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Paletas e autorretratos (Parte I)

Para um pintor, a paleta é seu camarim. É ali que ele se prepara, prepara sua obra, veste suas cores, do dia ou da noite.

Neste post, decidi apresentar a paleta acompanhada de um autorretrato de cada pintor. Nada mais íntimo de sua alma.

Vincent van Gogh (1853-1890)

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Paleta Van Gogh

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Autorretrato Van Gogh. 1889

 

Nesta parte I, junto às paletas e autorretratos de doze artistas, é apresentado um texto sobre a paleta de Renoir, escrito pelo seu filho Jean Renoir, no livro “Pierre-Auguste Renoir, meu Pai” , págs 336 a 338, 2005, Ed. Bizâncio, Lisboa.

 

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

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Paleta Renoir

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Autorretrato Renoir. 1879

A paleta de Renoir era limpa como uma moeda nova. Era uma paleta quadrada que se encaixava na tampa do estojo, que tinha a mesma forma. Num dos godés duplos, punha óleo de linhaça puro e no outro uma mistura de óleo de linhaça com essência de terebentina, em partes iguais. Numa mesa baixa, colocada ao lado do cavalete, tinha um copo cheio de essência de terebentina em que enxaguava o pincel, praticamente após cada aplicação de cor.

 

Salvador Dali (1904-1989)

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Paleta Dali

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Autorretrato Dali. 1941

 

Na caixa, e em cima da mesa, tinha alguns pincéis de reserva. Nunca tinha em uso mais do que dois ou três ao mesmo tempo. Mal começavam a ficar gastos, esborratavam, ou por qualquer outra razão deixavam de lhe proporcionar uma absoluta precisão de pincelada, deitava-os fora. Exigia que destruíssem os pincéis velhos, não fosse ele pegar em algum deles por engano enquanto trabalhava.

 

Marc Chagall (1887-1985)

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Paleta Chagall

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Autorretrato Chagall. 1913

Na mesinha havia também panos limpos, com os quais secava de vez em quando o pincel.

A caixa, tal como a mesa, estavam sempre perfeitamente arrumadas.

Os tubos de tintas eram enrolados a partir da dobra, de forma a obter, ao espremê-los, a quantidade exata de tinta pretendida.

 

Eugène Delacroix (1798-1863)

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Paleta Delacroix

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Autorretrato Delacroix. 1837

 

No princípio da sessão de trabalho, a paleta, que tinha sido limpa no fim da sessão anterior, estava imaculada. Para a limpar, começava por raspá-la, vertendo os resíduos para um papel, que atirava logo para o lume. Em seguida, esfregava-a com um pano embebido em essência de terebentina até que não houvesse o mínimo resquício de tinta na madeira. O pano ia também para o lume.

 

Claude Monet (1840-1926)

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Paleta Monet

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Autorretrato Monet. 1886

 

 

Os pincéis eram lavados com água fria e sabão. Recomendava que esfregassem suavemente os pelos na palma da mão. De vez em quando encarregava-me desta operação, o que me enchia de orgulho.

 

 

Edvard Munch (1863-1944)

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Paleta Munch

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Autorretrato Munch. 1923/24

 

Renoir descreveu pessoalmente a composição da sua paleta numa nota que a seguir transcrevo e que data, evidentemente, do período impressionista:

 

 

 

 

 

 Francis Bacon (1909-1992)

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Paleta Bacon

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Autorretrato Bacon. 1969

Branco de prata, amarelo de cromo, amarelo-de-nápoles, ocre amarelo, terra-de-siena natural, vermelhão, laca de garança, verde-veronês, verde-esmeralda, azul-cobalto, azul-ultramarino, espátula, raspadeira, essência, tudo o que é necessário para pintar. O ocre amarelo, o amarelo-nápoles e a terra-de-siena são meros tons intermédios que são dispensáveis, pois podem fazer-se com outras cores. Pincéis redondos de pelo de marta, pincéis chatos de seda.

Registre-se a ausência do preto, “a rainha das cores”, como ele próprio iria proclamá-lo no seu regresso de Itália.

