soutine passou, sua obra ficou. Está ai para dela usufruirmos. Deu a vida por ela. É inscrito entre os pintores malditos, prefiro classificá-lo como mártir da pintura.

                                                               


Fonte: condominioeetc.com.br

 

 
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