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Macieiras em flor

Aqui em Nova Friburgo, as cerejeiras começam a florir. É um espetáculo único e efêmero, para os que gostam do inverno e das montanhas. E aí, eu me lembro de outras flores, depositadas no eterno por artistas e poetas: as flores das macieiras!

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“Pommiers en fleurs”, de Georges Wambach. 1937

“Solau à moda antiga”, de Mário Quintana

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto…

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Que seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa,
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa.

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor…

Claude Monet's Le Printemps.

“Le Printemps”, de Claude Monet. 1901

“Declaração de amor”, de Carlos Drummond de Andrade

Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona. florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus. meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta… amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Munch_Macieiraemflornojardim

“Macieira em flor no jardim”, de Edvard Munch.

“Poema duma macieira”, de Miguel Torga

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

 

Monet_PommiersenfleurspresdeVetheuil

“Pommiers en fleurs près de Vetheuil”, de Claude Monet.

Ode à tristeza, de Pablo Neruda

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“Macieira em flor”, de Vincent van Gogh. 1888

Tristeza, escaravelho
de sete patas sujas,
ovo de teia de aranha,
rato descalabrado,
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Anda-te.
Volta
ao Sul com teus guarda-chuvas,
volta
ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e de suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Sacode
tuas asas de morcego,
eu pisarei as penas
que caem de teu manto,
eu varrerei os pedaços
de teu cadáver para
os quatro cantos do vento,
eu te torcerei o pescoço,
te costurarei os olhos,
te cortarei a mortalha
e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira.

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“Macieiras em flor”, de Alfred Sisley.

“A História da Macieira”, de Clarice Lispector

A macieira ficava a mesma durante todo o dia espiando as árvores frondosas que cresciam ao seu redor

Durante a noite a macieira olhava para o alto e via as estrelas no céu…e debaixo de sua pequenez, imaginava que as mesmas
estavam penduradas nos galhos das árvores ao seu redor e pensava – “por que razão Deus deu estrelas para essas árvores e
nada cresce nos meus galhos?”.

Ficava tristonha e esbravejava contra a sua sorte.

Pois que chega a primavera e os ganhos da macieira enchem-se de flores – lindas e perfumadas. As pessoas que frequentavam o
bosque correram para sua sombra, todos queriam descansar sob os galhos da pequena macieira. Ela, sempre querendo as
estrelas, desdenhava de suas flores.

_ Por que razão me destes flores ao invés de estrelas? Flores morrem e caem e eu não as terei mais em breve. Dizia a
macieira para Deus que respondia:

_ Não vês, então, macieira, que és a única que abriga pessoas sob teus galhos? Mas a pequena árvore não se satisfazia.

Chega o outono e um vento forte corta os ares do bosque. Macieira percebe que algo cai de seus galhos e olha para o chão.

_ Nossa, meu Deus, já não bastassem as flores que caíram e agora essas bolas vermelhas???!!!

Deus olha risonho para a pequena e petulante arvorezinha e pergunta:

_ Não vês, minha querida, o presente que te dei? Olha com atenção para este que partiu-se em dois.

Macieira, então, olha para a maçã que partira-se em dois e percebe, encantada, a pequena estrela escondida dentro dela.

Monet_Macieiraemflor

“Macieira em flor”, de Claude Monet.

“Mulheres são como maçãs”, de Machado de Assis

As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos,
mulheres são como maçãs em árvores.
As melhores estão no topo,
os homens não querem alcançar essas boas,
porque eles têm medo de cair e se machucar.
Preferem pegar as maçãs mais podres que ficam no chão,
que não são boas como as do topo,
mas são fáceis de se conseguir.
Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade,
ELES estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar…
Aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

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“Macieira em flor”, de Piet Mondrian. 1912

A flor da macieira não é só beleza, não é só perfume, não é só ternura. É também a presença de Monet e de Neruda. De Van Gogh e de Machado. De Munch e de Torga. De Sisley e de Quintana. De Wambach e de Clarice. De Mondrian e de Drummond.

Autor: Catherine Beltrão  

Um dia, 13 gatos

Em 1963, o filme tcheco “Um dia, um gato“, vencedor do prêmio do juri em Cannes, conta aos alunos de uma escola a vida de um professor, a história de um antigo amor e seu gato de óculos escuros. Ao tirar os óculos, o gato colore as pessoas de acordo com seus sentimentos e personalidades.

