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Da série “Quase cinzas de uma obra permanente”: Piéta (parte II)

Dando prosseguimento à parte I - post anterior de mesmo título, é apresentado neste post o belíssimo e importante manuscrito referente à obra “Piéta“, de Edith Blin.

Este documento foi redigido em 1947 e versa sobre a construção de um Monumento Comunal  do Cemitério Militar da cidade de Tourville-sur-Odon, situada a 12 km de Caen, na região da Normandia.  De 26 de junho a 4 de agosto de 1944, ocorreu nesta localidade a Batalha do Saillant-de-l’Odon, em que morreram muitos soldados franceses. A comunidade – “gente de Odon” – resolveu então, criar este Monumento Comunal. Para conseguir recursos, foi organizada uma quermesse e um leilão. Edith Blin doou duas de suas obras para esta causa, sendo uma delas a “Piéta“.  Para agradecer esta doação, a “gente de Odon” redigiu este documento histórico, referindo-se à batalha em questão e às doações de Edith Blin.

Pieta_Edith_manuscrito

Manuscrito sobre a “Batalha de Saillant de l’Odon” com referência à doação de duas obras de Edith Blin (uma delas, a “Piéta”) para a criação do Monumento Comunal do Cemitério Militar de Tourville-sur-Odon

O manuscrito é dividido em duas partes. Na segunda parte, é este o texto de referência às doações:

“Rio-Paris-Caen: Le peintre “Edith Blin” à Tourville

Tourville-sur-Odon s’honore de posséder, en ce moment, le peintre Edith Blin. Une vaillante française, et même une normande, dont la personne et les oeuvres sont bien connues à Rio de Janeiro, capitale du plus grand état d’Amérique du Sud, le Brésil, sa patrie d’adoption. Le “Maquisard” d’Edith Blin, son “Paris 1940″ y ont mené, pendant la guerre, la meilleure propagande en faveur de la cause de la France et des Alliés. Les oeuvres viennent de faire leur apparition dans les Galeries d’Art parisiennes. Les sujets préférés d’Edith Blin sont, avec les types et scènes exotiques d’Amérique du Sud, la Femme et les Fleurs. Les Portraits aussi. Mais un portrait par Edith Blin est autre chose de plus qu’un portrait… Et tout le monde peut regarder ses oeuvres:

Les “Nus” d’Edith Blin sont beaux parce qu’ils sont chastes.

Les “Nus” d’Edith Blin sont chastes parce qu’ils sont beaux.

Prochainement Edith Blin exposera à Caen des sujets régionaux, scènes et paysages de guerre principalement. Deus des toiles exposées ici “Piéta de Normandie” (Caen 7 juillet 1944) et “Fille de l’Odon”(14 juillet 1947), ont été executées et données pour l’oeuvre patriotique du Monument Comunal de Tourville-sur-Odon: L’une “Fille de l’Odon” constitue le premier lot de la Tombola de la Kermesse.(tirage le 20 juillet) L’autre “Piéta de Normandie” sera vendu aux enchères à Caen à une date ultérieure.

Et um Merci et un Bravo à notre “Etoile de Rio”!

Les gens de l’Odon”

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Parte do manuscrito, com referência às doações das duas obras de Edith Blin

Abaixo, a tradução:

“Rio-Paris-Caen: a pintora “Edith Blin” em Tourville

Tourville-sur-Odon tem a honra de possuir, neste momento, a pintora Edith Blin. Uma valente francesa, e mesmo uma normanda, cuja pessoa e obra são bem conhecidas no Rio de Janeiro, capital do maior país da América do Sul, sua pátria de adoção. O “Maquis” de Edith Blin, sua “Paris 1940″ fizeram, durante a guerra, a melhor propaganda da causa da França e dos Aliados. As obras acabam de fazer sua aparição nas Galerias de Arte parisienses. Os temas preferidos de Edith Blin são, com os tipos e cenas exóticas da América do Sul, a Mulher e as Flores. Os Retratos também. Mas um retrato por Edith Blin é bem mais que um retrato… E todo o mundo pode olhar suas obras:   

Os “Nus” de Edith Blin” são belos porque eles são castos.

Os “Nus” de Edith Blin” são castos porque eles são belos.

