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Pianos em telas e versos (Parte I)

Entre amores e paixões vividas nessas mais de seis décadas de existência, talvez o piano tenha sido a maior. Paixão que quase me fez ser concertista, um dia. Amor que me fez (e faz) garimpar a música por trás das cenas de filmes, ou no ar por sobre as montanhas e por entre ondas…

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“Musica Inspiradora”, de Lena Gal. 2002.
Vídeo: 32 variações em Dó menor, de Beethoven – Gleen Gould. Duração: 12.29

A pesquisa na Internet me fez achar dezenas de obras de arte onde o piano é protagonista. Os versos já não são tantos… Nesta primeira parte do post, vale apresentar o de Carlos Drummond de Andrade, “Onde há pouco falávamos“:

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“A Sonata de Mozart”, de Berthe Morisot. 1894.
Vídeo: “Prelúdio e Fuga em Lá maior”, do Cravo Bem Temperado, vol.2, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 2:33

É um antigo
 piano, foi
 de alguma avó, morta
 em outro século.

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“Madame Juliette Pascal ao piano”, de Toulouse Lautrec. 1896.
Vídeo: “Variações 1 a 7 de Goldberg”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 9:49

 E ele toca e ele chora e ele canta
 sozinho,
 mas recusa raivoso filtrar o mínimo
 acorde, se o fere
 mão de moça presente.

Ai piano enguiçado, Jesus!
 Sua gente está morta,
 seu prazer sepultado,
 seu destino cumprido,
 e uma tecla
 põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
 É um rato?
 O vento?
 Descemos a escada, olhamos apavorados
 a forma escura, e cessa o seu lamento.

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“Jeunes filles au piano”, de Pierre-Auguste Renoir. 1892.
Vídeo: “Concerto de Brandenburg nº 5″, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 6:07

Mas esquecemos. O dia perdoa.
 Nossa vontade é amar, o piano cabe
 em nosso amor. Pobre piano, o tempo
 aqui passou, dedos se acumularam
 no verniz roído. Floresta de dedos,
 montes de música e valsas e murmúrios
 e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
 Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
 Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
 ele estronda. A poeira profusa salta,
 e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
 circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
 Assim nosso carinho
 encontra nele o fel, e se resigna.

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“Mademoiselle Gachet ao piano”, de Vincent van Gogh. 1890.
Vídeo: “Prelúdio em Dó menor”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 1:14

Uma parede marca a rua
 e a casa. É toda proteção,
 docilidade, afago. Uma parede
 se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
 ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
 o medo imemorial, os inspetores
 da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
 Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
 Uma cadeira se renova ao meu desejo.
 A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
 e confiantes. A casa vive.
 Confio em cada tábua. Ora, sucede
 que um incubo perturba
 nossa modesta, profunda confidencia.

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“O descanso do modelo”, de Almeida Junior. 1892.
“Noturno op.9 nº1″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrrau. Duração: 5:51

É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
 busto e humour. Uma dolência rígida,
 o reumatismo de noites imperiais, irritação
 de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
 e tudo que deixam mudanças,
 viagens, afinadores,
 experimento de jovens,
 brilho fácil de rapsódia,
 outra vez mudanças,
 golpes de ar, madeira bichada,
 tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
 meio grotesco também, nada piedoso.

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“Madame Camus ao piano”, de Edgar Degas. 1869.
Vídeo: “Noturno op.9 nº2″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 4:51

Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
 objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
 de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
 a coleção de retratos, também alguns livros,
 cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
 antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
 bem sei, mas e esse piano?

Está no fundo
 da casa, por baixo
 da zona sensível, muito
 por baixo do sangue.

Está por cima do teto, mais alto
 que a palmeira, mais alto
 que o terraço, mais alto
 que a cólera, a astúcia, o alarme.

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“Manuela González Velázquez tocando piano”, de González Velázquez . 1820.
Vídeo: “Noturno op.9 nº3″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 7:20

Cortaremos o piano
 em mil fragmentos de unha?
 Sepultaremos o piano
 no jardim?
 Como Aníbal o jogaremos
 ao mar?
 Piano, piano, deixa de amofinar!
 No mundo, tamanho peso
 de angústia
 e você, girafa, tentando.

Resta-nos a esperança
 (como na insônia temos a de amanhecer)
 que um dia se mude, sem noticia,
 clandestino, escarninho, vingativo,
 pesado,
 que nos abandone
 e deserto fique esse lugar de sombra
 onde hoje impera. Sempre imperará?

