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Paletas e autorretratos (Parte I)

Para um pintor, a paleta é seu camarim. É ali que ele se prepara, prepara sua obra, veste suas cores, do dia ou da noite.

Neste post, decidi apresentar a paleta acompanhada de um autorretrato de cada pintor. Nada mais íntimo de sua alma.

Vincent van Gogh (1853-1890)

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Paleta Van Gogh

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Autorretrato Van Gogh. 1889

 

Nesta parte I, junto às paletas e autorretratos de doze artistas, é apresentado um texto sobre a paleta de Renoir, escrito pelo seu filho Jean Renoir, no livro “Pierre-Auguste Renoir, meu Pai” , págs 336 a 338, 2005, Ed. Bizâncio, Lisboa.

 

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

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Paleta Renoir

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Autorretrato Renoir. 1879

A paleta de Renoir era limpa como uma moeda nova. Era uma paleta quadrada que se encaixava na tampa do estojo, que tinha a mesma forma. Num dos godés duplos, punha óleo de linhaça puro e no outro uma mistura de óleo de linhaça com essência de terebentina, em partes iguais. Numa mesa baixa, colocada ao lado do cavalete, tinha um copo cheio de essência de terebentina em que enxaguava o pincel, praticamente após cada aplicação de cor.

 

Salvador Dali (1904-1989)

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Paleta Dali

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Autorretrato Dali. 1941

 

Na caixa, e em cima da mesa, tinha alguns pincéis de reserva. Nunca tinha em uso mais do que dois ou três ao mesmo tempo. Mal começavam a ficar gastos, esborratavam, ou por qualquer outra razão deixavam de lhe proporcionar uma absoluta precisão de pincelada, deitava-os fora. Exigia que destruíssem os pincéis velhos, não fosse ele pegar em algum deles por engano enquanto trabalhava.

 

Marc Chagall (1887-1985)

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Paleta Chagall

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Autorretrato Chagall. 1913

Na mesinha havia também panos limpos, com os quais secava de vez em quando o pincel.

A caixa, tal como a mesa, estavam sempre perfeitamente arrumadas.

Os tubos de tintas eram enrolados a partir da dobra, de forma a obter, ao espremê-los, a quantidade exata de tinta pretendida.

 

Eugène Delacroix (1798-1863)

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Paleta Delacroix

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Autorretrato Delacroix. 1837

 

No princípio da sessão de trabalho, a paleta, que tinha sido limpa no fim da sessão anterior, estava imaculada. Para a limpar, começava por raspá-la, vertendo os resíduos para um papel, que atirava logo para o lume. Em seguida, esfregava-a com um pano embebido em essência de terebentina até que não houvesse o mínimo resquício de tinta na madeira. O pano ia também para o lume.

 

Claude Monet (1840-1926)

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Paleta Monet

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Autorretrato Monet. 1886

 

 

Os pincéis eram lavados com água fria e sabão. Recomendava que esfregassem suavemente os pelos na palma da mão. De vez em quando encarregava-me desta operação, o que me enchia de orgulho.

 

 

Edvard Munch (1863-1944)

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Paleta Munch

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Autorretrato Munch. 1923/24

 

Renoir descreveu pessoalmente a composição da sua paleta numa nota que a seguir transcrevo e que data, evidentemente, do período impressionista:

 

 

 

 

 

 Francis Bacon (1909-1992)

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Paleta Bacon

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Autorretrato Bacon. 1969

Branco de prata, amarelo de cromo, amarelo-de-nápoles, ocre amarelo, terra-de-siena natural, vermelhão, laca de garança, verde-veronês, verde-esmeralda, azul-cobalto, azul-ultramarino, espátula, raspadeira, essência, tudo o que é necessário para pintar. O ocre amarelo, o amarelo-nápoles e a terra-de-siena são meros tons intermédios que são dispensáveis, pois podem fazer-se com outras cores. Pincéis redondos de pelo de marta, pincéis chatos de seda.

Registre-se a ausência do preto, “a rainha das cores”, como ele próprio iria proclamá-lo no seu regresso de Itália.

