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Cassinos da serra: o que foi e o que poderia ter sido…

Datados do século XX, encontramos em cidades da região serrana do Rio de Janeiro dois belíssimos exemplos de construções que tinham como objetivo serem cassinos: o Cassino Quitandinha, em Petrópolis e o Cassino Cascata, em Nova Friburgo.

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Palácio Quitandinha, em Petrópolis

O Palácio Quitandinha foi construído a partir de 1941 pelo empreendedor mineiro Joaquim Rolla, para ser o maior cassino hotel da América do Sul.

Construído em 1944 por Joaquim Rolla e Antonnio Faustino para ser o maior hotel cassino da América Latina, seu estilo arquitetônico utiliza o rococó hollywoodiano, em sua parte interna  e o normando-francês, em sua parte externa.

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Restaurante Central, no Palácio Quitandinha. Anos 40.

Com 50 000 metros quadrados, sete andares com pé direito alto, mais a garagem no sub-solo, chega a atingir 10 andares nas torres; divididos em 440 apartamentos, 13 grandes salões com até 10 metros de altura que podem abrigar 10.000 pessoas simultaneamente. A cúpula do Salão Mauá, onde era localizado o cassino, é a 2ª maior do mundo, com 30 metros de altura e 50 metros de diâmetro.  Existe um Teatro Mecanizado, com três palcos giratórios com capacidade para 2.000 pessoas. e uma piscina térmica em formato de um piano de cauda, cuja profundidade chega a 5 metros, dotada de caldeiras que mantinham a água a uma temperatura de 30º C.

Na construção do lago em frente ao palácio, foi usada uma grande quantidade de areia da praia de Copacabana.

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Contagem do dinheiro arrecadado em uma noite no Cassino Quitandinha. Anos 40.

No seu auge, na década de 40, o Palácio Quitandinha chegou a empregar 1.500 pessoas. Foi neste cenário que durante um curto período de esplendor, o hotel teve grandes personalidades brasileiras e internacionais desfilando por suas dependências, como os políticos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart… Entre os Artistas contratados para os shows em sua Boate, estiveram ali: Carmen Miranda, Grande Otelo, Oscarito, Emilinha Borba, Marlene, a vedete Virgínia Lane e outros ídolos do rádio como Orlando Silva, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, Mário Reis e Nelson Gonçalves.

Passaram também por seus salões o presidente americano Harry S. Truman e a mais controvertida primeira dama e líder política
argentina Evita Perón. Estrelas de Hollywood não faltavam: a atriz Lana Turner, que teve uma estada de dois meses na suíte presidencial, Errol Flynn, Marlene Dietrich, Orson Welles, Henry Fonda, Maurice Chevalier, Greta Garbo, Bing Crosby e até Walt Disney, em visita ao Brasil para o lançamento do personagem Zé Carioca…

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Vídeo sobre o Palácio Quitandinha

Em 30 de maio de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra decretou a proibição do jogo no Brasil e o Quitandinha a partir da década de 1960 começou a ter dificuldades para sobreviver somente como hotel. Seu alto padrão exigia alto custo a seus hóspedes e sem o cassino começou a perder para concorrentes da época localizados mais próximos das classes mais abastadas e das maiores esferas de poder, como o Hotel Glória e o Copacabana Palace Hotel. Em 1962 o Palácio Quitandinha deixava de funcionar como hotel.

Nos dias de hoje, as áreas históricas e de lazer, que ficam no térreo, são administradas pelo Sesc desde 2007, e um condomínio residencial absorve os cinco andares acima.

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Colégio Nova Friburgo, projetado para ser o Cassino Cascata.

