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Criar é uma forma de resistir

Há várias formas de resistir a um status quo, à inércia, a uma situação negativa, que vai contra o Ideal de qualquer um de nós. Uma delas é através da criação. A personagem é uma pintora francesa, autodidata, que pintou, nos anos 40, a Resistência Francesa em solo brasileiro.

Um tributo a Edith Blin, a “pintora da alma“.

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Cartaz convite para a palestra “Criar é uma forma de resistir”, na FECAP/SP, proferida em 11.05.2018.
Dueto de Arte e História, com a profa. Catherine Beltrão e a profa. Daniela Medeiros.

Edith Blin nasceu na cidade de Pontorson, na Normandia, região ao norte da França, em 22 de julho de 1891. Esta cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, uma das maravilhas do mundo. Edith casou duas vezes e teve três filhos.

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Edith como atriz de teatro, nos anos 20.

Nos anos 20 e início dos anos 30, foi atriz, adotando o nome de Edith Dereine. Como atriz, conheceu o pintor belga Georges Wambach, que iria ser decisivo em sua decisão de pintar. Em 1935, embarcou com a família e o amigo Wambach para o Brasil, no navio Bagé. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, ainda no Brasil, ela teria perguntado ao pintor por que ele continuava pintando paisagens bucólicas enquanto a Europa era devastada pelos nazistas. E Wambach teria respondido: “ Por que não pinta você o que você sente?”.

E ela começou a pintar.

Maquis

“Maquis”, de Edith Blin. 1945, óleo sobre madeira, 41 X 33cm

Autodidata, um ano depois ela fazia sua primeira exposição. Sucesso total. Muitas matérias e artigos em jornais e revistas. O tema principal era a Resistência Francesa, mas ela também pintava nus e retratos. Em 1945 e 1946, mais duas exposições. Mais sucesso. Mais artigos em jornais. Teve até obra estampada em capa de revista.

Juin 1940

“Juin 1940″, de Edith Blin. 1943, óleo sobre tela, 100 X 65cm

Em 1947, sua mãe ficou doente e pediu para voltar para a França.

Pieta

“Piétà de Normandie”, de Edith Blin. 1947, óleo sobre madeira, 102 X 78cm

Elas voltaram e Edith doou duas obras para serem leiloadas em um evento visando obter fundos para a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na Batalha de Saillant -de-l’Odon, na Normandia. Em agradecimento pelas doações, ela recebeu, então, um pergaminho manuscrito da comunidade local, dotado de mapa, selos e insígnias, relatando a batalha e um texto sobre sua obra.

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Pergaminho sobre a Batalha de Saillant-sur-Odon, entregue a Edith Blin, em agradecimento à doação de duas obras visando a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na batalha.

Ao final deste mesmo ano, sua mãe morreu. Edith não queria mais pintar. Em meados de 1948, sua neta Katia nasceu. A mãe de Katia estava doente e não podia cuidar do bebê. Edith então assumiu a criação da neta. Em 1949, voltou para o Brasil. Enquanto cuidava de Katia, voltou a pintar. Os temas eram variados: flores, paisagens, pierrôs, bailarinas, naturezas mortas e rostos. Muitos rostos. Entre eles, retratos. Muitos retratos.

Edith Blin só voltou a expor em 1969. Neste período, ela já tinha aprimorado muito a sua técnica, usando a cartolina preta como suporte, além da habitual tela. Pintava com pincéis e espátulas para espalhar a tinta a óleo na tela ou cartolina, e os próprios dedos, quando fazia uso do pastel. Fez tantos pastéis, que perdeu as digitais de alguns dedos. Como estudos, deixou muitos desenhos a carvão em vários cadernos. Participou de algumas exposições individuais e coletivas, até sofrer o primeiro derrame cerebral, em 1979. Continuou pintando por mais um ano, mas os derrames se sucederam até sua morte, que ocorreu em 29 de julho de 1983. Tinha 92 anos.

