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Ave, índio!

O 19 de abril é o Dia do Índio. Desde 1943, três anos após os índios terem decidido participar do I Congresso Indigenista, no México.

Neste dia, hoje,  homenageio o índio representado por alguns artistas e um poeta. Debret, Victor Meirelles, Antonio Parreiras, Rodolfo Amoedo, Tarsila do Amaral, Carybé e Élon Brasil são os artistas. Gonçalves Dias, o poeta.

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J.B. Debret (1778-1848): “O caçador de escravos”

Gonçalves Dias (1823-1864), o poeta nacional do Brasil, foi um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como “indianismo“. Famoso por ter escrito o poema “Canção do Exílio” — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira — escreveu também muitos poemas dedicados ao índio brasileiro. Um deles é a “Canção do Tamoio“.

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Victor Meirelles (1832-1903): “Moema”

I

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

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Rodolfo Amoedo (1857-1941): “Último Tamoio”

III

O forte, o covarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

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Antônio Parreiras (1860-1937): “Iracema”

V

E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “O Batizado de Macunaíma”

VII

E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

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Carybé (1911-1997): “Dois índios”

IX

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Nascido em 1957, Élon Brasil, assim como Gonçalves Dias, também tem três sangues percorrendo suas veias: o índio, o negro e o branco.

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Élon Brasil (1957): “O iniciado Kraho”

Quanto a mim, eu me orgulho de ter sangue índio nas veias. É pouco, mas tem. Talvez isso justifique meu amor à terra e aos rios. Às árvores e à liberdade.

Autor: Catherine Beltrão

Anjos

Neste início de ano, uma vontade imensa de escrever sobre anjos. Estes seres alados e sem tempo, que povoam nossa imaginação e, em consequência, nossos pensamentos e crenças. E, mais uma vez, poetas, pintores e escultores se juntam neste louvor.

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Leonardo da Vinci (1452-1519): “A Anunciação” – 1472/75

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam
Clarice Lispector (1920-1977)

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Michelangelo Buonarroti (1475-1564): “Angel with Candlestick” – 1494/95. Faz parte da decoração da Arca de São Domingo, na Basílica de São Domingo em Bolonha.

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Giotto(1266-1337): “Anjo”, na capela Arena Scrovegni, em Pádua – 1304/06

A doce canção“, de Cecília Meireles (1901-1964)

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve,no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

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Rafael Sanzio (1483-1520): “Madonna Sistine” (detalhe) – 1512

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Aleijadinho (1730-1814): “Anjo do Getsêmani”, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas/MG

O mistério do meu canto,
Deus não soube,tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o universo
de pólo a pólo contente.

O Anjo da Escada“, de Mario Quintana (1906-1994)

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

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Vincent van Gogh (1853-1890): “Cabeça de Anjo, a partir de Rembrandt”

Eu vi o anjo no mármore e o esculpi até ‘libertá-lo‘”.
Michelangelo Buonarroti

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Salvador Dali (1904-1989): “O anjo caído”, em O Purgatório, Canto I, de Dante Aleghieri – déc.60

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Paul Cezanne (1839-1906): “O beijo da Musa” – 1860

Com licença poética“, de Adélia Prado (1935)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

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Marc Chagall (1887-1985): “A queda do anjo” – 1947

A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar.
Clarice Lispector

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “Anjos” – 1924

O anjo“, de Ferreira Gullar (1930-2016)

1. O anjo, contido
em pedra
e silêncio
me esperava.

Olho-o, identifico-o
tal se em profundo sigilo
de mim o procurasse desde o início.

Me ilumino! todo
o existido
fora apenas preparação
deste encontro.

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Victor Brecheret (1894-1955): “Ave Maria 1″ – 1955. Última obra de Brecheret. Túmulo família Scuracchio. Cemitério São Paulo.

2. Antes que o olhar, detendo o pássaro
no voo, do céu descesse
até o ombro sólido
do anjo,
criando-o
– que tempo mágico
ele habitava?
3. Tão todo nele me perco
que de mim se arrebentam
as raízes do mundo;
tamanha
a violência de seu corpo contra
o meu,
que a sua neutra existência
se quebra:
e os pétreos olhos
se acendem;
o facho
emborcado contra o solo, num desprezo
à vida
arde intensamente;
a leve brisa
faz mover a sua
túnica de pedra.

