Arquivo da tag: Mario Quintana

Natais eternizados

De onde vem a tradição de uma árvore de Natal?

Natal_arvore-de-natal-rainha-victoria

Árvore de Natal da rainha Victoria

A tradição de usar árvores para decorar as casas é bem antiga. Os egípcios, celtas, romanos e até mesmo os vikings traziam árvores para dentro de casa. As árvores eram usadas como decoração no solstício de inverno e acreditava-se que, ao final dessa estação, o sol iria reaparecer e as plantas voltariam a crescer.

Mas foi por volta do século XVI que as árvores de natal tornaram-se um costume cristão. A tradição da árvore de Natal não se espalhou rapidamente pela Europa. Foi somente em 1846, após a publicação de uma ilustração da rainha Victória e do príncipe Albert com seus filhos em volta de uma árvore de natal cheia de presentes, que pessoas de outros países passaram a utilizá-la.

No Brasil, o costume de enfeitar árvores de Natal entre os cristãos só apareceu no começo do século XX.

E, como seria de se esperar, pintores e poetas expressaram o Natal, seja com árvores , seja com meninos em manjedouras…

Natal_ViggoJohansen

“Silent Night”,1891
Viggo Johansen (Dinamarca, 1851-1935)
óleo sobre tela

Manoel de Barros escreveu:

Meu avô hoje ganhou de presente um olhar de pássaro
Acho que ele vai usar esse olhar para fazer as suas artes
O mundo para ele anda muito cansado
Ele quer mudar o jeito das coisas do mundo
Por exemplo ele vai dar primavera aos vermes
O homem não vai mais fabricar armas de fogo
Só vai ter mesmo rio, árvores, o sol, bichos ,pedras
Ele vai desenhar a sua voz nas pedras
Os grilos vão se abrir no meio da noite com enormes lírios
Todo mundo vai gostar mesmo é de obedecer as falas das crianças
Do que as ordens gramaticais
Os sapos vão andar de bicicleta
Depois vamos assistir ao nascimento de Jesus
Será o Natal
E todos vamos adotar as boas falas do filho de Deus
Amar o próximo como a nós mesmos
Então o mundo será renovado !

Poema de Natal“, de Vinicius de Moraes

Arvore de Natal_anos50

“Arbre de Noël”, 1956
Edith Blin (França, 1891-1983)
pastel sobre cartolina

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.”

Natal_GeorginadeAlbuquerque

“Festa de Natal”, 1943
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela

Canto de Natal“, de Manuel Bandeira:

“O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.”

Natal_HenryMosler

“Manhã de Natal”, 1916
Henry Mosler (EUA, 1841-1920)
óleo sobre tela

O Que Fizeram do Natal“, de Carlos Drummond de Andrade

“Natal.
O sino toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
Encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.”

Natal_AlbertChevallierTyler

“A árvore de Natal”, 1911
Albert Chevallier Tayler (GB, 1862-1925)
óleo sobre tela

História Antiga“, de Miguel Torga

“Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.”

Natal_ElizabethAdelaStanhopeForbes

“A árvore de Natal”
Elizabeth Adela Stanhope Forbes (Canadá, 1859–1912)
óleo sobre tela

Natal…“, de Fernando Pessoa

“Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!”

Na manjedoura“, de Clarice Lispector

“Na manjedoura estava calmo e bom. Era de tardinha, ainda não se via a estrela. Por enquanto o nascimento era só de família. Os outros sentiam, mas ninguém via. Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro refulgia o menino, tenro como o nosso filho. Bem de perto, uma cara de boi e outra de jumento olhavam, e esquentavam o ar com o hálito do corpo. Era depois do parto e tudo úmido repousava, tudo úmido e morno respirava. Maria descansava o corpo cansado, sua tarefa no mundo seria a de cumprir o seu destino e ela agora repousava e olhava. José, de longas barbas, meditava; seu destino, que era o de entender, se realizara. O destino da criança era o de nascer. E o dos bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam. A inocência dos meninos, esta a doçura dos brutos compreendia. E, antes dos reis, presenteavam o nascido com o que possuíam: o olhar grande que eles têm e a tepidez do ventre que eles são.