Paris

“Paris”, de Edith Blin. 1944, óleo sobre tela, 64 X 53cm

Edith Blin , “la peintre de l’âme” (“a pintora da alma”), deixou um imenso legado. Seu legado não é dimensionado somente pelas obras pintadas, estimadas em cerca de 1300. O legado é muito mais qualitativo do que quantitativo. O que importa é por que pintou, o que pintou e como pintou. Autodidata, começou a pintar porque precisava expressar um sentimento de angústia por sua pátria e seus patrícios que eram dizimados na guerra. Pintou a resistência francesa, pintou os nus etéreos e pintou as flores ao vento. Pintou 148 retratos da neta Katia, de bebê aos 32 anos idade. E inovou na forma de pintar, com o uso da cartolina preta como suporte para suas obras, nos anos 60. Segundo ela mesma dizia, “era mais fácil de rasgar quando não gostava do que havia pintado”.

Autor: Catherine Beltrão

Lançamento do site do projeto “Edith Blin – uma Revolução Francesa”

Acaba de ser lançado o site do Projeto “Edith Blin – uma Revolução Francesa“. O site objetiva a divulgação do Projeto para a sua viabilização através de parcerias, apoios e patrocínios.

Edith

Edith Blin nos anos 40

Edith Blin (1891-1983) nasceu em Pontorson, pequena cidade da região da Normandia/França e morreu no Rio de Janeiro. A partir de 1935, Edith se radicou no Brasil, fugindo do nazismo e do prenúncio do que viria a ser a Segunda Guerra Mundial. Autodidata, começou a pintar em 1942,  inconformada com as atrocidades que ocorriam na França.

Questionou um amigo pintor, que pintava paisagens bucólicas enquanto seu país se contorcia em sangue. A resposta – Quer pintar a guerra, então pinte você! 

O episódio trouxe o início de uma brilhante carreira como pintora para Edith Blin, iniciada justamente com uma série de quadros que tinham como tema a Resistência Francesa,  mas retratavam todo o trauma vivido pelo país durante o conflito mundial.

O Projeto prevê uma retrospectiva da obra de Edith Blin, destacando a série sobre a Resistência Francesa e alguns dos 129 retratos que fez de sua neta Catherine . O projeto prevê ainda o lançamento de um catálogo de sua obra com mesa-redonda e convidados, sob a coordenação de Catherine Beltrão, guardiã do acervo da artista.

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Home do site do Projeto

O projeto prevê também a possibilidade de desenvolver uma minissérie sobre a vida de Edith Blin à luz de seu tempo, tendo como pano de fundo o panorama conturbado do mundo em que vivia, sua passagem pelo teatro nos anos 20, os casamentos e nascimentos de seus filhos, sua vinda para o Brasil com o aquarelista Georges Wambach e a força de sua arte no panorama brasileiro, a partir da década de 1940.

O período compreendido iria de 1906 (adolescência da artista) até 1983 (ano de sua morte), com destaque para as quatro décadas de sua produção pictórica e com foco em dois temas: a Resistência Francesa e os 129 retratos da neta Catherine.

Edith Blin – uma Revolução Francesa” é um projeto fantástico. E um projeto fantástico precisa de uma equipe fantástica. Que acredita no tripé Ciência, Tecnologia e Arte para a viabilização de sonhos. Esta equipe fantástica, neste momento inicial, é composta dos seguintes participantes:

Catherine Beltrão: Engenheira, Idealizadora do Projeto e Conteudista do Site; Filipe Schuenck: Engenheiro de Software e Web Designer; Eduardo Vieira: Designer e Estrategista; Rose Aguiar: Artista Visual e Arte Educadora e Annelise Gripp: Personal & Professional Coach e Gerente de Projetos.

Junho 1940 – junho 2015: 75 anos da rendição da França aos nazistas

A Segunda Guerra Mundial – 1939 a 1945 - mobilizou cerca de 100 milhões de militares e foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 a mais de 70 milhões de mortes. Seis anos de conflitos entre nações do mundo inteiro, representando uma das duas facções pilares desta guerra: os Aliados e o Eixo. Mas o ano de 1940 foi cruelmente especial para a França. A rendição oficial dos franceses ao domínio nazista se deu em 22 de junho de 1940 em Compiègne, no mesmo trem que a Alemanha, em 1918, ao final da Grande Guerra, fora forçada a se render.

