Arquivo da tag: Salvador Dali

Oito ícones, seis museus

Mesmo quem não sabe quase nada de artes plásticas, já ouviu falar de “Mona Lisa“, certo? E, com quase  toda certeza, de “A Noite Estrelada” e, talvez, até de “O Grito“…

Icones_Monalisa

“Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci

E quem teria pintado estas obras? Essa também é fácil! Leonardo da Vinci, Vincent van Gogh e Edward Munch…

Mas e se a pergunta fosse: Onde estão situadas estas obras? Aí, a coisa complica, não é?

Bem, o post de hoje fala destes e de outros ícones da pintura e dos museus que as abrigam. Vamos lá:

A “Mona Lisa“, obra pintada por Leonardo da Vinci entre 1503 e 1506, encontra-se no Museu do Louvre, na França, desde 1797.

Icones_Louvre

Museu do Louvre, em Paris

O Museu do Louvre, é o maior museu de arte do mundo e fica situado em Paris, França. Ele possui aproximadamente 380.000 itens, da pré-história ao século XXI, que são exibidos em uma área de 72.735 metros quadrados. Inaugurado em 1793, é o museu mais visitado do mundo.

Icones_Noite estrelada

“A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh

E “A Noite Estrelada“, onde fica?

A Noite Estrelada“, obra de Vincent van Gogh, pintada em 1889,  faz parte da coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, desde 1941.

Icones_Les_Demoiselles_dAvignon

“Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso

Mas neste museu também se encontram dois outros ícones da pintura, “Les Demoiselles d’Avignon” e “A Persistência da Memória“.

Icones_Persistencia da Memoria

“A Persistência da Memória”, de Salvador Dali

Les Demoiselles d’Avignon” é uma obra de Pablo Picasso, feito em 1907. Levou nove meses para ser feita, e sua importância se deve ao fato de ser uma das obras responsáveis por revolucionar a história da arte, formando a base para o cubismo e a pintura abstrata.

Quanto ao ícone “A Persistência da Memória“, esta obra foi pintada por  Salvador Dalí, em 1931. A pintura está localizada no MoMA desde 1934. Para quem tiver interesse, vale a pena pesquisar um pouco sobre os significados dos vários símbolos presentes na tela: relógios derretidos, formigas, caricatura do pintor…

Icones_MoMA

MoMA, em Nova Iorque

O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, mais conhecido como MoMA, foi fundado no ano de 1929 como uma instituição educacional. Atualmente é um dos mais famosos e importantes museus de arte moderna do mundo.  Possui mais de 150.000 pinturas, esculturas, desenhos, maquetes, imagens, fotografias e peças de design. E também contém uma livraria e arquivo com cerca de 305.000 livros e ficheiros de mais de 70.000 artistas.

Icones_Brinco de Perola

“A Moça do Brinco de Pérola”, de Johannes Vermeer

E essa? Quem não conhece?

Também conhecida como “A Mona Lisa do Norte” ou “A Mona Lisa Holandesa“,  “A Moça com o Brinco de Pérola“  é uma pintura do artista holandês Johannes Vermeer, feita em 1665. A pintura está no Museu Mauritshuis, desde 1902.

Icones_Mauritshuis

Museu Mauritshuis, em Haia

O Museu Mauritshuis ( ou Casa de Maurício) é um rico museu de Haia, um dos mais importantes da Holanda. Seu nome se deve ao fato de ter sido construída por ordem de João Maurício de Nassau, que foi governador do Brasil holandês no século XVII, e hoje é a sede da Real Galeria de Pinturas de Maurishuits. Possui um importante acervo de arte, com mais de 800 obras, incluindo obras de Rembrandt e Rubens.

Icones_As meninas

“As Meninas”, de Diego Velázquez

Um outro ícone importante da pintura mundial é a obra “As Meninas“, de Diego Velázquez.  Pintada em 1656, esta obra foi intensamente analisada e reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental. Ela está atualmente no Museu do Prado em Madrid.

Icones_Prado

Museu do Prado, em Madri

O Museu do Prado, localizado em Madri, é o mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo. Inaugurado em 1819, sua coleção é baseada principalmente em pinturas dos séculos XVI a XIX. Entre seus quadros, conta com obras-primas de pintores como Velázquez, El Greco, Rubens, Bosch e Goya.

