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Paletas e autorretratos (Parte I)

Para um pintor, a paleta é seu camarim. É ali que ele se prepara, prepara sua obra, veste suas cores, do dia ou da noite.

Neste post, decidi apresentar a paleta acompanhada de um autorretrato de cada pintor. Nada mais íntimo de sua alma.

Vincent van Gogh (1853-1890)

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Paleta Van Gogh

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Autorretrato Van Gogh. 1889

 

Nesta parte I, junto às paletas e autorretratos de doze artistas, é apresentado um texto sobre a paleta de Renoir, escrito pelo seu filho Jean Renoir, no livro “Pierre-Auguste Renoir, meu Pai” , págs 336 a 338, 2005, Ed. Bizâncio, Lisboa.

 

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

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Paleta Renoir

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Autorretrato Renoir. 1879

A paleta de Renoir era limpa como uma moeda nova. Era uma paleta quadrada que se encaixava na tampa do estojo, que tinha a mesma forma. Num dos godés duplos, punha óleo de linhaça puro e no outro uma mistura de óleo de linhaça com essência de terebentina, em partes iguais. Numa mesa baixa, colocada ao lado do cavalete, tinha um copo cheio de essência de terebentina em que enxaguava o pincel, praticamente após cada aplicação de cor.

 

Salvador Dali (1904-1989)

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Paleta Dali

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Autorretrato Dali. 1941

 

Na caixa, e em cima da mesa, tinha alguns pincéis de reserva. Nunca tinha em uso mais do que dois ou três ao mesmo tempo. Mal começavam a ficar gastos, esborratavam, ou por qualquer outra razão deixavam de lhe proporcionar uma absoluta precisão de pincelada, deitava-os fora. Exigia que destruíssem os pincéis velhos, não fosse ele pegar em algum deles por engano enquanto trabalhava.

 

Marc Chagall (1887-1985)

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Paleta Chagall

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Autorretrato Chagall. 1913

Na mesinha havia também panos limpos, com os quais secava de vez em quando o pincel.

A caixa, tal como a mesa, estavam sempre perfeitamente arrumadas.

Os tubos de tintas eram enrolados a partir da dobra, de forma a obter, ao espremê-los, a quantidade exata de tinta pretendida.

 

Eugène Delacroix (1798-1863)

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Paleta Delacroix

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Autorretrato Delacroix. 1837

 

No princípio da sessão de trabalho, a paleta, que tinha sido limpa no fim da sessão anterior, estava imaculada. Para a limpar, começava por raspá-la, vertendo os resíduos para um papel, que atirava logo para o lume. Em seguida, esfregava-a com um pano embebido em essência de terebentina até que não houvesse o mínimo resquício de tinta na madeira. O pano ia também para o lume.

 

Claude Monet (1840-1926)

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Paleta Monet

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Autorretrato Monet. 1886

 

 

Os pincéis eram lavados com água fria e sabão. Recomendava que esfregassem suavemente os pelos na palma da mão. De vez em quando encarregava-me desta operação, o que me enchia de orgulho.

 

 

Edvard Munch (1863-1944)

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Paleta Munch

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Autorretrato Munch. 1923/24

 

Renoir descreveu pessoalmente a composição da sua paleta numa nota que a seguir transcrevo e que data, evidentemente, do período impressionista:

 

 

 

 

 

 Francis Bacon (1909-1992)

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Paleta Bacon

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Autorretrato Bacon. 1969

Branco de prata, amarelo de cromo, amarelo-de-nápoles, ocre amarelo, terra-de-siena natural, vermelhão, laca de garança, verde-veronês, verde-esmeralda, azul-cobalto, azul-ultramarino, espátula, raspadeira, essência, tudo o que é necessário para pintar. O ocre amarelo, o amarelo-nápoles e a terra-de-siena são meros tons intermédios que são dispensáveis, pois podem fazer-se com outras cores. Pincéis redondos de pelo de marta, pincéis chatos de seda.

Registre-se a ausência do preto, “a rainha das cores”, como ele próprio iria proclamá-lo no seu regresso de Itália.

Pablo Picasso (1881-1973)

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Paleta Picasso

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Autorretrato Picasso. 1907

À medida que se aproxima do fim da vida irá simplificar ainda mais a sua paleta. A ordem de que me lembro na época em que pintava “As Grandes Banhistas” do Louvre, no ateliê de Les Collettes, era a seguinte: começando de baixo, junto da abertura para o polegar, o branco de prata, em quantidade generosa, o amarelo-de-nápoles num montículo minúsculo, tal como todas as cores que se seguem – o ocre amarelo, a terra-de-siena, o ocre vermelho, a laca de garança, a terra verde, o verde-veronês, o azul-cobalto, o negro-marfim.

