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As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

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Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

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“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

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“A mãe costurando”

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“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

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“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

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“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

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“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

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“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

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“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

Pérolas e lágrimas

Resolvi juntar lágrimas a pérolas em pinturas e poesias por acreditar que secreções também podem ser sublimes.

O ser sublime fica por conta de Klimt, van der Weiden, Veermer, Rembrandt, Dali, Picasso, Portinari e Mary Cassat. E também de Victor Hugo, Mario Quintana, Cecília Meireles, Drummond, Florbela Espanca, Jean-Paul Sartre, Vinicius de Moraes e Manoel de Barros.

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“Mulher chorando”, de Gustav Klimt

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.
Victor Hugo

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“Descida da cruz” (detalhe), de Rogier van der Weyden. 1435

Chorar é lindo, por Mario Quintana

Chorar é lindo, pois cada lágrima na face
 são palavras ditas de um sentimento calado.

Pessoas que mais amamos, são as que mais magoamos
 porque queremos que sejam perfeitas,
 e esquecemos que são apenas seres humanos.

Nunca diga que esqueceu alguma pessoa, ou um amor.
 Diga apenas que consegue falar neles sem chorar,
 porque qualquer amor por mais simples que seja,
 será sempre inesquecível…

 As lágrimas não doem…
 O que dói são os motivos que as fazem caírem!
 Não deixe de acreditar no amor,
 mas certifique-se de estar entregando seu coração
 para alguém que dê valor

aos mesmos sentimentos que você dá,
 manifeste suas ideias e planos,
 para saber se vocês combinam,
 e certifique-se de que quando estão juntos
 aquele abraço vale mais que qualquer palavra…

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“Moça com brinco de pérola”, de Jan Vermeer. 1665

Pérolas – Cecília Meireles

O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
 – de que mares?
 – de que conchas?
 – menores que lágrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.

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“Retrato de Maria Trip” (detalhe), de Rembrandt

 

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“Labios de rubi”, de Salvador Dali

As pérolas -  Carlos Drummond de Andrade

Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto. Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas – disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar. Os clientes queixavam-se de que os doces de Renata estavam demasiado doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola?  Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu. A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola.  A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse: “Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana”.

Minha primeira lágrima caiu de dentro dos teus olhos.
 Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
Cecília Meireles

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“O olho do tempo”, de Salvador Dali

Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca

Se me ponho a cismar em outras eras
 Em que ri e cantei, em que era querida,
 Parece-me que foi outras esferas,
 Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
 Que dantes tinha o rir das primaveras,
 Esbate as linhas graves e severas
 E cai num abandono de esquecida!

 E fico, pensativa, olhando o vago…
 Toma a brandura plácida dum lago
 O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
 Ninguém as vê brotar dentro da alma!
 Ninguém as vê cair dentro de mim!

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“Mulher chorando”, de Pablo Picasso. 1937

Lágrimas de um adulto eram como uma catástrofe mística, qualquer coisa como o choro de Deus acerca da maldade do homem.
Jean-Paul Sartre

 

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“Menino morto”, de Cândido Portinari

Poética (II) – Vinícius de Moraes

 Com as lágrimas do tempo
 e a cal do meu dia
 eu fiz o cimento
 da minha poesia

e na perspectiva
 da vida futura
 ergui em carne viva
 sua arquitetura

 não sei bem se é casa
 se é torre ou se é templo
 (um templo sem Deus)

mas é grande e clara
 pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!

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“Opera Woman with a pearl necklace”, de Mary Cassat

Acontecimento - Vinicius de Moraes

Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
Muitos sentirão inveja
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada.
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

E, para finalizar, uma frase definitiva de Manoel de Barros: “Escrever é cheio de casca e de pérola”.

Autor: Catherine Beltrão

Mulheres em pincéis femininos

Ser mulher é uma bênção. Ser artista é um dom. Ser artista mulher é uma dádiva. Ser artista mulher que pinta o feminino é extrapolar bênçãos, dons e dádivas.

Este post fala de sete artistas mulheres que pintaram/pintam o feminino.  A escolha foi subjetiva, motivada por envolvimentos e preferências pessoais. Estas sete pintoras são: Lenagal, Tarsila do Amaral, Mary Cassat, Edith Blin, Anita Malfatti, Luiza Caetano e Berthe Morisot.