Pablo Picasso (1881-1973)

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Paleta Picasso

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Autorretrato Picasso. 1907

À medida que se aproxima do fim da vida irá simplificar ainda mais a sua paleta. A ordem de que me lembro na época em que pintava “As Grandes Banhistas” do Louvre, no ateliê de Les Collettes, era a seguinte: começando de baixo, junto da abertura para o polegar, o branco de prata, em quantidade generosa, o amarelo-de-nápoles num montículo minúsculo, tal como todas as cores que se seguem – o ocre amarelo, a terra-de-siena, o ocre vermelho, a laca de garança, a terra verde, o verde-veronês, o azul-cobalto, o negro-marfim.

 

 

 William Turner (1775-1851)

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Paleta Turner

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Autorretrato Turner. 1824

 

Esta seleção de cores não era inalterável. Eu vi Renoir, embora em raras ocasiões aplicar vermelhão chinês que punha na paleta entre a laca de garança e a terra verde. Nem Gabrielle nem eu o vimos usar o ocre de cromo.

 

 

 

 

Frida Kahlo (1907-1954)

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Paleta Frida Kahlo

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Autorretrato Frida Kahlo. 1940

 

Esta exiguidade de meios era impressionante. Os montículos de tinta pareciam perdidos na superfície de madeira, rodeados de vazio. Renoir encetava-os com parcimônia, com respeito. Era como se achasse que iria ofender Mullard, que lhe tinha preparado meticulosamente aquelas cores, se atafulhasse a paleta com elas e depois não as usasse até à mais pequena parcela.

 

 

 Toulouse Lautrec (1864-1901)

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Paleta Lautrec

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Autorretrato Lautrec. 1880

 

 Quase sempre misturava as tintas na tela. Preocupava-se muito em que o quadro mantivesse, ao longo de todas as fases do trabalho, uma impressão de transparência.”

 

 

Continua na Parte II, a ser publicado na próxima semana.

Autor: Catherine Beltrão

Detalhes

Detalhe é um pedaço. De um pensamento. De uma atitude. De um fazer. Quase sempre, um pedaço bem pequeno. Ou até muito pequeno. Mas, um detalhe não é coisa menor. Pode até ficar grande. Muito grande. Imenso. Como são os detalhes de certas pinturas. Ou esculturas.

Mãos. É bom começar pelas mãos. Pelas mãos da “Canção” de Cecília Meireles.

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Detalhe das mãos de “O pensador”, de Rodin.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

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Detalhe das mãos de “David”, de Michelangelo.

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Detalhe das mãos de Plutão, em “O rapto de Prosérpina”, de Bernini.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Van Gogh

Depois das mãos, o detalhe do olhar. O olhar de Vinicius de Moraes, em seu “Soneto da Separação“.

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Detalhe do olhar de Mona Lisa, de Da Vinci.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Lucien Freud.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

E aí chega a hora do detalhe da flor. Mas, dentro da flor, fica a palavra do “Apanhador de desperdícios“, de Manoel de Barros.

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Detalhe de uma das “Ninfeias”, de Monet.

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

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Detalhe de “Flores em um vaso”, de Renoir.

Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

As mãos, o olhar, flores. Palavras. Os versos. Einstein sabia das coisas:

Eu quero conhecer os pensamentos de Deus; o resto são detalhes“.

Autor: Catherine Beltrão

O amarelo e o azul nas casas de Monet, van Gogh e Frida Kahlo

Outro dia estava pensando na famosa Casa Amarela de van Gogh. E me veio logo à mente a Casa Azul, de Frida Kahlo. Juntando o amarelo e o azul, me veio a cozinha e a sala de jantar da casa de Monet, em Giverny.

Claude Monet (1840-1926) viveu na casa de Giverny de 1883 a 1926. Ele  criou, fora e dentro da casa, uma atmosfera que se confunde com suas pinturas e pôde viver ali por vários anos, até morrer.

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Sala de jantar, toda em amarelo, da casa de Monet, em Giverny.

 

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Cozinha azul na casa de Monet, em Giverny.

