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Oito ícones, seis museus

Mesmo quem não sabe quase nada de artes plásticas, já ouviu falar de “Mona Lisa“, certo? E, com quase  toda certeza, de “A Noite Estrelada” e, talvez, até de “O Grito“…

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“Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci

E quem teria pintado estas obras? Essa também é fácil! Leonardo da Vinci, Vincent van Gogh e Edward Munch…

Mas e se a pergunta fosse: Onde estão situadas estas obras? Aí, a coisa complica, não é?

Bem, o post de hoje fala destes e de outros ícones da pintura e dos museus que as abrigam. Vamos lá:

A “Mona Lisa“, obra pintada por Leonardo da Vinci entre 1503 e 1506, encontra-se no Museu do Louvre, na França, desde 1797.

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Museu do Louvre, em Paris

O Museu do Louvre, é o maior museu de arte do mundo e fica situado em Paris, França. Ele possui aproximadamente 380.000 itens, da pré-história ao século XXI, que são exibidos em uma área de 72.735 metros quadrados. Inaugurado em 1793, é o museu mais visitado do mundo.

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“A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh

E “A Noite Estrelada“, onde fica?

A Noite Estrelada“, obra de Vincent van Gogh, pintada em 1889,  faz parte da coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, desde 1941.

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“Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso

Mas neste museu também se encontram dois outros ícones da pintura, “Les Demoiselles d’Avignon” e “A Persistência da Memória“.

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“A Persistência da Memória”, de Salvador Dali

Les Demoiselles d’Avignon” é uma obra de Pablo Picasso, feito em 1907. Levou nove meses para ser feita, e sua importância se deve ao fato de ser uma das obras responsáveis por revolucionar a história da arte, formando a base para o cubismo e a pintura abstrata.

Quanto ao ícone “A Persistência da Memória“, esta obra foi pintada por  Salvador Dalí, em 1931. A pintura está localizada no MoMA desde 1934. Para quem tiver interesse, vale a pena pesquisar um pouco sobre os significados dos vários símbolos presentes na tela: relógios derretidos, formigas, caricatura do pintor…

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MoMA, em Nova Iorque

O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, mais conhecido como MoMA, foi fundado no ano de 1929 como uma instituição educacional. Atualmente é um dos mais famosos e importantes museus de arte moderna do mundo.  Possui mais de 150.000 pinturas, esculturas, desenhos, maquetes, imagens, fotografias e peças de design. E também contém uma livraria e arquivo com cerca de 305.000 livros e ficheiros de mais de 70.000 artistas.

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“A Moça do Brinco de Pérola”, de Johannes Vermeer

E essa? Quem não conhece?

Também conhecida como “A Mona Lisa do Norte” ou “A Mona Lisa Holandesa“,  “A Moça com o Brinco de Pérola“  é uma pintura do artista holandês Johannes Vermeer, feita em 1665. A pintura está no Museu Mauritshuis, desde 1902.

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Museu Mauritshuis, em Haia

O Museu Mauritshuis ( ou Casa de Maurício) é um rico museu de Haia, um dos mais importantes da Holanda. Seu nome se deve ao fato de ter sido construída por ordem de João Maurício de Nassau, que foi governador do Brasil holandês no século XVII, e hoje é a sede da Real Galeria de Pinturas de Maurishuits. Possui um importante acervo de arte, com mais de 800 obras, incluindo obras de Rembrandt e Rubens.

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“As Meninas”, de Diego Velázquez

Um outro ícone importante da pintura mundial é a obra “As Meninas“, de Diego Velázquez.  Pintada em 1656, esta obra foi intensamente analisada e reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental. Ela está atualmente no Museu do Prado em Madrid.

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Museu do Prado, em Madri

O Museu do Prado, localizado em Madri, é o mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo. Inaugurado em 1819, sua coleção é baseada principalmente em pinturas dos séculos XVI a XIX. Entre seus quadros, conta com obras-primas de pintores como Velázquez, El Greco, Rubens, Bosch e Goya.

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“O beijo”, de Gustav Klimt

Essa aqui é fácil!

O quadro “O beijo“, de Gustav Klimt, pintado entre 1907 e 1908, é uma das obras mais reproduzidas da arte mundial. Pertence à chamada “fase dourada” do artista, que utilizou folhas de ouro na composição dos trabalhos nesta fase. O quadro está exposto em Viena, na Galeria Belvedere da Áustria.

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Galeria Belvedere da Áustria, em Viena

Veja que beleza de palácio!

A Galeria Belvedere da Áustria é um museu situado no Palácio Belvedere, em Viena, Áustria. Inaugurado em 1905, sua coleção inclui obras-primas da arte, desde a Idade Média e o Barroco até o século XXI. O acervo inclui obras de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka.

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“O Grito”, de Edward Munch

Esse ícone é barbada! Mas talvez você não saiba que “O Grito” não se resume a uma só obra: é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, pintada em 1893.  Dois dos quadros da série, “A Ansiedade” e “O Desespero“, se encontram no Museu Munch, em Oslo, outra na Galeria Nacional de Oslo e outra em coleção particular.

