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200 posts! Festa de Arte doce!

Hoje é dia de festa! Dia de comemorar 200 posts do blog ArtenaRede! Dia de festejar e comer muita arte doce!

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Mondrian.
Vídeo: “Die ideale Wirklichkeit – Piet Mondrian “. Duração: 2:43

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Mondrian
Vídeo: animação sobre neoplasticismo. Duração: 2:04

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Van Gogh.
Vídeo: animação interativa com “Noite Estrelada”. Duração: 4:15

 

Piet Mondrian (1872-1944) e Vincent van Gogh (1853-1890) são os primeiros a chegar à festa, trazendo duas obras da série “Composições em vermelho, amarelo e azul“, “A Noite Estrelada” e “Amendoeira em flor“. Mondrian, o grande nome do neoplasticismo e Van Gogh, talvez o mais amado dos pintores, são inconfundíveis, até mesmo quando sua arte se transforma em bolos…

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Van Gogh
Vídeo: animação do pintor em 3D. Duração: 1:51

 

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Klimt.
Vídeo: análise da obra “O beijo”. Duração: 3:56

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Munch
Vídeo: “The Scream”, fantástica animação sobre a obra “O Grito”. Música de Pink Floyd. Duração: 3:22

 

Gustav Klimt (1862-1918) e Edvard Munch (1863-1944) chegam logo em seguida. “O Beijo” e “O Grito” são puro encantamento, trazendo momentos do simbolismo e do expressionismo.

 

E eis que chegam duas das maiores figuras artísticas do século XX!

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Picasso
Vídeo: pinturas de Picasso. Duração: 3:00

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Picasso
Vídeo: história e análise da obra “Les demoiselles d’Avignon. Duração: 4:19

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Dali
Vídeo: animação “Destino & Time – Salvador Dali, Walt Disney and Pink Floyd”. Duração: 7:05

 

Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989),  os maiores nomes do cubismo e do surrealismo, vêm trazendo “Mulher em frente ao espelho“, “Les demoiselles d’Avignon” e “A persistência da memória“, este em duas versões…

É impossível não se emocionar com a Arte e com a história destes dois gênios: o Picasso de várias mulheres e o Dali de uma só…

 

 

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Dali
Vídeo: explicação da criação da obra “A persistência da memória”. Duração: 2:52

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Monet
Vídeo: “Claude Monet – Giverny ‘Les Nymphéas’. Música de Claude Debussy. Duração: 5:25

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Matisse
Vídeo: obras do pintor. Música de Claude Debussy. Duração: 3:52

 

A festa prossegue com a chegada de Claude Monet (1840-1926) e Henri Matisse (1869-1954), com seus emblemáticos  “Le bassin aux nymphéas” e “Interior com cortina egípcia“, obras máximas do impressionismo e do fauvismo.

 

Mas o abstracionismo não podia ficar de fora!

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Pollock
Vídeo: Pollock e sua arte de criação. Duração: 1:40

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Pollock
Vídeo: Trecho do filme “Pollock” (2000), dirigido e protagonizado por Ed Harris, com música do compositor Jeff Beal. A atuação representa o pintor compondo um mural. Duração: 3:45

 

Já no fim da festa, vem chegando Jackson Pollock (1912-1956), o grande nome do expressionismo abstrato, trazendo duas obras representantes da sua técnica característica, o “gotejamento“.

 

Para abrilhantar a festa, inseri alguns vídeos no post. Basta clicar nas imagens…

E, para acessar os links onde foram obtidas as imagens dos bolos, clique aqui, aqui e aqui.

Que festa! Mondrian, Van Gogh, Klimt, Munch, Picasso, Dali, Monet, Matisse e Pollock… que time de artistas para comemorar os 200 posts do blog!

Autor: Catherine Beltrão

Van Gogh e o Dr. Gachet

A carreira de Vincent Van Gogh (1853-1890) durou cerca de 10 anos, tempo suficiente para ele pintar cerca de 800 quadros. Os dois últimos meses de vida do pintor foram os mais produtivos. No curto espaço de 60 dias, Van Gogh pintou 70 quadros.

Duas dessas obras, certamente entre as mais famosas, está o “Retrato do Dr. Gachet” , em suas duas versões. Pintados em 1890, ano de sua morte, a primeira versão atingiu o valor de US$ 82,5 milhões, cem anos mais tarde.