4. O anjo é grave
agora.
Começo a esperar a morte.

 Autor: Catherine Beltrão

Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

O sertanejo é, antes de tudo, um forte

Euclides da Cunha escreveu uma das frases ícones da literatura brasileira: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

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Primeira edição de “Os Sertões (Campanha de Canudos)” – 1902

A obra literária “Os Sertões“, de Euclides da Cunha, é considerada uma das três grandes epopeias da língua portuguesa, podendo ser comparada à “Ilíada“, assim como “Os Lusíadas” podem ser comparados à “Eneida” e “Grande Sertão: Veredas”, à “Odisseia“.

Mas, infelizmente, não são muitos os que conhecem Euclides da Cunha (1866-1909), um dos maiores nomes da literatura brasileira.  Nascido na cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro, ele foi um escritor, poeta, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geógrafo e engenheiro. Sua morte trágica, em que foi assassinado pelo amante da sua esposa Anna de Assis, é conhecida como a “Tragédia da Piedade“.  Até hoje o episódio permanece em discussão.

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Ilustração de O Malho feita em 1909 tenta reconstituir o tiroteio que lhe tirou a vida. (Imagem: Reprodução / original da Fundação Joaquim Nabuco)

Como correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo em Canudos/Bahia, Euclides reuniu material que serviriam para elaborar, durante cinco anos,  “Os Sertões: campanha de Canudos“, publicado em 1902.

Abaixo, trecho da segunda parte de “Os Sertões“: O Homem

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Euclides em desenho a nanquim bico-de-pena, 16 x 13cm, por Cândido Portinari. 1944. Reprod. de Perfil de Euclydes e outros perfis, de Gilberto Freyre, p. 19.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem  ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (…)

É o homem permanentemente fatigado.”

A poesia sempre acompanhou Euclides da Cunha em toda a sua trajetória de vida conturbada. Abaixo, o soneto que escreveu em 1890, para Saninha, (Anna de Assis), sua mulher:

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Euclides a nanquin sobre papel retratado por Tarsila do Amaral. Reprod. de Arte e Pintura brasileira “apud” Diários Associados de São Paulo, [194 -].

 “Ontem, quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias…Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema…
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias…

Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!

E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte…”

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Da esquerda para a direita: Anabelle Loivos, Janaína Botelho e Jane Ayrão, em mesa-redonda sobre Euclides da Cunha, na FLINF.

Escrevi este post após ter ficado inebriada com uma mesa-redonda que assisti na FLINF – Festa Literária de Nova Friburgo, no último domingo dia 16.10, intitulada “Euclides da Cunha, o poeta dos sertões“.  Três mulheres espetaculares – Janaína Botelho, Anabelle Loivos e Jane Ayrão - traçando os contornos e não contornos deste gigante de nossa literatura!

Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.”

 Autor: Catherine Beltrão

Negros e negras

Há um amplo consenso entre antropólogos e geneticistas humanos de que, do ponto de vista biológico, raças humanas não existem. E, segundo várias pesquisas, a cor da pele não determina sequer a ancestralidade. Isso é especialmente verídico nas populações brasileiras, pelo seu alto grau de miscigenação. Já foi verificado que 87% dos brancos brasileiros apresentam pelo menos 10% de ancestralidade africana.

Muito além de qualquer discussão sobre raça e cor, este post apresenta algumas obras criadas por grandes artistas, representando o negro segundo sua cultura, a época em que viveu e sua verdade.

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“Quatro estudos de uma cabeça de negro”, de Rubens. Primeira metade do séc. XVII , ost, 51 X 66cm. Musées Royaux des Beaux-Arts, Brussels

Peter Paul Rubens (1577-1640) pintou muitos retratos, especialmente de amigos e autorretratos, e, no final de sua vida, pintou diversas paisagens. Seus desenhos são muito vigorosos, mas não muito detalhados. Utilizou-se de estudos em óleo para  preparar suas obras. Foi um dos últimos artistas a fazer uso consistente de painéis de madeira como meio de apoio, mesmo para obras grandes, e se utilizou também de lona, especialmente quando a obra precisaria ser enviada para lugares distantes. “Quatro estudos de uma cabeça de negro” foi uma das obras mais populares do pintor.