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Museu Munch, em Oslo

O Museu Munch é um museu de arte situado em Oslo, albergando mais da metade das obras de Edvard Munch, deixadas em testamento à comuna de Oslo em 1940. O museu foi inaugurado em 1963, cem anos após o nascimento do pintor.

Oito ícones. Seis museus. Que tal um roteiro artístico percorrendo estes museus? Mais alguém se habilita?

Autor: Catherine Beltrão

Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

As cinco últimas obras de Van Gogh

Vincent van Gogh pintou cerca de 2000 obras em uma década de produção. Mas foi em Auvers-sur-Oise, pequeno vilarejo perto de Paris, que Van Gogh viveu seus três últimos meses de vida, após ficar internado por um ano em uma instituição em Saint-Rémy. Lá ele pintou 77 obras.

Neste período, Vincent experimentou novos formatos de composição. Antes de Auvers, suas composições paisagísticas mediam 50 X 50cm ou 60 X 60cm, refletindo os tamanhos de tela padrão fornecido pelos comerciantes de arte parisienses. Para esses últimos trabalhos ele juntou duas das telas para criar um painel de dois quadrados medindo quase três pés de largura (50 x 100 cm).

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“Campo de Trigos com Corvos”, de Vincent van Gogh. 1890

Não se sabe ao certo qual a última obra pintada por Van Gogh. Muitos acreditam ser o famoso “Campo de Trigos com Corvos“. Será? Concluída em 1890, nas ultimas semanas de vida de Van Gogh, a obra está no Museu Van Gogh, em Amsterdã, na Holanda.

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“Raízes de árvore”, de Vincent van Gogh. 1890

De julho de 1890, inacabada, “Raízes de árvore” foi encontrada no cavalete de Van Gogh no quarto da pensão em que morava quando morreu, em Auvers-sur-Oise. Por isso, acredita-se também que é sua última obra. A tela está no Museu Van Gogh, de Amsterdã.

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“O jardim de Daubigny”, de Vincent van Gogh. 1890

O jardim de Daubigny“, pintado três vezes por Vincent van Gogh, retrata o jardim fechado de Charles-François Daubigny, um pintor que Van Gogh admirou ao longo de sua vida. Van Gogh começou com um pequeno estudo de uma seção do jardim. Então ele trabalhou em duas pinturas quadradas duplas do jardim murado.

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“Planície de Auvers”, de Vincent van Gogh.1890

O campo de visão mais amplo, proporcionado pela junção de tuas telas quadradas, certamente se adequava a um tema recorrente de Van Gogh: os famosos vastos campos ondulados de Auvers, em especial, “Planície de Auvers“.

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“Campo de trigo sob nuvens de tempestade”, de Vincent van Gogh.1890

Em “Campo de trigo sob nuvens de tempestade“, os campos verdes e o céu azul parecem se estender muito além das bordas da imagem, criando um efeito panorâmico. A obra também se encontra no Museu Van Gogh, em Amsterdã.

Como última tela pintada por Vincent Van Gogh, escolho a segunda apresentada neste post: “Raízes de árvore” . E você?

Autor: Catherine Beltrão

Clarice e a velhice

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Clarice Lispector

Clarice Lispector (1920-1977), uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX, faria hoje 98 anos. O conto “O grande passeio” é uma ode à velhice. Junto à Clarice, a arte de Camille Claudel, Auguste Rodin, Sebastião Salgado, Pablo Picasso, Vincent van Gogh e Ron Mueck.

O grande passeio

Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação: – Mocinha.

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“A velha Helena”, de Camille Claudel

As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava: – Nome, nome mesmo, é Margarida.

O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-lhe estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito:
sorria e balançava a cabeça.

Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo. A família achava graça em Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo. É que também se tratava de uma velha misteriosa. 

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“A velha mulher”, de Auguste Rodin

Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de anão e disparava lépida como se a casa estivesse pegando fogo. Ninguém sabia por onde andava. Um dia uma das moças da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso gentil: – Passeando. Acharam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade.
Mocinha nascera no Maranhão, onde sempre vivera. Viera para o Rio não há muito, com uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro.

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“A mulher velha”, de Vincent van Gogh

Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de tê-la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos lá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: “olha!” Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar-se de um ricto
inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá-la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar. Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irmãs passar um fim-de-semana em Petrópolis, levou a velha no carro.

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“O velho guitarrista”, de Pablo Picasso

Por que Mocinha não dormiu na noite anterior? A idéia de uma viagem, no corpo endurecido o coração se desenferrujava todo seco e descompassado, como se ela tivesse engolido uma pílula grande sem água. Em certos momentos nem podia respirar.

