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Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte II)

Após as monumentais bibliotecas (clique aqui) do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, do Clementinum,  em Praga e do Mosteiro Beneditino, na Áustria, é a vez de apresentar três magníficas livrarias.

Começo pela famosa Livraria Lello, localizada na cidade do Porto, em Portugal. Esta livraria ostenta uma estilo arquitetônico único, combinando neogótico com “art nouveau” e “art déco”.

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Livraria Lello, no Porto/Portugal. Escadaria principal.

A história da livraria Lello é também a história dos irmãos Lello. José e António Lello nasceram na Casa de Ramadas, freguesia de Fontes, em Santa Marta de Penaguião, filhos de um proprietário rural. José Lello é o primeiro a vir para o Porto. Homem de cultura, amante da leitura, dos livros e da música, sonha tornar-se livreiro, o que vem a acontecer com a abertura da primeira livraria e editora em 1881 com o seu cunhado. Após o falecimento deste, José Lello constitui a sociedade José Pinto de Sousa Lello & Irmão, com o irmão Antônio Lello, 9 anos mais novo.

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Livraria Lello.

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Livraria Lello. Fachada externa.

Os irmãos Lello estabelecem-se na Rua do Almada, desconhecendo ainda que o edifício que levaria o seu nome até ao próximo milênio se encontrava a poucos quarteirões. A atividade editorial da Lello e Irmãos era marcada por uma paixão pelos livros e pela cultura. Este amor à arte deu origem à criação de edições especiais, editadas em número reduzido, com a colaboração de artistas plásticos, como ilustradores e pintores, e com enorme cuidado gráfico.

É em 1894 que José Pinto de Sousa Lello compra a Livraria Chardron aos então donos, juntamente com todo o seu espólio. Embora estivesse já  em outras mãos, esta livraria tinha feito o seu nome pela mão do francês Ernesto Chardron. Este influente editor era um motor do setor, tendo publicado as primeiras edições de obras eternamente sonantes como as de Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco, por exemplo. Esta ambiciosa ampliação da Lello e Irmãos precisava de ser acompanhada de um quartel condizente com a renovada importância no setor. O edifício da Rua das Carmelitas é então moldado pela visão suntuosa do engenheiro Francisco Xavier Esteves. E é em 1906 a inauguração do espaço como hoje é conhecido.

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Livraria El Ateneo, em Buenos Aires/Argentina.

Em 2008, a livraria Ateneo Grand Splendid, uma das mais conhecidas de Buenos Aires, foi classificada pelo jornal britânico “The Guardian” como a segunda mais bonita do mundo.

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Livraria El Ateneo.

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Livraria El Ateneo

O edifício foi projetado pelos arquitetos Peró e Torres Armengol e aberto como um teatro em 1919. Palco de diversos espetáculos de tango feitos por artistas como Carlos Gardel e Roberto Firpo no passado, ela possui estilo eclético, com afrescos pintados pelo artista italiano Nazareno Orlandi, no teto, e cariátides esculpidas por Troiano Troiani. O teatro acabou sendo fechado e, em 2000 foi comprado pela cadeia de livrarias Yenni. Atualmente, a Ateneo Grand Splendid conta com 120 mil exemplares de livros, um bar e um café, localizados no palco do antigo teatro.

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Livraria Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen, em  Maastricht/Holanda

A livraria que foi considerada campeã na lista do “The Guardian” é a holandesa Boekhandel Selexyz Dominicanen, localizada na cidade de Maastricht. O nome pomposo faz jus ao ambiente: a livraria foi montada em 2007 dentro de uma exuberante igreja dominicana do século XII que há anos encontrava-se abandonada, servindo de depósito de bicicletas. O contraste da estrutura gótica da igreja com a decoração interior moderna dá um charme extra à ideia que, por si só, já atrai curiosos.

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

A igreja Dominicana original foi construída em 1294, cerca de 80 anos após São Domingos ter formado a Ordem dos Pregadores. O fechamento é geralmente creditado a Napoleão Bonaparte. Seu exército fechou o edifício durante a invasão de 1794, apesar do respeito de Napoleão e seu carisma com a religião católica, forma de manter a ordem social.