Klimt_OBeijo

“O beijo”, de Gustav Klimt

Essa aqui é fácil!

O quadro “O beijo“, de Gustav Klimt, pintado entre 1907 e 1908, é uma das obras mais reproduzidas da arte mundial. Pertence à chamada “fase dourada” do artista, que utilizou folhas de ouro na composição dos trabalhos nesta fase. O quadro está exposto em Viena, na Galeria Belvedere da Áustria.

Icones_Belvedere

Galeria Belvedere da Áustria, em Viena

Veja que beleza de palácio!

A Galeria Belvedere da Áustria é um museu situado no Palácio Belvedere, em Viena, Áustria. Inaugurado em 1905, sua coleção inclui obras-primas da arte, desde a Idade Média e o Barroco até o século XXI. O acervo inclui obras de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka.

Icones_O Grito

“O Grito”, de Edward Munch

Esse ícone é barbada! Mas talvez você não saiba que “O Grito” não se resume a uma só obra: é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, pintada em 1893.  Dois dos quadros da série, “A Ansiedade” e “O Desespero“, se encontram no Museu Munch, em Oslo, outra na Galeria Nacional de Oslo e outra em coleção particular.

Icones_Munch

Museu Munch, em Oslo

O Museu Munch é um museu de arte situado em Oslo, albergando mais da metade das obras de Edvard Munch, deixadas em testamento à comuna de Oslo em 1940. O museu foi inaugurado em 1963, cem anos após o nascimento do pintor.

Oito ícones. Seis museus. Que tal um roteiro artístico percorrendo estes museus? Mais alguém se habilita?

Autor: Catherine Beltrão

As joias de Dalí

O extravagante artista espanhol Salvador Dalí (1904-1989) é considerado um dos maiores artistas do século XX.  Assim como Michelangelo, Dalí era multifacetado e desenvolveu sua produção artística de várias formas: pintura, escultura, arquitetura, teatro, cinema, literatura e joalheria.

Entre 1941 e 1970, com a colaboração de um milionário americano chamado Cummins Catherwood, Dalí criou uma coleção de joias. Catherwood forneceu milhares de dólares em pedras preciosas que Dalí encorpou a uma série de peças fabulosas. No total, 39 peças foram feitas, tendo sido trocadas de mãos várias vezes até finalmente serem vendidas à Fundação Salvador Dalí por 5.5 milhões de euros em 1999.

Dali_The-Royal-Heart

“O coração real”, de Salvador Dalí. Vídeo

Talvez a peça mais intrigante de toda a coleção seja o “Coração Real“. Feita de ouro puro com maravilhosos 46 rubis, 42 diamantes e duas esmeraldas, o mais incrível sobre o coração real é como ele, perturbadoramente, batia como um coração humano.

Dali_broche_olho_do_tempo

“O olho do tempo”, de Salvador Dalí

Salvador Dalí também produziu o seu “O Olho do Tempo”. Era a sua visão surrealista, mas problematizante, da história da humanidade e
de cada um de nós. Fabricado com platina, rubi, diamantes e esmalte.

Dali_The-Persistence-of-Memory

“A Persistência da Memória”, de Salvador Dali

Talvez poucos saibam, mas a obra mais famosa de Salvador Dalí, “A Persistência da Memória“, teve sua versão em forma de joia.

Dali_A_Persistencia_da_Memoria

“A persistência da memória”, de Salvador Dali. 1931

Uma curiosidade a respeito da obra original: Dalí conta que levou duas horas para pintar a maior parte da obra (do total de menos de cinco horas), enquanto esperava sua esposa voltar do teatro. Neste dia, o pintor se sentira cansado e com uma leve dor de cabeça, não indo ao teatro com sua esposa e amigos. Ao retornar do filme, Dalí mostrou a obra a sua esposa, vendo em sua face a “contração inequívoca de espanto e admiração“. Ele então, a perguntou se ela achava que em três anos ela esqueceria aquela imagem, tendo como resposta que “ninguém poderia esquecê-la uma vez vista“. Mas muita gente quer saber o que essa imagem representa. “Toda a minha ambição no campo pictórico é materializar as imagens da irracionalidade concreta com a mais imperialista fúria da precisão”. Esta frase de Dalí resume a pintura em questão; os elementos irreais – relógios derretidos – misturam-se com imagens familiares aos olhos humanos, criando uma impressão de que eles realmente estão ali.

