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Mosaicos brasileiros

Até chegar ao Brasil, a arte do mosaico passeou pela antiguidade greco-romana, bizantina, portuguesa… Nos tempos modernos, com certeza quando se fala em mosaico o nome que se vem à mente é Antoni Gaudi, o arquiteto e artista catalão que deixou sua genialidade florescer em prédios e parques da cidade de Barcelona.

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“As ondas” do calçadão de Copacabana. Burle Marx.

No Brasil, grandes artistas plásticos também utilizaram a técnica das tesselas para expressar sua arte. Grande parte deles, em seus últimos anos de vida. Como se fosse o último degrau de suas trajetórias…

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Painel abstrato em jardim de Nova York. Burle Narx. 1991.

Burle Marx talvez seja o mais conhecido mosaicista brasileiro. É dele a criação do logotipo internacional do calçadão de Copacabana.
O paisagista refez os desenhos originais dos calceteiros portugueses, realçou sua sensualidade na medida da ampliação do calçamento e manteve o paralelismo com as ondas do mar, que fora implantado na reforma de 1929 pelos calceteiros já habilitados no Brasil.  No canteiro central da Avenida Atlântica e no piso junto aos edifícios, Burle Marx aplicou novos desenhos, com pedras pretas e vermelhas (basalto) e brancas (calcáreo).

Burle Marx também projetava mosaicos abstratos para seus jardins. Em 1991, ele participou de uma exposição de jardins em Nova York . Em um deles, uma composição de 2,4 x 5 metros formada por 1.325 azulejos de cerâmica pintada, ficou suspenso sobre o lago da estufa das palmeiras, cercado por orquídeas de cores variadas.

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Painel do Edifício Mira Mar, em Copacabana. Lygia Clark. 1951.

Lygia Clark, uma das maiores artistas brasileiras da arte contemporânea, também deixou um legado em mosaicos é dela o painel do Edifício Mira Mar, em Copacabana, RJ. Em 1951, ela assinava a obra, talvez a menos conhecida de sua produção artística.

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Painel no condomínio New Horizons, no Alto da Lapa, em São Paulo. Aldemir Martins. 2003.

Aldemir Martins, conhecido por seus gatos e galos, realizou belíssimos painéis em mosaico. Em 2003, fez o painel do Condomínio New Horizons, no Alto da Lapa, em São Paulo. Trata-se de uma obra de muitas cores fortes, que segue o mesmo padrão típico de sua vasta produção pictórica, revelando uma força muito expressiva e instigante, sobretudo se levarmos em conta que já era um homem octogenário. Mas o que se vê na obra é a mesma força e domínio plástico de seus anos de juventude. Aldemir faleceu em 2006, ou seja, três anos depois da inauguração deste painel.

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Detalhe do painel “Bandeirantes”, no Hotel Comodoro, em São Paulo. Cândido Portinari. 1957.

O nosso maior pintor, Cândido Portinari, realizou três obras em mosaico em vida. A terceira obra em mosaico que Portinari concluiu foi o painel “Bandeirantes”, aplicado em uma parede
interna de um hotel no centro de São Paulo, o Hotel Comodoro. Na época de sua inauguração, em 1957, o hotel era um dos mais
luxuosos que existia. Após décadas, a degradação da área urbana ao seu redor relativizou sua proeminência e o estabelecimento precisou de novos investimentos. O proprietário então decidiu promover um leilão para a venda do painel. Quem fizesse o maior lance ficaria com o encargo da retirada da obra, mas ninguém fez qualquer oferta acima do lance mínimo, provavelmente por temer as dificuldades inerentes à retirada de um painel em pastilhas, que é uma empreitada custosa, demorada e de risco.

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Painel na Escola Imaculada em São Paulo. Tomie Ohtake. 1992.

Tomie Ohtake, uma das principais representantes do abstracionismo informal no Brasil e no mundo, fez vários painéis em mosaico, entre eles o painel na Escola Imaculada em São Paulo, realizado em 1992.
Pela importância do nome de Tomie no panorama artístico internacional e por sua sintonia com o que há de mais avançado em matéria de artes visuais, o fato de ter escolhido a linguagem das tesselas para apresentar suas obras plásticas em áreas de visibilidade pública ao longo de quase toda a década dos 90 engrandece e empresta um significado novo à esta arte.

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Painel em uma agência do Banco do Brasil, em Copacabana. Paulo Werneck.

Paulo Werneck foi o responsável pela introdução da técnica do mosaico no Brasil, contribuindo com murais e painéis para projetos de diversos arquitetos. Uma de sua belas obras foi um painel encontrado por trás de uma parede forrada de gesso, por ocasião de uma reforma das instalações de uma agência do Banco do Brasil, no Posto Seis de Copacabana.