A sala de jantar amarela parece ter saído de um recanto dos jardins da casa.  As almofadas das cadeiras são de xadrez azul e branco e há louças amarelas, azuis e brancas.   As porcelanas e gravuras azuis que decoram a sala, já introduzem a atmosfera da cozinha ao lado.

A cozinha, toda azul, é grande sem deixar de ser acolhedora. Azulejos em abundância emolduram as panelas de cobre e as cortininhas xadrez. E flores… flores por toda parte.

Uma das pinturas noturnas de Vincent van Gogh (1853-1890), retrata a famosa Casa Amarela em que o pintor morou em Arles, no sul da França, por menos de um ano, antes de morrer.  A cor amarela da fachada foi escolhida pelo próprio pintor: um “amarelo-manteiga”, segundo sua próprias palavras.

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“A Casa Amarela”, de van Gogh. 1888, ost, 72 X 92cm

A minha casa aqui é pintada por fora de amarelo-manteiga e tem persianas em verde forte; fica rodeada de sol, numa praça, onde também há um parque verde com plátanos, aloendros , acácias. Por dentro é pintada de branco e o chão é de azulejos vermelhos. E por cima, o céu de azul luminoso. Lá dentro posso, com efeito, viver e respirar e pensar e pintar”.

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Foto da Casa Amarela onde morou van Gogh, em Arles, antes de ser demolida, após a 2ª Guerra Mundial.

Van Gogh alugou a parte direita de um prédio de dois andares, onde pensou criar uma escola de arte. Mandou pintar a casa da cor amarela, que para ele era muito importante e bastante simbólica. Seria talvez mais um sol para iluminar e aquecer sua alma conturbada.  Quando pintou o quadro, ele resolveu colorir todas as casas de amarelo na tela, e não só a sua. Esta obra talvez seja  representativa do sonho de vida e de arte de Vincent van Gogh. Mais que isso: talvez represente o sonho de vida de qualquer um de nós: realizando ou não, todos nós temos um sonho na vida.

Frida Kahlo (1907-1954) nasceu na Casa Azul de Coyoacán, na cidade do México e lá viveu toda a sua trágica e sofrida vida. Quatro anos após sua morte, a casa transformou-se em museu.

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A Casa Azul, transformada em Museu Frida Kahlo, na cidade do México.

A casa pertenceu à família Kahlo desde 1904 e foi morando ali que Frida se consolidou como artista e lenda. Contraiu poliomielite na infância, que a deixou manca e sofreu um grave acidente aos 18 anos, que a impossibilitou de ser mãe.

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Cozinha da Casa Azul de Frida Kahlo, toda em amarelo e azul cobalto.

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Jardins externos da Casa Azul de Frida Kahlo.

Casou-se com o muralista Diego Rivera em 1929, que também passou a morar na Casa Azul. Ambos eram  entusiastas do comunismo e tinham fotos de Mao, Lenin, Marx e Stalin em seu quarto e em outros cômodos pela casa. O casal também abrigou Leon Trotsky, que morou um tempo na casa azul e com quem acredita-se que Frida tenha tido um caso.  Por sua vez, Diego traiu Frida com sua própria irmã, dentro da mesma casa. Quando descobriu, Frida externou sua tristeza em alguns detalhes da casa, como um relógio que marca o dia em que terminaram, e o dia em que reataram.

Alguns objetos pessoais estão à mostra no museu: vestidos, cartas de amor, o espelho pendurado na cama de onde ela fazia seus autorretratos enquanto não podia se locomover.

Monet, van Gogh e Frida: três artistas irmanados por duas cores, o amarelo e o azul de suas moradas.

Autor: Catherine Beltrão

200 posts! Festa de Arte doce!

Hoje é dia de festa! Dia de comemorar 200 posts do blog ArtenaRede! Dia de festejar e comer muita arte doce!

