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Paletas e autorretratos (Parte I)

Para um pintor, a paleta é seu camarim. É ali que ele se prepara, prepara sua obra, veste suas cores, do dia ou da noite.

Neste post, decidi apresentar a paleta acompanhada de um autorretrato de cada pintor. Nada mais íntimo de sua alma.

Vincent van Gogh (1853-1890)

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Paleta Van Gogh

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Autorretrato Van Gogh. 1889

 

Nesta parte I, junto às paletas e autorretratos de doze artistas, é apresentado um texto sobre a paleta de Renoir, escrito pelo seu filho Jean Renoir, no livro “Pierre-Auguste Renoir, meu Pai” , págs 336 a 338, 2005, Ed. Bizâncio, Lisboa.

 

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

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Paleta Renoir

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Autorretrato Renoir. 1879

A paleta de Renoir era limpa como uma moeda nova. Era uma paleta quadrada que se encaixava na tampa do estojo, que tinha a mesma forma. Num dos godés duplos, punha óleo de linhaça puro e no outro uma mistura de óleo de linhaça com essência de terebentina, em partes iguais. Numa mesa baixa, colocada ao lado do cavalete, tinha um copo cheio de essência de terebentina em que enxaguava o pincel, praticamente após cada aplicação de cor.

 

Salvador Dali (1904-1989)

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Paleta Dali

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Autorretrato Dali. 1941

 

Na caixa, e em cima da mesa, tinha alguns pincéis de reserva. Nunca tinha em uso mais do que dois ou três ao mesmo tempo. Mal começavam a ficar gastos, esborratavam, ou por qualquer outra razão deixavam de lhe proporcionar uma absoluta precisão de pincelada, deitava-os fora. Exigia que destruíssem os pincéis velhos, não fosse ele pegar em algum deles por engano enquanto trabalhava.

 

Marc Chagall (1887-1985)

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Paleta Chagall

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Autorretrato Chagall. 1913

Na mesinha havia também panos limpos, com os quais secava de vez em quando o pincel.

A caixa, tal como a mesa, estavam sempre perfeitamente arrumadas.

Os tubos de tintas eram enrolados a partir da dobra, de forma a obter, ao espremê-los, a quantidade exata de tinta pretendida.

 

Eugène Delacroix (1798-1863)

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Paleta Delacroix

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Autorretrato Delacroix. 1837

 

No princípio da sessão de trabalho, a paleta, que tinha sido limpa no fim da sessão anterior, estava imaculada. Para a limpar, começava por raspá-la, vertendo os resíduos para um papel, que atirava logo para o lume. Em seguida, esfregava-a com um pano embebido em essência de terebentina até que não houvesse o mínimo resquício de tinta na madeira. O pano ia também para o lume.

 

Claude Monet (1840-1926)

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Paleta Monet

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Autorretrato Monet. 1886

 

 

Os pincéis eram lavados com água fria e sabão. Recomendava que esfregassem suavemente os pelos na palma da mão. De vez em quando encarregava-me desta operação, o que me enchia de orgulho.

 

 

Edvard Munch (1863-1944)

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Paleta Munch

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Autorretrato Munch. 1923/24

 

Renoir descreveu pessoalmente a composição da sua paleta numa nota que a seguir transcrevo e que data, evidentemente, do período impressionista:

 

 

 

 

 

 Francis Bacon (1909-1992)

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Paleta Bacon

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Autorretrato Bacon. 1969

Branco de prata, amarelo de cromo, amarelo-de-nápoles, ocre amarelo, terra-de-siena natural, vermelhão, laca de garança, verde-veronês, verde-esmeralda, azul-cobalto, azul-ultramarino, espátula, raspadeira, essência, tudo o que é necessário para pintar. O ocre amarelo, o amarelo-nápoles e a terra-de-siena são meros tons intermédios que são dispensáveis, pois podem fazer-se com outras cores. Pincéis redondos de pelo de marta, pincéis chatos de seda.

Registre-se a ausência do preto, “a rainha das cores”, como ele próprio iria proclamá-lo no seu regresso de Itália.