(É um antigo piano, foi
 de alguma dona, hoje
 sem dedos, sem queixo, sem
 música na fria mansão.
 Um pedaço de velha, um resto
 de cova, meu Deus, nesta sala
 onde ainda há pouco falávamos.)

Piano_Cezanne

“Jovem ao piano”, de Paul Cézanne. 1868.
Vídeo: “Bénédiction de Dieu dans la solitude”, de Franz Liszt – Claudio Arrau. Duração: 19:07

Como trilha sonora deste post escolhi 5 peças de J.S. Bach e Ludwig van Beethoven, interpretadas por Gleen Gould e 4 peças de Frédéric Chopin e Franz Liszt, com interpretação de Claudio Arrau. Puro deleite!

Para ler a parte II deste post, acesse aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

Ateliers e versos… (Parte I)

Conheço bastante o que vem a ser o atelier de um artista. Por três décadas convivi com o cheiro e as cores de tintas virando formas, com telas se empilhando em paredes e chão. Nesses espaços de arte, servi de modelo e escrevi versos.

Pretendo nesse post apresentar ateliers de alguns artistas que amo, ligados a versos meus que também amo.  Como são muitos os artistas e não menos os versos, será uma trilogia.  Aqui, a Parte 1.

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Atelier de Marc Chagall

Fluxos e Anseios (maio de 1977)

Volto para o tempo dos sons despertos
no abandono da dor.
Volto para as cores da noite
que se movimenta e me percorre.
A tristeza se desprega dos pontos
de encontro e se encontra perdida
entre um e outro pensamento.
Sou das que arrebentam a paz,
das que se misturam às águas
do horizonte e do universo
para poder ser totalmente eu.
Venho mergulhar no desespero maior
da agonia crescente do conhecimento.
Sinto o poder da vertigem
a devorar corpos e espaço.

Volto para a juventude inacabada
de meus fluxos e anseios.

Atelier de Paul Cezanne

Adormeço em branco (setembro de 1978)

Sinto-me inerte.
Não apática.
Não presa.
Não na espera.
Mas pisando, pousando
Encostando, empurrando
Me achando plenamente
Debruçada na inércia.

Tento a voz,
me vem o sopro.
Tento o gesto,
me vem o peso.
Tento a lágrima,
o silêncio impede.

 Devolvo tristeza a estrelas.
Entrego poesia no acalanto do asfalto.
Desnudo a mente da ilusão.
Adormeço morna … e em branco.

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Atelier de Pierre-Auguste Renoir

Momento de agonia (março de 1975)

Respiro intensamente
mais um momento de agonia.
Tranco meus sentimentos,
fujo do presente,
Perco-me no etéreo da vida.
Meu corpo se atrofia
contemplando o horizonte
de minha imaginação.
As estrelas passaram
de incentivo a objetivo.
O amor me consumiu
até a eternidade…
Constato aos poucos
A perda do sentido humano
de minha existência.

Atelier_Rodin

Atelier de Auguste Rodin

Vez da fantasia (outubro de 1974)

Foi numa tarde igual
Toda morna e de fumaça
Que fui saber das coisas.

Me consumiste de segredos
Me confundiste com teus medos…

Foi o pranto que chegou
E que logo se fez saudade
Que o espanto deixou passar.

Me pressentiste na poesia
Me preveniste da alegria…

Foi a vez da fantasia
Estranhar o acontecido
e se debruçar na paisagem.

Atelier_Picasso2

Atelier de Pablo Picasso

Sem unidade (outubro de 1974)

Estou sem unidade.
Fui dividida
até o último pedaço.
Não passo de um resto
de vontade de ser.
Me vomitaram ideias
abortadas de mentes
insatisfeitas.
Estou desacionada.
Fui colocada
no fundo da noite.
Não consigo me juntar
a qualquer sentimento.
Me deixaram sem útero,
com um cérebro tenso.

Chagall, Cézanne, Renoir, Rodin e Picasso. Cinco imensos artistas. Em seus espaços de criação. E se junto meus versos a estes espaços é que aprendi a amá-los plenamente.

Autor: Catherine Beltrão

O pão nosso de cada dia…

Além do Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro é o Dia Mundial do Pão.  E já dizia Antoine de Saint-Exupéry: “Nada melhor do que um pão compartilhado.” Neste post, iremos compartilhar o pão com Cézanne, Renoir, Picasso, Dali, Milton e Chico.