A igreja não caiu em ruínas, mas passou os próximos dois séculos abandonada e negligenciada. A imponente igreja dominicana do século XII foi restaurada, resultando num contraste incrível entre a estrutura gótica externa e a decoração interior moderna, um charme para poucos. Hoje, a estrutura tem uma estante de três andares completa, com passarelas, escadas e elevadores.

Quando os livros se mesclam à beleza e à imponência de um lugar, não há limite para a nossa imaginação e nem mesmo para a nossa felicidade.

 Autor: Catherine Beltrão

 

Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte I)

Estamos em plena Bienal Internacional do Livro. É a 18ª e acontece no Rio de Janeiro. É inevitável a lembrança das mais belas bibliotecas e livrarias que existem pelo mundo afora. O tema merece dois posts: um para as bibliotecas, outro para as livrarias. Três bibliotecas e três livrarias.

Começo pelas bibliotecas. E começo pela brasileira. O Real Gabinete Português de Leitura fica situado no Rio de Janeiro e é a associação mais antiga criada pelos portugueses do Brasil após a independência de 1822.

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Real Gabinente Português de Leitura, Rio de Janeiro/Brasil

Em 14 de Maio de 1837, um grupo de 43 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro reuniu-se na casa do Dr. António José Coelho Lousada, na antiga rua Direita (hoje rua Primeiro de Março), nº 20, e resolveu criar uma biblioteca para ampliar os conhecimentos de seus sócios e dar oportunidade aos portugueses residentes na então capital do Império de ilustrar o seu espírito. É possível que os fundadores do “Gabinete” tenham sido inspirados pelo exemplo vindo da França, onde, logo seguir à revolução de 1789, começaram a aparecer as chamadas “boutiques à lire”, que nada mais eram do que lojas onde se emprestavam livros, por prazo certo, mediante o pagamento de uma determinada quantia.

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Real Gabinete Portuguêsde Leitura

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Real Gabinete Português de Leitura. Fachada externa.

Nas comemorações do tricentenário da morte de Camões (1880), a sede do Gabinete irá ocupar um terreno na antiga rua da Lampadosa.  A sua nova sede, construída em estilo neomanuelino e que foi inaugurada pela Princesa Isabel em 1887, guarda cerca de 350.000 volumes (milhares de obras raras).  Esse acervo maravilhoso está disponível a qualquer um do povo, pois o Real Gabinete é uma biblioteca pública, a partir de 1900.Em 1906, o rei D. Carlos atribui o título de “Real” ao Gabinete e tem lugar, no Salão dos Brasões, uma grande exposição de pinturas de José Malhôa, a cuja inauguração comparece o Presidente Rodrigues Alves.

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Biblioteca Clementinum, Praga/República Tcheca

Construída em 1722, o edifício da Biblioteca Clementinum é uma obra da arquitetura barroca de Praga, capital da República Tcheca. A Biblioteca abriga mais de 20.000 volumes sobre literatura, medicina e teologia. Por muito tempo foi considerada o maior colégio jesuíta do mundo. Seu teto é repleto de afrescos do pintor Jan Hiebl.

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Biblioteca Clementinum. Fachada externa.

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Biblioteca Clementinum.

Sua história remonta à existência de uma capela dedicada a São Clemente, no século 11. Um mosteiro dominicano foi fundado no período medieval, sendo depois transformado, em 1556, em um colégio jesuíta. Em 1622, os jesuítas transferiram a biblioteca da Charles University para o Klementinum, e o colégio foi absorvido pela Universidade em 1654. Os jesuítas permaneceram até 1773, quando o Klementinum foi estabelecido como um observatório, biblioteca e universidade  pela imperatriz Maria Theresa da Áustria.Além dos afrescos que decoram o teto, a biblioteca abriga retratos de santos jesuítas, antigos patronos da biblioteca e outras pessoas proeminentes e  também uma preciosa coleção de globos geográficos e relógios astronômicos, na sua maioria, feitos por padres jesuítas.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino, em Admont/Áustria.

A Biblioteca do Mosteiro Beneditino fica situada em Admont, na Áustria.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Fachada externa.