No início do século XX, Dermeval Barbosa Moreira, conhecido em Nova Friburgo como um médico caridoso, estranhamente resolve diversificar a sua atividade profissional. Juntamente com o seu cunhado, edificou no local denominado “Cascata” das Duas Pedras, um suntuoso prédio destinado a um hotel cassino, o Cassino Cascata. Construíra esse cassino, ao que parece, em sociedade com os mesmos empresários do Cassino da Pampulha, Cassino da Urca e do Quitandinha. No entanto, quando o prédio estava praticamente pronto, eis que o jogo de azar passa a ser proibido no país pelo Governo Dutra e o cassino virou um elefante branco. Desesperado, o médico procurou a equipe médica do Hospital de Tuberculosos de Corrêas, em Petrópolis, oferecendo o prédio do Cassino Cascata para a instalação de um hospital de tuberculosos. Houve interesse por parte daquele estabelecimento e as negociações começaram. Convém lembrar que Nova Friburgo já tinha sido o local escolhido pela Marinha do Brasil para a instalação do Sanatório Naval, estabelecimento destinado a cura de marinheiros tuberculosos. Mas será que a cidade comportaria dois hospitais para tuberculosos?

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Colégio Nova Friburgo. Anos 50.

Surge então um grupo liderado por Augusto Spinelli, e integrado por César Guinle, José Eugênio Müller, Tuffi El Jaick, entre outros, que se mobilizam para impedir a instalação de mais um sanatório, prejudicial à representação de Nova Friburgo como cidade salubre. Resolvem adquirir o prédio a fim de instalar no local um estabelecimento educacional. Criaram então a Empresa Educacional Fluminense, também denominada de Fundação Educacional, e adquiriram o Cassino Cascata de Dr. Dermeval com o propósito de instalar um ginásio. Acontece, entretanto, que a nova empresa, não dispondo de recursos financeiros à altura da iniciativa, e também não podendo retroceder na compra do edifício, sob pena de enorme prejuízo, toma a deliberação de procurar um novo proprietário para o prédio. A Empresa Educacional Fluminense entra em entendimentos com os clérigos do Colégio Anchieta a fim de prolongarem aquele estabelecimento até o Cascata, mas o valor para o empreendimento era superior aos recursos do Colégio Anchieta. Oferecem então ao Seminário de São José, no Rio de Janeiro, cujos clérigos vêm à Nova Friburgo estudar as possibilidades. Mas o Seminário também não pode arcar com o valor do imóvel. O tempo corria, os prejuízos cresciam, a hipoteca da Caixa Econômica vencendo juros, os fornecedores fazendo pressão e os compromissos com os construtores do Cascata avolumavam-se. A Empresa Educacional Fluminense resolve então abrir o ginásio por conta própria e assim iniciam ampla propaganda pelos grandes jornais do Rio de Janeiro, rádios, etc. No entanto, a empreitada é superior à sua condição econômica e a Empresa Educacional novamente volta ao ponto de partida no intuito de encontrar um comprador para o Cascata. Dessa vez urgia pressa ou uma catástrofe financeira desabaria sobre todos. Surge então a Fundação Getúlio Vargas. O fato do prefeito César Guinle ser amigo de Simões Lopes, presidente da Fundação Getúlio Vargas, teria provavelmente facilitado o acordo com essa instituição.

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Escadaria e lustre no prédio do Ginásio Nova Friburgo. Foto atual.