Passou a noite falando, às vezes alto. A excitação do passeio prometido e a mudança de vida, de repente aclaravam-lhe algumas idéias. Lembrou-se de coisas que dias antes juraria nunca terem existido. A começar pelo filho atropelado, morto debaixo de um bonde no Maranhão – se ele tivesse vivido no tráfego do Rio de Janeiro, aí mesmo é que morria atropelado. Lembrou-se dos cabelos do filho, das roupas dele. Lembrou-se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar. E lembrou-se do marido. Só relembrava o marido em mangas de camisa. Mas, não era possível, estava certa de que ele ia à repartição com o uniforme de contínuo, ia a festas de paletó, sem falar que não poderia ter ido ao enterro do filho e da filha em mangas de camisa. A procura do paletó do marido ainda mais cansou a velha que se virava com leveza na cama. De repente descobriu que a cama era dura.

– Que cama dura – disse bem alto no meio da noite.
É que se sensibilizara toda. Partes do corpo de que não tinha consciência há longo tempo reclamavam agora a sua atenção. E de súbito – mas que fome furiosa! Alucinada, levantou-se, desamarrou a pequena trouxa, tirou um pedaço de pão com manteiga ressecada que guardava secretamente há dois dias. Comeu o pão como um rato, arranhando até o sangue os lugares da boca onde só havia gengiva. E com a comida, cada vez mais se reanimava. Conseguiu, embora fugazmente, ter a visão do marido se despedindo para ir ao trabalho. Só depois que a lembrança se desvaneceu, viu que esquecera de observar se ele estava ou não em mangas de camisa. Deitou-se de novo, coçando-se toda ardente. Passou o resto da noite nesse jogo de ver por um instante e depois não conseguir ver mais. De madrugada adormeceu.

E pela primeira vez foi preciso acordá-la. Ainda no escuro, a moça veio chamá-la, de lenço amarrado na cabeça e já de maleta na mão. Inesperadamente Mocinha pediu uns instantes para pentear os cabelos. As mãos trêmulas seguravam o pente quebrado. Ela se penteava, ela se penteava. Nunca fora mulher de ir passear sem antes pentear bem os cabelos.

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“Duas mulheres”, de Ron Mueck

Quando enfim se aproximou do automóvel, o rapaz e as moças se surpreenderam com seu ar alegre e com os passos rápidos.

“Tem mais saúde do que eu!”, brincou o rapaz. À moça da casa ocorreu: “E eu que até tinha pena dela”.
Mocinha sentou-se junto da janela do carro, um pouco apertada pelas duas irmãs acomodadas no mesmo banco. Nada dizia, sorria. Mas quando o automóvel deu a primeira arrancada, jogando-a para trás, sentiu dor no peito. Não era só por alegria, era um dilaceramento.
O rapaz virou-se para trás: – Não vá enjoar, vovó!

As moças riram, principalmente a que se sentara na frente, a que de vez em quando encostava a cabeça no ombro do rapaz. Por cortesia, a velha quis responder, mas não pôde. Quis sorrir, não conseguiu. Olhou para todos, com olhos lacrimejantes, o que os outros já sabiam que não significava chorar. Qualquer coisa em seu rosto amorteceu um pouco a alegria da moça da casa e deu-lhe um ar obstinado.

A viagem foi muito bonita.
As moças estavam contentes, Mocinha agora já recomeçara a sorrir. E, embora o coração batesse muito, tudo estava melhor. Passaram por um cemitério, passaram por um armazém, árvore, duas mulheres, um soldado, gato! letras – tudo engolido pela velocidade.
Quando Mocinha acordou não sabia mais onde estava. A estrada já havia amanhecido totalmente: era estreita e perigosa. A boca da velha ardia, os pés e as mãos distanciavam-se gelados do resto do corpo. As moças falavam, a da frente apoiara a cabeça no ombro do rapaz.
Os embrulhos despencavam a todo instante.
Então a cabeça de Mocinha começou a trabalhar. O marido apareceu-lhe de paletó – achei, achei! o paletó estava pendurado o tempo todo no cabide. Lembrou-se do nome da amiga de Maria Rosa, daquela que morava defronte: Elvira, e a mãe de Elvira até era aleijada. As lembranças quase lhe arrancavam uma exclamação. Então ela movia os lábios devagar e dizia baixo algumas palavras.