 

 

 William Turner (1775-1851)

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Paleta Turner

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Autorretrato Turner. 1824

 

Esta seleção de cores não era inalterável. Eu vi Renoir, embora em raras ocasiões aplicar vermelhão chinês que punha na paleta entre a laca de garança e a terra verde. Nem Gabrielle nem eu o vimos usar o ocre de cromo.

 

 

 

 

Frida Kahlo (1907-1954)

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Paleta Frida Kahlo

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Autorretrato Frida Kahlo. 1940

 

Esta exiguidade de meios era impressionante. Os montículos de tinta pareciam perdidos na superfície de madeira, rodeados de vazio. Renoir encetava-os com parcimônia, com respeito. Era como se achasse que iria ofender Mullard, que lhe tinha preparado meticulosamente aquelas cores, se atafulhasse a paleta com elas e depois não as usasse até à mais pequena parcela.

 

 

 Toulouse Lautrec (1864-1901)

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Paleta Lautrec

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Autorretrato Lautrec. 1880

 

 Quase sempre misturava as tintas na tela. Preocupava-se muito em que o quadro mantivesse, ao longo de todas as fases do trabalho, uma impressão de transparência.”

 

 

Continua na Parte II, a ser publicado na próxima semana.

Autor: Catherine Beltrão

Cães e gatos ternos e eternos

Um bicho de estimação não se esquece jamais. Será por quê?

Será pela troca intensa de afetos? Será pela alegria mútua a cada reencontro? Será pelos momentos de compreensão compartilhados?

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“Bijou!”, de Edith Blin. 1962

Quando eu tinha doze anos, me veio a Bijou, uma cadelinha preta da raça lulu. Era meiga,  inteligente e afetiva. Esteve comigo até os meus dezessete anos. Foram cinco anos de convívio diário e de descobertas do mundo. Nascida carioca, morou comigo em São Paulo naquele inesquecível ano de 1964.  Quando morreu, aos cinco anos, uma parte minha também se foi. E nunca quis que Bijou fosse substituída em meu coração. Ela foi, e continua sendo, única em minha vida.

Pois é. Vez por outra, encontramos cachorros e gatos em pinturas, poemas e escritos. Resolvi juntar alguns deles e apresentar aqui.

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“Gato dormindo”, de Renoir.

“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.”  Crônica de Carlos Drummond de Andrade.

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“Menina na cadeira de braço” (detalhe), de Mary Cassatt. 1878

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“Gato”, de Pablo Picasso. 1942

Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” , de Milan Kundera.

O Perigo da Hesitação Prolongada, de Victor Hugo.

Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta. Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?» Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura. Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos.

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“Cão”, de Giacometti. 1951.

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí…
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!, de Mário Quintana.

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“Gato multicor”, de Aldemir Martins.

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios.”, de Lord Byron.

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“Cabeça de cachorro”, de Renoir.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

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“Gato com peixes vermelhos”, de Matisse

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.”  Lygia Fagundes Telles

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“Cachorro roendo o osso”, de Camille Claudel

Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo.” Lygia Fagundes Telles

 Autor: Catherine Beltrão

Vik Muniz: reflexos e versos

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Vik Muniz. “Autorretrato”, feito com folhas, galhos, terra e sementes.

Vik Muniz (1961) é artista plástico, brasileiro, nascido em São Paulo e radicado em Nova York. A partir de 1988, começou a desenvolver trabalhos que faziam uso da percepção e representação de imagens a partir de materiais como o açúcar, chocolate, catchup e outros como o gel para cabelo, diamantes e lixo.

Vik define sua trajetória de artista da seguinte forma: “Meu sonho é mudar a forma elitista com a qual a arte é encarada. Não acredito na separação entre o popular e o inteligente, como se fossem coisas antagônicas.”

Ainda no século passado, Vik Muniz fez trabalhos inusitados, como a cópia da “Mona Lisa“, de Leonardo da Vinci, usando manteiga de amendoim e geleia de uva, como matéria prima. Suas releituras de obras famosas  são inúmeras. Entre elas, “Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso, feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam e “A Noite Estrelada“, de Vincent van Gogh, confeccionada com pedaços de papel colados.

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“Mona Lisas”, de Vik Muniz, a partir da obra de Da Vinci. Feitas com geleia de uva e com pasta de amendoim.