Inicia-se uma negociação que envolve a Prefeitura de Nova Friburgo, a Empresa Educacional Fluminense e a Fundação Getúlio Vargas. A Prefeitura precisaria desembolsar alguns milhões de cruzeiros para viabilizar a vinda de Fundação, o que acabou gerando protestos de alguns segmentos da sociedade friburguense. Porém, a mensagem do prefeito César Guinle foi aprovada pela Câmara Municipal, que conseguiu recursos para viabilizar a vinda da Fundação Getúlio Vargas para Nova Friburgo. Foi investido no Cascata um total de CR$6.000.000,00 (seis milhões de cruzeiros): a Prefeitura doou CR$2.000.000,00; uma subscrição realizada entre a população friburguense arrecadou CR$1.000.000,00 e foi feito um empréstimo junto à Caixa Econômica de CR$2.5000.000,00. A Fundação Getúlio Vargas entrou somente com CR$500.000,00. Cumpre destacar que particulares ainda doaram terrenos no Cascata para ampliação do colégio. Logo, o Cascata passou a abrigar, a partir de 1949, o Colégio Nova Friburgo sob a égide da Fundação Getúlio Vargas, cujo período letivo se inicia no ano seguinte. Ficou conhecido esse estabelecimento de ensino na cidade como “Fundação”. Tratava-se de um colégio de ensino secundário, em regime de internato, consistindo quase todos os internos do sexo masculino. Esse colégio foi considerado uma referência em todo país pelo alto nível de seu ensino e quadro docente. Era um colégio moderno, um colégio laboratório, onde nele seria aplicado um novo sistema de ensino: o estudo dirigido. Várias obras foram executadas. Adaptaram o prédio às salas de aula, construíram o primeiro ginásio esportivo da cidade, pista olímpica, piscina, auditório e um novo prédio para o “curso científico” com salas amplas, biblioteca, laboratórios de química e física, dormitórios e áreas de lazer. As atividades começavam às 8 horas e se estendiam até às 17. Professores de gabarito moravam em casas construídas em torno dos prédios do colégio.

Foi desativado em 1977, depois de 27 anos em atividade.

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Vídeo sobre o Colégio Nova Friburgo. Imagens antigas e atuais.

O local passou anos à deriva, até que em 1989, nas dependências do antigo GNF passou a funcionar o Instituto Politécnico do Rio de Janeiro (IPRJ). Em janeiro de 2011, o IPRJ teve seu campus interditado, em decorrência da tragédia climática que atingiu a região serrana do estado do Rio de Janeiro e, em particular, a cidade de Nova Friburgo. Hoje, o IPRJ foi transferido para a extinta fábrica Filó, na Vila Amélia.

O que poderia ter sido um dia o Cassino Cascata encontra-se, hoje, abandonado.

Cassino Quitandinha e Cassino Cascata. Duas construções majestosas. Ambiciosas. Duas histórias de resiliência.  Uma, com final feliz. Outra, não. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

A hora e a vez de Alberto da Veiga Guignard

No último dia 13 de agosto, a obra “Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard (1896 – 1962), foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão.

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“Vaso de flores”. Ost, 1930.

 

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Escola Guignard, em Belo Horizonte

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Museu Casa Guignard, em Ouro Preto

Tendo sido “adotado” nos anos 40 pelo então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek,  é em Belo Horizonte que existe hoje a Escola Guignard e é em Ouro Preto que se encontra o Museu Casa Guignard, ambas construções que homenageiam este grande artista.  Também é em Ouro Preto que repousam os seus restos mortais, na Igreja de São Francisco de Assis. Assim, para muitos, Guignard teria nascido em Minas Gerais.

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Logo do projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo”

Mas Alberto da Veiga Guignard nasceu em Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro. Em 2003, a ArtenaRede, empresa então ainda incubada na UERJ, incentivada pelo jornalista e cineasta Luis Carlos Prestes Filho, teve a ideia de criar o projeto “Guignard – filho de Nova Friburgo“, que tem por objetivo valorizar a vida e a obra do artista Alberto da Veiga Guignard em sua cidade natal. Além da criação do site, na época várias pesquisas sobre a vida e a obra do pintor foram realizadas pela ArtenaRede, a ponto de localizar o famoso Solar Savory, local em que  o artista residiu por alguns meses no início dos anos 40. Em tempo: nenhum livro sobre Guignard, já publicado até aquele ano, havia mencionado o exato local deste Solar. Infelizmente, hoje o Solar Savory já não existe: foi demolido e em seu lugar, construído um shopping de moda íntima.

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“Solar Savory”, em Mury, Nova Friburgo, região serrana fluminense. Hoje, o solar não existe mais.