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“Canto da manhã”, de Lenagal – 2005, ast, 65 X 54cm

Lenagal (1957) é uma pintora portuguesa, nascida nos Açores. O universo temático de Lenagal são as figuras femininas. Lenagal, o feminino pleno. Mas também pode ser Lenagal, o infinito pleno. Pois a mulher é o infinito. Um infinito de sentimentos, de sensações, de proposições. Não se sabe onde começa, onde termina. Só se consegue ver um pedaço (pequeno), entender uma parte (mínima). Clique aqui para ler o post “Lenagal, o feminino pleno”.  

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“A Negra”, de Tarsila do Amaral – 1923, ost, 100 X 81,3cm

Tarsila do Amaral (1886-1973) foi uma pintora e desenhista brasileira e uma das figuras centrais da primeira fase do movimento modernista no Brasil, ao lado de Anita Malfatti. Considerada como o maior nome feminino das artes plásticas do Brasil, inaugurou o movimento antropofágico em 1928, com a obra “Abaporu“. A obra “A Negra” foi pintada por Tarsila em Paris, enquanto a artista tomava aulas com Fernand Léger. O pintor ficou tão impressionado com a composição que mostrou a obra para todos os seus alunos, dizendo se tratar de um trabalho excepcional. Na obra é possível identificar elementos cubistas ao fundo da tela. Além disso, “A Negra” é considerada uma obra antecessora da Antropofagia na pintura de Tarsila.

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“As luvas compridas”, de Mary Cassat – 1889, pastel

Mary Cassat (1843-1926). Pintora americana, viveu a maior parte de sua vida na França, sendo Edgar Degas seu grande amigo e incentivador no grupo dos impressionistas. Considerada uma das grandes damas do impressionismo, junto a Berthe Morisot, Cassat criou frequentemente obras mostrando a vida privada de mulheres, com ênfase no relacionamento de mães e filhos(as).

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“Nu radioso”, de Edith Blin – 1946, ost, 65 X 54cm

Edith Blin (1891-1983), pintora expressionista francesa, viveu a maior parte de sua vida no Brasil. A figura humana, especialmente a mulher, e mais especialmente ainda, os nus femininos, foi o tema mais focalizado pela artista. Em seus quarenta anos de pintura, Edith transpôs para as telas os sentimentos que impregnavam sua alma inquieta, que poderiam tanto ser a angústia e a indignação, quanto a esperança e a alegria. Clique aqui para ler o post “Os nus de Edith Blin”.

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“A estudante”, de Anita Malfatti – 1915, ost, 76 X 61cm

Anita Malfatti (1889-1964) foi pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira. É considerada a primeira representante no modernismo no Brasil, tendo participado da Semana de Arte Moderna de 1922. As concepções de arte de Anita Malfatti representavam algo novo para os padrões da época e o “novo”, de modo geral, assusta. O que Anita entendia por arte em nada se assemelhava ao que a Academia denominava, então, como arte. Ao contrário, se contrapunha às regras e voltava-se para o expressionismo e não era isso que se esperava. Marco divisório entre o antigo e o novo, a obra de Anita constitui uma inestimável contribuição para a cultura brasileira.

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“Barco negro”, de Luiza Caetano

Luiza Caetano (1946), nascida em Portugal, é uma das grandes representantes da arte naïve mundial. Através de sua arte, Luiza gosta de interagir com diversos personagens como Amália Rodrigues, Carmem Miranda, Frida Kahlo, Botero, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Florbela Espanca. São obras repletas de significado e de sonoridade, verdadeiras conversas entre almas gêmeas, as quais ficamos extasiados ao admirar e, por que não, delas participar. Clique aqui para ler o post “Luiza Caetano, simplesmente a excelência na arte naïve“.

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“Uma mulher em sua toilette”, de Berthe Morisot – 1875, ost, 60 X 80cm

Berthe Morisot (1841-1895) foi uma pintora impressionista francesa, neta do pintor Fragonard. Em 1860, Morisot conheceu Corot, que se tornaria seu tutor e principal influência no seu início de carreira. Foi a primeira mulher a se juntar ao grupo dos impressionistas franceses. Com frequência, Morisot retrata cenas de interiores, onde a intimidade feminina é sutilmente analisada, bem como a vida em família. Suas mulheres são retratadas com doçura e delicadeza.

Este texto pretende reverenciar sete obras de sete mulheres fantásticas, que tem o poder de transformar, através de sua arte, nosso cotidiano de seres mortais em viagens por lugares encantados e escondidos de nossa imaginação.

 Autor: Catherine Beltrão