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Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

Nuvens eternas

As únicas coisas eternas são as nuvens“, escreveu um dia Mario Quintana. É interessante, pois elas não parecem eternas. Mudam de forma a todo instante. Também mudam de cor. E produzem sentimentos variados: tristeza, saudade, medo, esperança. À qual eternidade se referia o poeta?

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“A imensidão”, de Gustave Courbet (1819-1877)

Mario Quintana também escreveu: “Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento“. É. O vento deserteniza a forma das nuvens…

Cecília Meireles também eternizou suas nuvens, como no poema “Improviso do Amor-Perfeito“:

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“A baía de Weymouth”, de John Constable (1776-1837)

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

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“Paisagem com Céu de Tempestade”, de Camile Pissarro (1830-1903)

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se alteia,
entre pálpebras de areia…

Longe, longe… Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

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“Paisagem imaginante”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)

Ou ainda, nos versos a seguir:

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“Barcas no Rio Sena”, de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

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“Prado”, de Alfred Sisley (1839-1899)

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis
de andar. Meu rosto vário
desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.”

“Encostei-me a ti sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí.

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“Casal com a cabeça cheia de nuvens”, de Salvador Dali (1904-1989)

No bem conhecido poema “O Auto Retrato“, Mario Quintana volta a se eternizar nuvem …

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“Campo de trigo com cipreste”, de Vincent van Gogh (1853-1890)

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“O Farol”, de Anita Malfatti (1889-1964)

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Terminado por um louco!

É. Talvez a eternidade das nuvens do poeta se refere àquelas que se eternizam através da pintura. Ou da poesia.

 Autor: Catherine Beltrão

Gladíolos…

Às vezes, vale juntar flores e batalhas. É quando se fala de gladíolos.

Gladíolo vem do latim Gladius que significa Gládio, ou espada, devido a sua forma longa e pontiaguda. A referência à espada se dá por causa dos Gladiadores Romanos que recebiam a flor quando saíam vencedores do combate. Por isso seu simbolismo é de vitória em batalha.

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“Jarro com gladíolos”, de Vincent van Gogh

 

Na minha opinião, o mais belo poema envolvendo gladíolos é de Arthur Rimbaud (1854-1891): “Le dormeur du val” (“Adormecido no vale“, em tradução de Ferreira Gullar).

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“Gladíolos”, de Claude Monet

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“Glaieuls”, de Chaim Soutine

“Le dormeur du val”

C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

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“Gladíolos em um jarro”, de Pierre Auguste Renoir

 

“Adormecido no vale”, em tradução de Ferreira Gullar

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“Gladíolos em ascensão”, de Edith Blin

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“Gladíolos”, de Anita Malfatti

É um vão de verdura onde um riacho canta
 A espalhar pelas ervas farrapos de prata
 Como se delirasse, e o sol da montanha
 Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
 Banhando a nuca em frescas águas azuis,
 Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
 Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os gladíolos, sorri mansamente
 Como sorri no sono um menino doente.
 Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
 Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
 Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Van Gogh, Renoir, Soutine, Monet, Anita Malfatti e Edith Blin. E Rimbaud. Uma voz em um berço de cores e perfumes. E que voz… que cores… que perfumes!

Autor: Catherine Beltrão

Pianos em telas e versos (Parte I)

Entre amores e paixões vividas nessas mais de seis décadas de existência, talvez o piano tenha sido a maior. Paixão que quase me fez ser concertista, um dia. Amor que me fez (e faz) garimpar a música por trás das cenas de filmes, ou no ar por sobre as montanhas e por entre ondas…

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“Musica Inspiradora”, de Lena Gal. 2002.
Vídeo: 32 variações em Dó menor, de Beethoven – Gleen Gould. Duração: 12.29

A pesquisa na Internet me fez achar dezenas de obras de arte onde o piano é protagonista. Os versos já não são tantos… Nesta primeira parte do post, vale apresentar o de Carlos Drummond de Andrade, “Onde há pouco falávamos“:

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“A Sonata de Mozart”, de Berthe Morisot. 1894.
Vídeo: “Prelúdio e Fuga em Lá maior”, do Cravo Bem Temperado, vol.2, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 2:33

É um antigo
 piano, foi
 de alguma avó, morta
 em outro século.