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“Pão e ovos”, de Paul Cézanne (1839-1906). Ost.

Para contextualizar, um pouco da história do pão. A palavra pão origina-se do latim ‘pane’. Segundo os historiadores, o pão teria surgido juntamente com o cultivo do trigo, na região da Mesopotâmia, onde atualmente está situado o Iraque. Supõe-se que a princípio o trigo fosse apenas mastigado.

Acredita-se que os primeiros pães fossem feitos de farinha misturada ao fruto do carvalho (chamado bolota, lande ou noz). Seriam alimentos achatados, duros, secos e que também não poderiam ser comidos logo depois de prontos por serem bastante amargos. Assim, talvez fosse necessário lavá-los em água fervente por diversas vezes antes de se fazer as broas que eram expostas ao sol para secar. Tais broas eram assadas da mesma forma que os bolos, sobre pedras quentes ou embaixo de cinzas, há 6000 anos.

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“Taça de Vinho”, de Auguste Renoir (1841-1919). Ost,1908.

Com o passar dos séculos, o pão foi se tornando cada vez mais um verdadeiro sucesso. Por volta do século III a. C, os gregos começaram a desenvolver receitas de pão com sementes e variados ingredientes. Porém, a cultura era diferenciada; afinal, a história do pão nos diz que os gregos ofereciam pão aos deuses e aos mortos.

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“Pão e ‘dish’ com frutos à mesa”, de Pablo Picasso (1881-1973). Ost,1909.

Com a tomada da Grécia pelos romanos, o pão foi se espalhando pela Itália e ganhando a Europa. No Brasil, a história do pão é um pouco mais curta. Ele foi trazido para terras brasileiras durante o século XIX no navio de dona Maria I e Dom João VI. E a história do pão é ainda mais interessante do que imaginamos, pois a necessidade de consumir pão era tamanha, que os reis levavam consigo a farinha, a receita e os padeiros. Com mais gordura e açúcar, o pão ficou conhecido como pão francês.

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“Cesta de pão”, de Salvador Dali (1904-1989).

Uma curiosidade: alguém sabe por que o corte de pestana no pão francês? Porque na Europa, tinha-se o costume de fazer uma cruz na massa do pão e rezar para ele crescer ainda mais. Simples assim…

Pao_ciodaterraO pão se faz. O pão se come. O pão se eterniza. Das formas e cores das obras de pintores, uma canção também eternizou nosso pão de cada dia: trata-se do “Cio da Terra“, de Milton Nascimento e Chico Buarque. Video aqui (duração: 4:12).

…………
Debulhar o trigo
Recolher cada bago de trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão.”
………..

 Autor: Catherine Beltrão

 

 

Avós eternizados

O dia dos avós é comemorado no Brasil em 26 de Julho. Dia da Santa Ana, mãe de Maria e avó de Jesus. Sant’Ana, a padroeira dos avós.

A base do texto de hoje é o conjunto de poemas chamado “Elegia“, de Cecília Meireles (1901-1964). Para ilustrar, obras de Leonardo da Vinci, Paul Cezanne, William Quiller Orchardson, John Morgan, Lucian Freud,  Ron Mueck, Edith Blin e um monumento da civilização olmeca.

Avos_CeciliaMeireles

Cecília Meireles

Uma elegia é uma composição poética que pertence ao gênero lírico, geralmente redigido em verso livre ou em tercetos. Este subgênero está associado ao lamento pela morte de um ente querido ou a qualquer acontecimento que provoca dor e tristeza. Esta “Elegia” de Cecília Meireles consta de oito poemas. Escrita no período de 1933 a 1937, foi dedicada à avó Jacinta Garcia Benevides. À sua leitura, percebe-se que os poemas discorrem desde o  falecimento até a exumação de Jacinta, percorrendo quatro anos de sentimentos de dor, separação, resignação, aceitação e lembranças da neta Cecília, um dos maiores nomes da poesia brasileira.

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“A Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana”, de Leonardo da Vinci (1452-1519). Pintada entre 1508 e 1513, ost, 168 x 112 cm.

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos. Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva, modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos. Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua. Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr -sem que a recolhessem teus ouvidos inertes. Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis? no teto? Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho, E tristemente te procurava. Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

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“O monumento a Avó″, do sítio arqueológico La Venta,  em Xalapa, Veracruz, no México. Da civilização olmeca, uma das primeiras civilizações das Américas, estabelecida entre 1600 AC a 600 AC.