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“Co-co-ri-co”, de Edith Blin. 1942, osm, 27 X 22cm

Aqui no Brasil, uma francesa resolveu pintar sua angústia, dando vazão ao que sentia longe de sua pátria e de seus familiares, atingidos em cheio pelo conflito. Edith Blin (1891-1983) era normanda. Começou a pintar em 1941. Poucos meses se passaram e surgiu a obra “Co-co-ri-co“, um primeiro grito ecoando de sua alma francesa.

A Batalha de Dunquerque (Bataille de Dunkerque, em francês) foi uma batalha que durou de 25 de Maio a 4 de Junho de 1940. Uma enorme força britânica e francesa ficou encurralada por uma divisão panzer alemã a nordeste da França e entre o canal costeiro de Calais. Mais de 300 000 soldados aliados foram evacuados por via marítima.

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“Dunkerque!”, de Edith Blin. 1945, ost, 45 X 61cm

A Força Expedicionária Britânica foi evacuada no que ficou conhecido como a Batalha de Dunquerque na Operação Dínamo, e muitas unidades francesas juntaram-se à Resistência ou passaram ao lado dos Aliados.

Para Edith, Dunquerque abatida foi representada pelas flores caídas e desprendidas do galho que as sustentava. A dor da angústia em forma de poesia.

Após a Batalha de Dunquerque, vários episódios aconteceram em junho de 1940, envolvendo a ocupação progressiva de territórios franceses pelas forças alemães e italianas.

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“Paris!”, de Edith Blin. 1944, ost, 64 X 53cm

A Itália declarou guerra à França em 10 de junho. Paris foi ocupada em 14 de junho, e o Governo Francês fugiu para Bordéus no mesmo dia.

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“Juin 1940″, de Edith Blin. 1943, ost, 100 X 65cm

Em 17 de junho, o Marechal Pétain anunciou publicamente que a França iria propor um armistício, que foi assinado pela França e a Alemanha em 22 de junho, quando se deu a rendição do Segundo Grupo do Exército Francês. O armistício entrou em vigor a 25 de junho.

Nas obras “Paris!” e “Juin 1940“, Edith Blin demonstra que a altivez da alma francesa, muito além de qualquer derrota ou rendição, estará sempre presente em cada cidadão remanescente. E através desta altivez, a França abatida irá se reerguer.

 A Resistência Francesa, chamada na França de La Résistance, designa o conjunto de movimentos e redes que durante a Segunda Guerra Mundial prosseguiu a luta contra o Eixo e os seus delegados colaboracionistas desde do armistício do 25 de Junho de 1940 até à Liberação em 1944. Seus membros eram conhecidos como partisans (partidários, em francês) ou maquisards.

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“Maquis”, de Edith Blin. 1945, osm, 41 X 33cm

Considerada sua obra-prima, o “Maquis” de Edith Blin é um hino à Resistência Francesa. O olhar deste homem jovem e sofrido transmite toda a determinação de seguir em frente até a libertação final da pátria à qual pertence.

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“Normandie!”, de Edith Blin. 1944, ost, 27 X 21cm

A Batalha da Normandia continua sendo uma das batalhas mais conhecidas da Segunda Guerra Mundial. Na língua comum, a expressão Dia D é usada até hoje para a data de começo da invasão, em 6 de Junho de 1944.

Ao lado, a obra “Normandie!“, de Edith Blin. Impossível não perceber o sentimento de liberdade que se desprende da pintura. Quando se compara os olhares nos rostos representados nas duas obras – “Co-co-ri-co” e “Normandie!” – existe um caminho trilhado de uma guerra em que milhões de vidas foram dizimadas, e que nem assim conseguiu tirar da alma francesa o sentimento genuíno de liberdade.

Edith Blin criou várias outras obras que constam da série “A Resistência Francesa“.  Para quem tiver interesse, vale acessar os links sobre as obras “Pietá” e “França livre“.

 Autor: Catherine Beltrão

Da série “Quase cinzas de uma obra permanente”: França livre

Dando prosseguimento à série “Quase cinzas de uma obra permanente“, apresentando os registros mediáticos de algumas obras da artista francesa Edith Blin (1891-1983), a vez agora é da obra “França livre“, de 1943.

É bom salientar que Edith pintou esta tela poucos meses depois de começar a desenhar tudo o que via pela frente e a mexer nos pincéis. A obra, produzida em solo brasileiro mas com a alma junto aos seus compatriotas franceses, participou da sua primeira exposição, realizada no Palace Hotel/RJ.