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“Retrato do Dr. Gachet” – 1ª versão. Ost, 1890, 67 X 56cm

Inseparavelmente entrelaçado com o último período da vida de Vincent van Gogh em Auvers, o Dr. Gachet era um personagem original. Ele era um médico psiquiatra interessado em quiromancia, mas a sua verdadeira paixão eram as artes. Paul Gachet manteve contato com muitos artistas, incluindo Manet, Monet, Renoir e Cézanne. Van Gogh consultou o Doutor Gachet a conselho do seu irmão Theo, quando recebeu alta do hospital em Saint -Rémy-de-Provence. Infelizmente, o médico não conseguiu ajudar Vincent a superar a sua angústia.

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“Retrato do Dr. Gachet” – 2ª versão. Ost, 1890, 67 X 56cm

Em agradecimento à sua amizade e dedicação, Van Gogh pintou o seu retrato, em duas versões autênticas, no qual a figura do doutor Gachet aparece sobre um fundo azul. Ambas mostram o Dr. Gachet sentado à mesa, com a cabeça apoiada no braço direito e com uma erva medicinal (digitalis) que o caracteriza enquanto médico. Apesar da semelhança na forma, elas diferem pelo estilo. As cores utilizadas nas duas versões não são as mesmas, mas é sobretudo na “pincelada” que se percebe a diferença, a primeira revelando traços mais vangoghianos que a segunda.

Van Gogh e o Dr. Gachet: 126 anos de uma amizade tornada definitiva pelas mãos e pela loucura de um dos maiores gênios da pintura!

 Autor: Catherine Beltrão

A orelha cortada

É claro que a orelha é de Van Gogh.

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos 1886 e 1889.  Dois deles são com a orelha coberta com uma faixa branca.  Mas por que ele aparece com a orelha enfaixada? Existe mais de uma versão como resposta.

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“Autorretrato com a orelha cortada”, de Van Gogh. 1989, ost, 60 X 49 cm. Instituto Courtauld de Arte, Londres

23 de dezembro de 1888. Antevéspera de Natal. Naquele ano, Vincent já morava na famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Tinha o objetivo de realizar o sonho de montar uma colônia de artistas e pintar pessoas e paisagens utilizando a luz direta da região.

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“A Casa Amarela”, de Van Gogh. 1888, ost, 72 X 92cm. Museu Van Gogh, Amsterdam

Naquele dia, Van Gogh havia mais uma vez brigado com o amigo e também pintor Paul Gauguin (1848-1903), que morava com ele na Casa Amarela. Os dois já não conseguiam se entender.“Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz devido à incompatibilidade de temperamentos”, reclamou Gauguin a Theo, irmão de Vincent. A situação tornou-se insustentável e Gauguin resolveu ir embora. Vincent se desesperou.

A primeira versão diz que, após o jantar, Vincent teria usado uma faca para cortar um pedaço de sua orelha esquerda.  Depois, embrulhou o pedaço da orelha com jornal e foi até um bordel das redondezas, onde entregou a parte mutilada para uma prostituta chamada Rachel, dizendo-lhe para que guardasse o objeto com cuidado. Essa é a versão mais conhecida.

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“Autorretrato com a orelha cortada”, de Van Gogh. 1889, ost, 51 X 45cm. Coleção particular.

Porém, existe outra versão para este acontecimento. De acordo com Hans Kaufmann e Rita Wildegans, dois pesquisadores de arte da Alemanha, a orelha de Vincent foi cortada por Paul Gauguin, que era um excelente esgrimista. Em entrevista ao portal do jornal britânico “The Guardian“, Kaufmann afirmou que “perto do bordel, a cerca de 300 metros da casa onde moravam, houve um último encontro entre os dois: Van Gogh teria atacado Gauguin, que, para se defender da fúria do holandês, sacou sua arma. Em seguida, fez alguns movimentos na direção de Van Gogh e depois disso cortou sua orelha“.

Segundo os historiadores, a verdade sobre o acontecido nunca veio à tona porque os dois amigos mantiveram um pacto de silêncio. Gauguin não queria ser acusado de um atentado e Van Gogh estaria apaixonado pelo amigo e queria mante-lo sempre por perto.

Dois autorretratos com a orelha cortada. Duas versões sobre o ocorrido. Alguém sabe aí de mais uma versão sobre a orelha cortada de Van Gogh?