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“Retrato de Mulher Negra”, de Benoist. 1800, ost, 81 X 65cm . Museu do Louvre.

Marie-Guillemine Benoist (1768-1826) foi aluna de Jacques Louis David, principal representante da pintura neoclássica na França, e valeu-se das lições do mestre para realizar uma obra tipicamente neoclássica. O “Retrato de Mulher Negra” mostra uma mulher com  postura rígida que está posando: o olhar é fixo, a intenção do olhar a faz indagar o espectador. Não está ali uma mulher em situação de sujeição, mas de provável escolha.

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“Negra tatuada vendendo caju”, de Debret. 1827, aquarela, 15,7 x 21,6 cm. Museu da Chácara do Céu/Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya

Jean-Baptiste Debret (1768-1848), assim como Benoist, também foi aluno de Jacques Louis David. Mas, ao contrário da mulher de Benoist, a vendedora que aparece em sua “Negra tatuada vendendo caju“  está sentada no chão de forma mais espontânea, apoiando a cabeça com o braço, que por sua vez se apoia em suas pernas.  A mulher de Benoist parece ter sido inserida em um ambiente que não é o seu, enquanto a mulher de Debret parece estar totalmente imersa naquele espaço.

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“O Negro Cipião”, de Cézanne. 1867, ost, 107 X 83cm. MASP

O que predomina na tela “O Negro Cipião”, de Paul Cézanne (1839-1906) é a confrontação em total harmonia de grandes volumes cromáticos: o branco do móvel com as costas de Cipião, que, por sua vez, se sobrepõe ao fundo opaco, e também o azul intenso das calças. E, ainda, no braço direito do modelo, pequenas pinceladas amarelas e vermelhas, que poderiam ser os reflexos do ambiente. Belíssima obra doada ao MASP pelo Centro dos Cafeicultores do Estado de São Paulo.

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“Limpando metais”, de Armando Vianna.1923, ost, 99 X 81cm. Juiz de Fora, Museu Mariano Procópio.

O final do século XIX trouxe consigo a valorização da pintura de cenas de costumes, por vezes representadas em quadros de grandes formatos. Buscava-se atingir sentimentalmente o observador, comovendo-o diante da situação vivenciada pelos personagens, mas sem grande dramaticidade. Assim, a mulher negra poderia ser representada expressando seus sentimentos, não mais reduzida a elemento puramente exótico. “Limpando metais”, de Armando Vianna (1897-1992), não fugiu a essa regra: foi pintado exclusivamente para concorrer ao prêmio da 31ª Exposição Geral da Escola Nacional de Belas Artes. O artista conseguiu a medalha de prata e não mais representou mulheres negras.

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“A Negra”, de Tarsila. 1923, ost, 100 X 80cm. São Paulo, MAC-USP

No Brasil, uma obra que apresenta paralelo com “Limpando metais” é a célebre tela “A negra”, de Tarsila do Amaral (1886-1973). As duas entraram em cena no mesmo ano, 1923. Mas a obra da pintora modernista em pouco tempo ganhou fama. Produzida em Paris, “A negra” de Tarsila foi exibida com entusiasmo pelo importante artista francês Fernand Léger (1881-1955) aos seus alunos. Reproduzida na capa de um livro de poemas escrito por Blaise Cendrars (1887-1961), tornou-se rapidamente símbolo de ruptura absoluta. A obra reduz o corpo nu feminino a uma superfície plana e alaranjada, salientando tão somente suas características étnicas, incorporando à estética moderna um elemento de identidade nacional. A partir dela, o modernismo brasileiro produziu um número expressivo de representações de negros e mestiços.

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“O lavrador de Café”, de Portinari. 1934, ost, 100 X 81cm. MASP

No quadro “O  Lavrador de  Café”, de Cândido Portinari (1903-1962), o modelo   aparece  bem  mais    musculoso   do  que   o  normal .  A figura   deformada com pés e mãos enormes  é  o  que aproxima Portinari   ao   expressionismo . Aumentar o  tamanho  do corpo  de seus personagens  era  o  jeito  que o artista usava para mostrar a  importância do trabalhador  brasileiro.