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“França livre”, de Edith Blin. 1943, ost.

Em março de 1943, a revista “Sombra”,  em sua edição de n• 16, publicou a matéria “A Arte não tem idade“, de autoria do célebre Jean Manzon. Abaixo, um trecho da matéria:

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Matéria na revista “Sombra”, de março 1943. Na foto, Edith segura duas telas, sendo uma delas a “França livre”.

“… Em uma ruazinha de Copacabana há uma casa – pequena e sem importância, não fora o que significam os seus moradores. São franceses exilados, porém franceses que vivem e respiram a luta incessante que alimenta as veias da França gloriosa. São duas senhoras: uma avó normanda e sua filha.

A primeira trouxe consigo o sotaque dos pescadores do Mont Saint Michel e o bom gosto que os normandos tem pelos calvados. Ela nos conta intermináveis histórias sobre as três guerras que atravessou – 1870, 1914, 1939 – e não tarda em chegar à definição rápida e conclusiva: “On les aura, ces sales boches!”. E é com ela que está a razão.

Sua filha, sra. Edith Blin, devotou-se à pintura com a mesma inspiração e fervor com que os monges se entrega a sua religião. A arte é relativamente nova para ela, que vem pintando há apenas seis meses. Mas o que ela pinta é expressivo e eloquente, porque em suas telas ela derrama tudo o que a inquieta e faz sofrer, tudo aquilo por que ela chora e gostaria de clamar ao mundo. Trabalha infatigavelmente.   …

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Matéria publicada no jornal “Carioca”, em 1943. No cavalete, a obra “França livre”.

Durante o seu primeiro ano de pintura, muito foi publicado em jornais e revistas da época, acerca do “fenômeno” Edith. Uma dessas matérias foi a apresentada no jornal “Carioca”, em seu n• 387, intitulada “Exposição de arte da sra. Edith Blin“:

Em sua residência, à rua Miguel de Lemos, em Copacabana, a sra. Edith Blin fez há dias uma exposição de seus quadros. Mme. Edith Blin é uma pintora de grande expressão. As telas que tem pintado revelam bem a força de sua originalidade e o poder que possue de transmitir a emoção e a vida através das fisionomias que retraça. Damos nessa página alguns flagrantes tomados na residência da ilustre pintora, bem assim a reprodução de alguns de seus quadros“.

De 15 de outubro a 3 de novembro, Edith fez sua primeira exposição, no Palace Hotel do Rio de Janeiro. Muitos registros foram feitos em revistas e jornais. Um destes registros, na revista Ilustração Brasileira, n• 103, de novembro 1943, apresentou uma bela foto com várias obras da exposição, estando entre elas a “França livre“, acompanhada do texto “A primeira exposição de Edith Blin“:

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Publicação na revista “Ilustração Brasileira”, de novembro de 1943.

No salão nobre do Palace Hotel e sob o patrocínio da Associação dos Artistas Brasileiros, Edith Blin acaba de expor as suas telas, encantando e surpreendendo a todos quantos lá estiveram, pela beleza e originalidade das composições apresentadas e principalmente por se tratar da primeira exposição da inspirada artista.

Jarbas de Carvalho, presidente da A. A. B., assim se expressou sobre Edith Blin:

Edith Blin expõe pela primeira vez. Não pegou pincéis em sua adolescência. Ao contrário, só depois de mulher feita é que sentiu a sugestão e começou a pintar, já com mão firme. Discípula de Georges Wambach, não se demorou ao calor de sua alta inspiração: libertou-se logo, adquirindo força, valor peculiar, como a crisálida que rompe o casulo para ser ninfa e voar com as próprias asas. Vendo suas telas, ninguém dirá que está diante de obra de mestre. Revelarão talvez recursos técnicos ainda não atingidos. Mas, é uma pintura diferente, onde se sente caráter individual e energia interior”.

França livre” é uma das primeiras obras pintadas por Edith Blin. Mais de 70 anos se passaram desde então. A força expressiva desta obra magnífica só fez aumentar no decorrer das décadas. O olhar destemido da mulher com o filho recém-nascido no colo, envolta nas cores da bandeira francesa, clamam por liberdade. Com ou sem igualdade. Com ou sem fraternidade. Mas liberdade acima de tudo.