Pablo Picasso (1881-1973)

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Paleta Picasso

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Autorretrato Picasso. 1907

À medida que se aproxima do fim da vida irá simplificar ainda mais a sua paleta. A ordem de que me lembro na época em que pintava “As Grandes Banhistas” do Louvre, no ateliê de Les Collettes, era a seguinte: começando de baixo, junto da abertura para o polegar, o branco de prata, em quantidade generosa, o amarelo-de-nápoles num montículo minúsculo, tal como todas as cores que se seguem – o ocre amarelo, a terra-de-siena, o ocre vermelho, a laca de garança, a terra verde, o verde-veronês, o azul-cobalto, o negro-marfim.

 

 

 William Turner (1775-1851)

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Paleta Turner

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Autorretrato Turner. 1824

 

Esta seleção de cores não era inalterável. Eu vi Renoir, embora em raras ocasiões aplicar vermelhão chinês que punha na paleta entre a laca de garança e a terra verde. Nem Gabrielle nem eu o vimos usar o ocre de cromo.

 

 

 

 

Frida Kahlo (1907-1954)

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Paleta Frida Kahlo

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Autorretrato Frida Kahlo. 1940

 

Esta exiguidade de meios era impressionante. Os montículos de tinta pareciam perdidos na superfície de madeira, rodeados de vazio. Renoir encetava-os com parcimônia, com respeito. Era como se achasse que iria ofender Mullard, que lhe tinha preparado meticulosamente aquelas cores, se atafulhasse a paleta com elas e depois não as usasse até à mais pequena parcela.

 

 

 Toulouse Lautrec (1864-1901)

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Paleta Lautrec

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Autorretrato Lautrec. 1880

 

 Quase sempre misturava as tintas na tela. Preocupava-se muito em que o quadro mantivesse, ao longo de todas as fases do trabalho, uma impressão de transparência.”

 

 

Continua na Parte II, a ser publicado na próxima semana.

Autor: Catherine Beltrão

Cães e gatos ternos e eternos

Um bicho de estimação não se esquece jamais. Será por quê?

Será pela troca intensa de afetos? Será pela alegria mútua a cada reencontro? Será pelos momentos de compreensão compartilhados?

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“Bijou!”, de Edith Blin. 1962

Quando eu tinha doze anos, me veio a Bijou, uma cadelinha preta da raça lulu. Era meiga,  inteligente e afetiva. Esteve comigo até os meus dezessete anos. Foram cinco anos de convívio diário e de descobertas do mundo. Nascida carioca, morou comigo em São Paulo naquele inesquecível ano de 1964.  Quando morreu, aos cinco anos, uma parte minha também se foi. E nunca quis que Bijou fosse substituída em meu coração. Ela foi, e continua sendo, única em minha vida.

Pois é. Vez por outra, encontramos cachorros e gatos em pinturas, poemas e escritos. Resolvi juntar alguns deles e apresentar aqui.

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“Gato dormindo”, de Renoir.

“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.”  Crônica de Carlos Drummond de Andrade.

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“Menina na cadeira de braço” (detalhe), de Mary Cassatt. 1878

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“Gato”, de Pablo Picasso. 1942

Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” , de Milan Kundera.

O Perigo da Hesitação Prolongada, de Victor Hugo.

Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta. Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?» Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura. Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos.

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“Cão”, de Giacometti. 1951.

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí…
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!, de Mário Quintana.

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“Gato multicor”, de Aldemir Martins.

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios.”, de Lord Byron.

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“Cabeça de cachorro”, de Renoir.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

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“Gato com peixes vermelhos”, de Matisse

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.”  Lygia Fagundes Telles

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“Cachorro roendo o osso”, de Camille Claudel

Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo.” Lygia Fagundes Telles

 Autor: Catherine Beltrão

Detalhes

Detalhe é um pedaço. De um pensamento. De uma atitude. De um fazer. Quase sempre, um pedaço bem pequeno. Ou até muito pequeno. Mas, um detalhe não é coisa menor. Pode até ficar grande. Muito grande. Imenso. Como são os detalhes de certas pinturas. Ou esculturas.

Mãos. É bom começar pelas mãos. Pelas mãos da “Canção” de Cecília Meireles.

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Detalhe das mãos de “O pensador”, de Rodin.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

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Detalhe das mãos de “David”, de Michelangelo.

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Detalhe das mãos de Plutão, em “O rapto de Prosérpina”, de Bernini.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Van Gogh

Depois das mãos, o detalhe do olhar. O olhar de Vinicius de Moraes, em seu “Soneto da Separação“.