Dali_The-Space-Elephant

“O Espaço Elefante”, de Salvador Dali

Além do relógio, o elefante é também uma imagem recorrente nas obras de Salvador Dalí. Ele apareceu pela primeira vez em sua obra 1944 “Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar“.

O elefante é uma distorção do espaço, as pernas finas contrapondo a ideia de imponderabilidade com estrutura.”

Dali_Ruby-Lips

“Lábios de rubi”, de Salvador Dali

Para quem gosta de pérolas e rubis, uma boa pedida é o estonteante “Lábios de rubi“, broche com pérolas cultivadas e rubis. Dizem que os lábios são inspirados na atriz norte-americana Mae West.

Salvador Dalí disse destas joias: “Sem uma audiência, sem a presença de espectadores, essas joias não iriam alcançar a função para a qual foram criadas. O espectador é, assim, o artista final. Seu olhar, o coração e a mente – com maior ou menor capacidade de entender a intenção do criador – imbuem as joias com a vida“.

Autor: Catherine Beltrão

Fatias de arte

Você quer uma fatia de Van Gogh? Ou de Dali? Ou prefere uma de Mondrian, talvez…

Bolo_Mondrian1

Bolo Mondrian

Estes bolos construídos como releituras de obras importantes de pintores famosos não são de hoje. Todos já devem ter visto imagens dessas maravilhas…

Bolo_Munch_Picasso

Bolos “O Grito”, de Munch e “A Garota no Espelho”, de Picasso. By Maria Aristidou

São muitas as histórias sobre a origem dos bolos decorados. Itália e França se empenham em empunhar essa bandeira de pioneirismo. De qualquer modo, o cake design  nasceu ainda no período da Idade Média. Naquela época, a massa de açúcar - pâte à sucre – não podia ser utilizada por qualquer um pois o açúcar era artigo de luxo.  Estes bolos, às vezes de vários andares, faziam parte de banquetes promovidos pela aristocracia francesa.  Assim, o cake design caiu em desuso na França durante o século XIX. Mas voltou com força total no século XX, nos Estados Unidos, com a utilização de glacê real e pasta de açúcar, a conhecida pasta americana.

Bolo_VanGogh2

Bolo “A Noite Estrelada”, de Van Gogh

Mas e os bolos criados a partir de obras icônicas de grandes pintores?

Bolo_Dali_Klimt

Bolos “A persistência da memória”, de Dali e “O beijo”, de Klimt

Alguns bolos decorados são verdadeiros trabalhos artísticos. Um dia, um cake designer deve ter se perguntado: “Por que não decorar um bolo como se fosse um releitura de uma obra de arte famosa?” E assim foi feito. Surgiram várias releituras doces e comestíveis de “A Noite Estrelada“, de Van Gogh, de “O Grito“, de Edvard Munch, de “Garota no Espelho“, de Pablo Picasso, de “A Persistência da Memória“, de Salvador Dali… entre várias outras.

Mas ainda não encontrei bolos decorados com releituras de obras como “O Ciclo do Café“, de Cândido Portinari, “Abaporu“, de Tarsila do Amaral ou de uma “Paisagem Imaginante“, de Alberto da Veiga Guignard … Alguém já comeu? Alguém já viu?

Bolos1

Escultura de bolos com releituras de obras de Van Gogh, Pollock, Mondrian, Warhol, Brito e Da Vinci. Como cereja do bolo, um móbile de Calder

 Autor: Catherine Beltrão

 

A Alice de Dali

Qual a história que tem como personagens um chapeleiro maluco, uma lagarta, um coelho branco, uma tartaruga fingida, o gato de Cheshire e uma Rainha de Copas? Alguém aí não pensou em “Alice no País das Maravilhas“?

Alice_capa

Ilustração para a capa do livro “Alice no Paí das Maravilhas”, de Salvador Dali. Vídeo com as 14 heliogravuras.

 

A história escrita por Lewis Carroll – pseudônimo do escritor, poeta e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898) – foi publicada em 1865. Há mais de 150 anos, as peripécias de Alice encantam adultos e crianças pois, muito mais do que um conto de fadas, é uma história psicodélica, imaginativa, crítica e atemporal.