 Autor: Catherine Beltrão

Um dia, 13 gatos

Em 1963, o filme tcheco “Um dia, um gato“, vencedor do prêmio do juri em Cannes, conta aos alunos de uma escola a vida de um professor, a história de um antigo amor e seu gato de óculos escuros. Ao tirar os óculos, o gato colore as pessoas de acordo com seus sentimentos e personalidades.

Este post apresenta 13 gatos, segundo os sentimentos e as personalidades de seus criadores: nove pintores e quatro escritores.

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Desenho de Gustave Doré (1832-1883) para o conto “O Gato de Botas”.

O Gato de Botas“, de Charles Perrault (1628-1703)

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Marc Chagall (1887-1985)

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Henri Matisse (1869-1954)

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram preguiçosos e o caçula era muito trabalhador.

Quando o moleiro morreu, só deixou como herança o moinho, um burrinho e um gato. O moinho ficou para o filho mais velho, o burrinho para o filho do meio e o gato para o caçula. Este último ficou muito descontente com a parte que lhe coube da herança, mas o gato lhe disse:

- Meu querido amo, compra-me um par de botas e um saco e, em breve, te provarei que sou de mais utilidade que um moinho ou um asno.

…………… (para saber o meio da história, clique aqui)

Então, o moço pediu a mão da princesa, e o casamento foi celebrado com a maior pompa. O gato assistiu, calçando um novo par de botas com cordões encarnados e bordados a ouro e preciosos diamantes.
E daí em diante, passaram a viver muito felizes. E se o gato às vezes ainda se metia a correr atrás dos ratos, era apenas por divertimento; porque absolutamente não mais precisava de ratos para matar a fome…

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Pablo Picasso (1881-1973)

Impossível se falar em gatos e não citar o  Gato de Cheshire, de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll (1832-1898).

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Aldemir Martins (1922-2006)

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Cândido Portinari (1903-1962)

“Aonde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde você quer ir…”, disse o gato.
“Eu não sei para onde ir!”, disse Alice.
“Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.”

“Mas eu não quero me encontrar com gente louca”, observou Alice.
” Você não pode evitar isso”, replicou o gato.
“Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco,você é louca”.
“Como você sabe que eu sou louca?” indagou Alice.
“Deve ser”, disse o gato, “Ou não estaria aqui”.

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Di Cavalcanti (1897-1976)

Mas os gatos também cabem na poesia… Pablo Neruda (1904-1973) já sabia disso, em “Ode ao gato“:

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Frida Kahlo (1907-1954)

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Luiza Caetano (1946)

O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato, quer ser só gato
e todo gato é gato, do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

E, para terminar, a delicadeza do andar sobrenatural do gato de Clarice Lispector:

Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.

 Autor: Catherine Beltrão

Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

O sertanejo é, antes de tudo, um forte

Euclides da Cunha escreveu uma das frases ícones da literatura brasileira: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

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Primeira edição de “Os Sertões (Campanha de Canudos)” – 1902

A obra literária “Os Sertões“, de Euclides da Cunha, é considerada uma das três grandes epopeias da língua portuguesa, podendo ser comparada à “Ilíada“, assim como “Os Lusíadas” podem ser comparados à “Eneida” e “Grande Sertão: Veredas”, à “Odisseia“.

Mas, infelizmente, não são muitos os que conhecem Euclides da Cunha (1866-1909), um dos maiores nomes da literatura brasileira.  Nascido na cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro, ele foi um escritor, poeta, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geógrafo e engenheiro. Sua morte trágica, em que foi assassinado pelo amante da sua esposa Anna de Assis, é conhecida como a “Tragédia da Piedade“.  Até hoje o episódio permanece em discussão.

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Ilustração de O Malho feita em 1909 tenta reconstituir o tiroteio que lhe tirou a vida. (Imagem: Reprodução / original da Fundação Joaquim Nabuco)

Como correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo em Canudos/Bahia, Euclides reuniu material que serviriam para elaborar, durante cinco anos,  “Os Sertões: campanha de Canudos“, publicado em 1902.

Abaixo, trecho da segunda parte de “Os Sertões“: O Homem

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Euclides em desenho a nanquim bico-de-pena, 16 x 13cm, por Cândido Portinari. 1944. Reprod. de Perfil de Euclydes e outros perfis, de Gilberto Freyre, p. 19.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem  ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (…)

É o homem permanentemente fatigado.”

A poesia sempre acompanhou Euclides da Cunha em toda a sua trajetória de vida conturbada. Abaixo, o soneto que escreveu em 1890, para Saninha, (Anna de Assis), sua mulher:

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Euclides a nanquin sobre papel retratado por Tarsila do Amaral. Reprod. de Arte e Pintura brasileira “apud” Diários Associados de São Paulo, [194 -].

 “Ontem, quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias…Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema…
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias…

Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!

E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte…”

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Da esquerda para a direita: Anabelle Loivos, Janaína Botelho e Jane Ayrão, em mesa-redonda sobre Euclides da Cunha, na FLINF.