Neste mês, as cigarras cantam e os trovões caminham por cima da terra, agarrados ao sol. Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas, e depois a noite é mais clara, e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão. Mas tudo é inútil, porque os teus ouvidos estão como conchas vazias, e a tua narina imóvel não recebe mais notícia do mundo que circula no vento. Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero das vespas… -e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra, como água que borbulha. Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro; a areia queima, branca e seca. junto ao mar lampejante; de cada fronte desce uma lágrima de calor. Mas tudo é inútil, porque estás encostada à terra fresca, e os teus olhos não buscam mais lugares nesta paisagem luminosa, e as tuas mãos não se arredondam já para a colheita nem para a carícia. Neste mês, começa o ano, de novo, e eu queria abraçar-te. Mas tudo é inútil: eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.

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“Procurando o Texto” , de John Morgan (1822-1885)

Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas, e as flores novas como aroma em brasa, com as coroas crepitantes de abelhas. Teus olhos sorririam, agradecendo a Deus o céu e a terra: eu sentiria teu coração feliz como um campo onde choveu. Minha tristeza é não poder acompanhar contigo o desenho das pombas voantes, o destino dos trens pelas montanhas, e o brilho tênue de cada estrela brotando à margem do crepúsculo. Tomarias o luar nas tuas mãos, fortes e simples como as pedras, e dirias apenas: “Como vem tão clarinho!” E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida, sem perturbar sua claridade, mas também sem diminuir minha tristeza.

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“Idosa com um Rosário”, de Paul Cézanne (1839-1906)

Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo. Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras. E as cigarras sobre as resinas continuam cantando. Tu percorrias o céu com teus olhos nevoentos, e calcularias o sol de amanhã, e a sorte oculta de cada planta. É amanhã descerias toda coberta de branco, brilharias à luz como o sal e a cânfora, tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes, e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos. E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo. Tuas mãos e a terra secariam bruscamente. Em teu rosto, como no chão, haveria flores vermelhas abertas. Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas, sussurrando. E os canteiros viam-te passar como a nuvem mais branca do dia.

(c) Museums Sheffield; Supplied by The Public Catalogue Foundation

“Nell e seu Avô na Floresta”, de William Quiller Orchardson (1832-1910)

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria desse pequeno mundo em que estás. Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso, das tuas que calculavam primaveras e outonos, fechadas em sementes e escondidos na flor! Tua voz sem corpo estará comandando, entre terra e água, o aconchego das raízes tenras, a ordenação das pétalas nascentes. À margem desta pedra que te cerca, o rosto das flores inclinará sua narrativa: história dos grandes luares, crescimento e morte dos campos, giros e músicas de pássaros, arabescos de libélulas roxas e verdes. Conversareis longamente, em vossa linguagem inviolável. Os anjos de mármore ficarão para sempre ouvindo: que eles também falam em silêncio. Mas a mim – se te chamar, se chorar – não me ouvirás por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra caminhando em redor de uma fortaleza. Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste: o mar com seus peixes e suas barcas; os pomares com cestos derramados de frutos; os jardins de malva e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos. E aquela estrela maior, que a noite levava na mão direita. E o sorriso de uma alegria que eu não tive, mas te dava.

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“Autorretrato”, de Edith Blin (1891-1983), minha avó. 1948, ost.

Tudo cabe aqui dentro: vejo tua casa, tuas quintas de fruta, as mulas deixando descarregarem seirões repletos, e os cães de nomes antigos ladrando majestosamente para a noite aproximada. Tange a atafona sobre uma cantiga arcaica: e os fusos ainda vão enrolando o fio para a camisa, para a toalha, para o lençol. Nesse fio vai o campo onde o vento saltou. Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado. Vai o sol com suas vestimentas de ouro cavalgando esse imenso gavião do céu. Tudo cabe aqui dentro: teu corpo era um espelho pensante do universo. E olhavas para essa imagem, clarividente e comovida. Foi do barco das flores, o teu rosto terreno, e uns líquens de noite sem luzes se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica. Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam para perderem-se. Então, teus braços se abriram, querendo levar-te mais longe: porque eras a que salvava. E ficaste com um pouco de asas. Teus olhos, porém, mediram a flutuação do caminho. Por isso, tua testa se vincou de alto a baixo, e tuas pálpebras meigas se cobriram de cinza.