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Detalhe do olhar de Mona Lisa, de Da Vinci.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Lucien Freud.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

E aí chega a hora do detalhe da flor. Mas, dentro da flor, fica a palavra do “Apanhador de desperdícios“, de Manoel de Barros.

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Detalhe de uma das “Ninfeias”, de Monet.

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

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Detalhe de “Flores em um vaso”, de Renoir.

Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

As mãos, o olhar, flores. Palavras. Os versos. Einstein sabia das coisas:

Eu quero conhecer os pensamentos de Deus; o resto são detalhes“.

Autor: Catherine Beltrão

Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

Era uma vez o impressionismo de Renoir

A luz da manhã, o movimento da vida acontecendo, as cores desabrochando, tudo me fez pensar que hoje é dia de falar sobre o Impressionismo. Mais especificamente, sobre o impressionismo de Renoir: “Numa manhã um de nós já não tinha preto, e assim nasceu o Impressionismo“.

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“O Camarote”, de Renoir. 1876.

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) passou pelo Impressionismo no período de 1870 a 1883. Pintou várias paisagens mas preferia  retratar a vida social urbana. E foi isso que o levou a pintar “L’avant-scène” (“O Camarote“), em 1876, em seu apartamento de Montmartre. A imagem descreve um casal burguês sentado no seu camarote do Opéra de Paris, já prenunciando os vários retratos que iria pintar no decorrer de sua existência.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1876.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1874.

Renoir pintou muitos retratos. E teve vários modelos. Um deles foi a atriz de nome Madame Henriot, que trabalhava na Comédie Française. Os retratos de Mme Henriot, pintados por Renoir, são hoje considerados os mais belos e encantadores do movimento impressionista.

Sem trocadilhos, estas obras são de uma beleza que impressiona, cuja luz que emana das telas chega mesmo a ofuscar os olhos de quem as contempla.

Também em 1876, Renoir pinta “La balançoire” (“O balanço“). A pintura mostra uma jovem em um balanço, conversando com um homem. Ao pé deles, está uma menina e um segundo homem apoiado numa árvore. Os modelos são Edmond, irmão de Renoir, o pintor Norbert Goeneutte, e Jeanne, uma jovem de Montmartre (pode ser a filha de Mme Henriot).

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“O balanço”, de Renoir. 1876.

A obra “Le bal du  Moulin de la Galette” é a mais célebre e significativa obra de Renoir. Foi exibida pela primeira vez no Salon em 1877, na exposição dos impressionistas. Embora o rosto de alguns dos seus amigos apareçam na imagem, como o cubano Cárdenas à esquerda dançando com uma moça, e Frank Lamy, Norbert Goeneutte e Georges Rivière sentados à mesa, a intenção de Renoir era captar a vivacidade e a atmosfera alegre desta popular dança de jardim no bairro de Montmartre, nas imediações do Moulin, hoje celebrizado pela tela.

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“Le bal du Moulin de la Galette”, de Renoir. 1876.

Assim Renoir representou a Belle Époque (1870-1914) de Paris na França, um período de grande florescer artístico e econômico. A obra foi adquirida por Gustave Caillebotte que a deixou ao estado francês, juntamente com toda a sua coleção. Porém, Renoir fez uma pequena cópia desta tela, que se tornou uma das telas mais caras já vendida. (Mais “Moulin de la Galette“, clique aqui).

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“La liseuse”, de Renoir. 1876.

Mais uma obra de 1876 e a minha preferida de Renoir. Trata-se de “A liseuse“. Renoir gostava muito do tema de uma mulher deleitando-se com a leitura. Pintou várias liseuses… Mas essa tem uma luminosidade invulgar e o sorriso mais belo do impressionismo.

Nada se sabe sobre a jovem modelo. Mas ela continua lá, no Musée d’ Orsay, indiferente a quem a observa, mergulhada e envolvida pelas palavras que vai desvendando numa leitura atenta e persistente. Os olhares de admiração de quem a contempla não a afetam, ela sabe do seu sorriso e acredita na luz de seu criador e mestre. (Mais “liseuses“, clique aqui).

 Em 1883, Renoir disse: “Por volta de 1883, eu tinha esgotado o Impressionismo e finalmente chegado à conclusão de que não sabia pintar nem desenhar“.

 Autor: Catherine Beltrão

Ateliers e versos… (Parte I)

Conheço bastante o que vem a ser o atelier de um artista. Por três décadas convivi com o cheiro e as cores de tintas virando formas, com telas se empilhando em paredes e chão. Nesses espaços de arte, servi de modelo e escrevi versos.