Foi fundada em 1776 e está integrada num Mosteiro Beneditino.O salão biblioteca, construída em 1776 e  projetada pelo arquiteto Joseph Hueber, em estilo rococó, é de 70 metros de comprimento, 14 metros de largura e 13 metros de altura. É a maior biblioteca monástica do mundo. Possui mais de 180.000 obras, incluindo 1,4 mil manuscritos (o mais antigo do século 8) e os 530 incunábulos (livros impressos antes de 1500), além de volumes antigos e edições originais de obras raras. O teto é composto por sete cúpulas e  tem afrescos do artista austríaco Bartolomeo Altomonte (1657-1745), pintados entre 1775 e 1776, que celebram a ciência e a fé. A luz penetra  por 48 janelas e é refletida pelo esquema de cores originais de ouro e branco.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Sala de leitura.

Quando se eleva a leitura ao nível de uma prece, o homem chega perto de Deus.

Para ler a segunda parte deste texto, apresentando as livrarias Lello, na cidade do Porto, El Ateneo, em Buenos Aires e Boekhandel Selexyz Dominicanen, na Holanda, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

O Galo de Barcelos e os galos de Aldemir

Portugal está em festa e os galos estão em alta, a começar pelo Galo de Barcelos. E, quando se pensa em galos, o primeiro artista que nos vem à mente é, sem sombra de dúvida, Aldemir Martins, o pintor dos galos e dos gatos.

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Galo de Barcelos

Um dos símbolos mais representativos de Portugal é sem dúvida o Galo de Barcelos, considerado por muitos como uma espécie de “mascote” do país. A lenda que lhe está associada é uma das mais importantes lendas medievais do erário popular português.

Há muitos séculos atrás os habitantes de Barcelos andavam alarmados com um crime e, mais ainda com o fato de não se ter descoberto o criminoso que o cometera. Certo dia apareceu por aquele burgo um galego que se tornou suspeito. As autoridades resolveram prendê-lo e, apesar dos seus juramentos de inocência, ninguém acreditou na sua palavra, que estava apenas de passagem em peregrinação a Santiago de Compostela, em cumprimento de uma promessa. Foi por isso condenado à forca. Antes de ser enforcado, como última vontade, o homem pediu que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização, levaram-no à residência do magistrado, que nesse momento se banqueteava com alguns amigos. O galego voltou a afirmar a sua inocência e, perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa e exclamou: “É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem.” Risos e comentários não se fizeram esperar mas, pelo sim pelo não, ninguém tocou no galo. O juiz empurrou o prato para o lado e ignorou o apelo do condenado. Porém, quando o peregrino estava a ser enforcado, o que parecia impossível tornou-se realidade… o galo assado ergueu-se na mesa e cantou. Nesse instante ninguém mais duvidou das afirmações de inocência do condenado. Compreendendo o seu erro, o juiz correu para a forca e descobriu que o galego se salvara graças a um nó mal feito que impediu o seu estrangulamento. O homem foi imediatamente solto e mandado em paz.”

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Aldemir Martins

Aldemir Martins (1922-2006) foi um artista plástico cearense, ilustrador, pintor e escultor autodidata, de grande renome e fama no país e exterior. O artista participou de diversas exposições, no país e no exterior, revelando produção artística intensa e fecunda.

Sua técnica passeia por várias formas de expressão, compreendendo a pintura, gravura, desenho, cerâmica e escultura em diferentes suportes. O artista trabalhou com os mais diferentes tipos de superfície, de pequenas madeiras para caixas de charuto, papéis de carta, cartões, telas de linho, de juta e tecidos variados – algumas vezes sem preparação da base de tela – até formas de pizza, sem contudo perder o forte registro que faz reconhecer a sua obra ao primeiro contato do olhar.

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Galos_AldemirMatins5Galos_AldemirMatins3Seus traços fortes e tons vibrantes imprimem vitalidade e força tais à sua produção que a fazem inconfundível e, mais do que isso, significativa para um povo que se percebe em suas pinturas e desenhos, sempre de forma a reelaborar suas representações.

Aldemir Martins pode ser definido como um artista brasileiro por excelência. A natureza e a gente do Brasil são seus temas mais presentes, pintados e compreendidos através da intuição e da memória afetiva. Nos desenhos de cangaceiros, nos seus peixes, galos, cavalos, nas paisagens, frutas e até na sua série de gatos, transparece uma brasilidade sem culpa que extrapola o eixo temático e alcança as cores, as luzes, os traços e telas de uma cultura.