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Foto de Sebastião Salgado

As moças falavam: – Ah, obrigada, um presente desses eu rejeito!
Foi quando Mocinha começou finalmente a não entender. Que fazia ela no carro? como conhecera seu marido e onde? como é que a mãe de Maria Rosa e Rafael, a própria mãe deles, estava no automóvel com aquela gente? Logo depois acostumou-se de novo.
O rapaz disse para as irmãs: – Acho melhor não pararmos defronte, para evitar histórias. Ela salta do carro, a gente ensina aonde é, ela vai sozinha e dá o recado de que é para ficar.
Uma das moças da casa perturbou-se: receava que o irmão, com uma incompreensão típica de homem, falasse demais diante da
namorada. Eles não visitavam mais o irmão de Petrópolis, e muito menos a cunhada.
– É sim, interrompeu-o a tempo antes que ele falasse demais. Olha, Mocinha, você entra por aquele beco e não há como errar: na casa de tijolo vermelho, você pergunta por Arnaldo, meu irmão, ouviu? Arnaldo. Diz que lá em casa você não podia mais ficar, diz que na casa de Arnaldo tem lugar e que você até pode vigiar um pouco o garoto, viu. .
Mocinha desceu do automóvel, e durante um tempo ainda ficou de pé mas pairando entontecida sobre rodas. O vento fresco soprava-lhe a saia comprida por entre as pernas.
Arnaldo não estava. Mocinha entrou na saleta onde a dona da casa, com um pano contra pó amarrado na cabeça, tomava café.
Um menino louro – decerto aquele que Mocinha deveria vigiar – estava sentado diante de um prato de tomates e cebolas e comia sonolento, enquanto as pernas brancas e sardentas balançavam-se sob a mesa. A alemã encheu-lhe o prato de mingau de aveia, empurrou-lhe na mesa pão torrado com manteiga. As moscas zuniam.
Mocinha estava fraca. Se bebesse um pouco de café quente talvez passasse o frio no corpo.
A mulher alemã examinava-a de vez em quando em silêncio: não acreditara na história da recomendação da cunhada, embora “de
lá” tudo fosse de se esperar. Mas talvez a velha tivesse ouvido de alguém o endereço, até num bonde, por acaso, isso às vezes acontecia, bastava abrir um jornal e ver que acontecia. É que aquela história não estava nada bem contada, e a velha tinha um ar sabido, nem sequer escondia o sorriso. O melhor seria não deixá-la sozinha na saleta, com o armário cheio de louça nova.
– Preciso antes tomar café, disse-lhe. Depois que meu marido chegar, veremos o que se pode fazer.
Mocinha não entendeu muito bem, pois ela falava como gringa. Mas entendeu que era para continuar sentada. O cheiro de café
dava-lhe vontade, e uma vertigem que escurecia a sala toda.
Os lábios ardiam secos e o coração batia todo independente. Café, café, olhava ela sorrindo e lacrimejando. A seus pés o cachorro mordia a própria pata, rosnando. A empregada, também meio gringa, alta, de pescoço muito fino e seios grandes, a empregada trouxe um prato de queijo branco e mole. Sem uma palavra, a mãe esmagou bastante queijo no pão torrado e mpurrou-o para o lado do filho. O menino comeu tudo e, com a barriga grande, agarrou um palito e levantou-se: – Mãe, cem
cruzeiros.
– Não. Para quê?
– Chocolate.
– Não. Amanhã é que é domingo.
Uma pequena luz iluminou Mocinha: domingo? que fazia naquela casa em vésperas de domingo? Nunca saberia dizer. Mas bem que gostaria de tomar conta daquele menino. Sempre gostara de criança loura: todo menino louro se parecia com o Menino Jesus.
O que fazia naquela casa? Mandavam-na à toa de um lado para outro, mas ela contaria tudo, iam ver. Sorriu encabulada: não contaria era nada, pois o que queria mesmo era café.
A dona da casa gritou para dentro, e a empregada indiferente trouxe um prato fundo, cheio de papa escura. Gringos comiam
muito de manhã, isso Mocinha vira mesmo no Maranhão. A dona da casa, com seu ar sem brincadeiras porque gringo em Petrópolis era tão sério como no Maranhão, a dona da casa tirou uma colherada de queijo branco, triturou-o com o garfo e misturou-o à papa. Para dizer verdade, porcaria mesmo de gringo. Pôs-se então a comer, absorta, com o mesmo ar de fastio que os gringos do Maranhão têm. Mocinha olhava. O cachorro rosnava às pulgas.
Afinal Arnaldo apareceu em pleno sol, a cristaleira brilhando. Ele não era louro. Falou em voz baixa com a mulher, e depois de demorada confabulação, informou firme e curioso para Mocinha: – Não pode ser não, aqui não tem lugar não.
E como a velha não protestasse e continuasse a sorrir, ele falou mais alto: – Não tem lugar não, ouviu?

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“Clotho”, de Camille Claudel

Mas Mocinha continuava sentada. Arnaldo ensaiou um gesto. Olhou para as duas mulheres na sala e vagamente sentiu o cômico do contraste. A esposa esticada e vermelha. E mais adiante a velha murcha e escura, com uma sucessão de peles secas penduradas nos ombros. Diante do sorriso malicioso da velha, ele se impacientou: – E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro e você toma o trem para o Rio, ouviu?
volta para a casa de minha mãe, chega lá e diz: casa de Arnaldo não é asilo, viu? aqui não tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo não é asilo não, viu!
Mocinha pegou no dinheiro e dirigiu-se à porta. Quando Arnaldo já ia se sentar para comer, Mocinha reapareceu: – Obrigada, Deus lhe ajude.
Na rua, de novo pensou em Maria Rosa, Rafael, o marido. Não sentiu a menor saudade.
Mas lembrava-se. Dirigiu-se para a estrada, afastando-se cada vez mais da estação. Sorriu como se pregasse uma peça a alguém: em vez de voltar logo, ia antes passear um pouco. Um homem passou. Então uma coisa muito curiosa, e sem nenhum interesse, foi iluminada: quando ela era ainda uma mulher, os homens. Não conseguia ter uma imagem precisa das figuras dos homens, mas viu a si própria com blusas claras e cabelos compridos. A sede voltou-lhe, queimando a garganta. O sol ardia,
faiscava em cada seixo branco. A estrada de Petrópolis é muito bonita.
No chafariz de pedra negra e molhada, em plena estrada, uma preta descalça enchia uma lata de água.
Mocinha ficou parada, espreitando. Viu depois a preta reunir as mãos em concha e beber.
Quando a estrada ficou de novo vazia, Mocinha adiantou-se como se saísse de um esconderijo e aproximou-se sorrateira do chafariz. Os fios de água escorreram geladíssimos por dentro das mangas até os cotovelos, pequenas gotas brilharam suspensas nos cabelos.
Saciada, espantada, continuou a passear com os olhos mais abertos, em atenção às voltas violentas que a água pesada dava no estômago, acordando pequenos reflexos pelo resto do corpo como luzes. A estrada subia muito. A estrada era mais bonita que o Rio de Janeiro, e subia muito.
Mocinha sentou-se numa pedra que havia junto de uma árvore, para poder apreciar. O céu estava altíssimo, sem nenhuma nuvem. E tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu.