Ao fundo temos inúmeras figuras de pés de café, tanto na superfície plana como nos morros. Percebe-se que parte das plantações dos pés de café já está indo em direção ao espaço reservado para seleção e ensacamento. Com esses detalhes, percebe-se a superprodução ai registrada. O olhar do lavrador é expressivo e nele predomina a preocupação. Tem-se a impressão de que ele sente a ação devastadora da exploração que o homem faz na natureza.

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“Mulher Negra”, de Di Cavalvanti.1925. Uma das poucas negras pintadas por Di.

Palavras de Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976): “A mulata, para mim, é um símbolo do Brasil. Ela não é preta nem branca. Nem rica nem pobre. Gosta de dança, gosta de música, gosta do futebol, como o nosso povo. Imagino ela deitada em cama pobre como imagino o país deitado em berço esplêndido.” E palavras do crítico Frederico de Morais, por ocasião da retrospectiva de DI no MAM, em 1971: “Altaneiras, monumentais quase sempre, alegres ou sonhadoras, em devaneios – o gato no colo, a flor sobre o busto – apenas por alguns momentos o olhar parece triste ou vago. Porque, hedonista nato, amoroso da vida e das pessoas, Di não se deixa abater pelos problemas existenciais, pela inquietação política ou social. Coisas mais próprias para os espíritos magros.”

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“Negra com lençol azul”, de Edith Blin. 1943, ost, 65X50cm. (Futuro) Museu ArtenaRede.

Edith Blin (1891-1983) embora tenha pintado poucos negros, estas obras são muito significativas em sua produção. Além da emblemática obra “Carnaval!”, sua magnífica “Negra com lençol azul“ dignifica uma raça, dignifica uma origem, dignifica um Brasil. O amarelo, o verde e o azul envolvem a altivez majestosa desta mulher negra, segura de si, de seu passado, presente e futuro. Ambas criações dos anos 40, mostram uma total integração da artista com o contexto do país que a acolheu.

Este post não posso chamar de autoral pois os textos referentes aos pintores foram quase todos extraídos de conteúdos existentes da Internet.

Autor: Catherine Beltrão

Lua, nosso alvo de pensamentos

A Lua, nosso satélite desde quase sempre, é o único corpo celeste para além da Terra no qual os seres humanos já pisaram. Mas se alguns pés humanos já passaram por lá, não passa um dia sequer que a Lua não seja bombardeada por nossos pensamentos, sentimentos, pinturas, poesias e canções.

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Lenagal

São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

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Tarsila do Amaral

Tenho fases, como a lua.  Fases de andar escondida,  fases de vir para a rua…  Perdição da minha vida!  Perdição da vida minha!  Tenho fases de ser tua,  tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,  no secreto calendário  que um astrólogo arbitrário  inventou para meu uso.

E roda a melancolia  seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles

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Van Gogh

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.

Pablo Neruda

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Luiza Caetano

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!

Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[...]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa

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Paul Klee

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardin.
Estou no começo do meu dessespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

 Adélia Prado

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Salvador Dali

Eu tenho pena da Lua!  Tanta pena, coitadinha,  Quando tão branca, na rua  A vejo chorar sozinha!…

As rosas nas alamedas,  E os lilases cor da neve  Confidenciam de leve  E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha…  Tão triste na minha rua  Lá anda a chorar sozinha …

Eu chego então à janela:  E fico a olhar para a lua…  E fico a chorar com ela! …

 Florbela Espanca

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Juan Miró

Têm para mim Chamados de outro mundo  as Noites perigosas e queimadas,  quando a Lua aparece mais vermelha  São turvos sonhos, Mágoas proibidas,  são Ouropéis antigos e fantasmas  que, nesse Mundo vivo e mais ardente  consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas  e escuto essas Canções encantatórias  que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,  a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:  passaram-me por cima da cabeça  e, como um Halo escuso, te envolveram.  Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,  a ventania me agitando em torno  esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,  ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida  e nossos pés a Ela estão ligados.  Deixa que teu cabelo, solto ao vento,  abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,  o vento encrespa as Águas dos dois rios  e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

 Ariano Suassuna

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Lua na Pedra Furada do Gongo, uma das áreas mais isoladas e selvagens do Parque Nacional Serra da Capivara – Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO)

Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Mario Quintana

O que seria dos poetas, dos escritores, dos pintores, sem a Lua? O que seria de nós sem suas obras lunares?