Alberto da Veiga Guignard, um dos grandes nomes do modernismo brasileiro, agora chegou ao topo da escala de valorização dos artistas plásticos brasileiros. Será que continuará desconhecido da população friburguense? Será que o projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo” terá vez na cidade, que em 2018 completa 200 anos?Quem tiver curiosidade, aqui está o post “Guignard, filho de Nova Friburgo“, que escrevi neste blog, em março de 2014.

Autor: Catherine Beltrão

Pensando em árvores…

Assim como as árvores, também sentimos o vento, a chuva e o sol. Que nos fazem viver. Assim como as árvores, também sentimos a carícia e o abraço. Que nos conforta. Assim como as árvores, também sentimos a pancada e o abate. Que nos mata.

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Claude Monet

Desde sempre, pintores, poetas e escritores louvaram flores, estrelas e …. árvores. Apresento neste post alguns destes registros.

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Paul Cezanne

O vento, de Cecília Meireles

O cipreste inclina-se em fina reverência e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis, os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente com o mesmo tremor das samambaias debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego, num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo: mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel, entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra, ela pertence agora a outro reino. Seu movimento secou também, num desenho inerte. Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim pode subir e descer por seus galhos inúmeros: ela não responderá mais nada, hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

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Vincent van Gogh

Clarice Lispector: “Gosto das cores, das flores, das estrelas, do verde das árvores, gosto de observar. A beleza da vida se esconde por ali, e por mais uma infinidade de lugares, basta saber, e principalmente, basta querer enxergar.”

Mario Quintana: “Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes.”

Khalil Gibran: “Pode contar seus segredos ao vento, mas depois, não vá culpá-lo por contar tudo às árvores.”

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Gustav Klimt

 

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Alfred Sisley

Velhas Árvores, de Olavo Bilac

Olha estas velhas árvores, mais belas
 Do que as árvores moças, mais amigas,
 Tanto mais belas quanto mais antigas,
 Vencedoras da idade e das procelas…
 O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
 Vivem, livres da fome e de fadigas:
 E em seus galhos abrigam-se as cantigas
 E os amores das aves tagarelas.
 Não choremos, amigo, a mocidade!
 Envelheçamos rindo. Envelheçamos
 Como as árvores fortes envelhecem,
 Na glória de alegria e da bondade,
 Agasalhando os pássaros nos ramos,
 Dando sombra e consolo aos que padecem! 

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Tarsila do Amaral

Clarice Lispector: “Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo.”

Tom Jobim:  “Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz

Provérbio indígena: “Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.”

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Vincent van Gogh

 

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Piet Mondrian

Árvore Verde, de Fernando Pessoa

Árvore verde,
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.

Que bom não ser
estando acordado!
Também em mim
Enverdecer
Em folhas dado!

Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma!
Não ser quem sente,
Mas tem a calma…

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Georges Braque

Eu tinha um sonho
Que me encantava.
Se a manhã vinha,
Como eu a odiava!

Volvia a noite,
E o sonho a mim.
Era o meu lar,
Minha alma afim.

Depois perdi-o.
Lembro?
Quem dera!
Se eu nunca soube
O que ele era.

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Cândido Portinari

Martin Luther King: “Se soubesse que o mundo se acabaria amanhã, eu ainda hoje plantaria uma árvore.”

Mahatma Gandhi: “A natureza pode suprir todas as necessidades do homem, menos a sua ganância.

Khalil Gibran: “Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as  transformamos em papel para registrar todo nosso vazio.”

E, por fim, esta magnífica obra de Dall’ara, pintada em 1906, representando, ao que tudo indica, a praça Getúlio Vargas de Nova Friburgo, onde se situa o ponto geodésico do Estado do Rio de Janeiro.

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Gustavo Dall’ara – “Praça de Nova Friburgo”, 1906, ost, 21,5 X 32,5cm

 

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Vídeo: “O homem que plantava árvores”

Vale a pena também apresentar aqui o vídeo “O homem que plantava árvores” (“L’homme qui plantait des arbres“), sobre um conto do romancista francês Jean Giono, vencedor do Oscar de melhor filme de animação em 1988. Para quem dispuser de 30 minutos para ver este magnífico vídeo, com certeza terá construído novos ramos em sua árvore de pensamentos e estes, quem sabe, poderão se transformar em ações no futuro.