Um projeto inédito desenvolvido pelo artista e apresentado em diversos museus e galerias pelo mundo, inclusive no Brasil, é o intitulado “Versos“.

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Verso da obra “Mona Lisa”, de Da Vinci, por Vik Muniz

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“Mona Lisa”, de Da Vinci. 1503-1506

Vik Muniz começou fotografando os versos de pinturas famosas em 2002. Em seu livro “Reflexo” (2005), já manifestava o desejo de fazer impressões de tamanho natural dessas fotografias e exibi-las. As primeiras delas, meticulosas cópias em 3D dos lados reversos, foram feitas em 2008. Ele as intitulou “Versos“, imitações perfeitas do lado dos quadros que normalmente fica voltado para a parede.

Para Muniz, o verso de cada pintura é único: os furos, os suportes de metal, as etiquetas e todas as outras marcas, contando a sua história.

 

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“A Noite Estrelada”, de Vik Muniz, a partir da obra de Van Gogh. Feita com colagem de pedaços de papel.

À medida que os anos passam, o verso de uma pintura se modifica. Novos donos deixam sua marca.

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Verso da obra “A noite estrelada”, de Van Gogh, por Vik Muniz.

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“A noite estrelada”, de Van Gogh. 1889.

 Os processos mais recentes deixam uma marca. O verso revela os materiais dos quais a pintura é feita – tela, painéis – e mostra detalhes da tela e qualquer outra medida de segurança tomada enquanto estava em exposição. Seria como poder ver a intimidade de uma obra-prima, algo que deveria permanecer secreto mas que enfim se revela – como um segredo que não deveria ser mostrado, cicatrizes expostas, uma certa verdade de obras tão conhecidas quanto inacessíveis.

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“Les demoiselles d’Avignon”, de Vik Muniz, a partir da obra de Picasso. Feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam.

Para recriar os versos das obras, Vik Muniz percorreu seis anos trabalhando com pesquisadores, curadores, artesãos, técnicos e até falsificadores, para executarem cada detalhe, como molduras, arranhões, manchas, etiquetas e ferragens.

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Verso da obra “Les demoiselles d’Avignon”, de Picasso, por Vik Muniz

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“Les demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso. 1907.

Assim, o espectador recria em sua cabeça a imagem icônica de cada obra, e a encaixa sobre o verso a sua frente, para que obras tão célebres ganhem enfim uma dimensão nova e, até então, desconhecida.

Em 2008, Muniz organizou sua primeira exposição de “Verso“, na galeria Sikkema, Jenkins & Co., em Nova Iorque. Na ocasião, ele apresentou o lado reverso de obras-primas como “Les Demoiselles d’Avignon“, de Picasso (MoMA, Nova Iorque) e “A Noite estrelada“, de Van Gogh (MoMA), entre outras. Outros “Versos“ foram mostrados em outras exposições, como “A Mona Lisa“, de Da Vinci (Louvre, Paris).

Reflexos e versos. Reflexo pode ser de espelho. Ou de reação. Verso pode ser de poesia. Ou o lado de trás. Vik Muniz, por ser artista, é o espelho, a reação, a poesia e o lado de trás.

 Autor: Catherine Beltrão

Um dia, 13 gatos

Em 1963, o filme tcheco “Um dia, um gato“, vencedor do prêmio do juri em Cannes, conta aos alunos de uma escola a vida de um professor, a história de um antigo amor e seu gato de óculos escuros. Ao tirar os óculos, o gato colore as pessoas de acordo com seus sentimentos e personalidades.

Este post apresenta 13 gatos, segundo os sentimentos e as personalidades de seus criadores: nove pintores e quatro escritores.

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Desenho de Gustave Doré (1832-1883) para o conto “O Gato de Botas”.

O Gato de Botas“, de Charles Perrault (1628-1703)

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Marc Chagall (1887-1985)

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Henri Matisse (1869-1954)

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram preguiçosos e o caçula era muito trabalhador.

Quando o moleiro morreu, só deixou como herança o moinho, um burrinho e um gato. O moinho ficou para o filho mais velho, o burrinho para o filho do meio e o gato para o caçula. Este último ficou muito descontente com a parte que lhe coube da herança, mas o gato lhe disse:

- Meu querido amo, compra-me um par de botas e um saco e, em breve, te provarei que sou de mais utilidade que um moinho ou um asno.