Pretendo nesse post apresentar ateliers de alguns artistas que amo, ligados a versos meus que também amo.  Como são muitos os artistas e não menos os versos, será uma trilogia.  Aqui, a Parte 1.

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Atelier de Marc Chagall

Fluxos e Anseios (maio de 1977)

Volto para o tempo dos sons despertos
no abandono da dor.
Volto para as cores da noite
que se movimenta e me percorre.
A tristeza se desprega dos pontos
de encontro e se encontra perdida
entre um e outro pensamento.
Sou das que arrebentam a paz,
das que se misturam às águas
do horizonte e do universo
para poder ser totalmente eu.
Venho mergulhar no desespero maior
da agonia crescente do conhecimento.
Sinto o poder da vertigem
a devorar corpos e espaço.

Volto para a juventude inacabada
de meus fluxos e anseios.

Atelier de Paul Cezanne

Adormeço em branco (setembro de 1978)

Sinto-me inerte.
Não apática.
Não presa.
Não na espera.
Mas pisando, pousando
Encostando, empurrando
Me achando plenamente
Debruçada na inércia.

Tento a voz,
me vem o sopro.
Tento o gesto,
me vem o peso.
Tento a lágrima,
o silêncio impede.

 Devolvo tristeza a estrelas.
Entrego poesia no acalanto do asfalto.
Desnudo a mente da ilusão.
Adormeço morna … e em branco.

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Atelier de Pierre-Auguste Renoir

Momento de agonia (março de 1975)

Respiro intensamente
mais um momento de agonia.
Tranco meus sentimentos,
fujo do presente,
Perco-me no etéreo da vida.
Meu corpo se atrofia
contemplando o horizonte
de minha imaginação.
As estrelas passaram
de incentivo a objetivo.
O amor me consumiu
até a eternidade…
Constato aos poucos
A perda do sentido humano
de minha existência.

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Atelier de Auguste Rodin

Vez da fantasia (outubro de 1974)

Foi numa tarde igual
Toda morna e de fumaça
Que fui saber das coisas.

Me consumiste de segredos
Me confundiste com teus medos…

Foi o pranto que chegou
E que logo se fez saudade
Que o espanto deixou passar.

Me pressentiste na poesia
Me preveniste da alegria…

Foi a vez da fantasia
Estranhar o acontecido
e se debruçar na paisagem.

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Atelier de Pablo Picasso

Sem unidade (outubro de 1974)

Estou sem unidade.
Fui dividida
até o último pedaço.
Não passo de um resto
de vontade de ser.
Me vomitaram ideias
abortadas de mentes
insatisfeitas.
Estou desacionada.
Fui colocada
no fundo da noite.
Não consigo me juntar
a qualquer sentimento.
Me deixaram sem útero,
com um cérebro tenso.

Chagall, Cézanne, Renoir, Rodin e Picasso. Cinco imensos artistas. Em seus espaços de criação. E se junto meus versos a estes espaços é que aprendi a amá-los plenamente.

Autor: Catherine Beltrão

Renoir e Guignard: banhistas e flores no verão de fevereiro

55 anos e um oceano separam a vinda ao mundo destes dois imensos artistas. Ambos de 25 de fevereiro, Pierre Auguste Renoir nasceu em 1841, na cidade de Limoges/França e Alberto da Veiga Guignard nasceu em 1896, em Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro.

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“Banhista enxugando a perna direita”, de Renoir. ost, 1910

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“Banhista arrumando seus cabelos”, de Renoir. Ost, 1893.

Renoir, um dos grandes nomes do impressionismo, nunca deixou de lado o cuidado com a forma. Desde o princípio, sua obra foi influenciada pelo sensualismo e pela elegância do rococó. Embora tenha pintado naturezas mortas, flores e paisagens, foi na figura humana – sobretudo na figura feminina – que ele deixou seu maior legado. Ninguém pintou como ele as formas generosas das mulheres dos séculos XIX e XX, dando forma e fama à série “Banhistas“.

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“As grandes banhistas”, de Renoir. Ost, 1918-9.