Pablo Picasso (1881-1973)

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Paleta Picasso

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Autorretrato Picasso. 1907

À medida que se aproxima do fim da vida irá simplificar ainda mais a sua paleta. A ordem de que me lembro na época em que pintava “As Grandes Banhistas” do Louvre, no ateliê de Les Collettes, era a seguinte: começando de baixo, junto da abertura para o polegar, o branco de prata, em quantidade generosa, o amarelo-de-nápoles num montículo minúsculo, tal como todas as cores que se seguem – o ocre amarelo, a terra-de-siena, o ocre vermelho, a laca de garança, a terra verde, o verde-veronês, o azul-cobalto, o negro-marfim.

 

 

 William Turner (1775-1851)

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Paleta Turner

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Autorretrato Turner. 1824

 

Esta seleção de cores não era inalterável. Eu vi Renoir, embora em raras ocasiões aplicar vermelhão chinês que punha na paleta entre a laca de garança e a terra verde. Nem Gabrielle nem eu o vimos usar o ocre de cromo.

 

 

 

 

Frida Kahlo (1907-1954)

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Paleta Frida Kahlo

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Autorretrato Frida Kahlo. 1940

 

Esta exiguidade de meios era impressionante. Os montículos de tinta pareciam perdidos na superfície de madeira, rodeados de vazio. Renoir encetava-os com parcimônia, com respeito. Era como se achasse que iria ofender Mullard, que lhe tinha preparado meticulosamente aquelas cores, se atafulhasse a paleta com elas e depois não as usasse até à mais pequena parcela.

 

 

 Toulouse Lautrec (1864-1901)

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Paleta Lautrec

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Autorretrato Lautrec. 1880

 

 Quase sempre misturava as tintas na tela. Preocupava-se muito em que o quadro mantivesse, ao longo de todas as fases do trabalho, uma impressão de transparência.”

 

 

Continua na Parte II, a ser publicado na próxima semana.

Autor: Catherine Beltrão

200 posts! Festa de Arte doce!

Hoje é dia de festa! Dia de comemorar 200 posts do blog ArtenaRede! Dia de festejar e comer muita arte doce!

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Mondrian.
Vídeo: “Die ideale Wirklichkeit – Piet Mondrian “. Duração: 2:43

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Mondrian
Vídeo: animação sobre neoplasticismo. Duração: 2:04

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Van Gogh.
Vídeo: animação interativa com “Noite Estrelada”. Duração: 4:15

 

Piet Mondrian (1872-1944) e Vincent van Gogh (1853-1890) são os primeiros a chegar à festa, trazendo duas obras da série “Composições em vermelho, amarelo e azul“, “A Noite Estrelada” e “Amendoeira em flor“. Mondrian, o grande nome do neoplasticismo e Van Gogh, talvez o mais amado dos pintores, são inconfundíveis, até mesmo quando sua arte se transforma em bolos…

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Van Gogh
Vídeo: animação do pintor em 3D. Duração: 1:51

 

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Klimt.
Vídeo: análise da obra “O beijo”. Duração: 3:56

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Munch
Vídeo: “The Scream”, fantástica animação sobre a obra “O Grito”. Música de Pink Floyd. Duração: 3:22

 

Gustav Klimt (1862-1918) e Edvard Munch (1863-1944) chegam logo em seguida. “O Beijo” e “O Grito” são puro encantamento, trazendo momentos do simbolismo e do expressionismo.

 

E eis que chegam duas das maiores figuras artísticas do século XX!