Autor: Catherine Beltrão

No Dia do Trabalho, o trabalhador não trabalha

Em muitos países, no Dia do Trabalho não se trabalha. É feriado. Mas este feriado custou muitas vidas.

Desde 1886, muita gente morreu para reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias. Estados Unidos, França e Rússia estiveram à frente das manifestações durante décadas. E no Brasil, este feriado acontece desde 1925.

O tema não é dos mais recorrentes na pintura. Não existem muitas obras significativas a respeito. Ou então não se tornaram célebres. Salvo algumas.

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“O Quarto Estado”, de Giuseppe Pellizza. 1901, ost, 293 X 545cm

O quarto estado“, monumental obra do artista italiano Giuseppe Pellizza (1868-1907), põe em foco o proletariado, que entra em greve e ocupa a praça de Volpedo, na Itália, cidade natal do pintor. O quadro se tornou um símbolo da luta dos trabalhadores.

Na pintura brasileira, dois nomes de artistas pintores marcaram a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho: Tarsila e Sigaud.

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“Operários”, de Tarsila do Amaral. 1933, ost, 150 X 205cm

Tarsila do Amaral (1886-1973) pintou a obra “Operários” em 1933, após uma viagem à antiga União Soviética.

Dois planos, dois contextos. No primeiro plano, o operariado, formado por etnias diversas, mas com rostos padronizados pela tristeza, sofrimento e resignação. No segundo plano,  as chaminés das fábricas, oprimindo e sufocando  o povo. Esta obra é antológica, metáfora da industrialização.

Eugênio de Proença Sigaud (1899-1979) talvez tenha sido o pintor brasileiro mais comprometido com o operariado brasileiro, a ponto de ser chamado “o pintor dos operários“.

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“Acidente de trabalho”, de Sigaud. 1944, eucástica sobre tela, 131 x 95 cm.

Em sua obra emblemática “Acidente de Trabalho“, Sigaud traz à cena o povo anônimo, sem rosto, grande parte sem luz. A claridade se faz presente no acidente. É neste momento que o trabalhador vira foco, no momento da desgraça, do corte da vida.

Impossível escrever um post sobre o Dia do Trabalho e não constar a letra da música Construção“, de Chico Buarque, lançada em 1971, em álbum homônimo, uma obra-prima da música brasileira. No vídeo, a interpretação é de Ney Matogrosso, gravado no Olympia, em 1996.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a  última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu  passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar  quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse  sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou  como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E  tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um  pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do  passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou  daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a  única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu  passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar  quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos  embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um  príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou  como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E  tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse  sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do  passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou  daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse  lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como  se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou  no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o  sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão  pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar  existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que  engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos  andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague

Pela mulher  carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e  cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe  pague

Três obras e uma música. Basta isso para sublinhar o Dia do Trabalho. Ou qualquer dia de um trabalhador.

Autor: Catherine Beltrão

Mulheres em pincéis femininos

Ser mulher é uma bênção. Ser artista é um dom. Ser artista mulher é uma dádiva. Ser artista mulher que pinta o feminino é extrapolar bênçãos, dons e dádivas.

Este post fala de sete artistas mulheres que pintaram/pintam o feminino.  A escolha foi subjetiva, motivada por envolvimentos e preferências pessoais. Estas sete pintoras são: Lenagal, Tarsila do Amaral, Mary Cassat, Edith Blin, Anita Malfatti, Luiza Caetano e Berthe Morisot.

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“Canto da manhã”, de Lenagal – 2005, ast, 65 X 54cm

Lenagal (1957) é uma pintora portuguesa, nascida nos Açores. O universo temático de Lenagal são as figuras femininas. Lenagal, o feminino pleno. Mas também pode ser Lenagal, o infinito pleno. Pois a mulher é o infinito. Um infinito de sentimentos, de sensações, de proposições. Não se sabe onde começa, onde termina. Só se consegue ver um pedaço (pequeno), entender uma parte (mínima). Clique aqui para ler o post “Lenagal, o feminino pleno”.  