 

Guignard_vasocomflores_1933Guignard_semtitulo_1937Guignard foi um artista completo, atuando em todos os gêneros da pintura: de naturezas mortas, paisagens e retratos até pinturas com temática religiosa e política, além de temas alegóricos. Mas foi pintando exuberantes vasos de flores é que Guignard alcançou, mais tarde, uma grande valorização em suas obras.  É dele o “Vaso de Flores“, arrematado em um leilão da Bolsa de Arte, em agosto de 2015, por R$ 5,7 milhões, tornando-se até então, a obra de arte mais valiosa de um brasileiro já vendida em um leilão.

 

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“Vaso de Flores”, de Guignard. Ost, 1933. A obra de arte mais valiosa de um pintor brasileiro já vendida em um leilão.

A tela foi pintada em 1933, sendo apresentada no 1° Salão Paulista de Belas Artes, em 1934. A obra já pertenceu a Mário de Andrade e fez parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

Autor: Catherine Beltrão

 

Outonos perenes

Mais um outono que chega. Para nós, o outono é uma estação. Uma das quatro. Morna. Nem fria nem quente. Nem alegre nem triste. Simplesmente amena. Tão somente plácida.

Mas um pintor pensa diferente. Para ele, o outono é tão importante que ele precisa permanecer eterno. Perene. Como estes outonos europeus do século XIX, eternizados pelos impressionistas franceses Claude Monet (1840-1926) e Pierre-Auguste Renoir (1841-1919),  da comuna de Argenteuil, na França.

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“Outono no Sena em Argenteuil”, de Claude Monet

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“Ponte em Argenteuil no Outono”, de Renoir

O tempo passa, trazendo e levando outonos. E trazendo e levando artistas que pintam outonos. Como estes dos austríacos Gustav Klimt (1862-1918), simbolista, e Egon Schiele (1890-1918), expressionista.

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“Madeira de bétula”, de Gustav Klimt

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“Arvores de outono”, de Egon Schiele

Os anos trouxeram novos outonos e mais pintores. Entre eles, Wassily Kandinsky (1866-1944), abstracionista russo, que pintou um outono na Baviera, região da Alemanha.

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“Outono na Baviera”, de Wassily Kandinsky

Na música, existe uma canção que eternizou todos os outonos: “Les Feuilles Mortes”, com a letra do poeta maior francês Jacques Prévert.   Em 1945, Prévert escreveu o roteiro do filme “Les Portes de la Nuit“, baseado no ballet “Le Rendez-Vous“, criado por Roland Petit neste mesmo ano. Petit e Prevért … que dupla!

Foram – e continuam sendo - muitos os intérpretes de “Feuilles Mortes“. Mas é impossível não deixar registradas aqui as interpretações de Yves Montand (1921-1991) e de Andrea Bocelli (1958).

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Vídeo com Yves Montand, interpretando “Les Feuilles Mortes”

Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois je n’ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Les souvenirs et les regrets aussi

Et le vent du nord les emportent
Dans la nuit froide de l’oubli
Tu vois, je n’ai pas oublié
La chanson que tu me chantais

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Vídeo com Andrea Bocelli, interpretando “Les Feuilles Mortes”

C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais, et je t’aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m’aimait, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants desunis

C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais, et je t’aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m’aimait, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aime
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants désunis

Outonos. Amenos e plácidos pedaços de tempo. Do tempo que passa, fluindo pela vida que segue, sempre em frente, até o último instante… de um certo outono.

 Autor: Catherine Beltrão

Moulin de la Galette, o “point” parisiense do século XIX

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Moulin de la Galette, em 1885

As origens do famoso Moulin de la Galette, situado à rua Lepic, na Butte de Montmartre, em Paris, lugar eternizado por vários artistas do século XIX, remonta a 200 anos anos antes, em 1622, quando nasceu o moinho le Blute-fin. Um outro moinho, o le Radet, nascido em 1717, juntou-se ao le Blute-fin, quando os dois foram adquiridos pela família Debray, em 1809.

Uma bela história de bravura e heroísmo envolve estes dois moinhos, defendidos pelos Debray na Batalha de Paris em 1814, contra as forças europeias que atacavam o império napoleônico. Conta-se que, após o ataque aos moinhos, um dos irmãos sobreviventes se refugiou com seu filho no le Radet mas, infelizmente, foi capturado, cortado em quatro pedaços, cada um dos quais amarrado nas pás do seu moinho. Seu filho sobreviveu e, anos mais tarde, deu o nome  de Moulin de la Galette ao lugar.