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Mondrian.
Vídeo: “Die ideale Wirklichkeit – Piet Mondrian “. Duração: 2:43

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Mondrian
Vídeo: animação sobre neoplasticismo. Duração: 2:04

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Van Gogh.
Vídeo: animação interativa com “Noite Estrelada”. Duração: 4:15

 

Piet Mondrian (1872-1944) e Vincent van Gogh (1853-1890) são os primeiros a chegar à festa, trazendo duas obras da série “Composições em vermelho, amarelo e azul“, “A Noite Estrelada” e “Amendoeira em flor“. Mondrian, o grande nome do neoplasticismo e Van Gogh, talvez o mais amado dos pintores, são inconfundíveis, até mesmo quando sua arte se transforma em bolos…

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Van Gogh
Vídeo: animação do pintor em 3D. Duração: 1:51

 

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Klimt.
Vídeo: análise da obra “O beijo”. Duração: 3:56

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Munch
Vídeo: “The Scream”, fantástica animação sobre a obra “O Grito”. Música de Pink Floyd. Duração: 3:22

 

Gustav Klimt (1862-1918) e Edvard Munch (1863-1944) chegam logo em seguida. “O Beijo” e “O Grito” são puro encantamento, trazendo momentos do simbolismo e do expressionismo.

 

E eis que chegam duas das maiores figuras artísticas do século XX!

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Picasso
Vídeo: pinturas de Picasso. Duração: 3:00

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Picasso
Vídeo: história e análise da obra “Les demoiselles d’Avignon. Duração: 4:19

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Dali
Vídeo: animação “Destino & Time – Salvador Dali, Walt Disney and Pink Floyd”. Duração: 7:05

 

Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989),  os maiores nomes do cubismo e do surrealismo, vêm trazendo “Mulher em frente ao espelho“, “Les demoiselles d’Avignon” e “A persistência da memória“, este em duas versões…

É impossível não se emocionar com a Arte e com a história destes dois gênios: o Picasso de várias mulheres e o Dali de uma só…

 

 

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Dali
Vídeo: explicação da criação da obra “A persistência da memória”. Duração: 2:52

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Monet
Vídeo: “Claude Monet – Giverny ‘Les Nymphéas’. Música de Claude Debussy. Duração: 5:25

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Matisse
Vídeo: obras do pintor. Música de Claude Debussy. Duração: 3:52

 

A festa prossegue com a chegada de Claude Monet (1840-1926) e Henri Matisse (1869-1954), com seus emblemáticos  “Le bassin aux nymphéas” e “Interior com cortina egípcia“, obras máximas do impressionismo e do fauvismo.

 

Mas o abstracionismo não podia ficar de fora!

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Pollock
Vídeo: Pollock e sua arte de criação. Duração: 1:40

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Pollock
Vídeo: Trecho do filme “Pollock” (2000), dirigido e protagonizado por Ed Harris, com música do compositor Jeff Beal. A atuação representa o pintor compondo um mural. Duração: 3:45

 

Já no fim da festa, vem chegando Jackson Pollock (1912-1956), o grande nome do expressionismo abstrato, trazendo duas obras representantes da sua técnica característica, o “gotejamento“.

 

Para abrilhantar a festa, inseri alguns vídeos no post. Basta clicar nas imagens…

E, para acessar os links onde foram obtidas as imagens dos bolos, clique aqui, aqui e aqui.

Que festa! Mondrian, Van Gogh, Klimt, Munch, Picasso, Dali, Monet, Matisse e Pollock… que time de artistas para comemorar os 200 posts do blog!

Autor: Catherine Beltrão

E por falar em vento…

O vento está na moda. É bem verdade que não dá pra ser estocado. Mas dá pra ser sentido. E pra ser registrado, em sua força, beleza ou leveza. Um poema, três pinturas e uma canção… e o vento invade nossa alma.

Já dizia o grande Fernando Pessoa:

 “As vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
 vale a pena ter nascido”.

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“Essai de Figure en Plein Air (Vers La Droite)” e “Essai de Figure en Plein Air (Vers La Gauche)” , de Claude Monet. 1886, ost.

Claude Monet (1840-1926), grande nome do Impressionismo, é frequentemente lembrado por seu jardim em Giverny e suas ninfeias, plácidas e deslumbrantes. Mas ele também soube interpretar o vento através de cores, écharpes e flores. Definitivas são as obras “Essai de Figure en Plein Air (Vers La Gauche)” – “Ensaio de figura ao ar livre (voltada para a esquerda) e “Essai de Figure en Plein Air (Vers La Droite)”  – “Ensaio de figura ao ar livre (voltada para a direita).