…………… (para saber o meio da história, clique aqui)

Então, o moço pediu a mão da princesa, e o casamento foi celebrado com a maior pompa. O gato assistiu, calçando um novo par de botas com cordões encarnados e bordados a ouro e preciosos diamantes.
E daí em diante, passaram a viver muito felizes. E se o gato às vezes ainda se metia a correr atrás dos ratos, era apenas por divertimento; porque absolutamente não mais precisava de ratos para matar a fome…

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Pablo Picasso (1881-1973)

Impossível se falar em gatos e não citar o  Gato de Cheshire, de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll (1832-1898).

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Aldemir Martins (1922-2006)

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Cândido Portinari (1903-1962)

“Aonde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde você quer ir…”, disse o gato.
“Eu não sei para onde ir!”, disse Alice.
“Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.”

“Mas eu não quero me encontrar com gente louca”, observou Alice.
” Você não pode evitar isso”, replicou o gato.
“Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco,você é louca”.
“Como você sabe que eu sou louca?” indagou Alice.
“Deve ser”, disse o gato, “Ou não estaria aqui”.

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Di Cavalcanti (1897-1976)

Mas os gatos também cabem na poesia… Pablo Neruda (1904-1973) já sabia disso, em “Ode ao gato“:

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Frida Kahlo (1907-1954)

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Luiza Caetano (1946)

O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato, quer ser só gato
e todo gato é gato, do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

E, para terminar, a delicadeza do andar sobrenatural do gato de Clarice Lispector:

Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.

 Autor: Catherine Beltrão

Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

200 posts! Festa de Arte doce!

Hoje é dia de festa! Dia de comemorar 200 posts do blog ArtenaRede! Dia de festejar e comer muita arte doce!

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Mondrian.
Vídeo: “Die ideale Wirklichkeit – Piet Mondrian “. Duração: 2:43

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Mondrian
Vídeo: animação sobre neoplasticismo. Duração: 2:04

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Van Gogh.
Vídeo: animação interativa com “Noite Estrelada”. Duração: 4:15

 

Piet Mondrian (1872-1944) e Vincent van Gogh (1853-1890) são os primeiros a chegar à festa, trazendo duas obras da série “Composições em vermelho, amarelo e azul“, “A Noite Estrelada” e “Amendoeira em flor“. Mondrian, o grande nome do neoplasticismo e Van Gogh, talvez o mais amado dos pintores, são inconfundíveis, até mesmo quando sua arte se transforma em bolos…

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Van Gogh
Vídeo: animação do pintor em 3D. Duração: 1:51

 

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Klimt.
Vídeo: análise da obra “O beijo”. Duração: 3:56

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Munch
Vídeo: “The Scream”, fantástica animação sobre a obra “O Grito”. Música de Pink Floyd. Duração: 3:22

 

Gustav Klimt (1862-1918) e Edvard Munch (1863-1944) chegam logo em seguida. “O Beijo” e “O Grito” são puro encantamento, trazendo momentos do simbolismo e do expressionismo.

 

E eis que chegam duas das maiores figuras artísticas do século XX!

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Picasso
Vídeo: pinturas de Picasso. Duração: 3:00

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Picasso
Vídeo: história e análise da obra “Les demoiselles d’Avignon. Duração: 4:19

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Dali
Vídeo: animação “Destino & Time – Salvador Dali, Walt Disney and Pink Floyd”. Duração: 7:05

 

Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989),  os maiores nomes do cubismo e do surrealismo, vêm trazendo “Mulher em frente ao espelho“, “Les demoiselles d’Avignon” e “A persistência da memória“, este em duas versões…

É impossível não se emocionar com a Arte e com a história destes dois gênios: o Picasso de várias mulheres e o Dali de uma só…

 

 

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Dali
Vídeo: explicação da criação da obra “A persistência da memória”. Duração: 2:52

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Monet
Vídeo: “Claude Monet – Giverny ‘Les Nymphéas’. Música de Claude Debussy. Duração: 5:25

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Matisse
Vídeo: obras do pintor. Música de Claude Debussy. Duração: 3:52

 

A festa prossegue com a chegada de Claude Monet (1840-1926) e Henri Matisse (1869-1954), com seus emblemáticos  “Le bassin aux nymphéas” e “Interior com cortina egípcia“, obras máximas do impressionismo e do fauvismo.

 

Mas o abstracionismo não podia ficar de fora!