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“A Negra”, de Tarsila do Amaral – 1923, ost, 100 X 81,3cm

Tarsila do Amaral (1886-1973) foi uma pintora e desenhista brasileira e uma das figuras centrais da primeira fase do movimento modernista no Brasil, ao lado de Anita Malfatti. Considerada como o maior nome feminino das artes plásticas do Brasil, inaugurou o movimento antropofágico em 1928, com a obra “Abaporu“. A obra “A Negra” foi pintada por Tarsila em Paris, enquanto a artista tomava aulas com Fernand Léger. O pintor ficou tão impressionado com a composição que mostrou a obra para todos os seus alunos, dizendo se tratar de um trabalho excepcional. Na obra é possível identificar elementos cubistas ao fundo da tela. Além disso, “A Negra” é considerada uma obra antecessora da Antropofagia na pintura de Tarsila.

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“As luvas compridas”, de Mary Cassat – 1889, pastel

Mary Cassat (1843-1926). Pintora americana, viveu a maior parte de sua vida na França, sendo Edgar Degas seu grande amigo e incentivador no grupo dos impressionistas. Considerada uma das grandes damas do impressionismo, junto a Berthe Morisot, Cassat criou frequentemente obras mostrando a vida privada de mulheres, com ênfase no relacionamento de mães e filhos(as).

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“Nu radioso”, de Edith Blin – 1946, ost, 65 X 54cm

Edith Blin (1891-1983), pintora expressionista francesa, viveu a maior parte de sua vida no Brasil. A figura humana, especialmente a mulher, e mais especialmente ainda, os nus femininos, foi o tema mais focalizado pela artista. Em seus quarenta anos de pintura, Edith transpôs para as telas os sentimentos que impregnavam sua alma inquieta, que poderiam tanto ser a angústia e a indignação, quanto a esperança e a alegria. Clique aqui para ler o post “Os nus de Edith Blin”.

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“A estudante”, de Anita Malfatti – 1915, ost, 76 X 61cm

Anita Malfatti (1889-1964) foi pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira. É considerada a primeira representante no modernismo no Brasil, tendo participado da Semana de Arte Moderna de 1922. As concepções de arte de Anita Malfatti representavam algo novo para os padrões da época e o “novo”, de modo geral, assusta. O que Anita entendia por arte em nada se assemelhava ao que a Academia denominava, então, como arte. Ao contrário, se contrapunha às regras e voltava-se para o expressionismo e não era isso que se esperava. Marco divisório entre o antigo e o novo, a obra de Anita constitui uma inestimável contribuição para a cultura brasileira.

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“Barco negro”, de Luiza Caetano

Luiza Caetano (1946), nascida em Portugal, é uma das grandes representantes da arte naïve mundial. Através de sua arte, Luiza gosta de interagir com diversos personagens como Amália Rodrigues, Carmem Miranda, Frida Kahlo, Botero, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Florbela Espanca. São obras repletas de significado e de sonoridade, verdadeiras conversas entre almas gêmeas, as quais ficamos extasiados ao admirar e, por que não, delas participar. Clique aqui para ler o post “Luiza Caetano, simplesmente a excelência na arte naïve“.

Lady at her Toilette

“Uma mulher em sua toilette”, de Berthe Morisot – 1875, ost, 60 X 80cm

Berthe Morisot (1841-1895) foi uma pintora impressionista francesa, neta do pintor Fragonard. Em 1860, Morisot conheceu Corot, que se tornaria seu tutor e principal influência no seu início de carreira. Foi a primeira mulher a se juntar ao grupo dos impressionistas franceses. Com frequência, Morisot retrata cenas de interiores, onde a intimidade feminina é sutilmente analisada, bem como a vida em família. Suas mulheres são retratadas com doçura e delicadeza.

Este texto pretende reverenciar sete obras de sete mulheres fantásticas, que tem o poder de transformar, através de sua arte, nosso cotidiano de seres mortais em viagens por lugares encantados e escondidos de nossa imaginação.

 Autor: Catherine Beltrão