Natal_ElenaKhmeleva

“Armando a árvore”
Elena Khmeleva (Rússia, 1966)
óleo sobre tela

A humanidade é filha de Cristo homem, mas as crianças, os brutos e os amantes são filhos daquele instante na manjedoura. Como são filhos de menino, os seus erros são iluminados: a marca do cordeiro é o seu destino. Eles se reconhecem por uma palidez na testa, como a de uma estrela de tarde, um cheiro de palha e terra, uma paciência de infante. Também as crianças, os pobres de espírito e os que amam são recusados nas hospedarias. Um menino, porém, é o seu pastor e nada lhes faltará. Há séculos eles se escondem em mistérios e estábulos onde pelos séculos repetem o instante do nascimento: a alegria dos homens.

Natal_HansStubenrauch

“Oh, árvore de Natal”
Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875 – 1941)
óleo sobre tela

Tudo tão vago“, de Mário Quintana

Nossa senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do bento filhinho…
São João estendia,
São José enxugava
e a criança chorava
do frio que fazia

Dorme criança
dorme meu amor
que a faca que corta
dá talho sem dor
(de uma cantiga de ninar)
Tudo tão vago…Sei que havia um rio…
Um choro aflito…Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu…
O menino dormira…Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu…
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…
E era a voz que eu ouvi em pequenino…
E era Maria junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino…

Eras tu…que ao me ver neste abandono
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…

Natal_AlexeiMikhailovichKorin

“A árvore de Natal”
Alexei Mikhailovich Korin (Rússia, 1865 – 1923)
óleo sobre tela

Para muitos de nós, as árvores de Natal são pedaços de nossa infância. Que teimamos em perpetuar em nossos filhos. Lembranças de crianças para crianças. Não há necessidade de mais presentes.

Autor: Catherine Beltrão

Arte a partir de livros

Ah, os livros! Fonte de nossa alma, onde sempre podemos beber, seja com sofreguidão ou delicadeza, os pensamentos de nossos pares…

Hoje conheci mais um artista. Mike Stilkey. Um artista californiano que cria sua arte ao amontoar e pintar livros.

Stilkey13

Obra de Mike Stilkey

Como assim? Ele não lê os livros? Não sei. Só sei que ele cria incríveis “pinturas” utilizando livros velhos como telas.

Mas isso é um sacrilégio! Será? E os livros que apodrecem nos sótãos, devorados por cupins? E os livros vendidos aos kilos como lixo?

Stilkey

Mike Stilkey pintando…

Mike Stilkey é um artista estadunidense que usa livros para produzir obras de arte que ficam entre a pintura e a escultura. Seu belo trabalho já lhe rendeu exposições em vários países.

Seus personagens misteriosos, melancólicos, antropomórficos e impressionantes, que parecem saídos de algum filme.

Mike Stilkey refere que as suas pinturas são influenciadas por vários estilos: “adoro ilustração figurativa, expressionismo alemão e surrealismo”. Quantos aos protagonistas, tanto animais como pessoas são apenas situações recorrentes do dia-a-dia: representam qualquer um, mas não identificam ninguém em particular.

Stilkey11

Obra de Mike Stilkey

E, por falar em livros, vamos também falar de poesia. De poesia que fala de livros…

Stilkey3

Obra de Mike Stilkey

Humildade“, de Cecília Meireles

Stilkey1

Obra de Mike Stilkey

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem pra quê.

Stilkey9

Mike Stilkey pintando…

Um dia, Fernando Pessoa escreveu:

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Stilkey5

Obra de Mike Stilkey

Castro Alves também gostava de poemar…

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

Stilkey2

Obra de Mike Stilkey

E como não se deliciar com estes versos de Mario Quintana?

Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas.

Ou esta sua “Dupla Delícia“?

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Stilkey14

Obra de Mike Stilkey

Os ” Livros e flores“, de Machado de Assis, perfumam nossos pensamentos:

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Stilkey8

Obra de Mike Stilkey

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

E Jorge Luis Borges…

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

Stilkey4

Obra de Mike Stilkey

Como não podia ser diferente, René Descartes foi cartesiano:

A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.

