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Natais eternizados

De onde vem a tradição de uma árvore de Natal?

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Árvore de Natal da rainha Victoria

A tradição de usar árvores para decorar as casas é bem antiga. Os egípcios, celtas, romanos e até mesmo os vikings traziam árvores para dentro de casa. As árvores eram usadas como decoração no solstício de inverno e acreditava-se que, ao final dessa estação, o sol iria reaparecer e as plantas voltariam a crescer.

Mas foi por volta do século XVI que as árvores de natal tornaram-se um costume cristão. A tradição da árvore de Natal não se espalhou rapidamente pela Europa. Foi somente em 1846, após a publicação de uma ilustração da rainha Victória e do príncipe Albert com seus filhos em volta de uma árvore de natal cheia de presentes, que pessoas de outros países passaram a utilizá-la.

No Brasil, o costume de enfeitar árvores de Natal entre os cristãos só apareceu no começo do século XX.

E, como seria de se esperar, pintores e poetas expressaram o Natal, seja com árvores , seja com meninos em manjedouras…

Natal_ViggoJohansen

“Silent Night”,1891
Viggo Johansen (Dinamarca, 1851-1935)
óleo sobre tela

Manoel de Barros escreveu:

Meu avô hoje ganhou de presente um olhar de pássaro
Acho que ele vai usar esse olhar para fazer as suas artes
O mundo para ele anda muito cansado
Ele quer mudar o jeito das coisas do mundo
Por exemplo ele vai dar primavera aos vermes
O homem não vai mais fabricar armas de fogo
Só vai ter mesmo rio, árvores, o sol, bichos ,pedras
Ele vai desenhar a sua voz nas pedras
Os grilos vão se abrir no meio da noite com enormes lírios
Todo mundo vai gostar mesmo é de obedecer as falas das crianças
Do que as ordens gramaticais
Os sapos vão andar de bicicleta
Depois vamos assistir ao nascimento de Jesus
Será o Natal
E todos vamos adotar as boas falas do filho de Deus
Amar o próximo como a nós mesmos
Então o mundo será renovado !

Poema de Natal“, de Vinicius de Moraes

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“Arbre de Noël”, 1956
Edith Blin (França, 1891-1983)
pastel sobre cartolina

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.”

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“Festa de Natal”, 1943
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela

Canto de Natal“, de Manuel Bandeira:

“O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.”

Natal_HenryMosler

“Manhã de Natal”, 1916
Henry Mosler (EUA, 1841-1920)
óleo sobre tela

O Que Fizeram do Natal“, de Carlos Drummond de Andrade

“Natal.
O sino toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
Encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.”

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“A árvore de Natal”, 1911
Albert Chevallier Tayler (GB, 1862-1925)
óleo sobre tela

História Antiga“, de Miguel Torga

“Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.”

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“A árvore de Natal”
Elizabeth Adela Stanhope Forbes (Canadá, 1859–1912)
óleo sobre tela

Natal…“, de Fernando Pessoa

“Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!”

Na manjedoura“, de Clarice Lispector

“Na manjedoura estava calmo e bom. Era de tardinha, ainda não se via a estrela. Por enquanto o nascimento era só de família. Os outros sentiam, mas ninguém via. Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro refulgia o menino, tenro como o nosso filho. Bem de perto, uma cara de boi e outra de jumento olhavam, e esquentavam o ar com o hálito do corpo. Era depois do parto e tudo úmido repousava, tudo úmido e morno respirava. Maria descansava o corpo cansado, sua tarefa no mundo seria a de cumprir o seu destino e ela agora repousava e olhava. José, de longas barbas, meditava; seu destino, que era o de entender, se realizara. O destino da criança era o de nascer. E o dos bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam. A inocência dos meninos, esta a doçura dos brutos compreendia. E, antes dos reis, presenteavam o nascido com o que possuíam: o olhar grande que eles têm e a tepidez do ventre que eles são.

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“Armando a árvore”
Elena Khmeleva (Rússia, 1966)
óleo sobre tela

A humanidade é filha de Cristo homem, mas as crianças, os brutos e os amantes são filhos daquele instante na manjedoura. Como são filhos de menino, os seus erros são iluminados: a marca do cordeiro é o seu destino. Eles se reconhecem por uma palidez na testa, como a de uma estrela de tarde, um cheiro de palha e terra, uma paciência de infante. Também as crianças, os pobres de espírito e os que amam são recusados nas hospedarias. Um menino, porém, é o seu pastor e nada lhes faltará. Há séculos eles se escondem em mistérios e estábulos onde pelos séculos repetem o instante do nascimento: a alegria dos homens.