Autor: Catherine Beltrão

“Noite Estrelada”: a Arte roteiriza a Ciência e a Tecnologia

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou “A Noite Estrelada” em 1889. Tinha 36 anos e no ano seguinte iria dar fim a uma vida turbulenta como as obras que criou. Obra de um dos artistas mais valorizados da atualidade, “A Noite Estrelada“, cada vez mais, serve de roteiro para estudos e projetos científicos e tecnológicos, transcendendo a trajetória de uma obra de arte, por mais famosa que seja.

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“Noite Estrelada”, de Van Gogh. 1889, ost, 73,7 × 92,1cm

 

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Recriação da obra “A Noite Estrelada”, com colônias de bactérias

Recentemente, a microbióloga americana Melanie Sullivan recriou “A Noite Estrelada” com colônias de bactérias em cinco placas de Petri. Esta recriação participou do primeiro concurso de “Agar Art”, promovido pela Sociedade Americana de Microbiologia. Agar é uma substância que as bactérias comem para se desenvolverem. Melanie  usou vários tipos de bactérias para produzir as diversas cores, incluindo bactérias causadoras de infecções como pneumonia e meningite.

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Vídeo da ciclovia Van Gogh-Roosegaarde. Duração: 1.11

Como parte da comemoração dos 125 anos da morte de Van Gogh, o artista Daan Roosegaarde projetou a ciclovia Van Gogh-Roosegard, que integra a rota ciclística Van Gogh na província de Noord-Brabant, na Holanda. O desenho da ciclovia é inspirado no quadro “A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh, e feito com pequenas pedrinhas especiais que brilham no escuro graças a uma tecnologia inovadora de armazenamento de energia solar. O projeto combina arte, tecnologia e segurança dentro do novo contexto holandês inaugurado pela recente implementação de sistemas de captação de energia solar das ciclovias.

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“A Noite Estrelada” recriada com imagens do Telescópio Espacial Hubble

Em outra versão de “A Noite Estrelada” para os dias atuais, criada por Alex Harrison Parker, a obra de Van Gogh foi recriada com fotos tiradas do espaço. Hoje, Parker é um pesquisador de pós-doutorado no Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, em Cambridge. Seus temas de pesquisa giram em torno da formação e evolução de Sistemas planetários. Para produção de sua versão de “A Noite Estrelada“, Parker utilizou um software de mosaicos e selecionou cem fotos capturadas pelo Telescópio Hubble durante os últimos vinte anos.

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Vídeo com “A Noite Estrelada ” recriada em dominós. Duração: 3:00

Uma recriação interessante da obra “A Noite Estrelada” foi realizada com 7000 peças de dominós, que levou 10 horas para ser montada.

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Vídeo com recriação animada de “A Noite Ilustrada”. Duração: 4:15

O artista grego Petros Vrellis recriou “A Noite Estrelada” para que ficasse em constante movimento, podendo ser alterada com o toque do espectador. Para produção, Petros utilizou a multiplataforma openFrameworks, direcionada especificamente para artistas, designers e programadores. Tal ferramenta é focada em criações audiovisuais, fornecendo uma interface simples e padronizada para manipular vários tipos de mídia. São aproximadamente oitenta mil partículas que movem-se constantemente de forma fluída e a API (Applocation Programming Interface) utilizada é a OpenGL (Open Graphics Library), que reúne funções específicas disponibilizadas para a criação e desenvolvimento de aplicativos em determinadas linguagens de programação.

Durante o processo, o artista pontuou que se surpreendeu ao descobrir que os fluxos da pintura são consistentes e que não há conflitos nas direções das pinceladas. Dentre as muitas dificuldades, Petros afirma que demorou mais de seis meses para terminá-lo. Não foi apenas uma tarefa de programação, mas também um processo de calibração em que havia a preocupação de obter o resultado mais similar possível ao da obra Van Goghiana. No entanto, o processo careceu de muita paciência, fazendo Petros chegar muito perto de desistir.

Estas são só algumas das recriações da famosa obra de Van Gogh que encontrei na Internet. “A Noite Estrelada“, por ser uma obra transcendental, de um dos maiores gênios da pintura que já existiu, continuará servindo de roteiro e emprestando sua alma para pesquisas e estudos na área da Ciência e da Tecnologia.

Autor: Catherine Beltrão

Simplesmente Flores

É lugar comum se falar de flores na primavera. Mas a primavera, a cada ano, é incomum. E as flores também. Talvez seja por essa razão que os artistas pintam flores. Quase todos. Neste post, apresento somente cinco flores de cinco artistas: Redon, Monet, Van Gogh, Guignard e Edith Blin.