Este post apresenta 13 gatos, segundo os sentimentos e as personalidades de seus criadores: nove pintores e quatro escritores.

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Desenho de Gustave Doré (1832-1883) para o conto “O Gato de Botas”.

O Gato de Botas“, de Charles Perrault (1628-1703)

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Marc Chagall (1887-1985)

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Henri Matisse (1869-1954)

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram preguiçosos e o caçula era muito trabalhador.

Quando o moleiro morreu, só deixou como herança o moinho, um burrinho e um gato. O moinho ficou para o filho mais velho, o burrinho para o filho do meio e o gato para o caçula. Este último ficou muito descontente com a parte que lhe coube da herança, mas o gato lhe disse:

- Meu querido amo, compra-me um par de botas e um saco e, em breve, te provarei que sou de mais utilidade que um moinho ou um asno.

…………… (para saber o meio da história, clique aqui)

Então, o moço pediu a mão da princesa, e o casamento foi celebrado com a maior pompa. O gato assistiu, calçando um novo par de botas com cordões encarnados e bordados a ouro e preciosos diamantes.
E daí em diante, passaram a viver muito felizes. E se o gato às vezes ainda se metia a correr atrás dos ratos, era apenas por divertimento; porque absolutamente não mais precisava de ratos para matar a fome…

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Pablo Picasso (1881-1973)

Impossível se falar em gatos e não citar o  Gato de Cheshire, de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll (1832-1898).

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Aldemir Martins (1922-2006)

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Cândido Portinari (1903-1962)

“Aonde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde você quer ir…”, disse o gato.
“Eu não sei para onde ir!”, disse Alice.
“Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.”

“Mas eu não quero me encontrar com gente louca”, observou Alice.
” Você não pode evitar isso”, replicou o gato.
“Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco,você é louca”.
“Como você sabe que eu sou louca?” indagou Alice.
“Deve ser”, disse o gato, “Ou não estaria aqui”.

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Di Cavalcanti (1897-1976)

Mas os gatos também cabem na poesia… Pablo Neruda (1904-1973) já sabia disso, em “Ode ao gato“:

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Frida Kahlo (1907-1954)

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Luiza Caetano (1946)

O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato, quer ser só gato
e todo gato é gato, do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

E, para terminar, a delicadeza do andar sobrenatural do gato de Clarice Lispector:

Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.

 Autor: Catherine Beltrão

O amor em traços e versos

O amor é um tema eterno. Não há no mundo quem não tenha amado. Pra falar de amor, surgem os poetas. Pra desenhar o amor, os pintores. Pra viver o amor, qualquer um de nós.

Este post apresenta  oito textos/poemas sobre o amor, de oito escritores que amo, ilustrados com imagens de obras de Edith Blin (1891-1983), a “pintora da alma.

Amor1

“Casal em cinza”, de Edith Blin: 1973, osc, 55 X 36cm

“Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.”

Pablo Neruda

Amor2

“Aproximação”, de Edith Blin: 1970, osc, 49 X 37cm

“Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.

Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.

A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.”

Mario Quintana

Amor3

“Depois da Fantasia”, de Edith Blin: 1972, osc, 48 X 34cm

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Luis de Camões

Amor4

“Duas figuras, uma nos braços da outra”, de Edith Blin: 1977, osc, 50 X 38cm

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.”

Vinicius de Moraes

Amor5

“Inspiré de Rodin II”, de Edith Blin: 1971, osc, 52 X 39cm

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…”

Florbela Espanca

Amor6

“Jovens do futuro”, de Edith Blin : 1978, osc, 53 X 38cm

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.”

Carlos Drummond de Andrade

Amor7

“Pausa I”, de Edith Blin: 1970, osc, 52 X 38cm

Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.” (De Julieta para Romeu)

William Shakespeare

Amor8

“Casal n•5″, de Edith Blin: 1980, osc, 51 X 37cm. Esta obra participou do Nouveau Salon de Paris – CIAC, em janeiro de 1986. Após o evento, a obra desapareceu, sendo desconhecido o seu paradeiro atualmente.

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.”

Fernando Pessoa

Uma nota a ser feita sobre as oito obras de Edith Blin apresentadas neste post: todas elas datam da década de 70, quando a artista tinha mais de 80 anos. É realmente fantástico o vigor e a força que transmitem, sem deixar de lado a ternura que o tema sugere…

Autor: Catherine Beltrão