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“Oh, árvore de Natal”
Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875 – 1941)
óleo sobre tela

Tudo tão vago“, de Mário Quintana

Nossa senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do bento filhinho…
São João estendia,
São José enxugava
e a criança chorava
do frio que fazia

Dorme criança
dorme meu amor
que a faca que corta
dá talho sem dor
(de uma cantiga de ninar)
Tudo tão vago…Sei que havia um rio…
Um choro aflito…Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu…
O menino dormira…Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu…
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…
E era a voz que eu ouvi em pequenino…
E era Maria junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino…

Eras tu…que ao me ver neste abandono
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…

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“A árvore de Natal”
Alexei Mikhailovich Korin (Rússia, 1865 – 1923)
óleo sobre tela

Para muitos de nós, as árvores de Natal são pedaços de nossa infância. Que teimamos em perpetuar em nossos filhos. Lembranças de crianças para crianças. Não há necessidade de mais presentes.

Autor: Catherine Beltrão

Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

Os sete sapatos de Vincent

Já falei dos girassóis e dos autorretratos. Já falei do quarto da Casa Amarela. E de várias outras casas. Agora é hora de falar dos sapatos. Dos sete sapatos de Vincent Van Gogh.

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“Sapatos”, de Van Gogh

Os sapatos revestem o caminhar. E pra onde estes caminhos nos levam? Os poetas, com quase toda certeza, já trilharam todos estes  caminhos…

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

“Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra…”, de Vinicius de Moraes. 2004

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra
Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas
Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência
E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste.

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas
Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias
Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.

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“Sapatos”, de Van Gogh

Afundo um pouco o rio com meus sapatos.
Desperto um som de raízes com isso
A altura do som é quase azul. 

Manoel de Barros

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter… calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.

Clarice Lispector

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

Desde que conheci você
sinto como se estivesse andando
com pequenas asas nos meus
sapatos
como se meu estômago estivesse
cheio de borboletas.

Affonso Romano de Sant’Anna

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“Três pares de sapatos”, de Van Gogh

Às vezes chego a pensar que os sapatos só existem pra que tivessem a chance de serem pintados por Vincent van Gogh.

 Autor: Catherine Beltrão

As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

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Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

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“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

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“A mãe costurando”

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“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

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“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

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“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

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“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

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“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

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“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

As mulheres do Museu e do Vinicius

No Dia Internacional da Mulher é mais do que óbvio falar de mulheres. E hoje as mulheres são do Museu e do Vinicius. Do Museu ArtenaRede e do Vinicius de Moraes.

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“Negra com lençol azul”, de Edith Blin – 1943, ost, 65 X 50cm

“São demais os perigos desta vida” (ou “Soneto do Corifeu”)

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“Paixão I”, de Glaucia Scherer – 2002 – ast – 64 X 53cm

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“Retração”, de Lena Gal – 2015, aquarela, 70 X 50cm

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

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-“Frida Kahlo e Diego de Rivera”, de Luiza Caetano – 2000, ost, 70 X 90cm

“A Mulher que Passa”

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“Deleite”, de Sônia Guaraldi – 1997, ost, 38 X 68cm

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

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“Grávida”, de Karlla Pio – 1999, escultura em resina, 65 X 18 X 32cm

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

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“Dor silenciosa”, de Lena Gal – 2002, ast, 54 X 65cm

“Minha namorada”

TaniaLeal_baixa

“Felicidade”, de Tânia Leal – 2003, ast, 72 X 55cm

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê

CatiaGarcia

“Intimidade”, de Catia Garcia – 2001, act, 100 X 150cm

Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois…

Nos anos 60, o poema “Minha Namorada“, que depois recebeu música do Carlos Lyra, foi meu hino ao amor de adolescente. Mais tarde, “Os perigos desta vida” resgatava meus anos de “música, luar e sentimento”. Hoje, quem dera ser “A mulher que passa“…

As imagens das obras são de mulheres que representam mulheres. Fazem parte do futuro Museu ArtenaRede.