Alice_Festadochamaluco

Ilustração para a “Festa do Chá Maluco”, de Salvador Dali.

Alice_Conselhodeumalagarta

Ilustração para o “Conselho de uma Lagarta”, de Salvador Dali

Certo dia, Alice adormece e sonha que entrou num outro país, o País das Maravilhas, onde tudo é muito estranho: ela encontra um Coelho Branco sempre atrasado, um Chapeleiro que toma um chá interminável com a Lebre de Março, ouve os conselhos de uma Lagarta Fumante e conhece a Rainha de Copas que quer cortar a sua cabeça…

Em 1969, quando a obra completava 104 anos, a editora de livros americana Random House – uma das maiores do mundo – decidiu que “Alice” merecia uma nova edição, algo especial. E quem mais psicodélico e surreal do que a própria história de Alice deveria fazer as novas ilustrações?

Alice_Dali1

Ilustração para a “Toca do Coelho”, de Salvador Dali. Vídeo (em inglês)apresentando a  publicação de 1969.

Preservando o texto original, a editora convidou o pintor surrealista Salvador Dalí (1904-1989)  para reinterpretar o visual da história. Ao todo, foram 14 heliogravuras incluindo capa e pós-capa.  As poucas edições publicadas tornaram-se relíquias. Em 2011, a Amazon anunciava a venda de uma delas por US$ 12,9 mil (cerca de R$ 20 mil, na época).

Alice_Ochaocroquetadodarainha

Ilustração para o “Chão Croquetado da Rainha”, de Salvador Dali

Alice_Ahistoriadebombariadatartaruga

Ilustração para a “História da Tartaruga Fingida”, de Salvador Dali

Para aqueles que não conhecem a técnica usada por Dali, a heliogravura consiste em um processo fotomecânico destinado a obter uma gravura a partir da exposição à luz e transferência química para uma placa de estanho (ou cobre) derivado de um petróleo fotossensível. Dali usou uma camada de gelatina sensibilizada com bicromato de potássio e negativos, colocado em contato com a placa de metal recoberta pela gelatina que após ser exposta a luz tem as partes assim expostas endurecidas e insolúveis na água. As regiões onde a luz não reage com a gelatina (devido as zonas escuras do negativo) serão lavadas e derretidas. Assim, um ácido utilizado em parte do processo ataca apenas as partes expostas do metal, criando sulcos ou gravações que serão preenchidas com tinta.

Lewis Caroll e Salvador Dali, duas mentes criadoras e psicodélicas que ousaram na Literatura e na Arte, fazendo do País das Maravilhas de Alice um lugar para onde qualquer um de nós gostaria de viajar e conhecer…

Autor: Catherine Beltrão

Nuvens eternas

As únicas coisas eternas são as nuvens“, escreveu um dia Mario Quintana. É interessante, pois elas não parecem eternas. Mudam de forma a todo instante. Também mudam de cor. E produzem sentimentos variados: tristeza, saudade, medo, esperança. À qual eternidade se referia o poeta?

Nuvens_Courbet

“A imensidão”, de Gustave Courbet (1819-1877)

Mario Quintana também escreveu: “Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento“. É. O vento deserteniza a forma das nuvens…

Cecília Meireles também eternizou suas nuvens, como no poema “Improviso do Amor-Perfeito“:

Nuvens_Constable

“A baía de Weymouth”, de John Constable (1776-1837)

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Nuvens_Pissaro

“Paisagem com Céu de Tempestade”, de Camile Pissarro (1830-1903)

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se alteia,
entre pálpebras de areia…

Longe, longe… Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

Nuvens_Guignard

“Paisagem imaginante”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)

Ou ainda, nos versos a seguir:

Nuvens_Renoir

“Barcas no Rio Sena”, de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

Nuvens_Sisley

“Prado”, de Alfred Sisley (1839-1899)

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis
de andar. Meu rosto vário
desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.”

“Encostei-me a ti sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí.