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Picasso
Vídeo: pinturas de Picasso. Duração: 3:00

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Picasso
Vídeo: história e análise da obra “Les demoiselles d’Avignon. Duração: 4:19

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Dali
Vídeo: animação “Destino & Time – Salvador Dali, Walt Disney and Pink Floyd”. Duração: 7:05

 

Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989),  os maiores nomes do cubismo e do surrealismo, vêm trazendo “Mulher em frente ao espelho“, “Les demoiselles d’Avignon” e “A persistência da memória“, este em duas versões…

É impossível não se emocionar com a Arte e com a história destes dois gênios: o Picasso de várias mulheres e o Dali de uma só…

 

 

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Dali
Vídeo: explicação da criação da obra “A persistência da memória”. Duração: 2:52

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Monet
Vídeo: “Claude Monet – Giverny ‘Les Nymphéas’. Música de Claude Debussy. Duração: 5:25

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Matisse
Vídeo: obras do pintor. Música de Claude Debussy. Duração: 3:52

 

A festa prossegue com a chegada de Claude Monet (1840-1926) e Henri Matisse (1869-1954), com seus emblemáticos  “Le bassin aux nymphéas” e “Interior com cortina egípcia“, obras máximas do impressionismo e do fauvismo.

 

Mas o abstracionismo não podia ficar de fora!

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Pollock
Vídeo: Pollock e sua arte de criação. Duração: 1:40

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Pollock
Vídeo: Trecho do filme “Pollock” (2000), dirigido e protagonizado por Ed Harris, com música do compositor Jeff Beal. A atuação representa o pintor compondo um mural. Duração: 3:45

 

Já no fim da festa, vem chegando Jackson Pollock (1912-1956), o grande nome do expressionismo abstrato, trazendo duas obras representantes da sua técnica característica, o “gotejamento“.

 

Para abrilhantar a festa, inseri alguns vídeos no post. Basta clicar nas imagens…

E, para acessar os links onde foram obtidas as imagens dos bolos, clique aqui, aqui e aqui.

Que festa! Mondrian, Van Gogh, Klimt, Munch, Picasso, Dali, Monet, Matisse e Pollock… que time de artistas para comemorar os 200 posts do blog!

Autor: Catherine Beltrão

Da relação de alguns pintores com a morte

Já dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Temos a arte para não morrer da verdade” ou ainda “A arte existe para que a realidade não nos destrua“.

Pretendo neste post apresentar obras de alguns pintores que tenham retratado de alguma maneira sua relação com a morte. Muitos fizeram isso. Mas resolvi destacar somente sete nomes: Bosch, Caravaggio, David, Munch,  Klimt, Dali e Portinari.

Morte - Bosch

“A morte do avarento”, 1494, óleo sobre madeira, 93 x 31 cm – Bosch

Hieronymus Bosch (c. 1450-1516) pintou “A morte do avarento” por volta de 1494.  Possivelmente esta pintura seria o painel direito de um tríptico dividido. Apesar de pertencer a outro tempo, Bosch olha para trás e retrata temas medievais, embora com perspectiva distinta. O moribundo avarento se divide entre o anjo que lhe oferece um crucifixo e o demônio que aparece por debaixo da cortina com um saco de dinheiro na mão. Interessante constatar que, mesmo com todo o ambiente sinistro da pintura, ainda há esperança para o avarento, coisa impensável trezentos anos antes. Esta obra se encontra na National Gallery of Art, em Washington.

Morte - Caravaggio

“Morte da Virgem”, 1606, ost, 369cm × 245cm – Caravaggio

A morte da Virgem“ é o maior quadro de altar pintado por Michelangelo Caravaggio (1571 – 1610), sendo encomendada por Laerzio Alberti Cherubini, o advogado do papa, para a sua capela na Igreja das Carmelitas de Santa Maria della Scala em Roma. No entanto, na ocasião a pintura foi recusada, pois o clero achou a obra ofensiva à igreja católica. As figuras são quase do tamanho real e o ambiente da cena é simples: a virgem Maria está morta e é retratada com simplicidade. Os apóstolos se entristecem com a cena, enquanto Maria Madalena chora sentada em uma simples cadeira, com o rosto escondido entre as mãos. Nada há neste quadro que revele a natureza sagrada de seu tema. Seu tratamento é naturalista, inclusive brutal e de grande crueza. Esta obra monumental pode ser vista no Museu do Louvre, em Paris.