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“Flores exóticas em um vaso”, de Odilon Redon, pastel, 1906, 90 X 72,5 cm

Odilon Redon (1840-1916) foi  um pintor e artista gráfico francês. A técnica mais utilizada por Redon era o pastel, que lhe permitia trabalhar as cores com texturas diferentes e bastante mescladas.  Considerado o mais importante dos pintores do Simbolismo, suas flores são belíssimas e únicas, praticamente dialogando com quem as contempla.

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“Vaso com flores”, de Claude Monet, ost, 1880

Por suas magníficas ninfeias e o seu jardim em Giverny, Claude Monet (1850-1926) será sempre associado a flores. Delicadas ou exuberantes. Em lagos ou em vasos. Pequenas ou majestosas. Não importa. São inconfundíveis. São flores de Monet. Para quem quiser ler um pouco mais sobre as flores de Monet em Giverny, clique aqui.

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“Iris”, de Vincent Van Gogh, ost, 1889, 71 X 93 cm

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou o Sol e pintou girassóis. Não há quem não conheça pelo menos um dos girassóis de Van Gogh. Mas ele também pintou íris. Muitos íris. E assim como seus girassóis, cada um de seus íris é único. Ele estudava cuidadosamente os movimentos e os contornos das flores para criar uma variedade de silhuetas coloridas dançantes ao som do vento…

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), ost, 1930.

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) transformou seu lirismo em paisagens imaginantes e flores. Muitas flores. Extremamente esfuziantes e coloridas. No último dia 13 de agosto, a obra “Vaso de Flores”, foi disputada por vários compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Para quem quiser saber um pouco mais sobre a hora e a vez de Guignard, clique aqui.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin, ost, 1955, 82 X 65 cm

Em suas quatro décadas de pintura, Edith Blin (1891-1983) pintou flores em telas e cartolinas, a óleo ou pastel. Mas foi nos anos 50 que suas flores desabrocharam em seu mais contundente esplendor, algumas livres e soltas no ar, outras entremeadas a rostos e figuras. É impossível não se emocionar com as “Flores vermelhas em ascensão”, que arrebata o nosso sentimento em sua pretensão de que um único galho jovem e viçoso inicia a subida de uma escada sem fim… Para quem quiser ler e ver mais flores de Edith, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

Lua, nosso alvo de pensamentos

A Lua, nosso satélite desde quase sempre, é o único corpo celeste para além da Terra no qual os seres humanos já pisaram. Mas se alguns pés humanos já passaram por lá, não passa um dia sequer que a Lua não seja bombardeada por nossos pensamentos, sentimentos, pinturas, poesias e canções.

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Lenagal

São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

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Tarsila do Amaral

Tenho fases, como a lua.  Fases de andar escondida,  fases de vir para a rua…  Perdição da minha vida!  Perdição da vida minha!  Tenho fases de ser tua,  tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,  no secreto calendário  que um astrólogo arbitrário  inventou para meu uso.

E roda a melancolia  seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles

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Van Gogh

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.

Pablo Neruda

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Luiza Caetano

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!

Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[...]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa

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Paul Klee

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardin.
Estou no começo do meu dessespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

 Adélia Prado

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Salvador Dali

Eu tenho pena da Lua!  Tanta pena, coitadinha,  Quando tão branca, na rua  A vejo chorar sozinha!…

As rosas nas alamedas,  E os lilases cor da neve  Confidenciam de leve  E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha…  Tão triste na minha rua  Lá anda a chorar sozinha …

Eu chego então à janela:  E fico a olhar para a lua…  E fico a chorar com ela! …

 Florbela Espanca

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Juan Miró

Têm para mim Chamados de outro mundo  as Noites perigosas e queimadas,  quando a Lua aparece mais vermelha  São turvos sonhos, Mágoas proibidas,  são Ouropéis antigos e fantasmas  que, nesse Mundo vivo e mais ardente  consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas  e escuto essas Canções encantatórias  que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,  a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:  passaram-me por cima da cabeça  e, como um Halo escuso, te envolveram.  Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,  a ventania me agitando em torno  esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,  ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida  e nossos pés a Ela estão ligados.  Deixa que teu cabelo, solto ao vento,  abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,  o vento encrespa as Águas dos dois rios  e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

 Ariano Suassuna

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Lua na Pedra Furada do Gongo, uma das áreas mais isoladas e selvagens do Parque Nacional Serra da Capivara – Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO)

Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Mario Quintana

O que seria dos poetas, dos escritores, dos pintores, sem a Lua? O que seria de nós sem suas obras lunares?