Nuvens_Dali

“Casal com a cabeça cheia de nuvens”, de Salvador Dali (1904-1989)

No bem conhecido poema “O Auto Retrato“, Mario Quintana volta a se eternizar nuvem …

Nuvens_vanGogh

“Campo de trigo com cipreste”, de Vincent van Gogh (1853-1890)

Nuvens_Malfatti

“O Farol”, de Anita Malfatti (1889-1964)

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Terminado por um louco!

É. Talvez a eternidade das nuvens do poeta se refere àquelas que se eternizam através da pintura. Ou da poesia.

 Autor: Catherine Beltrão

Pianos em telas e versos (Parte II)

Um só post não era suficiente para dar uma ideia de minha paixão pelo piano. Dando prosseguimento à primeira parte deste post, mais alguns pianos são agora apresentados… pianos mais modernos, mais desconcertantes, mas nem por isso, menos encantadores.

Piano_Dali2

“Florescimento da Primavera necrófila num piano de cauda”, de Salvador Dali. 1933.
Vídeo: “Gymnopédie No.1″, de Erik Satie. Duração: 3:36

Quanto aos versos, desta vez escolhi “Ode ao Piano“, de Pablo Neruda.

Piano_Di_Meninacomgatoepiano_1967

“Menina com gato e piano”, de Di Cavalcanti. 1967
Vídeo: “Ária da Bachiana Brasileira nº 4″, de Heitor Villa Lobos. Duração: 4:09

Piano_ReneMagritte_Georgette-at-the-piano-1923

“Georgette ao piano”, de René Magritte. 1923
Vídeo: “Impressões Seresteiras, do Ciclo Brasileiro”, de Heitor Villa Lobos. Intérprete: Magda Tagliaferro. Duração: 5:51

Estava triste ao piano
no concerto,
esquecido em seu fraque de coveiro,
então abriu a boca,
sua boca de baleia:
entrou o pianista para o piano
voando como um corvo,
alguma coisa passou como se caísse
uma pedra
de prata
ou uma mão
em um tanque
escondido:
deslizou a doçura
como a chuva
sobre um sino,
caiu a luz ao fundo
de uma casa fechada,
uma esmeralda percorreu o abismo
e soou o mar,
a noite,
as campinas,
a gota de orvalho,
o altíssimo trovão,
cantou  arquitetura da rosa,
rodou o silêncio ao leito da aurora.

Piano_Matisse_Licaodepiano2_1916

“A lição de piano”, de Henri Matisse. 1916
Vídeo: “A grande porta de Kiev”, de Quadros de uma Exposição – Modest Petrovich Mussorgsky. Duração: 4:13

Piano_Picasso_Opiano_1957

“O piano”, de Pablo Picasso. 1957
Vídeo: “Sonata para piano nº 7, Op.83″, de Serge Prokofiev. Intérprete: Gleen Gould. Duração: 19:52

Assim nasceu a música
do piano que morria,
subiu as vestes
da náiade
do cadafalso
e de sua dentadura
até que no esquecimento
caiu o piano, o pianista
e o concerto,
 e tudo foi som,
torrencial elemento,
sistema puro, claro campanário.

 

Então voltou o homem
da árvore da música.
Desceu voando como
corvo perdido
ou cavaleiro louco:
fechou sua boca de baleia do piano
e ele andou para trás,
para o silêncio.

Para completar o acervo, uma obra de Klimt, que não pode ser mais vista: essa e muitas outras foram destruídas pelos nazistas em 1945.

Piano_Klimt_Schubertaopiano

“Schubert ao piano”, de Gustav Klimt. 1899.
“Clair de Lune”, de Claude Debussy. Duração: 6:00

Quanto a Wassily Kandinsky, é sabido de sua forte relação com a música.  Ele, introdutor da abstração no campo das artes visuais, e Arnold Schoenberg, criador do dodecafonismo, foram os pilares da evolução artística do século XX. É de Kandisky esta citação sobre o piano:

A cor é uma força que influencia diretamente a alma. A cor é o  teclado. Os olhos são os martelos. A alma, o piano de inúmeras cordas. O artista é a mão que toca.”

Como trilha sonora desta  segunda parte do post, escolhi peças de Erik Satie, Claude Debussy, Heitor Villa Lobos, Modest Mussorgsky e Serge Prokofiev.