Autor: Catherine Beltrão

Os sete sapatos de Vincent

Já falei dos girassóis e dos autorretratos. Já falei do quarto da Casa Amarela. E de várias outras casas. Agora é hora de falar dos sapatos. Dos sete sapatos de Vincent Van Gogh.

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“Sapatos”, de Van Gogh

Os sapatos revestem o caminhar. E pra onde estes caminhos nos levam? Os poetas, com quase toda certeza, já trilharam todos estes  caminhos…

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

“Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra…”, de Vinicius de Moraes. 2004

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra
Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas
Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência
E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste.

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas
Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias
Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.

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“Sapatos”, de Van Gogh

Afundo um pouco o rio com meus sapatos.
Desperto um som de raízes com isso
A altura do som é quase azul. 

Manoel de Barros

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter… calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.

Clarice Lispector

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“Par de sapatos”, de Van Gogh

Desde que conheci você
sinto como se estivesse andando
com pequenas asas nos meus
sapatos
como se meu estômago estivesse
cheio de borboletas.

Affonso Romano de Sant’Anna

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“Três pares de sapatos”, de Van Gogh

Às vezes chego a pensar que os sapatos só existem pra que tivessem a chance de serem pintados por Vincent van Gogh.

 Autor: Catherine Beltrão

Girassóis

Diz a lenda grega que Clície era uma ninfa apaixonada por Hélio, o deus do Sol. Helio a trocou por sua irmã e Clície começou a enfraquecer. Ela ficava sentada no chão frio, sem comer e sem beber, se alimentando apenas das suas próprias lágrimas. Enquanto o Sol estava no céu, dirigindo sua carruagem de fogo, Clície não desviava dele o seu olhar nem por um segundo. Durante a noite, o seu rosto se virava para o chão, continuando então a chorar.  Seus pés ganharam raízes e o seu rosto se transformou em uma flor,  que continuou seguindo o Sol. E assim nasceu o primeiro girassol.

Mas o girassol não é uma flor. É uma inflorescência, formada por  flores dispostas de acordo com um esquema em espiral, 34 num sentido e 55 no outro.

Flor ou não, vários pintores trouxeram para suas telas este pedaço de Sol. Haja vista Vincent van Gogh (1853-1890), o mais célebre.

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“Vaso com 14 girassóis”, de Vincent van Gogh. 1889.

Parece que Van Gogh pintou onze telas com girassóis. Difícil dizer a mais bela.  Quatorze deles foram pintados em uma obra, assim referida pelo pintor em uma carta a seu irmão Théo: “Sou intenso nisso, pintando com o entusiasmo de um marselhês comendo bouillabaisse, o que não vai surpreendê-lo quando você sabe que o que eu estou pintando são alguns girassóis. Se eu levar a cabo esta ideia, haverá uma dúzia de painéis. Então a coisa toda será uma sinfonia em azul e amarelo. Estou trabalhando nisso todas as manhãs desde o nascer do sol, pois as flores desaparecem tão rapidamente. Estou agora na quarta pintura de girassóis. Este quarto é um arranjo com 14 flores … dá um efeito singular.”

Paul Gauguin (1848-1903), contemporâneo de Van Gogh, dividiu com ele, por alguns meses, um cômodo da famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Foi uma relação conflituosa, que culminou com a partida de Gauguin para Paris, testemunhada por uma carta deste ao mesmo Théo, irmão de Van Gogh: “Sou obrigado a voltar para Paris. Vincent e eu não podemos de modo algum continuar vivendo lado a lado sem atritos, devido à incompatibilidade de nossos temperamentos e porque nós dois precisamos de tranquilidade para nosso trabalho. Ele é um homem de inteligência admirável que tenho em grande estima e deixo com pesar, mas, repito, é necessário que eu parta.”

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“Nature morte à l´Ésperance”, de Paul Gauguin – 1901

É famosa a obra “Nature morte à l´Ésperance“, em que Gauguin representa seu amigo pintando girassóis.