Autor: Catherine Beltrão

Fraudes: o lado avesso da Arte

Não é de hoje que obras de arte estão envolvidas em escabrosos episódios históricos envolvendo fraudes, corrupção, roubos, falsificações e afins. É o lado avesso da Arte. E o que sai na mídia, o que é difundido, é a ponta do iceberg.

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“O grande altar de Ghent”, de Jan van Eyck. 1432, óleo sobre madeira, 350 x 461 cm.

Pelo que já pude pesquisar, parece que a primeira transação suspeita com uma peça de arte, foi aquela que envolveu o famoso Altar de Ghent, na Bélgica. Desde que o pintor Jan van Eyck (1390-1441) fez sua última pincelada, em 1432, os 12 painéis do quadro foram desmontados, adulterados, saqueados, contrabandeados, escondidos, censurados, vendidos ilegalmente, danificados pelo fogo, envolvidos em discussões diplomáticas, procurados tanto por Napoleão quanto  pelos nazistas…

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“Girassóis”, de Van Gogh. Obra sob investigação de falsificação.

Com relação a falsificações de obras de arte, todos os artistas nacionais e estrangeiros que têm mercado sólido são falsificados. Um dos pintores mais falsificados é Vincent van Gogh (1853-1890), com cerca de 45 obras, entre desenhos e pinturas, sendo questionadas de autenticidade. Uma delas seria “Os Girassóis“, vendida à empresa japonesa Yasuda Fire & Marine Insurance Co Ltd, em 1987 por US$ 41,46 milhões. Quanto aos artistas brasileiros, um dos mais falsificados é Cândido Portinari (1903-1962), com mais de 700 obras já investigadas. Mas aqui no Brasil, do contrário que no exterior, muitas dessas obras pecam pela falta de sutileza nas imitações, sendo reproduções de baixa qualidade, dotadas de falhas bastante grotescas.

Milhões de reais em quadros apreendidos ou recebidos como pagamento de dívidas também recontam histórias de fraudes, falências e liquidações das últimas décadas no Brasil. Muitas estão espalhadas em órgãos públicos como o Banco Central (BC) e a Caixa Econômica Federal, onde foram parar devido à legislação da época em que foram retomadas dos proprietários.

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Obras expostas no BC, apreendidas como pagamento de dívida de bancos liquidados. Foto de Jeilton Alves.

Em decorrências de fraudes bancárias, falências e dívidas em atraso, o BC reúne 554 obras de fazer inveja a muitos museus. Na lista estão nomes consagrados da pintura brasileira como Candido Portinari, Alfredo Volpi (ítalo-brasileiro), Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti.

Outra forma de fraude é a lavagem de dinheiro através do investimento em obras de arte para dar uma fachada legal à propina recebida de contratos com grandes empresas. É uma prática muito antiga.

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Obras de Nelson Leiner e Miguel Rio Branco, apreendidas na Lava-Jato. Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba

Durante a Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014, que investiga um grande esquema de lavagem e desvio de dinheiro, envolvendo a Petrobrás, grandes empreiteiras e políticos, a Polícia Federal apreendeu cerca de 132 obras de arte. Mas esse acervo pode ser considerado minúsculo se comparado às 12 mil telas do acervo particular do banqueiro e controlador do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira, preso em dezembro de 2006, condenado a 21 anos de prisão por lavagem de dinheiro, crime organizado e formação de quadrilha.

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Sala da casa de Edemar Cid Ferreira, ex-controlador do Banco Santos: um belo museu com esculturas, pinturas a óleo e fotografias raras

 O acervo de Edemar que ornava sua mansão tinha estátuas romanas e tesouros de arte datados dos séculos 14 a 11 a.C. Havia esculturas, pinturas a óleo, fotografias raras, achados arqueológicos e obras contemporâneas de artistas consagrados.

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“Hannibal”, de Jean-Michel Basquiat

Boa parte destas obras que compõem estes acervos apreendidos tem histórias muito interessantes. É o caso da obra “Hannibal”, de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), que aportou no aeroporto internacional de Londres num caixote em que se declarava obra sem nome, no valor de 100 dólares. Só mais tarde é que os investigadores federais descobririam ser de Basquiat e valer 8 milhões de dólares. A pintura era parte de uma coleção de 12 mil peças montada por Edemar Ferreira enquanto controlava o Banco Santos – algumas expostas em museus como o Guggenheim, em Nova York.