De simples moinhos a transformar trigo em pão e uva em vinho, o Moulin passou também, a partir dos anos 1860, a promover bailes,  com ambiente descontraído e clientela popular. Virou um “point” de artistas: Renoir, Caillebote, Toulouse Lautrec, Van Gogh, Utrillo, Dufy, Picasso…

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Le Bal du Moulin de la Galette, de Renoir. 1876, ost, 131 cm × 175 cm – Museu de Orsay, Paris

Pierre Auguste Renoir (1841-1919) pintou “Le bal du Moulin de la Galette” em 1876, e foi considerada a sua obra mais célebre e significativa, dando início à criação de muitas outras obras de diversas pintores. Foi exibida pela primeira vez no Salon em 1877, na exposição dos impressionistas. A intenção de Renoir era captar a vivacidade e a atmosfera alegre desta popular dança de jardim no bairro de Montmartre, representando a Belle Époque (1870-1914) de Paris, um período de grande florescer artístico e econômico. Hoje, esta tela é uma das mais caras do mundo.

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“Le Moulin de la Galette”, de van Gogh. 1886, ost, 46 X 38cm.

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Le Moulin de la Galette”, de Toulouse-Lautrec. 1889, ost, 89,9 X 101,3cm. Art Institute of Chicago, Illinois, USA

Visitando frequentemente seu irmão Theo, que morava em Montmarte perto do moinho, Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou, em 1886, uma série de Moulin de la Galette. Mas, diferentemente de Renoir, ele se interessou mais em pintar seus arredores que, naquela época, representava a região periférica de Paris, povoado de gente modesta. Em 1887, dizia van Gogh: “Não há nada além de Paris, e por mais difícil que a vida  possa ser aqui, o ar francês limpa o cérebro e faz bem, muitíssimo bem.

Em 1889, Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), assíduo frequentador do lugar, pintou também várias versões do Moulin de la Galette. Da mesma forma que Renoir, ele também priorizou os bailes e o aspecto de divertimento do Moulin. Lautrec, que também era ilustrador, produziu vários cartazes de bailes ocorridos naqueles salões e jardins.

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“Le Moulin de la Galette”, de Picasso. 1900, ost, 90,2 X 117cm. Guggenheim Museum, New York

Pablo Picasso (1881-1973) pintou o seu Moulin de la Galette ainda bem jovem, em 1900. Recém chegado de Barcelona, foi a primeira obra pintada em Paris. Picasso, a exemplo de Renoir e Lautrec, adotou a posição de observador, mostrando a artificialidade e os aspectos de apelo provocativo da festa.

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“Sacré-Coeur et Moulin”, de Utrillo. Anos 30, ost .

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“Paris, Montmartre, le Moulin de la Galette”, de Dufy. Ost, 38 X 46cm

Maurice Utrillo (1883-1955) nasceu e morreu em Montmartre. Eternizou as ruelas e prédios do local, produzindo muitas versões do Moulin de la Galette. Devido a sua natureza solitária e soturna, Utrillo seguiu a vertente de van Gogh, mostrando o Moulin visto de fora, longe de suas atividades mundanas.

Embora Jean Dufy (1888-1964 ) tenha feito várias versões “d’après Renoir “ do Moulin de la Galette, ele também criou suas próprias representações do moinho. Nelas, Dufy preferiu se posicionar junto a Utrillo e van Gogh, representando os arredores do Moulin.

Qualquer um pode perceber o teor emblemático deste fantástico lugar. Começando pela sua história, datando de cerca de quatro séculos, passando pelas magníficas obras que  grandes artistas criaram, mesclando seus sentimentos e sua arte perante o local, resta a nós, simples admiradores de Paris, reverenciarmos o eterno “Moulin de la Galette“!

 Autor: Catherine Beltrão

Violões em foco

Gosto muito de relacionar coisas. Outro dia, estava pensando em qual seria o instrumento musical mais representado na pintura. Após alguma pesquisa na Internet (olha ela aí de novo…), o violão já despontava na frente. Senão, vejamos:

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Renoir – “Jeune espagnole avec une guitare”, 1898, ost, National Galery of Art, Washington DC

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Vermeer – “La joueuse de guitare”, cerca de 1672, ost, 53 X 46,3 cm, Kenwood House, Londres

Inicio com “Mulher tocando violão” , de Jan Vermeer (Holanda, 1632 – 1675).  Vermeer, pintor consagrado com sua “Moça com brinco de pérola“,  deixou somente 37 obras já catalogadas. Entre elas, esta outra pérola, um dos raros personagens sorridentes do pintor.