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Pollock
Vídeo: Pollock e sua arte de criação. Duração: 1:40

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Pollock
Vídeo: Trecho do filme “Pollock” (2000), dirigido e protagonizado por Ed Harris, com música do compositor Jeff Beal. A atuação representa o pintor compondo um mural. Duração: 3:45

 

Já no fim da festa, vem chegando Jackson Pollock (1912-1956), o grande nome do expressionismo abstrato, trazendo duas obras representantes da sua técnica característica, o “gotejamento“.

 

Para abrilhantar a festa, inseri alguns vídeos no post. Basta clicar nas imagens…

E, para acessar os links onde foram obtidas as imagens dos bolos, clique aqui, aqui e aqui.

Que festa! Mondrian, Van Gogh, Klimt, Munch, Picasso, Dali, Monet, Matisse e Pollock… que time de artistas para comemorar os 200 posts do blog!

Autor: Catherine Beltrão

Pérolas e lágrimas

Resolvi juntar lágrimas a pérolas em pinturas e poesias por acreditar que secreções também podem ser sublimes.

O ser sublime fica por conta de Klimt, van der Weiden, Veermer, Rembrandt, Dali, Picasso, Portinari e Mary Cassat. E também de Victor Hugo, Mario Quintana, Cecília Meireles, Drummond, Florbela Espanca, Jean-Paul Sartre, Vinicius de Moraes e Manoel de Barros.

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“Mulher chorando”, de Gustav Klimt

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.
Victor Hugo

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“Descida da cruz” (detalhe), de Rogier van der Weyden. 1435

Chorar é lindo, por Mario Quintana

Chorar é lindo, pois cada lágrima na face
 são palavras ditas de um sentimento calado.

Pessoas que mais amamos, são as que mais magoamos
 porque queremos que sejam perfeitas,
 e esquecemos que são apenas seres humanos.

Nunca diga que esqueceu alguma pessoa, ou um amor.
 Diga apenas que consegue falar neles sem chorar,
 porque qualquer amor por mais simples que seja,
 será sempre inesquecível…

 As lágrimas não doem…
 O que dói são os motivos que as fazem caírem!
 Não deixe de acreditar no amor,
 mas certifique-se de estar entregando seu coração
 para alguém que dê valor

aos mesmos sentimentos que você dá,
 manifeste suas ideias e planos,
 para saber se vocês combinam,
 e certifique-se de que quando estão juntos
 aquele abraço vale mais que qualquer palavra…

Perolas_Vermeer

“Moça com brinco de pérola”, de Jan Vermeer. 1665

Pérolas – Cecília Meireles

O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
 – de que mares?
 – de que conchas?
 – menores que lágrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.

Perolas_Rembrandt

“Retrato de Maria Trip” (detalhe), de Rembrandt

 

Perolas_Dali

“Labios de rubi”, de Salvador Dali

As pérolas -  Carlos Drummond de Andrade

Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto. Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas – disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar. Os clientes queixavam-se de que os doces de Renata estavam demasiado doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola?  Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu. A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola.  A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse: “Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana”.

Minha primeira lágrima caiu de dentro dos teus olhos.
 Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
Cecília Meireles

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“O olho do tempo”, de Salvador Dali

Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca

Se me ponho a cismar em outras eras
 Em que ri e cantei, em que era querida,
 Parece-me que foi outras esferas,
 Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
 Que dantes tinha o rir das primaveras,
 Esbate as linhas graves e severas
 E cai num abandono de esquecida!

 E fico, pensativa, olhando o vago…
 Toma a brandura plácida dum lago
 O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
 Ninguém as vê brotar dentro da alma!
 Ninguém as vê cair dentro de mim!

lagrima_picasso

“Mulher chorando”, de Pablo Picasso. 1937

Lágrimas de um adulto eram como uma catástrofe mística, qualquer coisa como o choro de Deus acerca da maldade do homem.
Jean-Paul Sartre

 

lagrima_portinari

“Menino morto”, de Cândido Portinari

Poética (II) – Vinícius de Moraes

 Com as lágrimas do tempo
 e a cal do meu dia
 eu fiz o cimento
 da minha poesia

e na perspectiva
 da vida futura
 ergui em carne viva
 sua arquitetura

 não sei bem se é casa
 se é torre ou se é templo
 (um templo sem Deus)

mas é grande e clara
 pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!

Perolas_MaryCassatt

“Opera Woman with a pearl necklace”, de Mary Cassat

Acontecimento - Vinicius de Moraes

Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
Muitos sentirão inveja
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada.
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

E, para finalizar, uma frase definitiva de Manoel de Barros: “Escrever é cheio de casca e de pérola”.