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“A Noiva do Vento”, de Oscar Kokoschka. Ost, 1914.

Oscar Kokoschka (1886-1980), nascido na Áustria, é um dos grandes nomes do Expressionismo. Recebeu a influência de Gustav Klimt e Van Gogh mas criou o seu próprio estilo pessoal, visionário e atormentado. Suas composições apresentam a supremacia da linha sobre a cor e a sua temática costuma ser o amor, a sexualidade e a morte. As obras mais puramente expressionistas destacam-se pelas figuras retorcidas, de expressão torturada e apaixonamento romântico, como “A noiva do vento“, certamente a obra mais famosa de Kokoschka.

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“Correndo com o vento”, de Lenagal. Acrílica sobre tela, 2005.

Lenagal (1957), artista açoriana contemporânea, pinta mulheres. Mulheres em silêncio, mulheres com a música, mulheres ao vento. Ela se define: “Eu sou sinfonia do vento ao entardecer. O animal abandonado por mão cruel. Eu sou a água do mar agitado, pedra que todos pisam. O Espaço. O vazio. O Nada . Tudo . Sou o fogo que arde, sou a terra, o ar. Eu sou a flor que todos cheiram. Eu sou Eu, sou muitos rostos. Eu sou a liberdade que todos desejam, a lágrima que nos rostos rola, sou arvore queimada , pétala arrancada , dor que ninguém consola . Sou o procriar da criança, amante do amor, da Lua, irmã de sangue . Eu sou simplesmente MULHER.”

E quando se trata de vento, é impossível não lembrar da canção de Bob Dylan, “composta em 1963, “Blowin’In the Wind” – “Soprando ao vento” (Vídeo com duração de 2:46):

The answer, my friend, is blowin’ in the wind…”

Autor: Catherine Beltrão

Simplesmente Flores

É lugar comum se falar de flores na primavera. Mas a primavera, a cada ano, é incomum. E as flores também. Talvez seja por essa razão que os artistas pintam flores. Quase todos. Neste post, apresento somente cinco flores de cinco artistas: Redon, Monet, Van Gogh, Guignard e Edith Blin.

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“Flores exóticas em um vaso”, de Odilon Redon, pastel, 1906, 90 X 72,5 cm

Odilon Redon (1840-1916) foi  um pintor e artista gráfico francês. A técnica mais utilizada por Redon era o pastel, que lhe permitia trabalhar as cores com texturas diferentes e bastante mescladas.  Considerado o mais importante dos pintores do Simbolismo, suas flores são belíssimas e únicas, praticamente dialogando com quem as contempla.

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“Vaso com flores”, de Claude Monet, ost, 1880

Por suas magníficas ninfeias e o seu jardim em Giverny, Claude Monet (1850-1926) será sempre associado a flores. Delicadas ou exuberantes. Em lagos ou em vasos. Pequenas ou majestosas. Não importa. São inconfundíveis. São flores de Monet. Para quem quiser ler um pouco mais sobre as flores de Monet em Giverny, clique aqui.

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“Iris”, de Vincent Van Gogh, ost, 1889, 71 X 93 cm

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou o Sol e pintou girassóis. Não há quem não conheça pelo menos um dos girassóis de Van Gogh. Mas ele também pintou íris. Muitos íris. E assim como seus girassóis, cada um de seus íris é único. Ele estudava cuidadosamente os movimentos e os contornos das flores para criar uma variedade de silhuetas coloridas dançantes ao som do vento…

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), ost, 1930.