Moral (ou será imoralidade) da história: o que se tem observado, através da criminalidade organizada no contexto do mercado de arte, é que a compra de uma obra não é norteada pela sua qualidade e sim pelo valor que atinge no mercado nacional, em franca expansão, e internacional. Em outras palavras, as fraudes incrementam a valorização da obra de um artista. E vice-versa.

Autor: Catherine Beltrão

O Sol na obra de Van Gogh

Hoje, dia 3 de maio, comemora-se o Dia Internacional do Sol.

Como todo mundo sabe, o Sol é a estrela central do Sistema Solar e a luz e calor que emite é a principal fonte de energia da Terra. Sem o Sol não existiria vida em nosso planeta. E nenhum outro pintor captou e soube transmitir a luz e a energia do Sol como Vincent van Gogh (1853-1890).

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“Campo com casas sob um céu com o disco solar”, de 1888. Desenho feito em Arles.

Cansado e desgostoso de Paris, Van Gogh passou os dois últimos anos de sua vida no sul da França, que os franceses chamam de Midi. Ele queria pintar ao ar livre, em um contexto mais luminoso. Em uma carta ao seu irmão Théo, em 1888, ele escreveu:

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“Salgueiros ao por do Sol”. Pintado em Arles, no outono de 1888.

Vim ao Midi por muitas razões. Por querer ver outra luz, crer que a contemplação da natureza sob um céu mais claro pode me dar um ideia mais exata da maneira de sentir e desenhar dos japoneses. Querer, enfim, ver este sol mais intenso, porque pressinto que, sem conhecê-lo, não é possível compreender desde o ponto de vista da realização e da técnica, as obras de Delacroix, e porque me intuiu que as cores do prisma se velam com as brumas do norte”.

A vinha e os seus vindimadores no Outono inspiraram a obra “Vinha encarnada“.  Ao descrever o quadro ao irmão Théo, Vincent disse que o tinha feito após a chuva, com o pôr do sol, pintando o chão de violeta e as folhas das parreiras de vermelho “como vinho“. O toque esverdeado no céu foi usado para contrastar com os tons de vermelho quente que dominam a composição.

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“Vinha encarnada”, de 1888.

Vinha encarnada” foi a única obra vendida de van Gogh em sua vida. Foi  exibida pela primeira vez na Exposição anual  de Bruxelas, em 1890 e adquirida pelo famoso colecionador russo Sergei Shchukin.

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“Doze girassóis numa jarra”, de 1888

Após a sua chegada ao sul de França, estabelecendo-se em Arles, Van Gogh “descobre” o sentido da cor e da luz. Doze Girassóis numa Jarra pode ser considerado o ápice de todo este efeito em sua obra. É como ele quisesse aprisionar pedaços do Sol em seus girassóis.

“Tive uma semana de trabalho carregado e duro nos trigais em pleno sol;  resultaram estudos de trigais, paisagem e um esboço de semeador. Num campo lavrado, um grande campo com torrões de terra violeta subindo contra o horizonte um semeador em azul e branco. No horizonte um campo de trigo curto e maduro. Sobre tudo isto, um céu amarelo com um sol amarelo.”

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“Semeador com o por do sol”, de 1888

Após uma violenta discussão com seu amigo pintor Paul Gauguin (1848-1903), e que teve como consequência a famosa mutilação de parte da orelha, Van Gogh foi internado no sanatório de Saint-Rémy.  Lá, o Sol continuava presente em suas criações.

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“Campo de trigo com ceifeiro e Sol”, de 1889. Pintado quando van Gogh estava internado no sanatório de Saint-Rémy.

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“Oliveiras com céu amarelo e Sol”, de 1889

Sol_VanGogh_Oliveiras-com-ceu-amareloEm seus últimos meses de vida, e durante uma das várias internações de van Gogh no sanatório de Saint-Rémy, ele descobriu na França  meridional uma fonte de inspiração inesgotável: as oliveiras. Com elas  compartilhou os últimos dias de sua vida turbulenta. Talvez uma destas obras mais significativas que tenha pintado foi “Oliveiras com céu amarelo e Sol“. Recentemente, esta obra foi uma das escolhidas em um projeto para sofrer um corte virtual de suas árvores como forma criativa de chamar a atenção para o desmatamento.

Van Gogh era fascinado pelos astros. Sol, Lua, estrelas. Procurava a luz à sua volta. Talvez para iluminar o seu interior sombrio. Ele precisava de todas as luzes da natureza para fazer germinar a natureza da sua Arte.