Autor: Catherine Beltrão

Ateliers e versos… (Parte I)

Conheço bastante o que vem a ser o atelier de um artista. Por três décadas convivi com o cheiro e as cores de tintas virando formas, com telas se empilhando em paredes e chão. Nesses espaços de arte, servi de modelo e escrevi versos.

Pretendo nesse post apresentar ateliers de alguns artistas que amo, ligados a versos meus que também amo.  Como são muitos os artistas e não menos os versos, será uma trilogia.  Aqui, a Parte 1.

Atelier_Chagall1

Atelier de Marc Chagall

Fluxos e Anseios (maio de 1977)

Volto para o tempo dos sons despertos
no abandono da dor.
Volto para as cores da noite
que se movimenta e me percorre.
A tristeza se desprega dos pontos
de encontro e se encontra perdida
entre um e outro pensamento.
Sou das que arrebentam a paz,
das que se misturam às águas
do horizonte e do universo
para poder ser totalmente eu.
Venho mergulhar no desespero maior
da agonia crescente do conhecimento.
Sinto o poder da vertigem
a devorar corpos e espaço.

Volto para a juventude inacabada
de meus fluxos e anseios.

Atelier de Paul Cezanne

Adormeço em branco (setembro de 1978)

Sinto-me inerte.
Não apática.
Não presa.
Não na espera.
Mas pisando, pousando
Encostando, empurrando
Me achando plenamente
Debruçada na inércia.

Tento a voz,
me vem o sopro.
Tento o gesto,
me vem o peso.
Tento a lágrima,
o silêncio impede.

 Devolvo tristeza a estrelas.
Entrego poesia no acalanto do asfalto.
Desnudo a mente da ilusão.
Adormeço morna … e em branco.

Atelier_Renoir1

Atelier de Pierre-Auguste Renoir

Momento de agonia (março de 1975)

Respiro intensamente
mais um momento de agonia.
Tranco meus sentimentos,
fujo do presente,
Perco-me no etéreo da vida.
Meu corpo se atrofia
contemplando o horizonte
de minha imaginação.
As estrelas passaram
de incentivo a objetivo.
O amor me consumiu
até a eternidade…
Constato aos poucos
A perda do sentido humano
de minha existência.

Atelier_Rodin

Atelier de Auguste Rodin

Vez da fantasia (outubro de 1974)

Foi numa tarde igual
Toda morna e de fumaça
Que fui saber das coisas.

Me consumiste de segredos
Me confundiste com teus medos…

Foi o pranto que chegou
E que logo se fez saudade
Que o espanto deixou passar.

Me pressentiste na poesia
Me preveniste da alegria…

Foi a vez da fantasia
Estranhar o acontecido
e se debruçar na paisagem.

Atelier_Picasso2

Atelier de Pablo Picasso

Sem unidade (outubro de 1974)

Estou sem unidade.
Fui dividida
até o último pedaço.
Não passo de um resto
de vontade de ser.
Me vomitaram ideias
abortadas de mentes
insatisfeitas.
Estou desacionada.
Fui colocada
no fundo da noite.
Não consigo me juntar
a qualquer sentimento.
Me deixaram sem útero,
com um cérebro tenso.

Chagall, Cézanne, Renoir, Rodin e Picasso. Cinco imensos artistas. Em seus espaços de criação. E se junto meus versos a estes espaços é que aprendi a amá-los plenamente.

Autor: Catherine Beltrão

Murais: de pinturas rupestres a grafites

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Pintura rupestre na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, na Serra da Capivara. Piaui, Brasil. Datação provável: 12000 anos.

Desde sempre, desenhos foram pintados em paredes: poderiam ser dentro de cavernas, dentro de igrejas, dentro e fora de casas, de palácios, de monumentos ou mesmo, de simples prédios.  A pintura mural tem raízes no instinto primitivo dos povos de decorar seu ambiente e de usar as superfícies das paredes para expressar idéias, emoções e crenças.

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Mural na Vila dos Mistérios, em Pompeia, pintado por volta de 60 a 70 a,C.

A cidade de Pompeia, na Itália, foi totalmente devastada pelas lavas do vulcão Vesúvio, em 24 de agosto de 79. Construída no sec. II a.C, a Vila dos Mistérios é uma das casas mais bem preservadas de Pompeia, com afrescos representando um rito de iniciação misterioso dionisíaco das mulheres no casamento.

A técnica de uso mais generalizado para o muralismo é a do afresco, que consiste na aplicação de pigmentos de cores diferentes, diluídos em água, sobre argamassa ainda úmida.