Escrevi este post após ter ficado inebriada com uma mesa-redonda que assisti na FLINF – Festa Literária de Nova Friburgo, no último domingo dia 16.10, intitulada “Euclides da Cunha, o poeta dos sertões“.  Três mulheres espetaculares – Janaína Botelho, Anabelle Loivos e Jane Ayrão - traçando os contornos e não contornos deste gigante de nossa literatura!

Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.”

 Autor: Catherine Beltrão

Pérolas e lágrimas

Resolvi juntar lágrimas a pérolas em pinturas e poesias por acreditar que secreções também podem ser sublimes.

O ser sublime fica por conta de Klimt, van der Weiden, Veermer, Rembrandt, Dali, Picasso, Portinari e Mary Cassat. E também de Victor Hugo, Mario Quintana, Cecília Meireles, Drummond, Florbela Espanca, Jean-Paul Sartre, Vinicius de Moraes e Manoel de Barros.

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“Mulher chorando”, de Gustav Klimt

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.
Victor Hugo

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“Descida da cruz” (detalhe), de Rogier van der Weyden. 1435

Chorar é lindo, por Mario Quintana

Chorar é lindo, pois cada lágrima na face
 são palavras ditas de um sentimento calado.

Pessoas que mais amamos, são as que mais magoamos
 porque queremos que sejam perfeitas,
 e esquecemos que são apenas seres humanos.

Nunca diga que esqueceu alguma pessoa, ou um amor.
 Diga apenas que consegue falar neles sem chorar,
 porque qualquer amor por mais simples que seja,
 será sempre inesquecível…

 As lágrimas não doem…
 O que dói são os motivos que as fazem caírem!
 Não deixe de acreditar no amor,
 mas certifique-se de estar entregando seu coração
 para alguém que dê valor

aos mesmos sentimentos que você dá,
 manifeste suas ideias e planos,
 para saber se vocês combinam,
 e certifique-se de que quando estão juntos
 aquele abraço vale mais que qualquer palavra…

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“Moça com brinco de pérola”, de Jan Vermeer. 1665

Pérolas – Cecília Meireles

O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
 – de que mares?
 – de que conchas?
 – menores que lágrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.

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“Retrato de Maria Trip” (detalhe), de Rembrandt

 

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“Labios de rubi”, de Salvador Dali

As pérolas -  Carlos Drummond de Andrade

Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto. Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas – disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar. Os clientes queixavam-se de que os doces de Renata estavam demasiado doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola?  Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu. A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola.  A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse: “Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana”.

Minha primeira lágrima caiu de dentro dos teus olhos.
 Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
Cecília Meireles

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“O olho do tempo”, de Salvador Dali

Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca

Se me ponho a cismar em outras eras
 Em que ri e cantei, em que era querida,
 Parece-me que foi outras esferas,
 Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
 Que dantes tinha o rir das primaveras,
 Esbate as linhas graves e severas
 E cai num abandono de esquecida!

 E fico, pensativa, olhando o vago…
 Toma a brandura plácida dum lago
 O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
 Ninguém as vê brotar dentro da alma!
 Ninguém as vê cair dentro de mim!

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“Mulher chorando”, de Pablo Picasso. 1937

Lágrimas de um adulto eram como uma catástrofe mística, qualquer coisa como o choro de Deus acerca da maldade do homem.
Jean-Paul Sartre

 

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“Menino morto”, de Cândido Portinari

Poética (II) – Vinícius de Moraes

 Com as lágrimas do tempo
 e a cal do meu dia
 eu fiz o cimento
 da minha poesia

e na perspectiva
 da vida futura
 ergui em carne viva
 sua arquitetura

 não sei bem se é casa
 se é torre ou se é templo
 (um templo sem Deus)

mas é grande e clara
 pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!

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“Opera Woman with a pearl necklace”, de Mary Cassat

Acontecimento - Vinicius de Moraes

Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
Muitos sentirão inveja
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada.
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

E, para finalizar, uma frase definitiva de Manoel de Barros: “Escrever é cheio de casca e de pérola”.

Autor: Catherine Beltrão

Tiradentes, nos pincéis de Portinari e nos versos de Cecília

Tiradentes, o alferes e dentista prático Joaquim José da  Silva Xavier, foi  executado na  forca, e em seguida esquartejado, na data macabra de 21 de abril de 1792. Seu crime: sonhar com a liberdade e conspirar pela  independência do Brasil.

Tiradentes não só abriu o caminho para a Independência do Brasil. Sua trajetória e seus ideais foram compartilhados por pincéis e versos como os de Cândido Portinari (1903-1962) e Cecília Meireles (1901-1964).

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“Tiradentes”,  de Portinari. 1948-1949. Têmpera/tela, 309×1767 cm. Coleção: Memorial da América Latina.