Este post é dedicado às dezenas de árvores centenárias abatidas na Praça Getúlio Vargas, no centro de Nova Friburgo, em mais um janeiro negro desta cidade.

 Autor: Catherine Beltrão

Liszt e o inverno de Nova Friburgo

Edith - Retrato de Franz Liszt

“Retrato de Franz Liszt”, de Edith Blin. ost, déc.60, 41 X 33cm

Franz Liszt (1811 - 1886), nascido na Hungria, foi compositor, pianista, maestro e professor. É considerado por muitos como o maior pianista de todos os tempos. Como compositor, deixou vasta obra, algumas de execução de extrema dificuldade técnica: 19 Rapsódias Húngaras para Piano, (posteriormente orquestradas), 12 Estudos de Execução Transcendental, Sonata em Si menor, Sinfonia Fausto, Sinfonia Dante, Concerto para Piano No. 1, Concerto para Piano No. 2, Valsa Mephisto No. 1, Liebesträume No. 3, e Poemas Sinfônicos.

Meu primeiro contato com a obra de Franz Liszt se deu nos anos 60 (aqueles que eu chamo de “anos dourados“), quando floresceu a minha maior paixão: a música.

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Liszt, com Ruth Slenkzynska

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Liszt, com Claudio Arrau

Lembro perfeitamente de ouvir por horas seguidas, por dias e meses, os mesmos discos com composições de Liszt – os Estudos sobre os Caprichos de Paganini e os Estudos Transcendentais, ambos interpretados pela fantástica Ruth Slenkzynska. Mais tarde, na década de 70, mais Liszt: Anos de Perenigração, com o grande pianista Claudio Arrau.

Conheci Nova Friburgo nos anos 70, acampando nos invernos do Cônego. Fiquei rapidamente e totalmente apaixonada pelos verdes e pelos frios desta serra do Rio de Janeiro.  A tal ponto apaixonada que, após construir uma casa a mais de 1000m de altitude, resolvi vir morar e trabalhar por aqui. Isto aconteceu em 1996. De lá pra cá, fui conhecendo e amando cada vez mais suas montanhas, rios, cerejeiras e pássaros. Nestas andanças, fui também conhecer os jardins e os lagos do parque São Clemente, criados pelo arquiteto e paisagista Glaziou.

Parque Sao Clemente

Parque São Clemente. Foto Osmar Castro.

A cada ano, como acontece em várias cidades brasileiras, ocorre em Nova Friburgo o Festival de Inverno, reunindo artistas variados, que vão do clássico ao popular. Neste ano de 2014, em meio a várias atrações de muita qualidade,  aconteceu a Maratona Liszt, no teatro do Nova Friburgo Country Clube. Numa iluminada noite de julho, três jovens e fantásticos pianistas brasileiros – Daniel Burlet, Aleyson Scopel e João Elias -  todos já  detentores de primeiras colocações em concursos nacionais de piano e diversas premiações internacionais, ultrapassaram os limites da técnica exigidos pelas peças compostas por Liszt, oferecendo à plateia lotada do teatro momentos de inesquecível deleite e prazer auditivo. Ouvimos a Sonata Dante, o Feux Follets, Funerailles, a Valsa Mephisto e a Rapsódia Hungára n• 6 em ré bemol maior.

Louvado seja Franz Liszt. Louvado seja o inverno em Nova Friburgo. Louvado seja o Festival de Inverno que proporciona este encontro. E louvados sejam Miriam Dauelsberg e Henrique Cordeiro, idealizadores e mentores deste Festival!

Autor: Catherine Beltrão

Guignard, filho de Nova Friburgo

Eu já conhecia a obra de Guignard desde os tempos da Galeria Montmartre Jorge. Nas décadas de 50 e 60, meu tio Jorge Beltrão, marchand e empresário, dono da Galeria, promoveu exposições de vários artistas, entre eles José Pancetti, Flávio de Carvalho e Guignard.

