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Três mulheres: Edith, Katia e Cecília

Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi escrever mais de um post. Este é reunindo três mulheres: a escritora Cecília Meireles, a pintora Edith Blin e a sua modelo Katia (eu).

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“Retrato de Katia com fita azul no cabelo”, 1956. Óleo sobre tela, 55 X 45cm.

“Mulher adormecida”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia em verde e amarelo”, 1955. Pastel sobre cartolina, 30 X 22cm.

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“Retrato de Katia com os olhos no além”, 1957. Óleo sobre tela, 55 X 46cm.

Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?

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“Retrato de Katia vestindo azul”, 1971. Pastel sobre cartolina preta, 75 X 50cm.

“Mulher ao espelho”, de Cecília Meireles

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Figura 43 – “Katia! Mon modèle!”, 1961. Desenho a carvão, 70 X 50cm.

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“Retrato de Katia com margarida no cabelo”, 1967. Desenho a carvão e pastel, 30 X 22cm

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

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“Retrato de Katia com mechas”, 1971. Patel sobre cartolina preta, 35 X 28cm.

“Retrato de Mulher Triste”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia por inteiro”, 1968. Óleo sobre tela, 146 X 50cm.

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“Retrato de Katia com rabo-de-cavalo”, 1964. Pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm.

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

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“Retrato de Katia meiga”, 1976. Óleo sobre cartolina preta, 51 X 38cm.

A poesia e a pintura sempre foram amigas. Minhas amigas. Edith chegou a ser cúmplice. Cecília, confidente de meus segredos de alma. Somos as três, mulheres. Mulheres da Arte e da Literatura. Que dádiva!

Fotos das obras: Ana Cláudia Gadini.

Autor: Catherine Beltrão

Era uma vez o impressionismo de Renoir

A luz da manhã, o movimento da vida acontecendo, as cores desabrochando, tudo me fez pensar que hoje é dia de falar sobre o Impressionismo. Mais especificamente, sobre o impressionismo de Renoir: “Numa manhã um de nós já não tinha preto, e assim nasceu o Impressionismo“.

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“O Camarote”, de Renoir. 1876.

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) passou pelo Impressionismo no período de 1870 a 1883. Pintou várias paisagens mas preferia  retratar a vida social urbana. E foi isso que o levou a pintar “L’avant-scène” (“O Camarote“), em 1876, em seu apartamento de Montmartre. A imagem descreve um casal burguês sentado no seu camarote do Opéra de Paris, já prenunciando os vários retratos que iria pintar no decorrer de sua existência.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1876.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1874.

Renoir pintou muitos retratos. E teve vários modelos. Um deles foi a atriz de nome Madame Henriot, que trabalhava na Comédie Française. Os retratos de Mme Henriot, pintados por Renoir, são hoje considerados os mais belos e encantadores do movimento impressionista.

Sem trocadilhos, estas obras são de uma beleza que impressiona, cuja luz que emana das telas chega mesmo a ofuscar os olhos de quem as contempla.

Também em 1876, Renoir pinta “La balançoire” (“O balanço“). A pintura mostra uma jovem em um balanço, conversando com um homem. Ao pé deles, está uma menina e um segundo homem apoiado numa árvore. Os modelos são Edmond, irmão de Renoir, o pintor Norbert Goeneutte, e Jeanne, uma jovem de Montmartre (pode ser a filha de Mme Henriot).

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“O balanço”, de Renoir. 1876.

A obra “Le bal du  Moulin de la Galette” é a mais célebre e significativa obra de Renoir. Foi exibida pela primeira vez no Salon em 1877, na exposição dos impressionistas. Embora o rosto de alguns dos seus amigos apareçam na imagem, como o cubano Cárdenas à esquerda dançando com uma moça, e Frank Lamy, Norbert Goeneutte e Georges Rivière sentados à mesa, a intenção de Renoir era captar a vivacidade e a atmosfera alegre desta popular dança de jardim no bairro de Montmartre, nas imediações do Moulin, hoje celebrizado pela tela.

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“Le bal du Moulin de la Galette”, de Renoir. 1876.