Stilkey6

Obra de Mike Stilkey

E, finalmente, Arthur Schopenhauer, lacrou:

Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mundo e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.

Os livros estão aí. Para serem lidos. Relidos. Enfeitados. Restaurados. Abraçados. Beijados. Amados. Transformados. Em Arte.

Autor: Catherine Beltrão

Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

30_VanGogh_1

Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

22_Redon_3

Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

40_Renoir_2

Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

10_Monet_2

Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

4_Guignard_4

Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

48_Chagall_1

Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

75_Edith_4

Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

57_Nivoulies_1

Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

Escadas

No início deste ano resolvi focar escadas. Vou precisar delas. Para subir. Para descer também. Pois as escadas são as grandes companheiras de nossa trajetória de vida. Sempre.

Escada_MuseuVaticano

Esta escada em espiral dos Museus Vaticanos foi construída em 1932 por Giuseppe Momo. Acima da estrutura, uma roseta octogonal de vidro permite a entrada da luz natural. Sua dupla hélice com duas rampas faz com que pareça mais longa. Os Museus Vaticanos também abriram outra escadaria famosa, mas fechada ao público, que costuma ser confundida com esta. Trata-se da criação de Donato Bramante, que viveu entre os séculos XV e XVI, e na qual Momo se inspirou.

Escadas“, de Mario Quintana

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam…
Quando as desce, a gente
Se desparafusa…
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica…
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado…
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E ‘sabes’ que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa…
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos…
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola…
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora…
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo…
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos…

Escada_LivrariaLello

Livraria Lello: A beleza destas escadas conquistou fama mundial quando virou cenário da saga Harry Potter (a autora, J. K. Rowling, morou no Porto, dando aulas de inglês, antes de se tornar uma estrela da literatura juvenil). Classificada como monumento de interesse público, a escadaria fica no interior da livraria Lello. Há dois anos, o local passou a cobrar 3 euros (12 reais) de entrada, já que seus donos não conseguiam mais dar conta da grande quantidade de turistas.

Das Pedras“, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Escada_EscritorioZecc

Escritório Zecc: O escritório de arquitetos Zecc , na Holanda, transformou uma antiga torre de água em mirante. Uma escada se eleva a 45 metros de altura para oferecer uma vista panorâmica através de quatro janelas. Os degraus mudam de linha e robustez à medida que a pessoa sobe, combinando rampas diferentes: a primeira é uma escada de aço já existente que circula seguindo a parede; a segunda, de criação recente em madeira comprimida, faz um ziguezague pela barriga da torre. Na cúpula se encontra o último trecho, que leva até o observatório.

O Tempo e o Vento“, de Mario Quintana

Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos…

Escada_HotelemHiroshima

Hotel em Hiroshima: Duas escadas em caracol entrelaçadas formam esta capela nupcial de um complexo hoteleiro de Hiroshima. Os dois braços da escadaria simbolizam a união matrimonial, o abraço entre os amantes. “As duas partes que antes percorriam caminhos separados se unem na parte superior”, explica o arquiteto Hiroshi Nakamura em seu site. No alto, a 15 metros de altura, descortina-se uma vista panorâmica para o mar interior do Japão, ou mar de Seto.

Vaticano. Portugal. Holanda. Japão.  Um dia, gostaria de fazer uma viagem com roteiro  focando escadas.

 Autor: Catherine Beltrão

Cães e gatos ternos e eternos

Um bicho de estimação não se esquece jamais. Será por quê?

Será pela troca intensa de afetos? Será pela alegria mútua a cada reencontro? Será pelos momentos de compreensão compartilhados?

Edith_Bijou

“Bijou!”, de Edith Blin. 1962

Quando eu tinha doze anos, me veio a Bijou, uma cadelinha preta da raça lulu. Era meiga,  inteligente e afetiva. Esteve comigo até os meus dezessete anos. Foram cinco anos de convívio diário e de descobertas do mundo. Nascida carioca, morou comigo em São Paulo naquele inesquecível ano de 1964.  Quando morreu, aos cinco anos, uma parte minha também se foi. E nunca quis que Bijou fosse substituída em meu coração. Ela foi, e continua sendo, única em minha vida.