"Autoretrato", osm, 1961

“Autoretrato”, osm, 1961

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) nasceu em Nova Friburgo/RJ e morreu  em Belo Horizonte/MG. Considerado um dos maiores pintores modernistas do Brasil, junto a Cândido Portinari e Di Cavalcanti, sua produção pictórica compreende paisagens, retratos e temas florais,  além de pinturas de gênero e de temática religiosa.

Escreveu Cecília Meireles, em 1947:

 “Árvores de nuvem e flores do mar - levai-me a esse mundo do Rei Guignard! (…)

As rochas, de espuma. As conchas, de luar. O sonho pousado em ramagens de ar… Levai-me a este reino do Rei Guignard.”

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“Fantasia”, osm, 30 X 122cm,1960

 

LogoEm 2003, a ArtenaRede, empresa então ainda incubada na UERJ, incentivada pelo jornalista e cineasta Luis Carlos Prestes Filho, teve a ideia de criar o projeto “Guignard – filho de Nova Friburgo“, que tem por objetivo valorizar a vida e a obra do artista Alberto da Veiga Guignard em sua cidade natal. Trata-se de um assunto de importância estratégica para o desenvolvimento cultural e econômico de Nova Friburgo/Rio de Janeiro, local de seu nascimento.

"Paisagem imaginante", osm, 1955

“Paisagem imaginante”, osm, 1955

O projeto é constituído de vários módulos: além do site do projeto e dos “Encontros com Guignard“ (que foram iniciados na época),  constam do projeto uma retrospectiva de obras do artista na cidade em que nasceu, a construção de um “Memorial Guignard“, a criação e a construção de uma escultura do artista a ser fixada em local de destaque na cidade, exposições de arranjos florais reproduzindo

"Vaso de flores", osm, 60 X 50 cm, 1946

“Vaso de flores”, osm, 60 X 50 cm, 1946

flores pintadas por Guignard, seminários com palestras e mesas-redondas sobre o legado do artista, quiosques espalhados pela cidade, vendendo produtos contendo reproduções de obras de Guignard e artigos comemorativos como camisas, posters, agendas, cadernos, toalhas, lençóis, pastas, medalhas, selos, moedas, entre outros.

Nas andanças e pesquisas realizadas na tentativa de o Projeto vingar, vale a pena citar três momentos:

1. Em junho de 2004, a convite de Sylvio Lago Junior, grande historiador, ensaísta e musicólogo, proferi uma palestra sobre o projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo“, na Academia Brasileira de Arte, no Rio de Janeiro;

2. Em 2005, após intensa pesquisa, o site do projeto apresentou fotos e informações referentes ao famoso Solar Savory, localizado em Mury, local esse em que Guignard residiu por alguns meses no início dos anos 40. Cabe ressaltar que nenhum livro sobre Guignard, já publicado até aquele ano, mencionava o exato local deste Solar. Na época, mandei uma carta à Secretaria de Educação e Cultura do município, solicitando o tombamento do Solar e a sugestão para a transformação do local em Centro Cultural. Como resposta, o Solar foi demolido e em seu lugar, construído um shopping de moda íntima;

Solar Savory, em Mury.

Solar Savory, em Mury, em 2005.

3. No evento do Fashion Rio de junho de 2006,  a Moda Íntima de Nova Friburgo apresentou o tema floral de Guignard como linha mestra para promoção.

Apesar destes momentos gloriosos e inesquecíveis, “Guignard, filho de Nova Friburgo” é mais um projeto, entre muitos, a esperar a evolução da inteligência e da sensibilidade dos que detém  a governança das áreas pública e privada da cidade de Nova Friburgo.

Mais informações sobre o projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo”, clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Museu ArtenaRede: do virtual ao real

Até onde sei, nenhum museu real foi criado a partir de um espaço virtual. Desde sempre, o site de um museu é criado a partir de um museu que exista fisicamente.