Assim Renoir representou a Belle Époque (1870-1914) de Paris na França, um período de grande florescer artístico e econômico. A obra foi adquirida por Gustave Caillebotte que a deixou ao estado francês, juntamente com toda a sua coleção. Porém, Renoir fez uma pequena cópia desta tela, que se tornou uma das telas mais caras já vendida. (Mais “Moulin de la Galette“, clique aqui).

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“La liseuse”, de Renoir. 1876.

Mais uma obra de 1876 e a minha preferida de Renoir. Trata-se de “A liseuse“. Renoir gostava muito do tema de uma mulher deleitando-se com a leitura. Pintou várias liseuses… Mas essa tem uma luminosidade invulgar e o sorriso mais belo do impressionismo.

Nada se sabe sobre a jovem modelo. Mas ela continua lá, no Musée d’ Orsay, indiferente a quem a observa, mergulhada e envolvida pelas palavras que vai desvendando numa leitura atenta e persistente. Os olhares de admiração de quem a contempla não a afetam, ela sabe do seu sorriso e acredita na luz de seu criador e mestre. (Mais “liseuses“, clique aqui).

 Em 1883, Renoir disse: “Por volta de 1883, eu tinha esgotado o Impressionismo e finalmente chegado à conclusão de que não sabia pintar nem desenhar“.

 Autor: Catherine Beltrão

Os sessenta anos de um urso e de um palhaço

Era uma vez um ursinho preto. De pelúcia. E também era uma vez um palhaço. De pano, listrado de vermelho e branco.  Eles se encontraram na casa de uma menina. Ela tinha seis anos. Seu nome era Katia.

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“Katia e seus amigos”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 48 X 30cm.

 Katia adorava brincar com eles. O ursinho preto e o palhacinho vermelho e branco. E eles adoravam brincar com ela.

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“Katia com ursinho preto”, de Edith Blin.1954, pastel sobre cartolina, 46 X 32cm

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso I”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 50 X 35cm.

A menina morava com a avó. E a avó de Katia era pintora! Ela gostava muito de pintar a Katia. Já tinha feito vários retratos dela. Então, um dia Edith – era o nome da avó -  resolveu pintar a Katia com os seus amigos, o ursinho e o palhaço. Primeiro, ela pintou a neta só com o ursinho que, a essa altura, já tinha nome e se chamava Teddy.

Katia já estava acostumada a posar… ela sabia que precisava ficar quietinha. Mas Edith não precisou falar nada  para o Teddy. Ele também não se mexeu nem um pouco enquanto posava.

Depois, Edith pintou Katia com o palhacinho listrado de vermelho e branco também. E pintou… e pintou… e pintou…

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso II”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 63 X 47cm.

Muitas vezes, Katia ouvia os dois cochicharem: “Quando é que vamos posar de novo? ” Eles adoravam posar com a Katia para a Edith.

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso III”, de Edith Blin. 1956, óleo sobre tela, 61 X 50cm.

Passaram-se anos. Na verdade, sessenta anos. Edith continua pintando no céu. Já ouvi dizer que pinta estrelas e arco-íris.

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O ursinho Teddy e o palhacinho vermelho e branco, sessenta anos depois…

Quanto ao ursinho Teddy e ao palhacinho listrado de vermelho e branco (nunca teve nome), eles continuam por aqui mesmo. Junto com a Katia. Que não é mais menina. Que teve filhos.  E netos.

Tem dia que os três ficam lembrando de como era bom ficar posando para Edith. De como era bom ter sido criança! Afinal, mesmo sexagenários, mesmo com a pele murchando, o pelo faltando ou o pano desbotando, os três continuam amigos e eternos nas pinturas…

 Autor: Catherine Beltrão

Sangue, tempo e aquarelas

Minha família veio de longe. De terras brumosas e brumas uivantes. E de tempos em tempos, a saudade costuma ganhar peso. Nessas horas, recorre-se a fotos antigas, a objetos que teimam não apodrecer… e que justificam nossas lembranças. Como algumas das aquarelas de Wambach.