Morte - David

“A morte de Marat”, 1793, ost, 165 X 128cm – David

Uma das obras mais famosas de Jacques-Louis David (1748-1825), pintor preferido de Napoleão, é “A morte de Marat“. A pintura retrata Jean-Paul Marat, revolucionário francês, assassinado em casa por Charlotte Corday. A inscrição “À Marat, David”, que aparece na caixa de madeira, cuja forma sugere uma lápide, indica que se trata de uma homenagem a Marat, que o pintor conhecia pessoalmente e que teria visto na véspera de sua morte tal como a representado, dentro de uma banheira. A obra está exposta no Musée Royal des Beaux-Arts, em Bruxelas.

Morte - Munch

“Morte no quarto da paciente”, 1894, ost – Munch

Edvard Munch (1863-1944), autor de uma das obras mais famosas do mundo – “O Grito” – foi um pintor  que retratou por diversas vezes as temáticas de doença e morte. Quando ainda não havia completado cinco anos de idade, sua mãe morreu vítima de tuberculose e, nove anos depois, faleceu da mesma causa a sua irmã Sophie. A obra “Morte no quarto da paciente“ reproduz o momento da morte de Sophie. Ela não aparece, pois está sentada em uma cadeira de espaldar alto, ao lado da cama, rodeada por três pessoas que a olham: o pai, a tia e o próprio Munch. Toda executada em tons verdes e ocre, a obra se encontra no Museu National Gallery, em Oslo.

Morte - Klimt

“A vida e a morte”, 1911 – Klimt

Gustav Klimt (1862-1918) recebeu o 1º  prêmio  na Exposição Internacional de Roma com a obra “A vida e a morte“. Conflito entre vida e morte, a tela tem sentido ambíguo. Parecendo duas peças de um quebra-cabeça que se encaixam, as sinuosidades à direita das vestes da Morte, de cores frias, se completam com as do contorno esquerdo da coluna da Vida, cujas cores quentes adicionam dramaticidade à cena. Não se trata de um confronto, mas de um inevitável encaixe, já que o ciclo da vida só se compreende com a presença da morte.

Morte - Dali

“Construção mole com feijões cozidos”, 1936 – Dali

Construção Mole com Feijões Cozidos” ou “Premonição da Guerra Civil” foi pintado pro Salvador Dali (1904-1989) e encontra-se atualmente no Museu de Arte da Filadélfia, na Filadélfia. Concluída antes que a Guerra Civil Espanhola estourasse, em julho de 1936, a obra baseia-se em dolorosos pensamentos de saudade e de morte. O monstro que domina a tela parece ter as mesmas proporções do contorno do mapa da Espanha e dele saem braços e pernas que se rasgam mutuamente, enquanto uma forma fálica e flácida se debruça de um quadril rompido. Os feijões se esparramam pelo chão sem saciar a fome de ninguém.  Observa-se o rosto do monstro em êxtase, enquanto os músculos tensos de seu pescoço e seus braços transformam-se e apodrecem. É provável que Dali acreditasse que mostrando a Espanha se autodestruindo, tentasse também  mostrar as atrocidades cometidas pelas partes envolvidas em uma guerra.

Morte - Portinari

“Criança morta”, 1944, ost, 176 X 190cm – Portinari

Criança Morta“, de Cândido Portinari (1903-1962), faz parte da série sobre os retirantes nordestinos e é, com certeza, a obra de maior conteúdo dramático do artista. A dramaticidade é  potencializada pela composição do quadro que mostra um  agrupamento humano do qual se projeta a criança morta. Os tons terrosos predominam na parte inferior da tela, que não são afetados pelas lágrimas da menina ou pelas imensas mãos do homem que segura a criança morta: nada irá amenizar a dor de mais uma perda desta família. Um quadro dantesco de luta entre a vida e a morte. A obra faz parte da coleção do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand .

Nietzsche sabia das coisas. A Arte não deixa a realidade nos destruir. E os artistas entendem isso todos os dias.

  Autor: Catherine Beltrão

Recordes de obras em leilões de arte

Algumas obras de arte já ultrapassaram o valor de cem milhões de dólares ao trocarem de mãos em leilões da Sotheby’s/Londres e da Christie’s/NY. O que faz uma obra de arte valorizar tanto? O que encanta tanto um colecionador?