A idéia do acervo do Museu Artenarede é que seja constituído de obras doadas e previamente catalogadas por artistas cadastrados no site do projeto ArtenaRede - www.artenarede.com.br,  gerando assim um fato inédito nesta área: ao invés de se criar um site – espaço virtual – representativo de um museu real, está se criando um museu real a partir de um espaço virtual.

Atualmente, o Museu já conta com 67 peças doadas, vindas de vários estados do Brasil – Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, além de outros países como Portugal, França e Argentina.

Um livro poderia ser escrito sobre as obras doadas para o Museu Artenarede. Cada obra doada ao Museu tem sua história. A seguir, apresento algumas das obras doadas, com partes de sua história.

Lenagal - Dorsilenciosa

Lenagal – “Dor silenciosa”, ast, 2002, 54 X 65 cm

Dor silenciosa” foi uma das primeiras obras doadas ao Museu, em 2002, por Lenagal. Esta obra é fantástica, extremamente forte, dilacerante. Os olhos fechados avistam uma dor interior intensa, do tamanho do campo que se perde no horizonte. A boca retorcida não sabe ou não precisa mais sorrir: tudo é angústia, tudo é sofrimento.

Esta obra é muito significativa também pois foi a primeira doação que o Museu ArtenaRede recebeu de outro país, no caso Portugal.

Lenagal nasceu em São Miguel, Açores. Realizou várias exposições na Europa e nos Estados Unidos. Sua temática é o universo feminino, utilizando cores quentes e vibrantes.

Luiza - Frida e Diego

Luiza Cetano – “Frida Kahlo e Diego de Rivera”, ast, 2000

Frida Kahlo e Diego de Rivera”, doada ao Museu em 2002, esta obra  também veio de Portugal. A obra traz para o Museu Artenarede três grandes artistas, totalmente comprometidos com a arte e com um sentido nacionalista maior: os mexicanos Diego de Rivera e Frida Kahlo e a portuguesa Luiza Caetano. Trata-se de uma obra muito importante, contundente até, ultrapassando qualquer estilo ou escola a que possa pertencer.

Luiza Caetano nasceu em Venda do Pinheiro-Mafra, Portugal e iniciou suas exposições em 1988, na Galeria de Arte do Casino Estoril. Aborda o gênero naïf, não se prendendo a temas específicos. Esta artista é hoje uma das mais importantes pintoras naïves da atualidade, e também uma das maiores incentivadoras do projeto Artenarede, com 222 obras catalogadas no site.

Theta - Eterno campeao

Theta Miguez – “Eterno campeão”, técnica mista, 2002

Eterno Campeão” foi doada ao Museu Artenarede em 2003, por Theta Miguez. Esta obra nos traz o olhar, a aura, o pensamento de Ayrton Senna para dentro de nosso pequeno mundo interior… e ele, então, fica imenso!

Segundo as próprias palavras da artista: ‘Esta obra, que fiz com muito carinho, representa a imagem que captei na TV, quando Ayrton Senna, na sua última corrida em Ímola na Itália, já de capacete, dentro do seu carro, dirigia seu olhar aos fotógrafos e câmaras de TV. Parecia um olhar  de despedida, que jamais esquecerei. A tristeza desse olhar  traduzia  os mais profundos sentimentos de sua alma como um pressentimento sobre aquele dia fatídico.’

Théta C. Miguez é natural de Igarapava, São Paulo, tendo participado de inúmeras exposições no Brasil e no exterior. A artista faleceu em 2005, tendo feito a maior doação da história do Museu Artenarede: além desta obra, ela doou mais 27 obras magníficas, que compõem a exposição completa intitulada “Retratos do Apocalipse”.

A obra “My life in the beach ” foi doada ao Museu Artenarede em 2002, por Débora Giestas. A areia, o mar, o céu… estrelas do mar, guarda-sóis… ao fundo, serão ondas, nuvens, pássaros? Não importa. O que importa é a sensação de tranqüilidade, de paz, de imersão na vida que esta obra nos traz.