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“Retrato de Edith”, de Georges Wambach. 1932, aquarela, 16 X 18cm

Georges Wambach (1902-1965), grande aquarelista nascido em Anvers/Bélgica, era muito boêmio e conheceu minha avó Edith Blin (1891-1983) em 1926, na época em que ela era atriz de teatro. Edith era uma mulher lindíssima e, mesmo sendo casada e mãe de três filhos, atraía olhares e provocava emoções masculinas. Wambach ficou fascinado por essa atriz apaixonante e foi se aproximando da família… Fez retratos da mãe de Edith, dos irmãos de Edith, dos sobrinhos, dos filhos… até chegar nela.

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“Bonne Maman” (mãe de Edith), de Georges Wambach. 1938, aquarela, 38 X 32cm

Para compor este post que fala de tempos passados e de sangues familiares, um poema sublime de Cecília Meireles: “Memória

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“Retrato de Jean” (irmão de Edith), de Georges Wambach. 1933, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe,
 com trajos de circunstância:
 uns converteram-se em flores,
 outros em pedra, água, líquen;
 alguns, de tanta distância,
 nem têm vestígios que indiquem
 uma certa orientação.

Minha família anda longe,
– na Terra, na Lua, em Marte –
uns dançando pelos ares,
 outros perdidos no chão.

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“Retrato de Raymonde” (irmã de Edith), de Georges Wambach. 1931, aquarela, 20 X 14cm

Tão longe a minha família!
 Tão dividida em pedaços!
 Um pedaço em cada parte…
Pelas esquinas do tempo,
 brincam meus irmãos antigos:
 uns anjos, outros palhaços…
Seus vultos de labareda
 rompem-se como retratos
 feitos em papel de seda.
 Vejo lábios, vejo braços,
– por um momento persigo-os;
 de repente, os mais exatos
 perdem sua exatidão.
 Se falo, nada responde.
 Depois, tudo vira vento,
 e nem o meu pensamento
 pode compreender por onde
 passaram nem onde estão.

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“Retrato de Jeannine” (sobrinha de Edith), de Georges Wambach. 1933, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe.
 Mas eu sei reconhecê-la:
 um cílio dentro do oceano,
 um pulso sobre uma estrela,
 uma ruga num caminho
 caída como pulseira,
 um joelho em cima da espuma,
 um movimento sozinho
 aparecido na poeira…
Mas tudo vai sem nenhuma
 noção de destino humano,
 de humana recordação.

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“Retrato de Georges” (filho de Edith), de Georges Wambach. 1928, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe.
 Reflete-se em minha vida,
 mas não acontece nada:
 por mais que eu esteja lembrada,
 ela se faz de esquecida:
 não há comunicação!
 Uns são nuvem, outros, lesma…
Vejo as asas, sinto os passos
 de meus anjos e palhaços,
 numa ambígua trajetória
 de que sou o espelho e a história.
 Murmuro para mim mesma:
“É tudo imaginação!”

Mas sei que tudo é memória…

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“Retrato de Ivan” (filho de Edith, meu pai), de Georges Wambach. 1929, aquarela, 20 X 14cm

O tempo passa. E o sangue continua correndo nas veias da família Blin. Mesmo naqueles que não mais possuem o Blin em seu nome. Pois eu sou a última da família, aqui no Brasil, a ter este privilégio.

  Autor: Catherine Beltrão

As mulheres de Picasso

No dia em que é inaugurada a exposição  “Picasso: mão erudita, olho selvagem” no Instituto Tomie Ohtake  em São Paulo, vale fazer um registro sobre as mulheres de Picasso que, com certeza, nortearam sua vida amorosa e, consequentemente, sua arte.

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“Retrato de Fernande Olivier”, por Picasso. 1906.

“Retrato de Eva Gouel”, de Picasso

Pablo Picasso (1881-1973) tinha 23 anos quando conheceu Fernande Olivier na cidade de Paris. Fernande era artista e modelo vivo, e posou para diversas obras da Fase Rosa do artista, inclusive na famosa obra “Les Demoiselles d’Avignon“. Picasso teria pintado cerca de 60 retratos de Fernande. Foi a única mulher de Picasso que o conheceu antes da fama. Ela esteve envolvida com Picasso por 7 anos e, mais tarde, escreveu um livro - “Loving Picasso” – sobre esse período afetivo, que só foi publicado em 1988.