Após uma pesquisa internetiana em alguns links sobre o assunto, condensei as seguintes informações sobre as cinco obras mais caras já vendidas em leilões até hoje:

1.Três estudos de Lucien Freud“, de Francis Bacon (1909-1962). Obra mais cara do britânico Francis Bacon ( o artista, não o filósofo, este falecido em 1626) e a mais cara já arrematada em leilões de arte até hoje.  Valor: US$ 142,4 milhões, vendido na Christie’s, em novembro de 2013.

 
Bacon - Tres estudos

“Três estudos de Lucien Freud”, de Francis Bacon. Óleo, 1969, 198 X 147,5 cm.

O triplo retrato do artista britânico, representando outro importante pintor do século XX, que era também seu amigo, marca a relação de Bacon e Freud, prestando homenagem ao parentesco criativo e emocional dos dois artistas. Os dois britânicos conheceram-se em 1945 numa estação de comboios, quando estavam a caminho da casa de campo de um amigo comum e tornaram-se muito próximos de imediato. Nos anos 50, encontravam-se todos os dias para trabalhar ou passear pelo Soho. Tinham em comum a pintura, apesar de métodos e abordagens bem diferentes, e o fascínio pelo jogo – Freud apostava nos cavalos e Bacon privilegiava o casino. Era raro o dia em que não jantavam juntos. Não é por isso de estranhar que se tivessem, de alguma forma, influenciado, e que desenhassem e pintassem retratos um do outro mais do que uma vez, antes de se distanciarem na década de 1970.

O tríptico foi pintado em 1969, no Royal College de Londres, depois de um incêndio ter destruído o estúdio de Bacon.  Foi também nessa altura que, depois de exposto no Grand Palais (1971-72), o tríptico foi separado, voltando apenas a ser mostrado completo no Connecticut em 1999.

2.O Grito“, de Edvard Munch (1863-1944). Valor da obra: US$ 119,9 milhões, vendida na Sotheby’s, em maio de 2012.

Munch - O Grito

“O Grito”, de Munch. Pastel sobre cartão, 1895, 91 x 74cm

O Grito (no original Skrik) é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, a mais célebre das quais datada de 1893. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. O plano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol.

O Grito é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da Mona Lisa de Leonardo da Vinci. É curioso que existam várias versões diferentes deste quadro para além da obra de 1893. Em todas o carimbo emocional de Munch está presente para nos recordar que o lado negro da vida pode ser belo.

Há uma série de factores que influenciaram Munch para a realização deste quadro. Desde já, um período em que esteve doente em Nice, em 1892. Edvard escreveu em seu diário o momento que por certo o inspirou a pintar a sua obra: “Estava a passear cá fora com dois amigos, e o Sol começava a pôr-se – de repente o céu ficou vermelho, cor de sangue – Parei, sentia-me exausto e apoiei-me a uma cerca – havia sangue e língua de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade – os meus amigos continuaram a andar e eu ali fiquei, de pé, a tremer de medo – e senti um grito infindável a atravessar a Natureza “.

A versão vendida no leilão de maio na Sotheby’s era a de pastel sobre cartão, de Petter Olsen, cujo pai foi amigo e vizinho de Munch.

3. Nu, folhas verdes e busto“, de Pablo Picasso (1881-1973).  Valor da obra: US$ 106,4 milhões, vendida na Christie’s, em 2010.

Picasso - Nu, olhos verdes e busto

“Nu, folhas verdes e busto”, de Picasso. Óleo, 1932, 162 X 130cm

A obra, com título original “Nu au plateau de sculpteur“, foi pintada em apenas um dia e representa a amante do espanhol Picasso, Marie-Thérèse Walter, nua e reclinada. O busto no pedestal é uma imagem do próprio Picasso, que assim se fez representar no quadro de perfil. É um dos quadros de uma sequência de retratos de Marie-Therese Walter, pintados por Picasso em Boisgeloup, na Normandia, nos primeiros meses de 1932. São tidos como algumas das suas obras-primas do período entre guerras.