Voltemos um pouco no tempo. Claude Monet (1840-1926), o maior nome do Impressionismo, também pintou girassóis. Em vasos, colhidos de seu jardim de Vétheuil ou ainda florescendo  em seu jardim de Giverny.

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“Ramo de girassóis”, de Claude Monet. 1881.

O inebriante “Ramo de girassóis” é inconfundível, trazendo o frescor do jardim para dentro de casa, contrapondo cores e impressões que somente Monet teria condições de executar.

E que tal um girassol pintado por Gustav Klimt (1862-1918)?

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“O Girassol”, de Gustav Klimt. 1907

Além da célebre obra “Fazenda de campo com girassóis“, é também de Klimt “O Girassol“, solitário e imponente, majestoso, reinando na tela entre dezenas de flores miúdas. O pintor, mestre do Art Nouveau, cujo centenário é comemorado neste ano, nunca deixa de surpreender, na delicadeza de sua pintura, na textura impressa por suas cores…

No Brasil, talvez o nosso maior pintor de flores seja Alberto da Veiga Guignard, ou mais simplesmente Guignard (1896-1962).

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard. 1930

Nascido na cidade serrana de Nova Friburgo/RJ, cidade em que moro e trabalho e que recentemente me adotou como cidadã, o pintor das “paisagens imaginantes” foi extremamente generoso e profícuo em seu tema floral. Uma delas, a obra “Vaso de flores“, de 1930,   foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Na obra, um imenso girassol impera, reverenciado e abraçado por centenas de pétalas e perfumes…

Autor: Catherine Beltrão

Fatias de arte

Você quer uma fatia de Van Gogh? Ou de Dali? Ou prefere uma de Mondrian, talvez…

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Bolo Mondrian

Estes bolos construídos como releituras de obras importantes de pintores famosos não são de hoje. Todos já devem ter visto imagens dessas maravilhas…

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Bolos “O Grito”, de Munch e “A Garota no Espelho”, de Picasso. By Maria Aristidou

São muitas as histórias sobre a origem dos bolos decorados. Itália e França se empenham em empunhar essa bandeira de pioneirismo. De qualquer modo, o cake design  nasceu ainda no período da Idade Média. Naquela época, a massa de açúcar - pâte à sucre – não podia ser utilizada por qualquer um pois o açúcar era artigo de luxo.  Estes bolos, às vezes de vários andares, faziam parte de banquetes promovidos pela aristocracia francesa.  Assim, o cake design caiu em desuso na França durante o século XIX. Mas voltou com força total no século XX, nos Estados Unidos, com a utilização de glacê real e pasta de açúcar, a conhecida pasta americana.

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Bolo “A Noite Estrelada”, de Van Gogh

Mas e os bolos criados a partir de obras icônicas de grandes pintores?

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Bolos “A persistência da memória”, de Dali e “O beijo”, de Klimt

Alguns bolos decorados são verdadeiros trabalhos artísticos. Um dia, um cake designer deve ter se perguntado: “Por que não decorar um bolo como se fosse um releitura de uma obra de arte famosa?” E assim foi feito. Surgiram várias releituras doces e comestíveis de “A Noite Estrelada“, de Van Gogh, de “O Grito“, de Edvard Munch, de “Garota no Espelho“, de Pablo Picasso, de “A Persistência da Memória“, de Salvador Dali… entre várias outras.

Mas ainda não encontrei bolos decorados com releituras de obras como “O Ciclo do Café“, de Cândido Portinari, “Abaporu“, de Tarsila do Amaral ou de uma “Paisagem Imaginante“, de Alberto da Veiga Guignard … Alguém já comeu? Alguém já viu?

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Escultura de bolos com releituras de obras de Van Gogh, Pollock, Mondrian, Warhol, Brito e Da Vinci. Como cereja do bolo, um móbile de Calder

 Autor: Catherine Beltrão

 

Van Gogh: 40 autorretratos e 800 cartas

Vincent van Gogh, sem dúvida o mais conturbado e valorizado pintor do século XIX, pintou mais de 40 autorretratos somente no período 1886 a 1889. Ele também teria escrito mais de 800 cartas, a maioria para o seu irmão Théo.  Por que Van Gogh tinha esta imensa necessidade de expor seu mundo interior?

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O último autorretrato de Van Gogh. 1889
Vídeo com alguns dos autorretratos.

Este post apresenta 17 destes autorretratos, além de trechos de algumas de suas cartas.

Em sua última carta, escreveu: “[...] em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte [...]”

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“Autorretrato, com orelha enfaixada e cachimbo”. 1889

VanGogh_autorretrato3Algumas vezes Vincent se referiu a Paul Gauguin, seu grande amigo: “Eu por mim acredito que Gauguin tinha se desanimado um pouco com a boa cidade de Arles, com a casinha amarela onde
trabalhamos e, sobretudo, comigo. De fato, tanto para ele quanto para mim, aqui ainda existiriam sérias dificuldades a vencer. Mas estas dificuldades estão mais dentro de nós mesmos que em qualquer outra parte. Em suma, por mim eu acredito que ou ele vai decididamente partir, ou ele decididamente ficará aqui.”