Já rico e afamado, Picasso deixou Fernande por Marcelle Humbert, conhecida como Eva Gouel, a quem chamava de “Ma jolie“. Foi a segunda companheira e musa de Picasso, durante  sua época cubista, de 1911 a 1915. Eva faleceu precocemente aos 30 anos, em 1915, em decorrência de tuberculose e câncer, deixando o artista completamente devastado.

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“Retrato de Olga Khokhlova, em uma poltrona”, por Picasso

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“Le rêve”, de Picasso. Um dos retratos de Marie-Thérèse Walter

Depois da morte de Eva, Picasso demorou 3 anos para se envolver novamente. Em 1918, Picasso conheceu Olga Khokhlova, bailarina da companhia de Sergei Diaghilev, para quem o artista estava desenvolvendo os figurinos e cenários do ballet Parade, em conjunto com o compositor Erik Satie e o dramaturgo Jean Cocteau. Picasso e Olga se casaram em 1918 e tiveram um filho três anos depois, Paulo. Foi uma união com muitos conflitos, uma vez que Olga era da alta sociedade e Picasso preferia uma vida mais boêmia e livre.  Olga ficou casada com Picasso até 1955, mas no período em que ficaram juntos, Picasso teve outros envolvimentos amorosos.

Ainda oficialmente casado com Olga, em 1927 Picasso conheceu Marie-Thérèse Walter, então com 17 anos de idade. Afetivamente separado de Olga, Picasso e Marie-Thérèse mantiveram uma relação extra conjugal duradoura e tiveram uma filha, Maya, em 1935. A relação durou até 1936.

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“Dora Maar au chat”, de Picasso. 1941, ost, 130 X 97cm

Um ano após o nascimento de Maya, em 1936, Picasso se apaixonou pela artista e fotógrafa iugoslava Dora Maar. Ela esteve com Picasso até 1944 e foi sua musa inspiradora, sua “private muse“. Dora fotografou  a evolução das etapas da pintura do famoso quadro “Guernica”, obra prima do pintor. Um dos retratos que Picasso fez de Dora, “Dora Maar au chat” foi leiloado em maio de 2006, pelo valor de 95,2 milhões de dólares, tornando-se, assim, uma das mais caras do mundo.

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“Retrato de Françoise Gilot”, de Picasso.

Em 1944, ainda casado com Olga mas separado de Dora, o sexagenário Picasso começou uma relação com Françoise Gilot, uma jovem estudante de artes. Os dois ficaram juntos por  cerca de 10 anos e tiveram dois filhos: Claude, nascido em 1947 e Paloma, nascida em 1949. Em 1964, antes do livro de Fernande Olivier, Françoise também publicou um livro de memórias, intitulado “Life with Picasso“, que descreve a parceria artística, as infidelidades e as complicações de seu relacionamento com o grande artista.

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“Retrato de Jacqueline Roque”, por Picasso.

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“Retrato de Geneviève Laporte”, por Picasso.

Em 1951, ainda casado com Olga Khokhlova, e mesmo  envolvido com Françoise Gilot,  Picasso manteve um caso durante dois anos com Geneviève Laporte, que era quatro anos mais  nova que Françoise.

Françoise deixou Picasso em 1953. Nos vinte anos que se seguiram, até sua morte em 1973, Picasso teve somente mais uma mulher que permaneceu com ele até o fim de seus dias. Jacqueline Roque conheceu Picasso na Riviera Francesa, na Cerâmica Madoura, onde ela trabalhava e onde ele criava e pintava seus trabalhos em cerâmica. Eles se tornaram amantes, casando-se em 1961.  Foi a segunda mulher de Picasso. Picasso criou muitas obras baseadas em Jacqueline, pintando em um só ano, cerca de 70 retratos.

Fernande, Eva, Olga, Marie-Thérèse, Dora, Françoise, Geneviève e Jacqueline: oito mulheres. Um artista: Picasso. E milhares de obras.

Autor: Catherine Beltrão

Um dia em 1972

Não lembro o dia. Nem o mês. Só o ano: 1972. Neste dia, eu fui, uma vez mais, modelo de Edith. Edith Blin, minha avó. Edith, cúmplice de vida e de alma.