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“A última ceia”, afresco de Leonardo da Vinci. 1495–1498, 460 cm × 880 cm. Localização: Santa Maria delle Grazie, Milão

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“O Juízo Final” (detalhe), afresco de Michelangelo. 1537-1541, 1370 x 1220 cm. Localização: Capela Sistina, Vaticano.

No Renascimento, foram criadas algumas obras-primas do muralismo, como os afrescos da capela Sistina, por Michelangelo, e a “Última ceia“, de Leonardo da Vinci. Este afresco foi pintado com técnica mista, com predominância da têmpera e óleo sobre duas camadas de preparação de gesso aplicadas sobre reboco (estuque).

“O Juízo Final” é um afresco do pintor renascentista italiano Michelangelo Buonarroti, pintado na parede do altar da Capela Sistina. É, na visão do artista, uma representação do Juízo Final inspirada na narrativa bíblica.

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“Tiradentes” (detalhe), de Cândido Portinari. 1949. Têmpera s∕tela, 309 x 1767 cm. Localização: Memorial da América Latina – São Paulo.

Após alguns séculos de decadência, a pintura mural ressurgiu no século XX, com todo vigor, com trabalhos de grupos cubistas e fauvistas, em Paris, incluindo artistas como Picasso, Matisse, Léger, Miró, Portinari e Chagall,  e também a partir do movimento revolucionário mexicano, com Diego Rivera.

Em “Tiradentes“, Portinari representa os episódios e os principais protagonistas da Inconfidência Mineira. A escolha do tema é do próprio Portinari que se dedica aos estudos e documentos sobre os fatos que sucederam ao martírio de Joaquim José da Silva Xavier. Adota como fonte importante de pesquisa o “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles e tem como desafio implícito a tela “Tiradentes Esquartejado“, 1893, de Pedro Américo.

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“Pan American Unity Mural”, de Diego Rivera. 1940. Localização: City College of San Francisco

O mexicano Diego Rivera acreditava que somente o mural poderia redimir artisticamente um povo que esquecera a grandeza de sua civilização pré-colombiana durante séculos de opressão estrangeira. Assim como os outros muralistas, considerava burguesa a pintura de cavalete, pois na maior parte dos casos as telas ficavam confinadas em coleções particulares. Dentro deste conceito, realizou gigantescos murais que contavam a historia política e social do México, mostrando a vida e o trabalho do povo mexicano, seus heróis, a terra, as lutas contra as injustiças, as inspirações e aspirações.

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Teto do Opéra Garnier, em Paris, de Marc Chagall – 1964

O famoso Ópera de Paris apresentou em 23 de setembro de 1964 um deslumbrante novo teto pintado como oferecimento pelo artista bielo-russo Marc Chagall, que passou grande parte da vida na França. O teto era característico das obras primas de Chagall – infantil em sua aparente simplicidade, embora luminoso pelas cores e evocativo do mundo de sonhos e do subconsciente. Trabalhando em uma superfície de 560 metros quadrados, Chagall dividiu o teto em zonas coloridas que preencheu com paisagens e figuras representativas dos luminares da ópera e do balé.

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“The Fischerman”, um dos cinco murais de concreto de Picasso. Localização: Oslo, Noruega.

O sempre inovador Pablo Picasso se aventurou em murais de concreto. Os prédios do Regjeringskvartale (Quarteirão do Governo), em Oslo, na Noruega, apresentam cinco murais de Picasso esculpidos no concreto. Trata-se da primeira incursão do artista espanhol neste material. Os murais variam em tamanho. Vão do “The Fisherman”, uma imagem de 12 metros de largura que ocupa uma parede inteira, a “The Beach”, gravada na parede interior de outro prédio.

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Maior grafite do Rio de Janeiro, by Toz. 30 X 70m. Localização: Praça Mauá, Rio de Janeiro.

Desde 2013, um imenso painel de cores vibrantes e formas harmoniosas chama a atenção em meio à paisagem cinza das construções antigas e às obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, Brasil. Com 30 metros de altura e 70 de largura, o maior grafite do Rio, na lateral de um prédio na Rua Coelho e Castro, na Saúde, próximo à Praça Mauá, do artista plástico Tomaz Viana, o Toz. Na pintura, em sua maior parte dividida em triângulos, aparecem, entre outras,  imagens de meninas, animais e balões.

De pinturas rupestres a grafites, o homem sempre procurou, através dos tempos e ao mesmo tempo, popularizar e eternizar sua arte pictórica em espaços públicos e perenes, vinculados à arquitetura de seus ambientes.