Para quem tiver curiosidade de ler mais posts sobre a série “Quase cinzas de uma obra permanente“, clique nos links abaixo:

“Carnaval e quase cinzas… de Edith Blin” (post que deu origem à série); “Quase cinzas de uma obra permanente”: Piéta (parte I) ; “Quase cinzas de uma obra permanente”: Piéta (parte II); “Quase cinzas de uma obra permanente”: Marquesa; “Quase cinzas de uma obra permanente”: Junho 1940.

 Autor: Catherine Beltrão

Da série “Quase cinzas de uma obra permanente”: Junho 1940

Os anos 40 foram marcados pela Segunda Guerra Mundial. Em 14 de junho,  Paris foi ocupada pelo alemães nazistas. É sobre este episódio que Edith Blin (1891-1983) pintou a tela “Juin 1940“, a quarta obra apresentada na série “Quase cinzas de uma obra permanente“.

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“Juin 1940″, de Edith Blin. 1943, ost, 100 X 65cm

 

Pintada em 1943, um ano depois de começar a pintar, a obra fez parte da primeira exposição de Edith, realizada no Palace Hotel, Rio de Janeiro, em outubro deste mesmo ano.  Mostra uma alegoria à França, representada por uma mulher (provavelmente ela mesma, Edith, como modelo), altiva e determinada, aos pés de uma escada, disposta a subir seus degraus, deixando para trás uma França arrasada.

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Matéria publicada no “Diário Carioca”, em 20.10.1943

Esta obra teve grande repercussão mediática, sendo reproduzida em alguns jornais da época. Uma dessas reproduções foi no jornal “Diário Carioca“, edição 4.708, de 20 de outubro de 1943. Junto à imagem da obra “O Despertar de um Gigante“, a obra “Juin 1940” aparece na matéria “Exposição Edith Blin no Palace Hotel“, onde se destaca o seguinte trecho:

“… Edith Blin é uma artista sem pretensões. Sua arte é uma parte de sua alma, de seu sentimento de uma grande inspiração artística.

No seu primeiro quadro, “Juin 1940″ (na matéria aparece “Juin 14″, aparentemente um erro da edição), uma figura de mulher, que olha com desprezo para tudo que ficou atrás de si, com um sorriso significativo, misto de dor e de esperança, vemos a França ofendida, subindo para a glória e para a libertação.      ...

Em toda a pintura de Edith Blin há um sentido patriótico, um grito da mulher francesa pela pátria ultrajada. ”

Em outra reportagem, desta vez na “Revista Franco Brasileira“, número 118, de novembro de 1943, a obra “Juin 1940” também foi reproduzida, desta vez ilustrando a matéria de Yvan Laroche, em sua “Croniqueta Darte”. Abaixo, parte do texto, que evoca a exposição do Palace Hotel:

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Matéria publicada na “Revista Franco-Brasileira”, em novembro de 1943.

” … A obra é notável pela sua diversidade. Não há, na realidade, uma exposição, porém diversas exposições, cada qual diferente das demais por causa dos seus motivos, devido à impressões que ela provoca.

Logo de início, e em razão dos acontecimentos destes últimos anos, figuram alegorias. E ali, que ela exprimiu, como dum primeiro lanço, a sua dor e o seu orgulho de francesa. É a sua alma que ela atirou sobre as telas. “Juin 1940″, “Les deux armes”, “Le drapeau”, todas são violentas, como sufocadas pelo ódio e pelo desgosto em face das monstruosidades da guerra.  Nunca, em qualquer dos olhares, aparece a derrota, coisa que a França não conhece.  …

Madame Blin pinta as vezes com o vigor de um homem, mas é mulher e tem um sensibilidade aguda que se traduz com plenitude, com a intuição inteligente que a anima toda e acrescenta um carácter novo a sua arte. Há vigor sem vencer, e algo que enfraquece a expressão. E parece que esta brutalidade aparente, esta natureza selvagem, está bem no espírito dos dias atuais, ensombrados pela tragédia que se desenrola na Europa, e a que pessoa alguma pode ficar indiferente. A artista é uma grande patriota. ” …

É impossível deixar se perder uma obra como esta, testemunho de um tempo de atrocidades mundiais, em que mesmo distante fisicamente, Edith Blin conseguiu expressar com toda a sua sensibilidade de artista, a dor e a angústia que lhe passava na alma.