Pois é. Vez por outra, encontramos cachorros e gatos em pinturas, poemas e escritos. Resolvi juntar alguns deles e apresentar aqui.

Caes_sleeping cat renoir

“Gato dormindo”, de Renoir.

“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.”  Crônica de Carlos Drummond de Andrade.

A23311.jpg

“Menina na cadeira de braço” (detalhe), de Mary Cassatt. 1878

Caes_Picasso_cat

“Gato”, de Pablo Picasso. 1942

Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” , de Milan Kundera.

O Perigo da Hesitação Prolongada, de Victor Hugo.

Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta. Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?» Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura. Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos.

Caes_Giacometti_dog

“Cão”, de Giacometti. 1951.

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí…
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!, de Mário Quintana.

AldemirMartins_gatomulticor

“Gato multicor”, de Aldemir Martins.

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios.”, de Lord Byron.

Caes_Renoir_headofdog

“Cabeça de cachorro”, de Renoir.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Caes_Matisse_chatauxpoissonsrouges

“Gato com peixes vermelhos”, de Matisse

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.”  Lygia Fagundes Telles

Caes_CamilleClaudel_Dog gnawing a bone

“Cachorro roendo o osso”, de Camille Claudel

Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo.” Lygia Fagundes Telles

 Autor: Catherine Beltrão

Janelas de Hopper entreversos

Abrem-se janelas para o que está do lado de fora. Fecham-se janelas para pensar melhor sobre nós mesmos. E se abríssemos janelas para dentro de nós? Quais seriam nossos pensamentos? Traríamos o que está fora para dentro?

As janelas sempre foram tema para artistas e poetas. Neste post, algumas janelas de Edward Hopper, o pintor da solidão, entremeadas por versos de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Mario Quintana.

hopper1

“Chop Suey”, de Edward Hopper. 1929

Fernando Pessoa (alguns versos do célebre poema Tabacaria)

hopper4

“Quarto em Brooklyn”, de Edward Hopper. 1932

… Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. …

hopper7

“Escritório em Nova York”, de Edward Hopper. 1962

Turno à Janela do Apartamento, de Carlos Drummond de Andrade

Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração da noite.
Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.
A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.
Suicídio, riqueza ciência…
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.
Triste farol da ilha rosa.

hopper6

“Notívagos”, de Edward Hopper. 1942

A arte de ser feliz, de Cecília Meireles

hopper5

“Janela noturna”, de Edward Hooper.

hopper8

“Luz do sol no restaurante”, de Edward Hopper. 1958

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

hopper3

“Sol da Manhã”, de Edward Hopper. 1952

Por fim, os versos de Mario Quintana:

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

 Autor: Catherine Beltrão

Macieiras em flor

Aqui em Nova Friburgo, as cerejeiras começam a florir. É um espetáculo único e efêmero, para os que gostam do inverno e das montanhas. E aí, eu me lembro de outras flores, depositadas no eterno por artistas e poetas: as flores das macieiras!

Wambach_Pommiersenfleur_1937

“Pommiers en fleurs”, de Georges Wambach. 1937

“Solau à moda antiga”, de Mário Quintana

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto…

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Que seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa,
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa.

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor…

Claude Monet's Le Printemps.

“Le Printemps”, de Claude Monet. 1901

“Declaração de amor”, de Carlos Drummond de Andrade

Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona. florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus. meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta… amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Munch_Macieiraemflornojardim

“Macieira em flor no jardim”, de Edvard Munch.

“Poema duma macieira”, de Miguel Torga

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

 

Monet_PommiersenfleurspresdeVetheuil

“Pommiers en fleurs près de Vetheuil”, de Claude Monet.