Autor: Catherine Beltrão

Picasso, Giacometti e Christie’s: três novos recordes a serem batidos

Dia 11 de maio de 2015. Segunda-feira. Sala de leilões da Christie’s em Nova York. Nesta noite, a célebre casa de leilões Christie’s assumiria a ponta na corrida da valorização de obras de artistas plásticos. Nesta noite, três recordes foram batidos: pintura, escultura e arrecadação em uma só noite de leilão.

leilao - Christies 1808

Casa de leilão Christie’s – 1808

Fundada em 5 de Dezembro de 1766 por James Christie em Londres, Inglaterra, a Christie’s conseguiu criar uma rápida reputação entre as casas leiloeiras britânicas, nos anos seguintes à Revolução Francesa no que se refere ao comércio de obras de arte. Quase 250 depois, a Christie’s também se faz presente em 32 países, com 53 escritórios e 12 salas de leilões, incluindo Londres, Nova York, Paris, Gênova, Milão, Amsterdam, Dubai, Zurique, Hong Kong, Xangai e Mumbai. Mais recentemente, ela tem apontado seus holofotes para a Russia, a China, a India e os Emirados Árabes.

leilao - Picasso

“As mulheres de Argel”, de Pablo Picasso – ost, 1955

Na noite do dia 11 de maio, na sessão do leilão intitulada “Looking Forward to the Past” (“Explorando o Futuro através do Passado“), a obra “As mulheres de Argel” (“Les femmes d’Alger“), de Pablo Picasso (1881-1973) foi arrematada por US$ 179,4 milhões, o maior valor já pago por uma obra de arte em leilão.

leilao - Delacroix

“Mulheres de Argel em seu apartamento”, de Eugène Delacroix. Ost, 1834, 180 X 229cm

As Mulheres de Argel” faz parte de uma série de Picasso inspirada no artista Eugene Delacroix, lançada entre 1954 e 1955. Apareceu diversas vezes em retrospectivas do artista espanhol. Esta obra de Picasso representa uma cena passada num harém, sem dúvida alguma inspirada nas “Mulheres de Argel em seu Apartamento“, de Eugéne Delacroix (1798-1863).

Eu ainda estou em choque que vamos colocá-lo à venda” afirmou na ocasião o vice-presidente da Christie’s, Olivier Camu, de acordo com o The Guardian. “Entre as obras de Picasso que são propriedade privada, essa é a mais importante”.

Nesta mesma noite, foi arrematada a escultura “O homem que aponta” (“L’homme au doigt“), de Alberto Giacometti (1901-1966), pelo valor de US$ 141,3 milhões. A obra é uma representação escultórica da filosofia do existencialismo e faz parte de uma série de seis peças, das quais é a única pintada à mão pelo artista.

leilao - Giacometti

“O home que aponta”, de Alberto Giacometti – bronze, 1947, 177,5cm

leilao - Giacometti2

“O homem que caminha I”, de Giacometti. Bronze, 1961, 183cm

L’homme au doigt” confirma assim o monopólio de Giacometti no mercado milionário da escultura, pois supera seu próprio recorde, “O homem que caminha I” (“L’Homme qui marche I“), que alcançou em 2010 o preço de US$ 104,3 milhões em Londres.

Esta escultura é a questão do existencialismo. Um homem sozinho, apontando sem saber o que aponta“, explicou à Agência Efe a especialista em arte contemporânea da Christie’s, Ana María Celis, para quem Giacometti, com suas figuras espigadas, de superfície cavernosa e alta expressividade, não tem rival no mercado  de esculturas.

A noite “Looking Forward to the Past” da Christie’s totalizou US$ 705,9 milhões, recorde mundial de arrecadação de todos os tempos em uma só sessão de leilão. Foram 35 lotes à venda, dois vendidos acima de US$ 100 milhões, três acima de US$ 50 milhões, 9 lotes acima de US$ 20 milhões, 12 lotes acima de US$ 10 milhões e 29 lotes acima de US$ 1 milhão.

A propósito: Picasso e Giacometti são os dois artistas mais cobiçados da atualidade. Da lista das dez obras de arte mais caras da história vendidas em leilão, quatro são de Picasso e três são de Giacometti.

Pois é. Enquanto isso, ao sul do Equador, a Arte continua sendo coisa de somenos importância. Fecham-se museus. Fecham-se espaços culturais. Em cidades onde eles existem/existiam. Porque por aqui também há cidades de mais de 200.000 habitantes sem museus.

Autor: Catherine Beltrão