Para ler a parte I deste post, clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Ateliers e versos… (Parte II)

Prosseguindo a trilogia, apresento a Parte II de ateliers de alguns artistas que amo, e mais alguns versos meus. Desta vez, os versos são direcionados a pessoas que, de fato, existiram. Não existem datas, por motivos óbvios.

Atelier_Dali1

Atelier de Salvador Dali

Nervos entreabertos

Estou hoje como estou sempre
Perdida entre meu corpo e tua mente
Solta no tempo mas presa no espaço.

O sentimento se move em minha cabeça
Percorre meus nervos entreabertos
À espera do pranto e do orgasmo.

Os contatos se sucedem em retrocesso
Até onde a vida possa ser tocada,
Até onde possas alcançar minha fé.

Espero deste instante a não-poesia
A certeza de um minúsculo infinito
Invadindo o meu ser até as extremidades.

Não fujo do delírio que se instala.
É a minha aceitação do presente
A ser repartido nos momentos próximos.

Vem a energia, a explosão, a agonia.
É o futuro que se expande
Embebido de magia violentada.

Atelier_Pollock

Atelier de Jackson Pollock

Poesia e vontade

Eu não queria.
Já havia consumido estrelas
Por toda uma eternidade de reflexão.
Já havia acostumado a noite
À presença de um corpo só:
Solidão.

Eu não queria.
Palavra que não queria.
Mas teu olhar,
Teu sorriso,
Tuas mãos
Voltaram.
De novo sinto
Acima e abaixo,
Dentro e fora,
Todas as coisas
Que são infinitas.
Como antes,
Teu silêncio não para de me emocionar
E de me confundir.
Sou feita de sonhos
E de pensamentos.
Como nunca,
Quero viver de uma vez só:
De poesia e vontade.

Atelier_Basquiat

Atelier de Jean-Michel Basquiat

Como um pássaro

Teu pensamento transcende o espaço
E se perde nas ligações
Do tempo com a vida.
Foges da inércia
Perseguido pelo som
Que dentro de ti germina.
Com o coração já totalmente gasto
Segues o sinal do vento
Qualquer que seja sua direção.
Sofres pela indecisão
Entre o incerto e o impossível.

Sinto-te como um pássaro
À procura de orvalho
À espera do voo sem fim.
Sinto-te imerso no vácuo
O olhar tênue disperso
Numa proposta de loucura.
Sinto-te estranhamento terno
Ao vires me buscar
Em algum nível de tristeza.

Atelier_Matisse

Atelier de Henri Matisse

O que somos

 Vieste cheio de olhares e abraços
Me oferecer um fim de tema
Me expandir para dentro
De teus pensamentos…
Eu te recolhi cheia de lágrimas
Para as madrugadas de meu corpo
Para a música consumida
De punhos cerrados.

Somos a eternidade
Refeita em sons.
Somos bebida que transforma
Sorrisos em loucuras.
Somos o contato entre
Intervalos e tons.
Somos a derradeira prece
Do último homem.

Atelier_Miro2

Atelier de Joan Miró

Tempos idos

A magia do teu toque me encanta
Qual carícia, corte, abraço e espanto.
Teu som me penetra as peles
Pelos pelos e poros atentos.
A emoção contida explode
Em lembranças de tempos em transe.

Os tempos são idos
Em que éramos embalados
Por segredos e medos.
Os tempos são outros
Em que somos acordados
Por restos de antigos sonhos.

O sentimento não se mede
Nem no tempo nem no espaço,
Tem jeito de onda eterna
Que vai e vem no aconchego
De um pedaço de mar e o rochedo
De um recado teu e o meu medo.

Dali, Pollock, Basquiat, Matisse e Miró: grandes nomes da arte do século XX. Que mexem com a angústia de todos nós.

Autor: Catherine Beltrão

Brasil no ranking mundial de roubo de obras de arte

Há 10 anos, o Brasil integra o ranking mundial de roubo de obras de arte. Em 24.02.2006,  quatro obras e um livro de gravuras foram roubadas do Museu Chácara do Céu, situado no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. É o maior roubo de arte do Brasil e um dos dez maiores do mundo. Nessa lista, o roubo à Chácara é o único da América Latina.

Roubo_Picasso

“A Dança”, de Picasso. 1956, ost, 100 X 81 cm

Na época,  as obras roubadas foram avaliadas em mais  de US$ 10 milhões.