O Painel Tiradentes é uma pintura a têmpera (tinta artesanal) composta por três telas justapostas, apresentando cinco cenas, sendo considerada uma das mais importantes obras de Candido Portinari. Está exposta permanentemente no Salão de Atos Tiradentes, no Memorial da América Latina, projetado por Oscar Niemeyer. Foi comprada pelo Governo do Estado de São Paulo em 1975 e permaneceu no Salão Nobre do Palácio dos Bandeirantes até 1989, quando foi transferida para o Memorial, em sua inauguração.

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“Tiradentes”, de Portinari. Cena 1. Correntes do alferes, correntes nas mulheres e crianças negras.

Nos anos 40, por sugestão de Oscar Niemeyer, Candido Portinari recebeu  uma encomenda de um quadro para ocupar uma enorme parede no saguão de entrada do Colégio de Cataguases, em Minas Gerais, que havia sido projetado por Niemeyer. O tema era livre. Após a encomenda, Portinari, um dos principais nomes do Modernismo no país, mergulhou na Inconfidência  Mineira. Consultou livros e documentos da época. Entre estes documentos, o monumental “Romanceiro da Inconfidência“, de Cecília Meireles.

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“Tiradentes”, de Portinari. Cena 2. Leitura da sentença.

O “Romanceiro da Inconfidência” é composto de 85 romances – gênero poético de origem  medieval, assim como as narrativas de cordel – e foi publicado em 1953, mas escrito na década de 1940.  Cecília, então jornalista, chegou a Ouro Preto, com a finalidade de documentar os eventos de uma Semana Santa. Envolvida pela “voz irreprimível dos fantasmas”, conforme disse, passou a reescrever, de forma poética, os episódios marcantes da Inconfidência Mineira, destacando, evidentemente, o martírio de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, personagem principal da obra.

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“Tiradentes”, de Portinari. Cena 3. A execução de Tiradentes.

Além da descrição da vida econômica e política das Minas Gerais, a obra também desce ao  cotidiano, às relações entre as pessoas comuns, as autoridades. As ambições, os  negócios, o ouro.  Abaixo, parte do Romance XXI ou Das Ideias:

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“Tiradentes”, de Portinari. Cena 4. Os quartos em postes altos.

A vastidão desses campos.
A alta muralha das serras.
As lavras inchadas de ouro.
Os diamantes entre as pedras.
Negros, índios e mulatos.
Almocafres e gamelas.

Os rios todos virados.
Toda revirada, a terra.
 Capitães, governadores,
padres intendentes, poetas.
Carros, liteiras douradas,
cavalos de crina aberta.
A água a transbordar das fontes.
Altares cheios de velas.
Cavalhadas. Luminárias.
Sinos, procissões, promessas.
Anjos e santos nascendo
em mãos de gangrena e lepra.
Finas músicas broslando
as alfaias das capelas.
Todos os sonhos barrocos
deslizando pelas pedras.
Pátios de seixos. Escadas.
Boticas. Pontes. Conversas.
Gente que chega e que passa.
E as ideias.

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“Tiradentes”, de Portinari. Cena 5. Cabeça de Tiradentes no posto alto e mulheres poderosas levantando correntes arrebentadas.

Amplas casas. Longos muros.
Vida de sombras inquietas.
Pelos cantos da alcovas,
histerias de donzelas.
Lamparinas, oratórios,
bálsamos, pílulas, rezas.
Orgulhosos sobrenomes.
Intrincada parentela.
No batuque das mulatas,
a prosápia degenera:
pelas portas dos fidalgos,
na lã das noites secretas,
meninos recém-nascidos
como mendigos esperam.
Bastardias. Desavenças.
Emboscadas pela treva.
Sesmarias, salteadores.
Emaranhadas invejas.
O clero. A nobreza. O povo.
E as ideias.

O Romanceiro da Inconfidência representa um livro único na história da  literatura brasileira. É uma obra liricamente histórica,  sobre os autos de  devassa da Inconfidência Mineira.

O painel “Tiradentes“, de Cândido Portinari  e o “Romanceiro da Inconfidência“, de Cecília Meireles.  Duas obras monumentais. Inspiradas pelo sonho de um herói nacional.

Fontes: clique aqui para Cândido Portinari, e aqui, para Cecília Meireles.

 Autor: Catherine Beltrão

O Café de Portinari

Um dia, Portinari falou: “Vim da terra vermelha e do cafezal.”

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“O Lavrador de café” – 1934 – ost – 100 X 81cm

Na vida de Cândido Portinari (1903-1962), o café se fez presente desde sempre. Em sua obra, o café é um tema recorrente, percorrendo três décadas de pintura, desde os anos 30. O “Lavrador de café“, uma de suas obras mais conhecidas, foi criada em 1934. O trabalhador é negro, a terra é vermelha. Lavrador e terra unidos por pés enormes, como se fossem raízes. Esta obra foi roubada do MASP – Museu de Arte de São Paulo – em 2007, mas recuperada pouco tempo depois.

Em 1935, Portinari conseguiu seu primeiro reconhecimento internacional e conquistou a segunda Menção Honrosa na Exposição Internacional do Carnegie Institute de Pittsburgh, nos Estados Unidos, com a tela “Café“.