Giestas - My life in the beach

Débora Giestas – “My life in the beach”, técnica mista, 2002, 80 X 150cm

Obra de grandes dimensões e de extrema fragilidade – composta de milhares de fragmentos de minúsculas partículas de casca de ovo, entre outros materiais – ela causa grande impacto em qualquer contexto em que esteja sendo exibida.

Natural de Vitória, Espírito Santo, Débora Giestas é formada em Educação Artística pela UFES. Cria lindos e inéditos mosaicos, feitos de noz de cola.

Marcellux - Moebius

Marcellux – “Moebius Strip Opus #2″, ast, 2002, 50 X 70 cm

Moebius Strip Opus #2” foi doada ao Museu Artenarede em 2004, por Marcellux, artista argentino. Sobre esta obra, disse: “…Você avança até alcançar o ponto em que iniciou. Um laço feito para nada. Todo o seu esforço é inútil. A eterna busca do que você sempre carregou consigo. Que conceito poderoso! Quantas muitas coisas engraçadas para contar… Poderia eu resistir a esta tentação? Em absoluto. Como todos os que eu conheço, eu experimentei a atração da Moebius Strip… Aqui eu a partilho com você. Divirtam-se…”

Esta obra faz parte de um grupo de 4 obras doadas por Marcellux para o Museu, que vieram diretamente de uma exposição na Galeria Soho, New York, para Nova Friburgo.

Marcellux nasceu na Argentina, sendo um dos artistas catalogados no site do projeto Artenarede que mais divulga sua arte pelo mundo afora, tendo feito inúmeras exposições em diversos países das Américas e da Europa.

Vania Machado - Triptico

Vania Machado – “Tríptico”, técnica mista, 2004, 85 X 145cm

Tríptico” foi doada ao Museu Artenarede em 2005, por Vânia Machado. Obra abstrata, ela dá margem a vários entendimentos, dependendo da imaginação de quem a observa. Serão partes de carcaças bovinas? Serão flores estilizadas? Ou será uma composição de fitas trançadas e entrelaçadas? Qualquer que seja a interpretação da obra, ela terá sido parte da evolução cultural de seu contemplador.

Vânia Machado é uma artista friburguense, sempre em busca de seu aprimoramento artístico, sempre em busca de uma comunhão de sua arte com o público que a admira.

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Banner da exposição na Usina Cultural. Criação da arte: Eduardo Vieira

Em 2003, 2004 e 2005, várias mostras itinerantes do Museu Artenarede foram realizadas. Estas mostras aconteceram na ACIANF – Associação Comercial e Agrícola de Nova Friburgo, na Queijaria Suíça – um dos pontos turísticos mais visitados do circuito Tere-Fri e no Colégio Anchieta. Nestas mostras, obras do acervo foram apresentadas ao público, na medida que foram sendo doadas ao Museu pelos artistas.

Mais recentemente, em setembro de 2012, uma exposição de parte do acervo do futuro Museu ArtenaRede foi realizada na cidade de Nova Friburgo, no espaço cultural da Energisa, a Usina Cultural. A organização da exposição foi primorosa, tendo sido amplamente divulgada  na mídia local, o que contribuiu para a grande visitação ao espaço.

Doze anos se passaram desde o início da captação de obras para a montagem do acervo do Museu Artenarede, em junho de 2002. Um sonho não se torna realidade sem o envolvimento de mais pessoas além do sonhador. O sonho para a criação e construção do Museu já envolveu 38 artistas que acreditaram no projeto e doaram 67 obras. O sonho do Museu Artenarede já possui uma história, um caminho percorrido. Essa história está só começando. Mais artistas deverão doar obras. Estas obras precisam de um espaço permanente para serem apreciadas pelo público. A cidade de Nova Friburgo, com quase 200.000 habitantes e a quatro anos de seu bicentenário, merece um museu: o Museu ArtenaRede.

Autor: Catherine Beltrão