Roubo_Dali

“Dois balcões”, de Salvador Dalí. 1929, ost, 23,5 cm X 34,5 cm

Era uma sexta-feira antes do carnaval. Quatro homens armados invadiram o Museu da Chácara do Céu, obrigaram os seguranças a desligar o circuito interno de TV e prenderam turistas em uma sala. Os ladrões levaram as obras “Os Dois Balcões“, de Salvador Dalí, “A Dança“, de Pablo Picasso, “Marine“, de Claude  Monet, e “Jardim de Luxemburgo“, de Henri Matisse. Além disso, os bandidos quebraram uma vitrine para levar uma edição de “Toros“, livro de gravuras de Picasso.

Roubo_Matisse

“Jardim de Luxemburgo”, de Henri Matisse.1903, ost

Fragmentos da obra “A Dança”, de Picasso, foram encontrados em uma fogueira no Morro dos Prazeres, também em Santa Teresa. Depois do roubo, o quadro de Matisse foi noticiado como sendo oferecido em um site de leilões virtuais da Bielo-Rússia, com lance mínimo de US$ 13 milhões. Parece que foi um alarme falso.

Mas não foi a única vez que a Chácara do Céu teve peças roubadas. Em 1989, havia tido um assalto e levaram várias obras, entre as quais estavam duas que novamente seriam roubadas em 2006.  Estas peças, roubadas em 1989, foram encontradas em um apartamento no Rio.

Roubo_Monet

“Marine”, de Monet. Ost, pintado entre 1880 e 1890

 

Roubo_livro

Capa do livro “A Arte do Descaso”, de Cristina Tardáguila

Foi lançado recentemente o livro-reportagem “A Arte do Descaso“, da jornalista Cristina Tardáguila, que pesquisou a respeito deste roubo, até agora sem solução. O crime, embora tenha decorrido há mais de 10 anos, ainda está na fase de inquérito. Falta ser analisado pelo Ministério Público para, só depois, ser transformado em denúncia e, aí sim, ir para a Justiça, que pode ou não aceitar a denúncia. O crime prescreve em 2026.

Autor: Catherine Beltrão

O pão nosso de cada dia…

Além do Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro é o Dia Mundial do Pão.  E já dizia Antoine de Saint-Exupéry: “Nada melhor do que um pão compartilhado.” Neste post, iremos compartilhar o pão com Cézanne, Renoir, Picasso, Dali, Milton e Chico.

Pao_Cezanne

“Pão e ovos”, de Paul Cézanne (1839-1906). Ost.

Para contextualizar, um pouco da história do pão. A palavra pão origina-se do latim ‘pane’. Segundo os historiadores, o pão teria surgido juntamente com o cultivo do trigo, na região da Mesopotâmia, onde atualmente está situado o Iraque. Supõe-se que a princípio o trigo fosse apenas mastigado.

Acredita-se que os primeiros pães fossem feitos de farinha misturada ao fruto do carvalho (chamado bolota, lande ou noz). Seriam alimentos achatados, duros, secos e que também não poderiam ser comidos logo depois de prontos por serem bastante amargos. Assim, talvez fosse necessário lavá-los em água fervente por diversas vezes antes de se fazer as broas que eram expostas ao sol para secar. Tais broas eram assadas da mesma forma que os bolos, sobre pedras quentes ou embaixo de cinzas, há 6000 anos.

Pao_Renoir

“Taça de Vinho”, de Auguste Renoir (1841-1919). Ost,1908.

Com o passar dos séculos, o pão foi se tornando cada vez mais um verdadeiro sucesso. Por volta do século III a. C, os gregos começaram a desenvolver receitas de pão com sementes e variados ingredientes. Porém, a cultura era diferenciada; afinal, a história do pão nos diz que os gregos ofereciam pão aos deuses e aos mortos.

Pao_Picasso

“Pão e ‘dish’ com frutos à mesa”, de Pablo Picasso (1881-1973). Ost,1909.

