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O Café de Portinari

Um dia, Portinari falou: “Vim da terra vermelha e do cafezal.”

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“O Lavrador de café” – 1934 – ost – 100 X 81cm

Na vida de Cândido Portinari (1903-1962), o café se fez presente desde sempre. Em sua obra, o café é um tema recorrente, percorrendo três décadas de pintura, desde os anos 30. O “Lavrador de café“, uma de suas obras mais conhecidas, foi criada em 1934. O trabalhador é negro, a terra é vermelha. Lavrador e terra unidos por pés enormes, como se fossem raízes. Esta obra foi roubada do MASP – Museu de Arte de São Paulo – em 2007, mas recuperada pouco tempo depois.

Em 1935, Portinari conseguiu seu primeiro reconhecimento internacional e conquistou a segunda Menção Honrosa na Exposição Internacional do Carnegie Institute de Pittsburgh, nos Estados Unidos, com a tela “Café“.

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“Café” – Ost, 1935, 130 X 195cm

O nome Portinari estará eternamente ligado à pintura brasileira. São poucos os que nunca ouviram falar daquele que é considerado, por muitos, o maior pintor brasileiro. Mas também são poucos os que conhecem os escritos de Cândido Portinari. Porque ele também deixou escritos. E Portinari também escreveu sobre café. Como “O menino do povoado” (Saí das águas do mar):

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“Café” – ost, 1938

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“Café” – Ost, 1940

Saí das águas do mar
E nasci no cafezal de
Terra roxa. Passei a infância
No meu povoado arenoso.

Andei de bicicleta e em
Cavalo em pêlo. Tive medos
E sonhei. Viajei no espaço.
Fui à luta primeiro do que o sputnik.

Caminhei além, muito além, para
Lá do paraíso. Desci de pára-quedas,
Atravessei o arco-íris, cheguei
Nos olhos-d’água antes do sol nascer.

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“Colheita de café” – Ost, 1957

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“Peneirando Café” – Ost,1957

Nasci e montei na garupa
De muitos cavaleiros. Depois
Montei sozinho em cavalo de
Pé de milho. Fiz as mais

Estranhas viagens e corri
Na frente da chuva durante
Muitos sábados. Dava poeira
No trenzinho de Guaivira.

Paco espanhol era meu parceiro.
Vivíamos apavorados com os
Temporais — pareciam odiar
Aqueles lugares…

Vinham ferozes contra as
Sete ou oito cabanas
Desarmadas.

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“Colheita da café” – Osm, 1958 – 60 X 73cm

Num pé de café nasci.
O trenzinho passava
Por entre a plantação. Deu a hora
Exata. Nesse tempo os velhos
Imigrantes impressionavam os recém-chegados.
O tema do falatório era o lobisomem.
A lua e o sol passavam longe.
Mais tarde mudamos para a Rua de Cima.
O sol e a lua moravam atrás de nossa
Casa. Quantas vezes vi o sol parado.
Éramos os primeiros a receber sua luz e calor.
Em muitas ocasiões ouvi a lua cantar.

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“Colheita de café” – 1960

Esmerava-se para aparecer nitidamente
Redonda. Ficava espiando do nosso maracujazeiro.
Surpreendido vendo São Jorge à paisana,
Pensei pedir-lhe o cavalo emprestado.
Não me animei. A lua estava de vestido de
Noiva. Os sinos começaram a badalar.
As gentes acudiam, era a missa do galo.
Os dos sítios do Adão e dos olhos-d’água
Lá estavam desde cedo.
As estrelas baixaram iluminando o lado
De fora da igreja, onde se aglomeravam
As gentes, os cães e os animais de montaria.
O Dragão veio se chegando de chinelos…

Em 1964 foi publicado o livro Poemas, de Cândido Portinari. Do Candinho. Não um personagem de novela. O Candinho que existiu de verdade.  Aquele mesmo que pintou “Guerra e Paz“. Aquele do “Lavrador de Café“.

Em complementação a este post, vale a pena acessar o vídeo: Imaginário Portinari (Vídeo da TVescola sobre a vida e a obra de Cândido Portinari em sua cidade natal Brodowski. Duração: 22:02).

 Autor: Catherine Beltrão

No Dia do Poeta, a poesia de todos os dias…

Todos os dias, quando abro a porta de casa, dou de cara com o Jardim dos Poetas. Meu jardim e meus poetas: Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana e Cecília Meireles.

Fernando Pessoa chega até a alma da gente, arranca as cordas e os cadeados, pega a alma nas mãos e sopra, tira a poeira acumulada. Aí, a alma fica solta, limpa… e feliz. Como ele consegue fazer isso? Mas, não, ele só faz isso se a gente deixa. Eu deixo.