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“Café” – Ost, 1935, 130 X 195cm

O nome Portinari estará eternamente ligado à pintura brasileira. São poucos os que nunca ouviram falar daquele que é considerado, por muitos, o maior pintor brasileiro. Mas também são poucos os que conhecem os escritos de Cândido Portinari. Porque ele também deixou escritos. E Portinari também escreveu sobre café. Como “O menino do povoado” (Saí das águas do mar):

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“Café” – ost, 1938

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“Café” – Ost, 1940

Saí das águas do mar
E nasci no cafezal de
Terra roxa. Passei a infância
No meu povoado arenoso.

Andei de bicicleta e em
Cavalo em pêlo. Tive medos
E sonhei. Viajei no espaço.
Fui à luta primeiro do que o sputnik.

Caminhei além, muito além, para
Lá do paraíso. Desci de pára-quedas,
Atravessei o arco-íris, cheguei
Nos olhos-d’água antes do sol nascer.

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“Colheita de café” – Ost, 1957

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“Peneirando Café” – Ost,1957

Nasci e montei na garupa
De muitos cavaleiros. Depois
Montei sozinho em cavalo de
Pé de milho. Fiz as mais

Estranhas viagens e corri
Na frente da chuva durante
Muitos sábados. Dava poeira
No trenzinho de Guaivira.

Paco espanhol era meu parceiro.
Vivíamos apavorados com os
Temporais — pareciam odiar
Aqueles lugares…

Vinham ferozes contra as
Sete ou oito cabanas
Desarmadas.

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“Colheita da café” – Osm, 1958 – 60 X 73cm

Num pé de café nasci.
O trenzinho passava
Por entre a plantação. Deu a hora
Exata. Nesse tempo os velhos
Imigrantes impressionavam os recém-chegados.
O tema do falatório era o lobisomem.
A lua e o sol passavam longe.
Mais tarde mudamos para a Rua de Cima.
O sol e a lua moravam atrás de nossa
Casa. Quantas vezes vi o sol parado.
Éramos os primeiros a receber sua luz e calor.
Em muitas ocasiões ouvi a lua cantar.

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“Colheita de café” – 1960

Esmerava-se para aparecer nitidamente
Redonda. Ficava espiando do nosso maracujazeiro.
Surpreendido vendo São Jorge à paisana,
Pensei pedir-lhe o cavalo emprestado.
Não me animei. A lua estava de vestido de
Noiva. Os sinos começaram a badalar.
As gentes acudiam, era a missa do galo.
Os dos sítios do Adão e dos olhos-d’água
Lá estavam desde cedo.
As estrelas baixaram iluminando o lado
De fora da igreja, onde se aglomeravam
As gentes, os cães e os animais de montaria.
O Dragão veio se chegando de chinelos…

Em 1964 foi publicado o livro Poemas, de Cândido Portinari. Do Candinho. Não um personagem de novela. O Candinho que existiu de verdade.  Aquele mesmo que pintou “Guerra e Paz“. Aquele do “Lavrador de Café“.

Em complementação a este post, vale a pena acessar o vídeo: Imaginário Portinari (Vídeo da TVescola sobre a vida e a obra de Cândido Portinari em sua cidade natal Brodowski. Duração: 22:02).

 Autor: Catherine Beltrão

Murais: de pinturas rupestres a grafites

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Pintura rupestre na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, na Serra da Capivara. Piaui, Brasil. Datação provável: 12000 anos.

Desde sempre, desenhos foram pintados em paredes: poderiam ser dentro de cavernas, dentro de igrejas, dentro e fora de casas, de palácios, de monumentos ou mesmo, de simples prédios.  A pintura mural tem raízes no instinto primitivo dos povos de decorar seu ambiente e de usar as superfícies das paredes para expressar idéias, emoções e crenças.

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Mural na Vila dos Mistérios, em Pompeia, pintado por volta de 60 a 70 a,C.

A cidade de Pompeia, na Itália, foi totalmente devastada pelas lavas do vulcão Vesúvio, em 24 de agosto de 79. Construída no sec. II a.C, a Vila dos Mistérios é uma das casas mais bem preservadas de Pompeia, com afrescos representando um rito de iniciação misterioso dionisíaco das mulheres no casamento.

A técnica de uso mais generalizado para o muralismo é a do afresco, que consiste na aplicação de pigmentos de cores diferentes, diluídos em água, sobre argamassa ainda úmida.

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“A última ceia”, afresco de Leonardo da Vinci. 1495–1498, 460 cm × 880 cm. Localização: Santa Maria delle Grazie, Milão

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“O Juízo Final” (detalhe), afresco de Michelangelo. 1537-1541, 1370 x 1220 cm. Localização: Capela Sistina, Vaticano.