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) transformou seu lirismo em paisagens imaginantes e flores. Muitas flores. Extremamente esfuziantes e coloridas. No último dia 13 de agosto, a obra “Vaso de Flores”, foi disputada por vários compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Para quem quiser saber um pouco mais sobre a hora e a vez de Guignard, clique aqui.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin, ost, 1955, 82 X 65 cm

Em suas quatro décadas de pintura, Edith Blin (1891-1983) pintou flores em telas e cartolinas, a óleo ou pastel. Mas foi nos anos 50 que suas flores desabrocharam em seu mais contundente esplendor, algumas livres e soltas no ar, outras entremeadas a rostos e figuras. É impossível não se emocionar com as “Flores vermelhas em ascensão”, que arrebata o nosso sentimento em sua pretensão de que um único galho jovem e viçoso inicia a subida de uma escada sem fim… Para quem quiser ler e ver mais flores de Edith, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

Outonos perenes

Mais um outono que chega. Para nós, o outono é uma estação. Uma das quatro. Morna. Nem fria nem quente. Nem alegre nem triste. Simplesmente amena. Tão somente plácida.

Mas um pintor pensa diferente. Para ele, o outono é tão importante que ele precisa permanecer eterno. Perene. Como estes outonos europeus do século XIX, eternizados pelos impressionistas franceses Claude Monet (1840-1926) e Pierre-Auguste Renoir (1841-1919),  da comuna de Argenteuil, na França.

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“Outono no Sena em Argenteuil”, de Claude Monet

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“Ponte em Argenteuil no Outono”, de Renoir

O tempo passa, trazendo e levando outonos. E trazendo e levando artistas que pintam outonos. Como estes dos austríacos Gustav Klimt (1862-1918), simbolista, e Egon Schiele (1890-1918), expressionista.

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“Madeira de bétula”, de Gustav Klimt

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“Arvores de outono”, de Egon Schiele

Os anos trouxeram novos outonos e mais pintores. Entre eles, Wassily Kandinsky (1866-1944), abstracionista russo, que pintou um outono na Baviera, região da Alemanha.

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“Outono na Baviera”, de Wassily Kandinsky

Na música, existe uma canção que eternizou todos os outonos: “Les Feuilles Mortes”, com a letra do poeta maior francês Jacques Prévert.   Em 1945, Prévert escreveu o roteiro do filme “Les Portes de la Nuit“, baseado no ballet “Le Rendez-Vous“, criado por Roland Petit neste mesmo ano. Petit e Prevért … que dupla!

Foram – e continuam sendo - muitos os intérpretes de “Feuilles Mortes“. Mas é impossível não deixar registradas aqui as interpretações de Yves Montand (1921-1991) e de Andrea Bocelli (1958).

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Vídeo com Yves Montand, interpretando “Les Feuilles Mortes”

Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois je n’ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Les souvenirs et les regrets aussi

Et le vent du nord les emportent
Dans la nuit froide de l’oubli
Tu vois, je n’ai pas oublié
La chanson que tu me chantais

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Vídeo com Andrea Bocelli, interpretando “Les Feuilles Mortes”

C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais, et je t’aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m’aimait, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants desunis

C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais, et je t’aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m’aimait, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aime
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants désunis

Outonos. Amenos e plácidos pedaços de tempo. Do tempo que passa, fluindo pela vida que segue, sempre em frente, até o último instante… de um certo outono.

 Autor: Catherine Beltrão

As flores de Giverny

Pensei em iniciar esse post com uma pergunta mas não sei qual seria a melhor. Fiquei indecisa entre perguntar “Quem nunca ouviu falar em Giverny?” ou “Quem já ouviu falar em Giverny? ”

Giverny é uma cidade francesa, situada ao norte de Paris, já na região da Normandia. Sua importância se deve aos famosos jardins da Casa de Claude Monet  ( 1840-1926 ), pintor francês e o maior nome da pintura impressionista.

Monet - Giverny lago ninfeias

Lago das ninfeias. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

 

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Detalhe de uma das obras da série “Ninfeias”

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Detalhe da ponte japonesa em uma das obras da série “Ninfeias”

Claude Monet viveu em Giverny de 1883 até sua morte. Cuidar do jardim  era uma de suas atividades preferidas. Para ajudá-lo nesta tarefa, foram contratados seis jardineiros. Em 1893, Monet comprou também um terreno vizinho onde construiu o jardim  aquático, que seria sua grande fonte de inspiração nos anos seguintes. Em 1899, Monet pintou em Giverny a famosa série de quadros chamadas “Nenúfares” ou “Ninfeias”, inspirada no jardim aquático.