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“Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Edith dando os últimos retoques na obra.

Minha avó me pintou 129 vezes, em 32 anos. Desde que eu nasci até a sua partida. Foram 32 anos de cumplicidade em 129 registros de amor.

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Nas telas e no cotidiano com minha avó Edith, meu nome é Katia. Catherine é para os outros.

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A cada vez que posava, um compositor se fazia presente: Bach, Chopin, Liszt, Debussy, Villa-Lobos. Não importa. A música nos unia.

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Neste dia de 1972, deve ter sido Franz Liszt. Talvez a “Bénédiction de Dieu dans la solitude“, com Claudio Arrau ao piano.

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E, como já escrevi em depoimento de 2006, acerca de ter sido modelo de Edith: “Hoje, percebo que esta comunhão e esta interação fundamentaram minha vida a tal ponto que a minha procura de felicidade passa através da Arte e de seu processo de criação.”

Retrato de Katia com vestido roxo estilo marquesa

“Retrato de Katia vestida de roxo estilo marquesa”. 1972, ost, 92 X 73cm.

Ao lado, a obra “Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Foi feita em 1972, a óleo sobre tela. Dimensão: 92 X 73cm. O vestido roxo era de veludo de seda, tendo sido de minha avó, quando jovem. O longo colar é feito de contas de âmbar. A gargantilha tem um pendente cujo desenho é um tucano feito com asas de borboleta. O vestido não existe mais. O colar e a gargantilha, sim.

Neste 8 de maio, Dia das Mães, quando o sentimento brota sem fazer esforço, a lembrança daquele dia em 1972, faz 44 anos já, traz para o presente o som e o cheiro de um daqueles momentos mágicos, partilhados com aquela que foi minha mãe de coração, mãe de alma, mãe de criação, mãe de Arte: minha avó Edith Blin.

Autor: Catherine Beltrão

 

Modigliani e o amor de Jeanne Hébuterne

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Amedeo Modigliani, em 1906.

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Jeanne Hébuterne, em 1917.

Amedeo Clemente Modigliani (1884-1920) foi um artista plástico e escultor italiano que viveu em Paris. Artista principalmente figurativo, tornou-se célebre sobretudo por seus retratos e nus femininos caracterizados por rostos e pescoços alongados, à maneira das máscaras africanas.

Jeanne Hébuterne (1898-1920), jovem pintora e que já tinha sido retratada por Tsuguharu Foujita (1886-1968), conheceu Modigliani em 1917, no Café de La Rotonde, em Paris. O pintor, que tinha fama de mulherengo,  conquistou Jeanne rapidamente. Primeiro ele a desenhou, em seguida a levou para um hotel miserável e a pintou. Ela tinha dezoito anos; ele, trinta e um.

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“Jeanne Hébuterne (au chapeau)”. 1917, 77 × 51.5 cm

Até sua morte, em 1920, Modigliani realizou vários retratos de Jeanne.

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“Portrait de jeanne Hébuterne”. 1919.

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“Portrait de Jeanne”. 1918.

Em novembro de 1918, Jeanne deu a luz a uma menina, que recebeu o mesmo nome da mãe, Jeanne Modigliani (1918-1984), sendo reconhecida como filha por Modigliani.

No final de junho de 1919, Jeanne estava grávida novamente. E renunciada por sua família: ela havia escolhido viver com Modigliani. A vida do casal era bastante complicada e Modigliani tinha a saúde debilitada, devido a uma tuberculose mal curada e ao consumo excessivo de álcool e drogas. Em janeiro de 1920, amigos encontraram Modigliani ardendo em febre e delirando. Não havia nem carvão e nem água. Jeanne, grávida de nove meses, estava muito fraca, quase não tinham comida e se alimentavam apenas de sardinhas enlatadas. Ficaram esquecidos por todos e trancados no estúdio por uma semana.

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“Portrait de Jeanne Hébuterne”. 1920.

Na noite de 24 de janeiro de 1920, aos 35 anos, Modigliani morreu de tuberculose meningítica. Foi sepultado no famoso Cemitério do Père-Lachaise, em Paris.