Para quem tiver curiosidade de ler mais posts sobre a série “Quase cinzas de uma obra permanente“, clique nos links abaixo:

“Carnaval e quase cinzas… de Edith Blin” (post que deu origem à série); “Quase cinzas de uma obra permanente”: Piéta (parte I) ; “Quase cinzas de uma obra permanente”: Piéta (parte II); “Quase cinzas de uma obra permanente”: Marquesa.

 Autor: Catherine Beltrão

 

“Maquis”, de Edith Blin (1891-1983)

Em meu post anterior, disse que acreditava que a valorização de uma obra passava pela sua história, pela trajetória percorrida desde a sua criação.

Decidi então, a partir de agora, postar pequenos textos sobre as histórias que conheço sobre algumas obras, sejam elas de autores renomados ou não. Inicio esta série pela história de uma das obras-primas da pintora Edith Blin, intitulada “Maquis”.

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Edith Blin – “Maquis”, óleo sobre madeira, 41 X 33cm, 1945

Esta obra representa o rosto de um homem que participou da Resistência Francesa, na Segunda Guerra Mundial. Foi exposta pela primeira vez em 1945, de 14 a 30 de agosto, na Galeria Montparnasse, à rua Siqueira Campos nº 10, em Copacabana. Nesta ocasião, a autora não a vendeu mesmo tendo sido feita a oferta de compra de todos os quadros da mostra caso esta obra também fosse adquirida pelo comprador.

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Convite da exposição de 1946

Menos de um ano depois, em junho de 1946, a obra participou da terceira exposição da artista, desta vez no Salão Nobre do Palace Hotel, no centro do Rio de Janeiro, tendo sido, inclusive, sua imagem estampada na frente do convite da mostra.

Edith nunca vendeu esta obra. Após sua morte, o quadro participou da exposição do “Centenário de Edith Blin”, em 1991, realizada na Galeria PresenteArte, em Ipanema/RJ.

Para quem tiver curiosidade sobre a relação de Edith Blin com a Resistência Francesa, clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Edith Blin e a Resistência Francesa

Edith Blin nasceu em 22 de julho de 1891, na cidadezinha de Pontorson, na região francesa da Normandia. Essa cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, um dos ícones franceses mais conhecidos do mundo, junto à Tour Eiffel. Se todos os que visitaram o Mont Saint-Michel não conseguem mais esquecê-lo pela vida afora, não é difícil imaginar o que representava este lugar para Edith! Para ela, era simplesmente um lugar sagrado, símbolo maior da grandeza da França.

E por que iniciar este post falando do Mont Saint-Michel? O que ele  tem a ver com a Resistência Francesa? Para Edith Blin, tem tudo a ver. A paixão de Edith pela Normandia, a região onde nasceu, é a mesma paixão que a fez expressar seus sentimentos através da pintura, nos anos 40.

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Edith Blin nos anos 20, como atriz de teatro

Edith passou os primeiros 50 anos de sua vida sem ter nenhuma relação com pincéis e telas, não tendo frequentado sequer uma aula de pintura. Nos anos 20, trabalhou como atriz na Companhia de Teatro Molière, cuja sede ficava no nº 1 da Avenue du Congo, em Bruxelas, usando o nome de Edith Dereine. Após dois casamentos e tendo tido três filhos, foi somente em 1942, com a idade de 51 anos, que Edith decidiu pintar, desafiada por Georges Wambach, grande aquarelista e representante da iconografia brasileira. (Este episódio foi narrado em outro post deste blog, de 20.02.2014. Se quiser ler este post, clique aqui).

Mesmo habitando terras brasileiras, Edith se angustiava com o sofrimento de seus patrícios na Europa, vitimados pela Segunda Guerra Mundial. Resolveu então expressar seus sentimentos através da pintura.  Após o desafio de Wambach, foram 13 meses de trabalho intenso para Edith. No atelier improvisado de sua então moradia, situada à rua Miguel Lemos em Copacabana, nº 57, Edith desenhava e pintava, Edith pintava e desenhava. Colocava nos desenhos e nas telas toda a angústia que sentia pela França bombardeada, pelo seu povo sofrendo as atrocidades da guerra.