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Lago das ninfeias com a ponte japonesa ao fundo. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

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Lago das ninfeias com foco no amarelo. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

 

Na semana passada, estive na França para participar do ritual da dispersão das cinzas de minha mãe, falecida há dois meses. Nesta viagem, realizei dois desejos: o de minha mãe, que queria suas cinzas dispersadas nas “forêts de l’Oise“, em Chevrières, onde passou sua infância. O outro desejo era meu, que queria conhecer os jardins de Monet, em Giverny. Os dois desejos foram realizados. As cinzas pintaram de branco a relva no entorno da pequena capela de uma propriedade privada na pequena cidade perto de Compiegne, na região da Picardia. E as flores dos jardins de Monet coloriram meus pensamentos um tanto quanto cinzentos em que me encontrava …

 

Na semana em que se inicia a Primavera aqui ao sul do Equador, as flores outonais de Giverny são as mais belas do planeta.

 

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Inacreditável estas flores aparentemente aquáticas brotando da grama… Foto tirada em 17.09.2014

 

Monet soube expressar a beleza das flores como ninguém. Jamais alguém o superou na concepção destas obras eternas que criou a partir do jardins de sua casa em Giverny. Ele eternizou momentos de intensa harmonia entre cores e formas, todas imaginadas em sua mente como uma quebra-cabeça de peças do paraíso…

 

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Obra de Monet, retratando parte de seu jardim em Giverny

 

Benditas sejam as flores no coração da natureza!

 

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Dálias colossais nos jardins de Monet. Foto tirada em 17.09.2014

 

 Autor: Catherine Beltrão

Monet e suas ninfeias milionárias

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Claude Monet

Não há quem já não tenha ouvido falar em Claude Monet (1840 – 1926), pintor francês (como tem pintor francês importante, meu Deus…), o mais célebre entre os pintores impressionistas. Mas talvez poucos saibam a que ponto chega a valorização de suas obras, sobretudo as da série “Nenúfares“, ou “Ninfeias“, pintadas em sua residência de Giverny, na Normandia. Esta semana, a obra “As Ninfeias” (1906) foi arrematada por mais de 39 milhões de euros (54 milhões de dólares), em um leilão da Casa Sotheby’s de Londres. Uma curiosidade: esta mesma obra não foi vendida em 2010, quando foi a leilão na Christie’s.

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“Ninfeias”, de Monet, 1906. Obra arrematada em leilão da Sotheby’s, em 23.06.2014

Mas esse não foi o recorde das ninfeias de Monet.  Em 2008, “O Lago das Ninfeias“, outro quadro desta famosa série, foi arrematado por 59 milhões de euros (80 milhões de dólares) também em um leilão da Sotheby’s de Londres.

Vale a pena deixar registrado aqui um pouco da história da criação da série “Ninfeias“. Em 1883, Monet decide morar numa pequena propriedade campestre em Giverny, no departamento de Eure, Alta Normandia.  Ali, ele cria um “ jardim d’água” (“jardin d’eau“) cujas ninfeias, íris e chorões irão se tornar conhecidos mundialmente graças às  pinturas que faz, a partir de 1885.

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A partir de 1897, Monet idealiza um projeto de um amplo conjunto decorativo, fundindo o movimento impressionista com suas criações em seu” jardim d’água “. Em 1918 ele doa ao governo francês o conjunto da série das Ninfeias em agradecimento aos sacrifícios feitos pela pátria francesa durante a guerra. Para abrigar o conjunto, o museu de Orangerie sofre profunda transformação, adaptando-o para que as obras sejam admiradas em seu total esplendor.

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Eu já fui ao Museu de Orangerie. Sentada durante quase uma hora, em um banco no meio deste imenso salão circundado pelos painéis das “Ninfeias” , é quase como se sentir chegando às portas de algo transcendental. É impressionante mesmo.

Autor: Catherine Beltrão