Ode à tristeza, de Pablo Neruda

VanGogh_Macieiraemflor_1888

“Macieira em flor”, de Vincent van Gogh. 1888

Tristeza, escaravelho
de sete patas sujas,
ovo de teia de aranha,
rato descalabrado,
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Anda-te.
Volta
ao Sul com teus guarda-chuvas,
volta
ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e de suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Sacode
tuas asas de morcego,
eu pisarei as penas
que caem de teu manto,
eu varrerei os pedaços
de teu cadáver para
os quatro cantos do vento,
eu te torcerei o pescoço,
te costurarei os olhos,
te cortarei a mortalha
e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira.

Sisley_Macieirasemflor

“Macieiras em flor”, de Alfred Sisley.

“A História da Macieira”, de Clarice Lispector

A macieira ficava a mesma durante todo o dia espiando as árvores frondosas que cresciam ao seu redor

Durante a noite a macieira olhava para o alto e via as estrelas no céu…e debaixo de sua pequenez, imaginava que as mesmas
estavam penduradas nos galhos das árvores ao seu redor e pensava – “por que razão Deus deu estrelas para essas árvores e
nada cresce nos meus galhos?”.

Ficava tristonha e esbravejava contra a sua sorte.

Pois que chega a primavera e os ganhos da macieira enchem-se de flores – lindas e perfumadas. As pessoas que frequentavam o
bosque correram para sua sombra, todos queriam descansar sob os galhos da pequena macieira. Ela, sempre querendo as
estrelas, desdenhava de suas flores.

_ Por que razão me destes flores ao invés de estrelas? Flores morrem e caem e eu não as terei mais em breve. Dizia a
macieira para Deus que respondia:

_ Não vês, então, macieira, que és a única que abriga pessoas sob teus galhos? Mas a pequena árvore não se satisfazia.

Chega o outono e um vento forte corta os ares do bosque. Macieira percebe que algo cai de seus galhos e olha para o chão.

_ Nossa, meu Deus, já não bastassem as flores que caíram e agora essas bolas vermelhas???!!!

Deus olha risonho para a pequena e petulante arvorezinha e pergunta:

_ Não vês, minha querida, o presente que te dei? Olha com atenção para este que partiu-se em dois.

Macieira, então, olha para a maçã que partira-se em dois e percebe, encantada, a pequena estrela escondida dentro dela.

Monet_Macieiraemflor

“Macieira em flor”, de Claude Monet.

“Mulheres são como maçãs”, de Machado de Assis

As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos,
mulheres são como maçãs em árvores.
As melhores estão no topo,
os homens não querem alcançar essas boas,
porque eles têm medo de cair e se machucar.
Preferem pegar as maçãs mais podres que ficam no chão,
que não são boas como as do topo,
mas são fáceis de se conseguir.
Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade,
ELES estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar…
Aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

Mondrian_Macieiraemflor_1912

“Macieira em flor”, de Piet Mondrian. 1912

A flor da macieira não é só beleza, não é só perfume, não é só ternura. É também a presença de Monet e de Neruda. De Van Gogh e de Machado. De Munch e de Torga. De Sisley e de Quintana. De Wambach e de Clarice. De Mondrian e de Drummond.

Autor: Catherine Beltrão  

As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

Cassat_autorretrato_1880

Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

Cassat6

“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

Cassat4

“A mãe costurando”

Cassat7

“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

Cassat8

“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

Cassat14

“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

Cassat3

“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

Cassat10

“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

Cassat12

“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

Nuvens eternas

As únicas coisas eternas são as nuvens“, escreveu um dia Mario Quintana. É interessante, pois elas não parecem eternas. Mudam de forma a todo instante. Também mudam de cor. E produzem sentimentos variados: tristeza, saudade, medo, esperança. À qual eternidade se referia o poeta?

Nuvens_Courbet

“A imensidão”, de Gustave Courbet (1819-1877)

Mario Quintana também escreveu: “Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento“. É. O vento deserteniza a forma das nuvens…

Cecília Meireles também eternizou suas nuvens, como no poema “Improviso do Amor-Perfeito“:

Nuvens_Constable

“A baía de Weymouth”, de John Constable (1776-1837)

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Nuvens_Pissaro

“Paisagem com Céu de Tempestade”, de Camile Pissarro (1830-1903)

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se alteia,
entre pálpebras de areia…

Longe, longe… Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

Nuvens_Guignard

“Paisagem imaginante”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)

Ou ainda, nos versos a seguir:

Nuvens_Renoir

“Barcas no Rio Sena”, de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

Nuvens_Sisley

“Prado”, de Alfred Sisley (1839-1899)

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis
de andar. Meu rosto vário
desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.”