No Renascimento, foram criadas algumas obras-primas do muralismo, como os afrescos da capela Sistina, por Michelangelo, e a “Última ceia“, de Leonardo da Vinci. Este afresco foi pintado com técnica mista, com predominância da têmpera e óleo sobre duas camadas de preparação de gesso aplicadas sobre reboco (estuque).

“O Juízo Final” é um afresco do pintor renascentista italiano Michelangelo Buonarroti, pintado na parede do altar da Capela Sistina. É, na visão do artista, uma representação do Juízo Final inspirada na narrativa bíblica.

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“Tiradentes” (detalhe), de Cândido Portinari. 1949. Têmpera s∕tela, 309 x 1767 cm. Localização: Memorial da América Latina – São Paulo.

Após alguns séculos de decadência, a pintura mural ressurgiu no século XX, com todo vigor, com trabalhos de grupos cubistas e fauvistas, em Paris, incluindo artistas como Picasso, Matisse, Léger, Miró, Portinari e Chagall,  e também a partir do movimento revolucionário mexicano, com Diego Rivera.

Em “Tiradentes“, Portinari representa os episódios e os principais protagonistas da Inconfidência Mineira. A escolha do tema é do próprio Portinari que se dedica aos estudos e documentos sobre os fatos que sucederam ao martírio de Joaquim José da Silva Xavier. Adota como fonte importante de pesquisa o “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles e tem como desafio implícito a tela “Tiradentes Esquartejado“, 1893, de Pedro Américo.

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“Pan American Unity Mural”, de Diego Rivera. 1940. Localização: City College of San Francisco

O mexicano Diego Rivera acreditava que somente o mural poderia redimir artisticamente um povo que esquecera a grandeza de sua civilização pré-colombiana durante séculos de opressão estrangeira. Assim como os outros muralistas, considerava burguesa a pintura de cavalete, pois na maior parte dos casos as telas ficavam confinadas em coleções particulares. Dentro deste conceito, realizou gigantescos murais que contavam a historia política e social do México, mostrando a vida e o trabalho do povo mexicano, seus heróis, a terra, as lutas contra as injustiças, as inspirações e aspirações.

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Teto do Opéra Garnier, em Paris, de Marc Chagall – 1964

O famoso Ópera de Paris apresentou em 23 de setembro de 1964 um deslumbrante novo teto pintado como oferecimento pelo artista bielo-russo Marc Chagall, que passou grande parte da vida na França. O teto era característico das obras primas de Chagall – infantil em sua aparente simplicidade, embora luminoso pelas cores e evocativo do mundo de sonhos e do subconsciente. Trabalhando em uma superfície de 560 metros quadrados, Chagall dividiu o teto em zonas coloridas que preencheu com paisagens e figuras representativas dos luminares da ópera e do balé.

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“The Fischerman”, um dos cinco murais de concreto de Picasso. Localização: Oslo, Noruega.

O sempre inovador Pablo Picasso se aventurou em murais de concreto. Os prédios do Regjeringskvartale (Quarteirão do Governo), em Oslo, na Noruega, apresentam cinco murais de Picasso esculpidos no concreto. Trata-se da primeira incursão do artista espanhol neste material. Os murais variam em tamanho. Vão do “The Fisherman”, uma imagem de 12 metros de largura que ocupa uma parede inteira, a “The Beach”, gravada na parede interior de outro prédio.

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Maior grafite do Rio de Janeiro, by Toz. 30 X 70m. Localização: Praça Mauá, Rio de Janeiro.

Desde 2013, um imenso painel de cores vibrantes e formas harmoniosas chama a atenção em meio à paisagem cinza das construções antigas e às obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, Brasil. Com 30 metros de altura e 70 de largura, o maior grafite do Rio, na lateral de um prédio na Rua Coelho e Castro, na Saúde, próximo à Praça Mauá, do artista plástico Tomaz Viana, o Toz. Na pintura, em sua maior parte dividida em triângulos, aparecem, entre outras,  imagens de meninas, animais e balões.

De pinturas rupestres a grafites, o homem sempre procurou, através dos tempos e ao mesmo tempo, popularizar e eternizar sua arte pictórica em espaços públicos e perenes, vinculados à arquitetura de seus ambientes.

Autor: Catherine Beltrão

Negros e negras

Há um amplo consenso entre antropólogos e geneticistas humanos de que, do ponto de vista biológico, raças humanas não existem. E, segundo várias pesquisas, a cor da pele não determina sequer a ancestralidade. Isso é especialmente verídico nas populações brasileiras, pelo seu alto grau de miscigenação. Já foi verificado que 87% dos brancos brasileiros apresentam pelo menos 10% de ancestralidade africana.

Muito além de qualquer discussão sobre raça e cor, este post apresenta algumas obras criadas por grandes artistas, representando o negro segundo sua cultura, a época em que viveu e sua verdade.