Sigo a minha pequena relação com a “Jovem espanhola tocando violão“, de Auguste Renoir (França, 1841 – 1919). Esta é uma das muitas obras que Renoir pintou moças e violões…

Primeiro deleite sonoro: Gavotte 1  e 2, de J. S. Bach, tocadas por Andrés Segovia (vídeo).

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Rousseau – “La gitane endormie”, 1897, ost, 129,5 X 200,7cm, Museum of Modern Art, New York,

A lista segue com “A cigana adormecida“, de  Le Douanier Rousseau (França, 1844 – 1910), uma das pinturas naives mais conhecidas do século XX.  O próprio Rousseau comentou sua obra: “Uma caminhante negra, tocadora de bandolim, com uma ânfora ao lado (contendo água de beber), exausta da caminhada, dorme profundamente. Um leão aparece, aproxima-se e a cheira, mas não a devora. O luar é muito poético. A cena acontece em pleno deserto. A cigana usa roupas orientais.”

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Gris – “Arlequin à la guitare”, 1919, ost, 116 X 89cm. Coleção privada

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Picasso – “Vieux guitarriste aveugle”, 1903, osm, 122,8 X 82,6cm. Art Institute of Chicago

Dois grandes nomes e duas magníficas obras são agora acrescentadas à relação:  Juan Gris (Espanha, 1887 – 1927), com o “Arlequim com guitarra” e Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973), com o “Velho guitarrista cego“.

Em seus quarenta anos de vida, o cubista Juan Gris pintou várias obras com violões. Este “Arlequim” foi inspirado pela Commedia dell’arte, que também inspirou Picasso e Cocteau. E por falar em Picasso, o seu “Velho guitarrista” é uma das obras primas da fase azul, e uma de minhas preferidas deste pintor.

Segundo deleite sonoro: Choro n•1, de Villa Lobos, tocado por Turíbio Santos (vídeo).

 

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Matisse – “La musique”, 1939, ost, 115 X 115cm. Albright-Knox Art Gallery, Buffalo, NY, USA.

O próximo é Henri Matisse (França, 1869 – 1954), com a obra “A Música“. É uma belíssima  composição do artista, apresentando total domínio sobre a disposição das figuras, formas e cores. Interessante observar as pernas da mulher à esquerda e o violão, dispostos na diagonal da tela, a mesma posição dos braços de ambas as mulheres, a repetição das cores do vestido e pernas da mulher à esquerda com o violão…

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Di Cavalcanti – “Moças com Violões”, 1937, ost, 49,8 X 60,8cm. Coleção Gilberto Chateaubriand – MAM RJ

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Bottero – “Hombre com guitarra”, 1989, ost, 165 X 127cm

Finalizando a relação, mais dois expoentes da pintura moderna: Di Cavalcanti (Brasil, 1897 – 1976), com sua “Moças com Violões” e Fernando Bottero (Colômbia, 1932), com “Homem com violão“.

O denominador comum que une esses dois artistas são suas figuras rotundas, cada qual com seu estilo. Como disse um dia o crítico Frederico Morais, “Di Cavalcanti deu à mulata brasileira a dignidade da madona renascentista, madonizou a nossa mulata.” Que bonito isso… Quanto a Bottero, a exemplo de Juan Gris, são muitas as obras que pintou com violões, seja acompanhando figuras humanas, seja compondo naturezas mortas.

Terceiro deleite sonoro: Tango Suite, de Astor Piazolla, com Duo Assad , composto para a dupla (vídeo).

Gostaria de frisar que a micro relação apresentada, constando de somente oito peças, pouco representa do universo de obras sobre o tema  “violão na pintura”. São centenas de obras existentes, de renomados artistas. Caso alguém queira saber um pouco mais, clique aqui: este site apresenta 196 obras com o tema!

Em tempo: resolvi inserir neste post três vídeos apresentando momentos de rara beleza musical, reunindo músicos e compositores de primeiríssima estirpe: Segóvia tocando Bach, Turíbio tocando Villa-Lobos e o Duo Assad tocando Piazzola. Quer mais?

Autor: Catherine Beltrão