E após decepar sua orelha, também se preocupou com Gauguin:

“Falemos agora de nosso amigo Gaugin, eu o assustei? Afinal porque ele não me dá nenhum sinal de vida? Ele deve ter ido embora contigo. Aliás, ele precisava rever Paris, e em Paris talvez ele se sinta mais em casa do que aqui. Diga a Gauguin que me escreva, e que sempre penso nele.”

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“Autorretrato”. 1889

Escreveu sobre ‘bondade’. E sobre ‘loucura’.

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“Autorretrato, dedicado a Gauguin”. 1888

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“Autorretratoi sem barba”. 1889

“Devo dizer que os vizinhos etc. são de uma bondade particular comigo, como todo mundo aqui sofre seja de febre, seja de
alucinação ou loucura, entendemo-nos como gente de família [...] Quanto a considerar-me totalmente são, não devemos fazê-lo [...] Peço-lhe, portanto, que não diga que eu não tenho nada, ou não teria nada.” 1889

O que me consola um pouco é que estou começando a considerar a loucura como uma doença qualquer, e aceito a coisa como ela é, enquanto que, durante as crises, parecia-me que tudo o que eu imaginava era real [...] Poupe-me das explicações, mas peço a você e aos Srs. Salles e Rey que ajam de maneira que fim do mês ou começo de maio eu vá para lá como pensionista internado.” 1889

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“Autorretrato”. 1888

E o “ser vagabundo”…

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“Autorretrato”. 1888

VanGogh_autorretrato4“Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo. Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.

Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.

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“Autorretrato”. 1887

VanGogh_autorretrato11Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”

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“Autorretrato”. 1887

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“Autorretrato”. 1887

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.

Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?

Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.

Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

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“Autorretrato”. 1886/87

E as cores. Benditas cores.

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“utorretrato com cachimbo”. 1886

VanGogh_autorretrato16“… As cores se sucedem como que sozinhas e ao tomar uma cor como ponto de partida me vem claramente a cabeça o que deduzir, e como chegar a dar-lhe vida. Não posso entender, por isso, a grosso modo, que um pintor faz bem quando parte das cores de sua palheta em vez de partir das cores da natureza. Interessa-me menos que minha cor seja precisamente idêntica, ao pé da letra, a partir do momento em que minha tela ela fique tão bela quanto na vida. A cor, por si só, exprime alguma coisa, não se pode prescindir disso, é preciso tomar partido. O que produz beleza, beleza verdadeira, também é verdadeiro e isso realmente é pintura e é mais belo que a imitação exata das próprias coisas.”E depois, como você bem sabe, gosto muito de Arles, embora Gauguin tenha uma tremenda razão em chamá-la de a mais suja cidade de todo o Midi. E encontrei tantas amizades já entre os vizinhos, junto ao sr. Rey, e aliás entre todo mundo no hospício, que realmente eu preferiria continuar a ficar doente aqui, que esquecer a bondade destas mesmas pessoas que têm os mais incríveis preconceitos para com os pintores e a pintura. 1889

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“”Autorretrato”. 1886

E, novamente, a “bondade”:

Esses dias, mudando, transportando todos os móveis, embalando as telas que lhe enviarei, foi triste, mas me parecia muito mais triste o fato de que isso me foi dado com tanta fraternidade por você, e que durante tantos anos foi no entanto você sozinho quem me sustentou, e afinal ser obrigado a vir lhe contar toda esta triste história; mas me é difícil exprimir isto como eu o sentia. A bondade que você teve para comigo não se perdeu, pois você a teve e isto permanece sendo seu, e mesmo que os resultados materiais fossem nulos, é razão a mais para que isto permaneça sendo seu [...]. 1889

Todas as suas bondades para comigo, hoje eu as achei maiores do que nunca, não consigo dizer-lhe como eu o sinto, mas eu lhe asseguro que essa bondade foi de um bom quilate, e se você não vê seus resultados, meu caro irmão, não se atormente por isto, sua bondade permanecerá.

O que fazer com tanta bondade, tanta loucura e a sensação de “ser vagabundo”? Pintar? Escrever? As duas coisas, sem dúvida alguma.

Autor: Catherine Beltrão

 

 

 

Casas de Vincent van Gogh

Nos seus 37 anos de vida, Vincent van Gogh (1853-1890) habitou 37 endereços. Estes números fazem do artista um nômade. Casas, albergues, pousadas, não importa, ele precisava sempre mudar de ares, mudar de cheiros, mudar de luzes.

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“Casa amarela”. 1888. Uma das poucas obras em que Van Gogh representou a casa onde morava.

Associamos Van Gogh a girassóis, campos de trigo e autorretratos. Algumas flores… talvez. E a uma casa: a famosa “Casa amarela“. Mas ele pintou muitas casas!

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“Casa branca”. 1890

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“Casas em Auvers-sur-Oise”. 1890

Resolvi apresentar algumas das casas pintadas por Van Gogh, aquelas que ele resolveu eternizar em telas, tendo sido por ele habitadas ou não.