“Encostei-me a ti sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí.

Nuvens_Dali

“Casal com a cabeça cheia de nuvens”, de Salvador Dali (1904-1989)

No bem conhecido poema “O Auto Retrato“, Mario Quintana volta a se eternizar nuvem …

Nuvens_vanGogh

“Campo de trigo com cipreste”, de Vincent van Gogh (1853-1890)

Nuvens_Malfatti

“O Farol”, de Anita Malfatti (1889-1964)

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Terminado por um louco!

É. Talvez a eternidade das nuvens do poeta se refere àquelas que se eternizam através da pintura. Ou da poesia.

 Autor: Catherine Beltrão

Anjos

Neste início de ano, uma vontade imensa de escrever sobre anjos. Estes seres alados e sem tempo, que povoam nossa imaginação e, em consequência, nossos pensamentos e crenças. E, mais uma vez, poetas, pintores e escultores se juntam neste louvor.

anjos_davinci

Leonardo da Vinci (1452-1519): “A Anunciação” – 1472/75

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam
Clarice Lispector (1920-1977)

anjos_michelangelo

Michelangelo Buonarroti (1475-1564): “Angel with Candlestick” – 1494/95. Faz parte da decoração da Arca de São Domingo, na Basílica de São Domingo em Bolonha.

anjos_giotto

Giotto(1266-1337): “Anjo”, na capela Arena Scrovegni, em Pádua – 1304/06

A doce canção“, de Cecília Meireles (1901-1964)

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve,no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

anjos_raphael

Rafael Sanzio (1483-1520): “Madonna Sistine” (detalhe) – 1512

anjos_aleijadinho

Aleijadinho (1730-1814): “Anjo do Getsêmani”, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas/MG

O mistério do meu canto,
Deus não soube,tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o universo
de pólo a pólo contente.

O Anjo da Escada“, de Mario Quintana (1906-1994)

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

anjos_vangogh

Vincent van Gogh (1853-1890): “Cabeça de Anjo, a partir de Rembrandt”

Eu vi o anjo no mármore e o esculpi até ‘libertá-lo‘”.
Michelangelo Buonarroti

anjos_dali

Salvador Dali (1904-1989): “O anjo caído”, em O Purgatório, Canto I, de Dante Aleghieri – déc.60

anjos_cezanne

Paul Cezanne (1839-1906): “O beijo da Musa” – 1860

Com licença poética“, de Adélia Prado (1935)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

anjos_chagall

Marc Chagall (1887-1985): “A queda do anjo” – 1947

A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar.
Clarice Lispector

anjos_tarsila

Tarsila do Amaral (1886-1973): “Anjos” – 1924

O anjo“, de Ferreira Gullar (1930-2016)

1. O anjo, contido
em pedra
e silêncio
me esperava.

Olho-o, identifico-o
tal se em profundo sigilo
de mim o procurasse desde o início.

Me ilumino! todo
o existido
fora apenas preparação
deste encontro.

anjos_brecheret

Victor Brecheret (1894-1955): “Ave Maria 1″ – 1955. Última obra de Brecheret. Túmulo família Scuracchio. Cemitério São Paulo.

2. Antes que o olhar, detendo o pássaro
no voo, do céu descesse
até o ombro sólido
do anjo,
criando-o
– que tempo mágico
ele habitava?
3. Tão todo nele me perco
que de mim se arrebentam
as raízes do mundo;
tamanha
a violência de seu corpo contra
o meu,
que a sua neutra existência
se quebra:
e os pétreos olhos
se acendem;
o facho
emborcado contra o solo, num desprezo
à vida
arde intensamente;
a leve brisa
faz mover a sua
túnica de pedra.

4. O anjo é grave
agora.
Começo a esperar a morte.

 Autor: Catherine Beltrão