Autor: Catherine Beltrão

Detalhes

Detalhe é um pedaço. De um pensamento. De uma atitude. De um fazer. Quase sempre, um pedaço bem pequeno. Ou até muito pequeno. Mas, um detalhe não é coisa menor. Pode até ficar grande. Muito grande. Imenso. Como são os detalhes de certas pinturas. Ou esculturas.

Mãos. É bom começar pelas mãos. Pelas mãos da “Canção” de Cecília Meireles.

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Detalhe das mãos de “O pensador”, de Rodin.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

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Detalhe das mãos de “David”, de Michelangelo.

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Detalhe das mãos de Plutão, em “O rapto de Prosérpina”, de Bernini.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Van Gogh

Depois das mãos, o detalhe do olhar. O olhar de Vinicius de Moraes, em seu “Soneto da Separação“.

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Detalhe do olhar de Mona Lisa, de Da Vinci.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Lucien Freud.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

E aí chega a hora do detalhe da flor. Mas, dentro da flor, fica a palavra do “Apanhador de desperdícios“, de Manoel de Barros.

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Detalhe de uma das “Ninfeias”, de Monet.

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

detalhe_renoir

Detalhe de “Flores em um vaso”, de Renoir.

Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

As mãos, o olhar, flores. Palavras. Os versos. Einstein sabia das coisas:

Eu quero conhecer os pensamentos de Deus; o resto são detalhes“.

Autor: Catherine Beltrão

Pérolas e lágrimas

Resolvi juntar lágrimas a pérolas em pinturas e poesias por acreditar que secreções também podem ser sublimes.

O ser sublime fica por conta de Klimt, van der Weiden, Veermer, Rembrandt, Dali, Picasso, Portinari e Mary Cassat. E também de Victor Hugo, Mario Quintana, Cecília Meireles, Drummond, Florbela Espanca, Jean-Paul Sartre, Vinicius de Moraes e Manoel de Barros.

lagrima_Klimt

“Mulher chorando”, de Gustav Klimt

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.
Victor Hugo

lagrima_vanderWeyden

“Descida da cruz” (detalhe), de Rogier van der Weyden. 1435

Chorar é lindo, por Mario Quintana

Chorar é lindo, pois cada lágrima na face
 são palavras ditas de um sentimento calado.

Pessoas que mais amamos, são as que mais magoamos
 porque queremos que sejam perfeitas,
 e esquecemos que são apenas seres humanos.

Nunca diga que esqueceu alguma pessoa, ou um amor.
 Diga apenas que consegue falar neles sem chorar,
 porque qualquer amor por mais simples que seja,
 será sempre inesquecível…

 As lágrimas não doem…
 O que dói são os motivos que as fazem caírem!
 Não deixe de acreditar no amor,
 mas certifique-se de estar entregando seu coração
 para alguém que dê valor

aos mesmos sentimentos que você dá,
 manifeste suas ideias e planos,
 para saber se vocês combinam,
 e certifique-se de que quando estão juntos
 aquele abraço vale mais que qualquer palavra…

Perolas_Vermeer

“Moça com brinco de pérola”, de Jan Vermeer. 1665

Pérolas – Cecília Meireles

O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
 – de que mares?
 – de que conchas?
 – menores que lágrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.

Perolas_Rembrandt

“Retrato de Maria Trip” (detalhe), de Rembrandt

 

Perolas_Dali

“Labios de rubi”, de Salvador Dali

As pérolas -  Carlos Drummond de Andrade

Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto. Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas – disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar. Os clientes queixavam-se de que os doces de Renata estavam demasiado doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola?  Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu. A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola.  A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse: “Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana”.

Minha primeira lágrima caiu de dentro dos teus olhos.
 Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
Cecília Meireles

lagrima_dali2

“O olho do tempo”, de Salvador Dali

Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca

Se me ponho a cismar em outras eras
 Em que ri e cantei, em que era querida,
 Parece-me que foi outras esferas,
 Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
 Que dantes tinha o rir das primaveras,
 Esbate as linhas graves e severas
 E cai num abandono de esquecida!

 E fico, pensativa, olhando o vago…
 Toma a brandura plácida dum lago
 O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
 Ninguém as vê brotar dentro da alma!
 Ninguém as vê cair dentro de mim!

lagrima_picasso

“Mulher chorando”, de Pablo Picasso. 1937

Lágrimas de um adulto eram como uma catástrofe mística, qualquer coisa como o choro de Deus acerca da maldade do homem.
Jean-Paul Sartre

 

lagrima_portinari

“Menino morto”, de Cândido Portinari

Poética (II) – Vinícius de Moraes

 Com as lágrimas do tempo
 e a cal do meu dia
 eu fiz o cimento
 da minha poesia

e na perspectiva
 da vida futura
 ergui em carne viva
 sua arquitetura

 não sei bem se é casa
 se é torre ou se é templo
 (um templo sem Deus)

mas é grande e clara
 pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!