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Galos_AldemirMatins7SONY DSCA arte de Aldemir Martins é extremamente nacional. A grande circulação de sua obra em produtos industrializados rendeu ao artista a acusação de ser ‘comercial’ – mas, assim, ele foi um dos primeiros a contribuir para a democratização da arte.  Aldemir criou estamparia para tecido, desenhos para azulejos e papel de parede, outdoors, ilustrou livros, pratos, copos, e ainda embalagens de sorvete, que venderam mais de oito milhões de unidades.

Um dia, uma repórter perguntou a Aldemir Martins, numa de suas últimas entrevistas, o que ele quis dizer com sua obra: “Que o mundo é bonito“.

Autor: Catherine Beltrão

Luiza Caetano, simplesmente a excelência na arte naïve

E lá se vão quase treze anos que Luiza e seu universo naïf me fizeram evoluir no entendimento da arte. Até então, eu pertencia àquele grupo – ainda bem que este grupo encolhe a cada dia – que considera o naïf uma arte produzida por artistas menores, artistas que desconsideram fatores como profundidade, luminosidade ou mesmo perspectiva na criação de suas obras. A minha ignorância não percebia que, sem estas pilastras, a obra produzida deve ser sustentada muito mais fortemente por outras como a firmeza no traço, a cor e, sobretudo, a sua significância. Aos poucos, penetrando neste universo, descobri a beleza e a grandiosidade desta arte maior, que tem a capacidade de atingir facilmente corações descobertos e mentes libertas.

Luiza - Frida e Diego

“Frida Kahlo e Diego de Rivera”, ast, 2000

Luiza Caetano nasceu e habita Portugal, mas frequentemente frequenta terras brasileiras, sobretudo o Rio e S.Paulo. Os primeiros contatos que tive com ela foram em 2001, pela Internet, através do site www.artenarede.com.br, quando tive o privilégio de tê-la como uma das primeiras artistas a se cadastrar e a catalogar suas obras no site. Também foi Luiza uma das primeiras artistas cadastradas a doar uma obra – “Diego Rivera e Frida Kahlo” – para o futuro Museu ArtenaRede.

Com o passar dos anos, pude conhecer Luiza pessoalmente, participando de aberturas de algumas de suas exposições no Rio de Janeiro e apresentando-lhe a cidade de Nova Friburgo/RJ, onde moro. Nosso último encontro foi em Lisboa, em 2009. Magnífica e pujante a força pessoal e criativa desta grande artista!

Luiza - Carlota e D.João VI

“Carlota e D.João VI no Brasil”, ast, 2001

Em Estoril, escreveu Edgardo Xavier, em 2002: “Interagindo com  factos, objectos, pessoas e obras da sua predilecção,  Luiza Caetano apropria-se do real e do fantástico para, com assinalável autenticidade, construir roteiros diversificados onde pontificam evocações e sentimentos que nos remetem para as fontes da sua inspiração. Pintar passa a ser, também, um acto de recuperação de heróis e mitos, de lendas e realidades douradas,de trivialidades que fazem história ou, se quisermos, apenas um reflexo desta mulher que usa a fantasia para que melhor a aceitem na plenitude da sua verdade.

Através de sua arte, Luiza Caetano gosta de interagir com diversos personagens como Amália Rodrigues, Carmem Miranda, Frida Kahlo, Botero, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa. São obras repletas de significado e de sonoridade, verdadeiras conversas entre almas gêmeas, as quais ficamos extasiados ao admirar e, por que não, delas participar.

Luiza - Pessoa

“Heterônimos”, ast, 2003

 

E, por falar em almas que se comunicam, é de Luiza Caetano este poema, intitulado “Almas Gêmeas”, pois a artista também expressa sentimentos em palavras, com a mesma pureza e paixão que dedica às telas:

Tal qual dois espíritos
se encontram e se perdem
na volatidade dos dias,

Dois espíritos
necessitados
do oxigénio do sonho
para reinventarem a vida,

Dois rios
que se encontram
na confluência dos mares
explodindo as marés,

Dois rios,
duas estrelas
ou dois vulcões

que se cruzam
se abraçam
ou se anulam

lutando contra
o inexorável limite
dos limites.

Mais informações:

- obras de Luiza Caetano catalogadas no site artenarede.com.br.

Autor: Catherine Beltrão