Com a tomada da Grécia pelos romanos, o pão foi se espalhando pela Itália e ganhando a Europa. No Brasil, a história do pão é um pouco mais curta. Ele foi trazido para terras brasileiras durante o século XIX no navio de dona Maria I e Dom João VI. E a história do pão é ainda mais interessante do que imaginamos, pois a necessidade de consumir pão era tamanha, que os reis levavam consigo a farinha, a receita e os padeiros. Com mais gordura e açúcar, o pão ficou conhecido como pão francês.

Pao_Dali

“Cesta de pão”, de Salvador Dali (1904-1989).

Uma curiosidade: alguém sabe por que o corte de pestana no pão francês? Porque na Europa, tinha-se o costume de fazer uma cruz na massa do pão e rezar para ele crescer ainda mais. Simples assim…

Pao_ciodaterraO pão se faz. O pão se come. O pão se eterniza. Das formas e cores das obras de pintores, uma canção também eternizou nosso pão de cada dia: trata-se do “Cio da Terra“, de Milton Nascimento e Chico Buarque. Video aqui (duração: 4:12).

…………
Debulhar o trigo
Recolher cada bago de trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão.”
………..

 Autor: Catherine Beltrão

 

 

Dali visto daqui (Parte II)

Dali 3

Salvador Dali

A partir de 29 maio até 22 de setembro, uma mega exposição de 150 obras de Salvador Dali estará acontecendo no Brasil, no CCBB/RJ, em comemoração aos 25 anos da instituição. Pinturas, gravuras, documentos, fotografias e ilustrações produzidas entre 1920 e 1982 serão expostas, com ênfase no período surrealista, que consagrou o artista.

Uma das pinturas mais importantes da exposição é “Figuras tumbadas en la arena” (1926), da época em que Dali conheceu Pablo Picasso e foi influenciado pelo cubista.

Dali - figuras tumbadas em la arena - 1926

“Figuras tumbadas em la arena” – 1926

As peças que vem ao Brasil pertencem aos três maiores acervos de Salvador Dali no mundo: o da Fundação Gala-Salvador Dali — que mantém, além do Teatro Museu Dali, em Figueras, outros dois museus (o Castelo de Púbol e a casa de Portlligat, que o artista construiu em Cadaqués, às margens do Mediterrâneo) —, o do Salvador Dali Museum, na Flórida e o do Museu Reina Sofía, em Madri.

À luz de Portlligat, uma área de pescadores na minúscula cidade de Cadaqués, Dali pintou, entre outras telas, “El pie de Gala”, obra que também estará exposta no Brasil. Em tempo: Gala foi a mulher-musa de Dali, que abandonou o poeta Paul Elouard e sua filha para ficar com o artista em 1929.

Dali - el pie de Gala

“El pie de Gala” – 1975/76

Dali - casa Portlligat

Casa de Portlligat, em Cadaqués

A casa de Portlligat, conhecida por ter ovos de gesso gigantes instalados no telhado, recebe visitas de pequenos grupos de até oito pessoas por vez, que têm 40 minutos para percorrer o estranho acervo de dentro da casa: um urso branco empalhado segurando um abajur e com o peito coberto de medalhas, além de corujas, cisnes, bodes, gaiolas para grilos, esquilos, leões e veados de pelúcia.  No closet do casal, cobrem os armários fotos de Dali com várias personalidades como o Papa João XXIII, o ator Gregory Peck, o general Franco, o artista Marcel Duchamp e a estilista Coco Chanel, entre outras.

Dali - autoretrato cubista

“Autoretrato cubista” – 1923

Esta exposição de Salvador Dali pretende superar a marca recorde de 561.142 visitantes que O CCBB recebeu em 2012 em uma exposição de impressionistas que incluiu obras de Monet, Cézanne, Renoir, Gauguin e Van Gogh. As obras da exposição tem valor estimado em cerca de R$ 400 milhões e o orçamento da mostra brasileira ficou em R$ 9 milhões, um terço custeando apenas os direitos autorais das peças.

Em outubro a exposição será levada para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Fontes: http://oglobo.globo.com/cultura/exposicao-de-9-milhoes-traz-ao-rio-em-maio-obras-de-dali-11936839#ixzz31KGIfLiY e http://catracalivre.com.br/rio/agenda/gratis/maior-exposicao-da-obra-de-salvador-dali-no-brasil-desembarca-no-ccbb/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter&utm_campaign=TwitterRio

 Autor: Catherine Beltrão