Perolas_MaryCassatt

“Opera Woman with a pearl necklace”, de Mary Cassat

Acontecimento - Vinicius de Moraes

Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
Muitos sentirão inveja
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada.
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

E, para finalizar, uma frase definitiva de Manoel de Barros: “Escrever é cheio de casca e de pérola”.

Autor: Catherine Beltrão

Ana e Vinicius, dança e poesia…

Botafogo

Ana Botafogo

vinicius

Vinicius de Moraes

9 de julho de 1932: início da Revolução Constitucionalista, ocorrida em São Paulo, contra o governo de Getúlio Vargas.  Uma data importante para ser lembrada e comemorada. Mas este é um espaço de Arte.  Aqui, em mais um 9 de julho, comemora-se o nascimento de Ana Botafogo, a maior de nossas bailarinas, e também lembramos  de quando  Vinícius de Moraes (1913-1980) nos deixou e que, longe de ser “o poetinha“, para muitos, é o poeta maior de nossos corações.

Botafogo2Soneto de Separação

 De repente do riso fez-se o pranto
 Silencioso e branco como a bruma
 E das bocas unidas fez-se a espuma
 E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
 Que dos olhos desfez a última chama
 E da paixão fez-se o pressentimento
 E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
 Fez-se de triste o que se fez amante
 E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
 Fez-se da vida uma aventura errante
 De repente, não mais que de repente.

Botafogo1Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
 Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
 Que mesmo em face do maior encanto
 Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
 E em seu louvor hei de espalhar meu canto
 E rir meu riso e derramar meu pranto
 Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
 Quem sabe a morte, angústia de quem vive
 Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
 Que não seja imortal, posto que é chama
 Mas que seja infinito enquanto dure.

Botafogo7

Botafogo6Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
 Para lembrar e ser lembrados
 Para chorar e fazer chorar
 Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
 Mãos para colher o que foi dado
 Dedos para cavar a terra.
 Assim será nossa vida:
 Uma tarde sempre a esquecer
 Uma estrela a se apagar na treva
 Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
 Falar baixo, pisar leve, ver
 A noite dormir em silêncio.
 Não há muito o que dizer:
 Uma canção sobre um berço
 Um verso, talvez de amor
 Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
 E por ela os nossos corações
 Se deixem, graves e simples.
 Pois para isso fomos feitos:
 Para a esperança no milagre
 Para a participação da poesia
 Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Botafogo5A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
 Mudas telepáticas
 Pensem nas meninas
 Cegas inexatas
 Pensem nas mulheres
 Rotas alteradas
 Pensem nas feridas
 Como rosas cálidas
 Mas oh não se esqueçam
 Da rosa da rosa
 Da rosa de Hiroxima
 A rosa hereditária
 A rosa radioativa
 Estúpida e inválida.
 A rosa com cirrose
 A antirrosa atômica
 Sem cor sem perfume
 Sem rosa sem nada.

Botafogo4

Botafogo3Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
 O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
 Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
 E te amo além, presente na saudade.
 Amo-te, enfim, com grande liberdade
 Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
 De um amor sem mistério e sem virtude
 Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
 É que um dia em teu corpo de repente
 Hei de morrer de amar mais do que pude.

Botafogo8Poema dos olhos da amada

Ó minha amada
 Que olhos os teus
 São cais noturnos
 Cheios de adeus
 São docas mansas
 Trilhando luzes
 Que brilham longe
 Longe nos breus…

Ó minha amada
 Que olhos os teus
 São cais noturnos
 Cheios de adeus
 São docas mansas
 Trilhando luzes
 Que brilham longe
 Longe nos breus…

Ó minha amada
 Que olhos os teus
 Se Deus houvera
 Fizera-os Deus
 Pois não os fizera
 Quem não soubera
 Que há muitas eras
 Nos olhos teus.

Ah, minha amada
 De olhos ateus
 Cria a esperança
 Nos olhos meus
 De verem um dia
 O olhar mendigo
 Da poesia
 Nos olhos teus.