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“Madame Juliette Pascal ao piano”, de Toulouse Lautrec. 1896.
Vídeo: “Variações 1 a 7 de Goldberg”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 9:49

 E ele toca e ele chora e ele canta
 sozinho,
 mas recusa raivoso filtrar o mínimo
 acorde, se o fere
 mão de moça presente.

Ai piano enguiçado, Jesus!
 Sua gente está morta,
 seu prazer sepultado,
 seu destino cumprido,
 e uma tecla
 põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
 É um rato?
 O vento?
 Descemos a escada, olhamos apavorados
 a forma escura, e cessa o seu lamento.

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“Jeunes filles au piano”, de Pierre-Auguste Renoir. 1892.
Vídeo: “Concerto de Brandenburg nº 5″, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 6:07

Mas esquecemos. O dia perdoa.
 Nossa vontade é amar, o piano cabe
 em nosso amor. Pobre piano, o tempo
 aqui passou, dedos se acumularam
 no verniz roído. Floresta de dedos,
 montes de música e valsas e murmúrios
 e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
 Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
 Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
 ele estronda. A poeira profusa salta,
 e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
 circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
 Assim nosso carinho
 encontra nele o fel, e se resigna.

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“Mademoiselle Gachet ao piano”, de Vincent van Gogh. 1890.
Vídeo: “Prelúdio em Dó menor”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 1:14

Uma parede marca a rua
 e a casa. É toda proteção,
 docilidade, afago. Uma parede
 se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
 ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
 o medo imemorial, os inspetores
 da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
 Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
 Uma cadeira se renova ao meu desejo.
 A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
 e confiantes. A casa vive.
 Confio em cada tábua. Ora, sucede
 que um incubo perturba
 nossa modesta, profunda confidencia.

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“O descanso do modelo”, de Almeida Junior. 1892.
“Noturno op.9 nº1″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrrau. Duração: 5:51

É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
 busto e humour. Uma dolência rígida,
 o reumatismo de noites imperiais, irritação
 de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
 e tudo que deixam mudanças,
 viagens, afinadores,
 experimento de jovens,
 brilho fácil de rapsódia,
 outra vez mudanças,
 golpes de ar, madeira bichada,
 tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
 meio grotesco também, nada piedoso.

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“Madame Camus ao piano”, de Edgar Degas. 1869.
Vídeo: “Noturno op.9 nº2″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 4:51

Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
 objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
 de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
 a coleção de retratos, também alguns livros,
 cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
 antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
 bem sei, mas e esse piano?

Está no fundo
 da casa, por baixo
 da zona sensível, muito
 por baixo do sangue.

Está por cima do teto, mais alto
 que a palmeira, mais alto
 que o terraço, mais alto
 que a cólera, a astúcia, o alarme.

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“Manuela González Velázquez tocando piano”, de González Velázquez . 1820.
Vídeo: “Noturno op.9 nº3″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 7:20

Cortaremos o piano
 em mil fragmentos de unha?
 Sepultaremos o piano
 no jardim?
 Como Aníbal o jogaremos
 ao mar?
 Piano, piano, deixa de amofinar!
 No mundo, tamanho peso
 de angústia
 e você, girafa, tentando.

Resta-nos a esperança
 (como na insônia temos a de amanhecer)
 que um dia se mude, sem noticia,
 clandestino, escarninho, vingativo,
 pesado,
 que nos abandone
 e deserto fique esse lugar de sombra
 onde hoje impera. Sempre imperará?

(É um antigo piano, foi
 de alguma dona, hoje
 sem dedos, sem queixo, sem
 música na fria mansão.
 Um pedaço de velha, um resto
 de cova, meu Deus, nesta sala
 onde ainda há pouco falávamos.)

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“Jovem ao piano”, de Paul Cézanne. 1868.
Vídeo: “Bénédiction de Dieu dans la solitude”, de Franz Liszt – Claudio Arrau. Duração: 19:07

Como trilha sonora deste post escolhi 5 peças de J.S. Bach e Ludwig van Beethoven, interpretadas por Gleen Gould e 4 peças de Frédéric Chopin e Franz Liszt, com interpretação de Claudio Arrau. Puro deleite!

Para ler a parte II deste post, acesse aqui.

 Autor: Catherine Beltrão