Van Gogh nasceu na pequena vila de Zundert, na Holanda. Em 1869 foi morar na cidade de Haia, e em 1872 em Bruxelas, na Bélgica. Dois anos depois, vai para Londres. Em 1875, encontra-se em Paris. Mas no ano seguinte, volta para a Inglaterra. Depois, volta a morar com os pais, em Etten, Holanda e em 1877, em Amsterdam. Depois, volta para a Bélgica.

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“Casas de palha”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em 1880, ele está em Bruxelas e escreve para o irmão “Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida”. Também ficou em Cuesmes, perto de Bruxelas. Foi nessa época que decidiu tornar-se um artista. Faz muitos desenhos, usa carvão e pastel. Neste mesmo ano, viajou para Bruxelas. Em 1881, mais um tempo em Etten e outro em Haia. Em julho de 1882 pinta seu primeiro quadro a óleo. No ano seguinte volta para a casa dos pais, onde passa os dias lendo e pintando.

Em 1883, foi para Drente, na Holanda e depois Nuenen, para morar novamente com os pais, focando o desenho e a pintura.

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“Igreja em Auvers”. 1890.  Sobre esta obra, escreveu Van Gogh: “Tenho um quadro maior da igreja, com um efeito em que a construção parece ser violeta, contra um céu azul escuro, cobalto puro; as janelas parecem manchas de azul marinho, o telhado é violeta e, em uma parte, alaranjado…”

Em 1885, Van Gogh começou a trabalhar no que é considerada a sua primeira obra-prima, “Comedores da Batata“. Van Gogh decidiu se mudar para Paris, em 1886, e ficou na casa de seu irmão Theo.

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“Casas em fazenda perto de Auvers”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em fevereiro de 1888, aconselhado pelo amigo Toulouse-Lautrec, Van Gogh embarcou em um trem para o sul da França, à busca de luz. Desembarcou em Arles e foi morar na que depois se tornou a célebre “Casa amarela“, junto com seu amigo Paul Gauguin.

Em 1890, Van Gogh foi para Auvers, morar no Albergue Ravoux. Por uma diária de 3F50, Van Gogh ocupou um quarto minúsculo no sótão, de apenas 7 metros quadrados e uma claraboia no teto.

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“Albergue Ravoux”. Foto c. 1890, com a família Ravoux. Van Gogh não chegou a pintar esta casa…

A propósito: o quarto que ocupou em sua última morada nunca mais foi alugado por ninguém…

 Autor: Catherine Beltrão

Nos dias de Van Gogh, as batatas eram assim…

Quase sempre, associamos Van Gogh a girassóis. Ou à famosa “Noite Estrelada“. Ou a sua orelha cortada.   Ou ainda a campos de trigo. Com ou sem corvos. Mas quem associa Van Gogh a batatas?

Uma das mais eloquentes obras de Vincent van Gogh (1853-1890) é “Os comedores de batatas“.

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“Os Comedores de Batatas”, de Vincent van Gogh. 1885. 82 X 114cm, ost.
Museu van Gogh, Amsterdam

Este quadro pertence à primeira fase da pintura do artista, ainda desenvolvida na Holanda, sob influência do realismo do artista Jean François Millet (1814-1875), tendo feito várias releituras do pintor.

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“Os plantadores de batata”, de Jean François Millet. 1861. ost.
Museu de Belas Artes, Boston

Na época de Millet, muitas pessoas consideravam a batata um alimento inadequado até para animais (os tempos mudaram…).

Antes de pintar “Os comedores…“, Van Gogh desenhou e pintou muitas paisagens holandesas, cenas de aldeia. Em Nuenen, pequena cidade holandesa onde morava sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os comedores de batatas resume esse período.

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“Cabana”, de Vincent Van Gogh (1885). Nesta cabana residiam duas famílias, uma das quais os De Groots, representados na obra “Os Comedores de Batatas”

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“Estudo para as mãos”, de Vincent van Gogh para a obra “Os Comedores de Batatas”

Na carta a seu irmão Théo, quando se refere a esse trabalho, diz: “Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente”.

A obra é eloquente no seu conteúdo social. A preocupação do artista foi ser fiel à simplicidade dos camponeses, não apenas mostrando a pouca comida, mas também a escassez de recursos, tanto na casa como nas roupas simples.

Van Gogh realizou diversos estudos para esse quadro, pintando cerca de quarenta cabeças de camponeses e desenhando diversas partes da composição, principalmente mãos. Foi sua primeira pintura composta por um grupo de personagens.

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Um dos estudos para a obra “Os comedores de batatas”, de Vincent van Gogh

Para Van Gogh, tudo era cor. Inclusive a escuridão. Na obra “Os comedores de batatas“, ele trabalhou as sombras com azuis que, junto ao interior pouco iluminado pelo lampião, dão um aspecto frio ao ambiente. Bem diferente dos amarelos solares que viriam depois, nos girassóis e campos de trigo.

 Autor: Catherine Beltrão