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“Portrait de Jeanne Hébuterne”

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“Portrait de Jeanne Hébuterne”.1918, ost, 91x73cm

No dia seguinte à morte do companheiro, Jeanne, grávida de nove meses, suicidou-se, atirando-se do quinto andar do prédio onde viviam seus pais. Ela tinha 21 anos.

Enquanto o sepultamento de Modigliani foi um estrondoso acontecimento público, o corpo de Jeanne Hébuterne foi sepultado no mesmo dia às escondidas pelos pais, no cemitério de Bagneux. Sua filha foi criada pelas irmãs de Modigliani, e cresceu sem saber o que ocorrera com os pais. Apenas nove anos depois, o irmão mais velho de Modigliani conseguiu convencer a família Hébuterne a trasladar os restos mortais de Jeanne e seu filho que não nasceu para o cemitério do Père- Lachaise, junto ao corpo de seu grande amor.

Menos de um século após a morte de Amedeo e Jeanne, a obra de Modigliani é uma das mais valorizadas do mercado de arte. Recentemente, em novembro de 2015, foi arrematada a obraNu couché“, a segunda mais valorizada em leilões internacionais: US$ 170,4 milhões. A obra de Jeanne Hébuterne é praticamente desconhecida.

Autor: Catherine Beltrão

Lançamento do site do projeto “Edith Blin – uma Revolução Francesa”

Acaba de ser lançado o site do Projeto “Edith Blin – uma Revolução Francesa“. O site objetiva a divulgação do Projeto para a sua viabilização através de parcerias, apoios e patrocínios.

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Edith Blin nos anos 40

Edith Blin (1891-1983) nasceu em Pontorson, pequena cidade da região da Normandia/França e morreu no Rio de Janeiro. A partir de 1935, Edith se radicou no Brasil, fugindo do nazismo e do prenúncio do que viria a ser a Segunda Guerra Mundial. Autodidata, começou a pintar em 1942,  inconformada com as atrocidades que ocorriam na França.

Questionou um amigo pintor, que pintava paisagens bucólicas enquanto seu país se contorcia em sangue. A resposta – Quer pintar a guerra, então pinte você! 

O episódio trouxe o início de uma brilhante carreira como pintora para Edith Blin, iniciada justamente com uma série de quadros que tinham como tema a Resistência Francesa,  mas retratavam todo o trauma vivido pelo país durante o conflito mundial.

O Projeto prevê uma retrospectiva da obra de Edith Blin, destacando a série sobre a Resistência Francesa e alguns dos 129 retratos que fez de sua neta Catherine . O projeto prevê ainda o lançamento de um catálogo de sua obra com mesa-redonda e convidados, sob a coordenação de Catherine Beltrão, guardiã do acervo da artista.

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Home do site do Projeto

O projeto prevê também a possibilidade de desenvolver uma minissérie sobre a vida de Edith Blin à luz de seu tempo, tendo como pano de fundo o panorama conturbado do mundo em que vivia, sua passagem pelo teatro nos anos 20, os casamentos e nascimentos de seus filhos, sua vinda para o Brasil com o aquarelista Georges Wambach e a força de sua arte no panorama brasileiro, a partir da década de 1940.

O período compreendido iria de 1906 (adolescência da artista) até 1983 (ano de sua morte), com destaque para as quatro décadas de sua produção pictórica e com foco em dois temas: a Resistência Francesa e os 129 retratos da neta Catherine.

Edith Blin – uma Revolução Francesa” é um projeto fantástico. E um projeto fantástico precisa de uma equipe fantástica. Que acredita no tripé Ciência, Tecnologia e Arte para a viabilização de sonhos. Esta equipe fantástica, neste momento inicial, é composta dos seguintes participantes:

Catherine Beltrão: Engenheira, Idealizadora do Projeto e Conteudista do Site; Filipe Schuenck: Engenheiro de Software e Web Designer; Eduardo Vieira: Designer e Estrategista; Rose Aguiar: Artista Visual e Arte Educadora e Annelise Gripp: Personal & Professional Coach e Gerente de Projetos.