Edith - Cocorico

“Co-co-ri-co”, osm, 1942, 27 X 22cm

Edith - Normandie

“Normandie!”, ost, 1944, 27 X 21cm

Em 1943, Edith fez sua 1ª exposição, quando 46 telas foram expostas no Salão Nobre do Palace Hotel, no centro do Rio de Janeiro. A afluência de público foi enorme – muitos queriam ver as obras de uma pintora que havia  começado a pintar apenas há alguns meses – e a crítica foi unânime em elogiar a força expressiva que suas obras transmitiam. A grande maioria dos trabalhos foram figuras, fortes e vigorosas, com sentido patriótico.  Entre as obras apresentadas, estavam  “Cocorico” e  “Normandie!“. Entre as presenças que deixaram seu autógrafo em 18 folhas do Livro de Assinaturas da exposição, estavam Henrique e Yvonne Visconti Cavalleiro, Jarbas Vasconcellos, Lopes da Silva, Nivouliés de Pierrefort, Álvarus, Paulo Gagarin, João Austregésilo de Athayde, Georgina de Albuquerque, João Pott, Arnaldo Damasceno Vieira (assinou 6 vezes o Livro), ….

Edith - Paris

“Paris”, ost, 1943, 64 X 53cm

Edith - Maquis

“Maquis”, osm, 1945, 41 X 33xm

A 2ª exposição veio em 1945, quando 43 obras foram expostas na Galeria Montparnasse, à rua Siqueira Campos nº 10, em Copacabana. A França continuava sempre presente em suas telas: “Maquis” e “Paris” constavam desta exposição. Entre inúmeras matérias e críticas publicadas em jornais da época, eis o que dizia Edmundo Lys, crítico e grande amigo de Edith: “A essa exposição podíamos chamar “alma da França”, pois aquelas telas, aquelas figuras são momentos de beleza e heroísmo, espírito da França em imagens, por sobre as quais ondeia a bandeira tricolor e de cujo silêncio parece subir a voz da França, entoando o hino imortal da Liberdade.”

Em 1945, era esse o pensamento de Edith:  “Sobre a arte moderna, direi apenas que o assunto é por  demais vasto e complexo para  que possamos defini-lo.  Não concebo na arte uma maneira de pintar, um estilo.  Mas sim a maneira de sentir porque é a única maneira  capaz de exprimir alguma coisa de real significado. Não há maneira de  pintar, ela deve se diferenciar  em cada obra. A tensão  nervosa deve mudar segundo o tema a desenvolver. Esta é a minha opinião.”

Edith - Pieta

“Piétà“, osm, 1947, 102 X 78cm

Documento Tourville

Manuscrito sobre a batalha Tourville-sur-Odon

Em 1947, Edith  viajou para a França, realizando duas exposições em Paris,  uma na Galerie Séverin-Mars e outra na École des Beaux-Arts. Na cidade de Caen, Normandia, mais precisamente no dia 4 de outubro deste mesmo ano, foi colocado em leilão, em prol do Monumento Comunal do Cemitério Militar de Tourville-sur-Odon, a obra “Pietá“. Trata-se de uma obra fortíssima, um jovem carregando uma mulher nos braços, tendo por trás ruínas de uma cidade devastada pela guerra. Pelos relatos de Edith, teriam posado para esta pintura seu irmão Jean e sua sobrinha Jeannine. A cidade em ruínas seria Caen.

A doação desta obra para o leilão deu origem a um manuscrito – relatando a batalha de Tourville-sur-Odon e o agradecimento da cidade pela doação – oferecido para Edith. Acerca da obra “Pietá“, assim falou Paul Lecompte, grande prêmio de Roma: “Ela se eleva muito alto, acima da massa dos pintores e alguma coisa de indefinível, de misterioso -  que ultrapassa a todos nós – se desprende de sua obra. Simplesmente Edith, pássaro das ilhas, é uma grande, uma muito grande artista!

Mais informações: www.edithblin.com

Autor: Catherine Beltrão