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Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos. Ao clicar na imagem, você acessa o post “Luiza e Fernando, DNA de almas”

HÁ UM TEMPO

Há um tempo em que é preciso
Abandonar as roupas usadas,
Que já têm a forma do nosso corpo,
E esquecer os nossos caminhos,
Que nos levam sempre  aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia.
E, se não ousarmos fazê-la,
Teremos  ficado,para sempre,
À margem de nós mesmos…

Vinicius de Moraes me abriu as portas da poesia e, assim sendo, tive acesso ao infinito. “Para viver um grande amor” e “Para uma menina com uma flor” tiveram suas páginas lidas e relidas, em desordem é claro, porque a gente não lê Vinicius como se lê um romance, a gente lê como se estivesse mergulhando em mar profundo: entre um mergulho e outro, é preciso voltar à superfície, pra saber que o mundo ainda está lá. Lendo e sentindo Vinicius, lá nas profundezas azuis, entre corais e estrelas deitadas na areia, a gente vira concha grávida.

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Retrato de Vinicius, feito por Cândido Portinari

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente.

A poesia do Carlos Drummond me encontrou já adulta, a contar desamores e lágrimas gastas. Não a considero leitura para iniciantes, ávidos de luas cor de prata ou de corações aprendizes. Precisei ter caminhado na esteira do tempo vivido para absorvê-la como é preciso. E como é preciso devorar estas palavras, este jeito de ser e de se transmitir poeta…

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Retrato de Drummond, feito por Cândido Portinari

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Com o Mário Quintana, a poesia se torna meio-sorriso, meio-espanto. Com poucas palavras, ele brinca com a expectativa do lugar-comum, da coisa estabelecida. É um deleite colecionar seus poemetos (poemas pequenos, não poemas menores), para serem lidos em momentos incertos. Pois nos momentos certos, a gente não se espanta com nada.

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Caricatura de Mario Quintana, por Ziraldo

POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

AUTORRETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore…

Cecília Meireles escreveu poesia para as crianças. Poucos sabem que crianças são poesia em sua essência, antes de se transformarem em seres lógicos e coerentes. Ela sabia. Ler um poema seu é dar um banho na alma, escovando e esfregando bem as reentrâncias formadas pelas rugas que os anos deixaram.

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Autorretrato de Cecília Meireles. Ao clicar na imagem, você acessa o post “As três orquídeas de Edith e de Cecília”

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Para quem quiser saber mais sobre meu Jardim dos Poetas, acesse aqui.

  Autor: Catherine Beltrão

Luiza e Fernando, DNA de almas

Se alma tivesse DNA, Luiza Caetano era filha de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa (1888-1935), o mais universal poeta português, deixou para os leitores do mundo um mundo de poemas e pensamentos sobre a sensibilidade de ser. O autor de “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena“, transformou a alma de  muita gente, inclusive a minha, em meus jovens anos de adolescência. Naqueles anos, eu também acreditava que “Tenho em mim  todos os sonhos do mundo.”

Aos poucos fui também, como ele, fazer a travessia:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos“.

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Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos

 

Durante a travessia, fui aprender a amar. Várias lições se passaram até que fui entender o que o poeta quis dizer: “Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.” Aí, fui me perceber, com todas as minhas fraquezas e covardias. “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios“.

Luiza

Luiza Caetano

Daí, após anos de estrada com Fernando Pessoa, fui conhecer Luiza Caetano, a grande dama da pintura e da poesia portuguesa
destes nossos novos tempos. Iniciada de forma virtual, nossa amizade tomou corpo em três cidades, duas de morada – Nova
Friburgo e Lisboa – e a outra, Rio de Janeiro, servindo de ponte.

Encontrei em Luiza a alma de Fernando. Alma que expõe tormento e angústia. Mesmo adulta, alma que procura a liberdade: “Não tenho para onde fugir sou um pássaro de asas cortadas”. E que constata a inexorável passagem do tempo: “No calendário do mundo, tombam folhas como lágrimas… Tão longe o que já foi perto!

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Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos

 

Talvez no poema “Almas gêmeas” Luiza não pensou em Fernando… mas quem conhece Fernando Pessoa e Luiza Caetano, com certeza pensa neles ao ler estes versos:

Tal qual dois espíritos
se encontram e se perdem
na volatidade dos dias,

Dois espíritos
necessitados
do oxigénio do sonho
para reinventarem a vida,

Dois rios
que se encontram
na confluência dos mares
explodindo as marés,

Dois rios,
duas estrelas
ou dois vulcões

que se cruzam
se abraçam
ou se anulam

lutando contra
o inexorável limite
dos limites.

Para quem quiser o deleite máximo, vale a pena clicar aqui neste vídeo de Jorge Soares, que reúne Maria Bethânia, Fernando Pessoa e Luiza Caetano, e que começa com “Todas as cartas de amor são ridículas …”

 Autor: Catherine Beltrão