O ano em que este quadro foi pintado é considerado um ponto de virada para o artista, pois foi a partir dai que ele começou a criar telas totalmente diferente de tudo o que já tinha feito antes: maiores e mais sensuais. A obra estava desde os anos 1950 na posse de dois colecionadores de Los Angeles, Frances e Sidney Brody, ambos falecidos e só foi mostrada em público uma vez em 1961, coincidindo com o aniversário de 80 anos o pintor.

4. Homem Caminhando I“, de Alberto Giacometti (1901-1966). Valor da obra: US$ 104,3 milhões, vendida na Sotheby’s, em 2010.

Giacometti - Homem caminhando

“Homem caminhando I”, de Giacometti. Bronze, 1961, 183cm

A escultura de bronze, intitulada no original “L’Homme qui marche I”,  mostra um homem solitário a meio-passo, com os braços pendurados ao seu lado. A peça é descrita como uma “humilde imagem, tanto de um homem comum, como de um poderoso símbolo da humanidade”.  O suíço Giacometti descreveu a escultura, por ter visto “o equilíbrio natural do passo” como um símbolo de força “do homem na sua própria vida“.

Em 1960, Giacometti foi convidado a fazer parte de um projeto público pela Chase Manhattan Plaza, em Nova York, para fundar figuras de bronze no exterior do edifício. Ele criou várias esculturas com o L’Homme qui marche I entre eles. Giacometti teve dificuldades para desenvolver o projeto e acabou abrindo mão da encomenda. No entanto, em 1961, ele lançou o tamanho da vida de trabalho em bronze e expôs na um ano depois.

L’Homme Qui Marche I foi criado num período alto de Giacometti e representa o ápice de sua experimentação com a forma humana. A peça é considerada uma das mais importantes obras do artista e uma das imagens mais icônicas da arte moderna e está estampada também na nota de 100 francos suíços. Existem seis originais da peça.

Curiosidade: Homem caminhando I era uma das 3 mil obras da coleção de arte do Dresdner Bank e estava exposta no hall de entrada do banco em Frankfurt. Com a fusão de maio de 2008, ela passou para o Commerzbank, que, segundo o portal Tagesanzeiger.ch, se desfez da obra “porque a figura do homem emagrecido poderia ser interpretada como símbolo da crise bancária”.

5. Rapaz com cachimbo“, de Pablo Picasso (1881-1973).  Valor da obra: US$ 104,2 milhões, vendida na Sotheby’s, em 2004.

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“Rapaz com cachimbo”, de Picasso. Óleo, 1905, 100 X 81,3cm

Com o título original de “Garçon à la Pipe”, Picasso pintou o famoso quadro quando dos seus 24 anos, durante o seu Período Rosa. O óleo sobre tela, pintado em Montmartre, França, retrata um jovem rapaz francês com um cachimbo na mão esquerda e uma coroa de rosas na cabeça.

Pouco se sabe sobe o menino que serviu de modelo para esta obra. Algumas fontes mencionam que ele teria cerca de dez anos de idade e que teria manifestado o desejo de posar para o pintor.

A obra deixa transparecer o estilo adotado por Picasso nos seus primeiros anos como artista e é considerada por muitos a principal tela deste período que ainda permanece sob domínio privado.

Curiosidade: a primeira compra desta obra foi feita em 1950, pelo valor de US$ 30 mil.

Voltando à pergunta inicial: O que faz uma obra de arte chegar a valer mais de cem milhões de dólares? O que encanta tanto um colecionador de arte?

Além do óbvio – investimento, status, cobiça, disputa, … – eu acredito que a história que a obra possui exerce muita influência no processo de sua valorização. Em qual contexto foi criada, como foi sua trajetória de percurso desde sua criação ou, caso a obra retrate alguém, qual teria sido a relação do artista com este(a) modelo… enfim, considerando que o artista morre, como qualquer outro indivíduo, cada uma de suas obras continua a representar pedaços de sua vida, de seus relacionamentos, de suas crenças ou pensamentos. É isto que emociona. É isto que comove. É isto que encanta.

Autor: Catherine Beltrão