Para complementar o post, dois vídeos: o de Ana Botafogo que, embora seja um comercial, é primoroso (duração: 1:02) ; e o de Vinicius de Moraes, a primeira parte de uma joia antológica sobre o poeta (duração: 10:00).

Em tempo: as fotos de Ana Botafogo foram extraídas de seu site pessoal: www.anabotafogo.com.br.

Autor: Catherine Beltrão

O amor em traços e versos

O amor é um tema eterno. Não há no mundo quem não tenha amado. Pra falar de amor, surgem os poetas. Pra desenhar o amor, os pintores. Pra viver o amor, qualquer um de nós.

Este post apresenta  oito textos/poemas sobre o amor, de oito escritores que amo, ilustrados com imagens de obras de Edith Blin (1891-1983), a “pintora da alma.

Amor1

“Casal em cinza”, de Edith Blin: 1973, osc, 55 X 36cm

“Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.”

Pablo Neruda

Amor2

“Aproximação”, de Edith Blin: 1970, osc, 49 X 37cm

“Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.

Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.

A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.”

Mario Quintana

Amor3

“Depois da Fantasia”, de Edith Blin: 1972, osc, 48 X 34cm

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Luis de Camões

Amor4

“Duas figuras, uma nos braços da outra”, de Edith Blin: 1977, osc, 50 X 38cm

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.”

Vinicius de Moraes

Amor5

“Inspiré de Rodin II”, de Edith Blin: 1971, osc, 52 X 39cm

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…”

Florbela Espanca

Amor6

“Jovens do futuro”, de Edith Blin : 1978, osc, 53 X 38cm

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.”

Carlos Drummond de Andrade

Amor7

“Pausa I”, de Edith Blin: 1970, osc, 52 X 38cm

Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.” (De Julieta para Romeu)

William Shakespeare

Amor8

“Casal n•5″, de Edith Blin: 1980, osc, 51 X 37cm. Esta obra participou do Nouveau Salon de Paris – CIAC, em janeiro de 1986. Após o evento, a obra desapareceu, sendo desconhecido o seu paradeiro atualmente.

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.”

Fernando Pessoa

Uma nota a ser feita sobre as oito obras de Edith Blin apresentadas neste post: todas elas datam da década de 70, quando a artista tinha mais de 80 anos. É realmente fantástico o vigor e a força que transmitem, sem deixar de lado a ternura que o tema sugere…

Autor: Catherine Beltrão

Pátria e bandeira enlameadas

19 de novembro, dia da Bandeira Nacional.  Mas neste ano, o Rio Doce cobriu de lama a nossa bandeira. E, em consequência, o Brasil.

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“A Fundação da Pátria”, de Eduardo Sá. Ost.

Andei pesquisando bastante na Internet e não achei quase nada sobre obras representando a bandeira brasileira, salvo inúmeras versões estilizadas e modernosas. Resolvi apresentar somente duas, mais significativas. Primeiro, uma obra de Eduardo Sá,  que representou José Bonifácio idealizando a bandeira do Império Brasileiro, tendo como inspiradores os elementos formadores da nacionalidade brasileira (o negro, o índio e o português) e Dom Pedro I. Parece que o quadro era conservado na antiga Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara. Quem desenhou esta bandeira, criada em 18 de setembro de 1822, por Decreto, foi Jean-Baptiste Debret. Ela vigorou até 1889, quando foi proclamada a República.

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“A Pátria”, de Pedro Bruno. 1905, ost. Museu Histórico do Rio de Janeiro

Em 1905, Pedro Bruno ( 1888 – 1949) pintou “A Pátria“, que retrata a confecção da primeira Bandeira Republicana do Brasil. A cena se passa no interior de uma residência no final do Século XIX , sendo os personagens possivelmente da família de Benjamim Constant. Não existe a presença de negros ou resquícios da escravidão recém abolida (1888). A bandeira Republicana Brasileira foi criação de Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), oficializada em 19 de novembro de 1889. Em verdade foi uma adaptação da Bandeira do Império, aproveitando o verde-amarelo.

Neste ano de bandeira e pátria enlameadas, prefiro ficar com o belíssimo e antológico poema “Pátria Minha“, de Vinicius de Moraes:

…   A minha pátria é o grande rio secular
que bebe nuvem, come terra e urina mar. …

bandeira_vinicius2

Vídeo com a declamação do poema “Pátria Minha”, por Vinícius de Moraes, o próprio autor. Duração: 5:57

Autor: Catherine Beltrão