Autor: Catherine Beltrão

Moulin de la Galette, o “point” parisiense do século XIX

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Moulin de la Galette, em 1885

As origens do famoso Moulin de la Galette, situado à rua Lepic, na Butte de Montmartre, em Paris, lugar eternizado por vários artistas do século XIX, remonta a 200 anos anos antes, em 1622, quando nasceu o moinho le Blute-fin. Um outro moinho, o le Radet, nascido em 1717, juntou-se ao le Blute-fin, quando os dois foram adquiridos pela família Debray, em 1809.

Uma bela história de bravura e heroísmo envolve estes dois moinhos, defendidos pelos Debray na Batalha de Paris em 1814, contra as forças europeias que atacavam o império napoleônico. Conta-se que, após o ataque aos moinhos, um dos irmãos sobreviventes se refugiou com seu filho no le Radet mas, infelizmente, foi capturado, cortado em quatro pedaços, cada um dos quais amarrado nas pás do seu moinho. Seu filho sobreviveu e, anos mais tarde, deu o nome  de Moulin de la Galette ao lugar.

De simples moinhos a transformar trigo em pão e uva em vinho, o Moulin passou também, a partir dos anos 1860, a promover bailes,  com ambiente descontraído e clientela popular. Virou um “point” de artistas: Renoir, Caillebote, Toulouse Lautrec, Van Gogh, Utrillo, Dufy, Picasso…

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Le Bal du Moulin de la Galette, de Renoir. 1876, ost, 131 cm × 175 cm – Museu de Orsay, Paris

Pierre Auguste Renoir (1841-1919) pintou “Le bal du Moulin de la Galette” em 1876, e foi considerada a sua obra mais célebre e significativa, dando início à criação de muitas outras obras de diversas pintores. Foi exibida pela primeira vez no Salon em 1877, na exposição dos impressionistas. A intenção de Renoir era captar a vivacidade e a atmosfera alegre desta popular dança de jardim no bairro de Montmartre, representando a Belle Époque (1870-1914) de Paris, um período de grande florescer artístico e econômico. Hoje, esta tela é uma das mais caras do mundo.

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“Le Moulin de la Galette”, de van Gogh. 1886, ost, 46 X 38cm.

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Le Moulin de la Galette”, de Toulouse-Lautrec. 1889, ost, 89,9 X 101,3cm. Art Institute of Chicago, Illinois, USA

Visitando frequentemente seu irmão Theo, que morava em Montmarte perto do moinho, Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou, em 1886, uma série de Moulin de la Galette. Mas, diferentemente de Renoir, ele se interessou mais em pintar seus arredores que, naquela época, representava a região periférica de Paris, povoado de gente modesta. Em 1887, dizia van Gogh: “Não há nada além de Paris, e por mais difícil que a vida  possa ser aqui, o ar francês limpa o cérebro e faz bem, muitíssimo bem.

Em 1889, Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), assíduo frequentador do lugar, pintou também várias versões do Moulin de la Galette. Da mesma forma que Renoir, ele também priorizou os bailes e o aspecto de divertimento do Moulin. Lautrec, que também era ilustrador, produziu vários cartazes de bailes ocorridos naqueles salões e jardins.

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“Le Moulin de la Galette”, de Picasso. 1900, ost, 90,2 X 117cm. Guggenheim Museum, New York

Pablo Picasso (1881-1973) pintou o seu Moulin de la Galette ainda bem jovem, em 1900. Recém chegado de Barcelona, foi a primeira obra pintada em Paris. Picasso, a exemplo de Renoir e Lautrec, adotou a posição de observador, mostrando a artificialidade e os aspectos de apelo provocativo da festa.

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“Sacré-Coeur et Moulin”, de Utrillo. Anos 30, ost .

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“Paris, Montmartre, le Moulin de la Galette”, de Dufy. Ost, 38 X 46cm

Maurice Utrillo (1883-1955) nasceu e morreu em Montmartre. Eternizou as ruelas e prédios do local, produzindo muitas versões do Moulin de la Galette. Devido a sua natureza solitária e soturna, Utrillo seguiu a vertente de van Gogh, mostrando o Moulin visto de fora, longe de suas atividades mundanas.

Embora Jean Dufy (1888-1964 ) tenha feito várias versões “d’après Renoir “ do Moulin de la Galette, ele também criou suas próprias representações do moinho. Nelas, Dufy preferiu se posicionar junto a Utrillo e van Gogh, representando os arredores do Moulin.