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Um dos retratos da mãe do pintor, feito em 1972. De Lucian Freud (1922-2011)

O crepúsculo é este sossego do céu com suas nuvens paralelas e uma última cor penetrando nas árvores até os pássaros. É esta curva dos pombos, rente aos telhados, este cantar de galos e rolas, muito longe; e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas, ainda sem luz. Mas não era só isto, o crepúsculo: faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores, e em tuas mãos o teu rosto, aprendendo com as nuvens a sorte das transformações. Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos, tua boca, onde a passagem da vida tinha deixado uma doçura triste, que dispensava palavras. Ah, falta o silêncio que estava entre nós, e olhava a tarde, também. Nele vivia o teu amor por mim, obrigatório e secreto. Igual à face da Natureza: evidente, e sem definição. Tudo em ti era uma ausência que se demorava: uma despedida pronta a cumprir-se. Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido. Agora, tenho medo que não visses o que havia por detrás dele. Aqui está meu rosto verdadeiro, defronte do crepúsculo que não alcançaste Abre o túmulo, e olha-me: dize-me qual de nós morreu mais.

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“Mulher velha na cama”, de Ron Mueck (1958). Escultura feita em 2002, inspirada na sua avó doente.

Hoje! Hoje de sol e bruma, com este silencioso calor sobre as pedras e as folhas! Hoje! sem cigarras nem pássaros. Gravemente. Altamente. Com flores abafadas pelo caminho, entre essas máscaras de bronze e mármore eterno rosto da terra. Hoje. Quanto tempo passou entre a nossa mútua espera! Tu, paciente e inutilizada, cantando as horas que te desfaziam. Meus olhos repetindo essas tuas horas heróicas, no brotar e morrer desta última primavera que te enfeitou. Oh, a montanha de terra que agora vão tirando do teu peito! Alegra-te, que aqui estou, fiel, neste encontro, como se do modo antigo vivesses ou pudesses, com a minha chegada, reviver. Alegra-te, que já se desprendem em tábuas que te fecharam, como se desprendeu o corpo em que aprendeste longamente a sofrer. E, como o áspero ruído da pá cessou neste instante, ouve o amplo e difuso rumor da cidade em que continuo, -tu, que resides no tempo, no tempo unânime! Ouve-o e relembra não as estampas humanas: mas as cores do céu e da terra, o calor do sol, a aceitação das nuvens, o grato deslizar das águas dóceis, tudo o que amamos juntas. Tudo em que me dispersei como te dispersaste. E mais esse perfume de eternidade, intocável e secreto, que o giro do universo não perturba. Apenas, não podemos correr, agora, uma para a outra. Não sofras, por não te poderes levantar do abismo em que te reclinas: não sofras, também, se um pouco de choro se debruça nos meus olhos, procurando-te. Não te importes que escute cair, no zinco desta humilde caixa, teu crânio, tuas vértebras, teus ossos todos, um por um… Pés que caminhavam comigo, mãos que me iam levando, peito do antigo sono, cabeça do olhar e do sorriso… Não te importes. Não te importes… Na verdade, tu vens como eu te queria inventar: e de braço dado desceremos por entre pedras e flores. Posso levar-te ao colo, também, pois na verdade estás mais leve que uma criança. – Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito! irás dizendo, sem queixa, apenas como recordação. E eu, como recordação, te direi: – Pesaria tanto quanto o coração que tiveste, o coração que herdei? Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos? E hoje era o teu dia de festa Meu presente é buscar-te: Não para vires comigo: para te encontrares com os que, antes de mim, vieste buscar, outrora. Com menos palavras, apenas. Com o mesmo número de lágrimas. Foi lição tua chorar pouco, para sofrer mais. Aprendi-a demasiadamente. Aqui estamos, hoje. Com este dia grave, de sol velado. De calor silencioso. Todas as estátuas ardendo. As folhas, sem um tremor. Não tens fala, nem movimento nem corpo. E eu te reconheço. Ah, mas a mim, a mim. Quem sabe se me poderás reconhecer!

É importante lembrar que Cecília Meireles foi criada pela avó Jacinta, citada na dedicatória desta “Elegia“, desde os três anos de idade, depois da morte de seus pais.

Quanto a mim, fui criada pela minha avó Edith Blin, desde os dez dias de vida.

Por hoje, é só.

Autor: Catherine Beltrão