Negros_Rubens

“Quatro estudos de uma cabeça de negro”, de Rubens. Primeira metade do séc. XVII , ost, 51 X 66cm. Musées Royaux des Beaux-Arts, Brussels

Peter Paul Rubens (1577-1640) pintou muitos retratos, especialmente de amigos e autorretratos, e, no final de sua vida, pintou diversas paisagens. Seus desenhos são muito vigorosos, mas não muito detalhados. Utilizou-se de estudos em óleo para  preparar suas obras. Foi um dos últimos artistas a fazer uso consistente de painéis de madeira como meio de apoio, mesmo para obras grandes, e se utilizou também de lona, especialmente quando a obra precisaria ser enviada para lugares distantes. “Quatro estudos de uma cabeça de negro” foi uma das obras mais populares do pintor.

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“Retrato de Mulher Negra”, de Benoist. 1800, ost, 81 X 65cm . Museu do Louvre.

Marie-Guillemine Benoist (1768-1826) foi aluna de Jacques Louis David, principal representante da pintura neoclássica na França, e valeu-se das lições do mestre para realizar uma obra tipicamente neoclássica. O “Retrato de Mulher Negra” mostra uma mulher com  postura rígida que está posando: o olhar é fixo, a intenção do olhar a faz indagar o espectador. Não está ali uma mulher em situação de sujeição, mas de provável escolha.

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“Negra tatuada vendendo caju”, de Debret. 1827, aquarela, 15,7 x 21,6 cm. Museu da Chácara do Céu/Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya

Jean-Baptiste Debret (1768-1848), assim como Benoist, também foi aluno de Jacques Louis David. Mas, ao contrário da mulher de Benoist, a vendedora que aparece em sua “Negra tatuada vendendo caju“  está sentada no chão de forma mais espontânea, apoiando a cabeça com o braço, que por sua vez se apoia em suas pernas.  A mulher de Benoist parece ter sido inserida em um ambiente que não é o seu, enquanto a mulher de Debret parece estar totalmente imersa naquele espaço.

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“O Negro Cipião”, de Cézanne. 1867, ost, 107 X 83cm. MASP

O que predomina na tela “O Negro Cipião”, de Paul Cézanne (1839-1906) é a confrontação em total harmonia de grandes volumes cromáticos: o branco do móvel com as costas de Cipião, que, por sua vez, se sobrepõe ao fundo opaco, e também o azul intenso das calças. E, ainda, no braço direito do modelo, pequenas pinceladas amarelas e vermelhas, que poderiam ser os reflexos do ambiente. Belíssima obra doada ao MASP pelo Centro dos Cafeicultores do Estado de São Paulo.

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“Limpando metais”, de Armando Vianna.1923, ost, 99 X 81cm. Juiz de Fora, Museu Mariano Procópio.

O final do século XIX trouxe consigo a valorização da pintura de cenas de costumes, por vezes representadas em quadros de grandes formatos. Buscava-se atingir sentimentalmente o observador, comovendo-o diante da situação vivenciada pelos personagens, mas sem grande dramaticidade. Assim, a mulher negra poderia ser representada expressando seus sentimentos, não mais reduzida a elemento puramente exótico. “Limpando metais”, de Armando Vianna (1897-1992), não fugiu a essa regra: foi pintado exclusivamente para concorrer ao prêmio da 31ª Exposição Geral da Escola Nacional de Belas Artes. O artista conseguiu a medalha de prata e não mais representou mulheres negras.

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“A Negra”, de Tarsila. 1923, ost, 100 X 80cm. São Paulo, MAC-USP

No Brasil, uma obra que apresenta paralelo com “Limpando metais” é a célebre tela “A negra”, de Tarsila do Amaral (1886-1973). As duas entraram em cena no mesmo ano, 1923. Mas a obra da pintora modernista em pouco tempo ganhou fama. Produzida em Paris, “A negra” de Tarsila foi exibida com entusiasmo pelo importante artista francês Fernand Léger (1881-1955) aos seus alunos. Reproduzida na capa de um livro de poemas escrito por Blaise Cendrars (1887-1961), tornou-se rapidamente símbolo de ruptura absoluta. A obra reduz o corpo nu feminino a uma superfície plana e alaranjada, salientando tão somente suas características étnicas, incorporando à estética moderna um elemento de identidade nacional. A partir dela, o modernismo brasileiro produziu um número expressivo de representações de negros e mestiços.

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“O lavrador de Café”, de Portinari. 1934, ost, 100 X 81cm. MASP

No quadro “O  Lavrador de  Café”, de Cândido Portinari (1903-1962), o modelo   aparece  bem  mais    musculoso   do  que   o  normal .  A figura   deformada com pés e mãos enormes  é  o  que aproxima Portinari   ao   expressionismo . Aumentar o  tamanho  do corpo  de seus personagens  era  o  jeito  que o artista usava para mostrar a  importância do trabalhador  brasileiro.

Ao fundo temos inúmeras figuras de pés de café, tanto na superfície plana como nos morros. Percebe-se que parte das plantações dos pés de café já está indo em direção ao espaço reservado para seleção e ensacamento. Com esses detalhes, percebe-se a superprodução ai registrada. O olhar do lavrador é expressivo e nele predomina a preocupação. Tem-se a impressão de que ele sente a ação devastadora da exploração que o homem faz na natureza.