Qualquer um pode perceber o teor emblemático deste fantástico lugar. Começando pela sua história, datando de cerca de quatro séculos, passando pelas magníficas obras que  grandes artistas criaram, mesclando seus sentimentos e sua arte perante o local, resta a nós, simples admiradores de Paris, reverenciarmos o eterno “Moulin de la Galette“!

 Autor: Catherine Beltrão

“O quarto em Arles”, de Vincent van Gogh

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“Autorretrato”, de Vincent van Gogh. 1889, ost

Vincent van Gogh (1853-1890) nasceu na Holanda e morreu na França. Em vida, o artista passou fome e frio e conheceu a miséria, vendendo apenas uma pintura. Maior expoente do pós-impressionismo e precursor do expressionismo, fauvisme e abstracionismo, van Gogh foi sempre sustentado pelo irmão Theodorus, com quem trocou mais de 750 correspondências.  Em sua fase mais produtiva, dos anos 1880 a 1890, van Gogh foi totalmente ignorado pela crítica e pelos artistas. Atualmente, os seus quadros estão entre os mais caros do mundo. Em 1990, “O Retrato de Dr. Gachet“, pintado um século antes, foi comercializado por US$ 82,5 milhões.

A obra “Quarto em Arles” não é uma só obra. Ela apresenta três versões, todas pintadas nos últimos anos de sua vida, entre 1888 e 1889. Atualmente, as três versões estão em museus. A primeira obra está exposta no Museu van Gogh em Amsterdã, Holanda. A  segunda versão da pintura encontra-se no Instituto de Artes de Chicago e a terceira pode ser apreciada no Museu de Orsay, em Paris.

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“Quarto em Arles”, de Vincent van Gogh. Primeira versão.

O quarto em questão ficava na Casa Amarela, um casarão na cidade de Arles, no sul da França, onde van Gogh foi morar em 1888, alugando quatro cômodos, dois no térreo e dois no andar superior. Aos poucos, foi mobiliando e decorando a casa com quadros que pintava, sobretudo da série “Girassóis”.

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“Quarto em Arles”, de Vincent van Gogh. Segunda versão.

Na tentativa de analisar a obra, muito se falou sobre os objetos apresentados em pares : travesseiros, cadeiras, portas, quadros nas paredes, jarras de água. O discurso mais comum é o da “espera de um amigo” que, no caso, seria Paul Gauguin, grande pintor e uma conturbada amizade de van Gogh. Existe também a possibilidade de estar à “espera de um amor”, que ele estaria querendo após ter sido recusado por algumas mulheres no decorrer da vida. Mas van Gogh também poderia estar representando a “espera do amado irmão Theo”, que o apoiou financeiramente e afetivamente até o último de seus dias. Mais uma possibilidade de explicação dos famosos pares de objetos seria o de estar sempre guardando um espaço para um outro irmão que nasceu morto um ano antes de seu próprio nascimento e de quem herdou o nome e, por consequência, um fardo perpétuo.

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“Quarto em Arles”, de Vincent van Gogh. Terceira versão.

Qual seria a verdadeira explicação? Por enquanto, só hipóteses. E por que van Gogh teria insistido e pintado estas três versões do quarto, com todos os objetos exatamente colocados nos mesmos lugares? Alguém teria a resposta à pergunta?

De qualquer maneira, a obra tinha o objetivo de trazer uma sensação de repouso e descanso, conforme o artista escreveu a seu irmão Theo: “Desta vez é simplesmente um dormitório; só que a cor deve predominar aqui, transmitindo, com a sua simplificação, um estilo maior às coisas, para sugerir o repouso ou o sono. Em resumo, a presença do quadro deve acalmar a cabeça, ou melhor, a imaginação. As paredes são de um violeta pálido. O chão é de quadros vermelhos. A madeira da cama e das cadeiras é de um amarelo de manteiga fresca; o lençol e os travesseiros, limão verde muito claro. A colcha é vermelha escarlate. O lavatório, alaranjado; a cuba, azul. As portas são lilases. E isso é tudo – nada mais neste quarto com as persianas fechadas. O quadrado dos móveis deve insistir na expressão de repouso inquebrantável. Os retratos na parede, um espelho, uma garrafa e algumas roupas. A moldura – como não há branco no quadro – será branca.”

  Autor: Catherine Beltrão