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“Mulher Negra”, de Di Cavalvanti.1925. Uma das poucas negras pintadas por Di.

Palavras de Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976): “A mulata, para mim, é um símbolo do Brasil. Ela não é preta nem branca. Nem rica nem pobre. Gosta de dança, gosta de música, gosta do futebol, como o nosso povo. Imagino ela deitada em cama pobre como imagino o país deitado em berço esplêndido.” E palavras do crítico Frederico de Morais, por ocasião da retrospectiva de DI no MAM, em 1971: “Altaneiras, monumentais quase sempre, alegres ou sonhadoras, em devaneios – o gato no colo, a flor sobre o busto – apenas por alguns momentos o olhar parece triste ou vago. Porque, hedonista nato, amoroso da vida e das pessoas, Di não se deixa abater pelos problemas existenciais, pela inquietação política ou social. Coisas mais próprias para os espíritos magros.”

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“Negra com lençol azul”, de Edith Blin. 1943, ost, 65X50cm. (Futuro) Museu ArtenaRede.

Edith Blin (1891-1983) embora tenha pintado poucos negros, estas obras são muito significativas em sua produção. Além da emblemática obra “Carnaval!”, sua magnífica “Negra com lençol azul“ dignifica uma raça, dignifica uma origem, dignifica um Brasil. O amarelo, o verde e o azul envolvem a altivez majestosa desta mulher negra, segura de si, de seu passado, presente e futuro. Ambas criações dos anos 40, mostram uma total integração da artista com o contexto do país que a acolheu.

Este post não posso chamar de autoral pois os textos referentes aos pintores foram quase todos extraídos de conteúdos existentes da Internet.

Autor: Catherine Beltrão

No Dia do Poeta, a poesia de todos os dias…

Todos os dias, quando abro a porta de casa, dou de cara com o Jardim dos Poetas. Meu jardim e meus poetas: Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana e Cecília Meireles.

Fernando Pessoa chega até a alma da gente, arranca as cordas e os cadeados, pega a alma nas mãos e sopra, tira a poeira acumulada. Aí, a alma fica solta, limpa… e feliz. Como ele consegue fazer isso? Mas, não, ele só faz isso se a gente deixa. Eu deixo.

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Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos. Ao clicar na imagem, você acessa o post “Luiza e Fernando, DNA de almas”

HÁ UM TEMPO

Há um tempo em que é preciso
Abandonar as roupas usadas,
Que já têm a forma do nosso corpo,
E esquecer os nossos caminhos,
Que nos levam sempre  aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia.
E, se não ousarmos fazê-la,
Teremos  ficado,para sempre,
À margem de nós mesmos…

Vinicius de Moraes me abriu as portas da poesia e, assim sendo, tive acesso ao infinito. “Para viver um grande amor” e “Para uma menina com uma flor” tiveram suas páginas lidas e relidas, em desordem é claro, porque a gente não lê Vinicius como se lê um romance, a gente lê como se estivesse mergulhando em mar profundo: entre um mergulho e outro, é preciso voltar à superfície, pra saber que o mundo ainda está lá. Lendo e sentindo Vinicius, lá nas profundezas azuis, entre corais e estrelas deitadas na areia, a gente vira concha grávida.

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Retrato de Vinicius, feito por Cândido Portinari

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente.

A poesia do Carlos Drummond me encontrou já adulta, a contar desamores e lágrimas gastas. Não a considero leitura para iniciantes, ávidos de luas cor de prata ou de corações aprendizes. Precisei ter caminhado na esteira do tempo vivido para absorvê-la como é preciso. E como é preciso devorar estas palavras, este jeito de ser e de se transmitir poeta…

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Retrato de Drummond, feito por Cândido Portinari

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Com o Mário Quintana, a poesia se torna meio-sorriso, meio-espanto. Com poucas palavras, ele brinca com a expectativa do lugar-comum, da coisa estabelecida. É um deleite colecionar seus poemetos (poemas pequenos, não poemas menores), para serem lidos em momentos incertos. Pois nos momentos certos, a gente não se espanta com nada.

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Caricatura de Mario Quintana, por Ziraldo

POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

AUTORRETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore…

Cecília Meireles escreveu poesia para as crianças. Poucos sabem que crianças são poesia em sua essência, antes de se transformarem em seres lógicos e coerentes. Ela sabia. Ler um poema seu é dar um banho na alma, escovando e esfregando bem as reentrâncias formadas pelas rugas que os anos deixaram.

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Autorretrato de Cecília Meireles. Ao clicar na imagem, você acessa o post “As três orquídeas de Edith e de Cecília”

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Para quem quiser saber mais sobre meu Jardim dos Poetas, acesse aqui.

  Autor: Catherine Beltrão