Proximamente Edith Blin irá expor em Caen temas regionais, cenas e paisagens de guerra principalmente. Duas das telas expostas aqui “Piéta de Normandia” (Caen 7 de julho de 1944) e “Filha de Odon” (14 de julho de 1947) foram executadas e doadas para a obra patriótica do Monumento Comunal de Rourville-sur-Odon: Uma “Filha de Odon” constitui o primeiro lote da Tômbola da Quermesse. (tiragem em 20 de julho)  A outra “Piéta da Normandia” será leiloada em Caen em uma data posterior.

E um Obrigado e um Bravo a nossa “Estrela do Rio”!

A gente de Odon”

O registro da existência deste manuscrito, de tal importância histórica, me parece fundamental no resgate da obra de Edith Blin, também chamada “a pintora da alma“, “o pássaro das ilhas“, “a estrela do Rio“…

Autor: Catherine Beltrão

Edith Blin e a Resistência Francesa

Edith Blin nasceu em 22 de julho de 1891, na cidadezinha de Pontorson, na região francesa da Normandia. Essa cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, um dos ícones franceses mais conhecidos do mundo, junto à Tour Eiffel. Se todos os que visitaram o Mont Saint-Michel não conseguem mais esquecê-lo pela vida afora, não é difícil imaginar o que representava este lugar para Edith! Para ela, era simplesmente um lugar sagrado, símbolo maior da grandeza da França.

E por que iniciar este post falando do Mont Saint-Michel? O que ele  tem a ver com a Resistência Francesa? Para Edith Blin, tem tudo a ver. A paixão de Edith pela Normandia, a região onde nasceu, é a mesma paixão que a fez expressar seus sentimentos através da pintura, nos anos 40.

Edith-atriz2

Edith Blin nos anos 20, como atriz de teatro

Edith passou os primeiros 50 anos de sua vida sem ter nenhuma relação com pincéis e telas, não tendo frequentado sequer uma aula de pintura. Nos anos 20, trabalhou como atriz na Companhia de Teatro Molière, cuja sede ficava no nº 1 da Avenue du Congo, em Bruxelas, usando o nome de Edith Dereine. Após dois casamentos e tendo tido três filhos, foi somente em 1942, com a idade de 51 anos, que Edith decidiu pintar, desafiada por Georges Wambach, grande aquarelista e representante da iconografia brasileira. (Este episódio foi narrado em outro post deste blog, de 20.02.2014. Se quiser ler este post, clique aqui).

Mesmo habitando terras brasileiras, Edith se angustiava com o sofrimento de seus patrícios na Europa, vitimados pela Segunda Guerra Mundial. Resolveu então expressar seus sentimentos através da pintura.  Após o desafio de Wambach, foram 13 meses de trabalho intenso para Edith. No atelier improvisado de sua então moradia, situada à rua Miguel Lemos em Copacabana, nº 57, Edith desenhava e pintava, Edith pintava e desenhava. Colocava nos desenhos e nas telas toda a angústia que sentia pela França bombardeada, pelo seu povo sofrendo as atrocidades da guerra.

Edith - Cocorico

“Co-co-ri-co”, osm, 1942, 27 X 22cm

Edith - Normandie

“Normandie!”, ost, 1944, 27 X 21cm

Em 1943, Edith fez sua 1ª exposição, quando 46 telas foram expostas no Salão Nobre do Palace Hotel, no centro do Rio de Janeiro. A afluência de público foi enorme – muitos queriam ver as obras de uma pintora que havia  começado a pintar apenas há alguns meses – e a crítica foi unânime em elogiar a força expressiva que suas obras transmitiam. A grande maioria dos trabalhos foram figuras, fortes e vigorosas, com sentido patriótico.  Entre as obras apresentadas, estavam  “Cocorico” e  “Normandie!“. Entre as presenças que deixaram seu autógrafo em 18 folhas do Livro de Assinaturas da exposição, estavam Henrique e Yvonne Visconti Cavalleiro, Jarbas Vasconcellos, Lopes da Silva, Nivouliés de Pierrefort, Álvarus, Paulo Gagarin, João Austregésilo de Athayde, Georgina de Albuquerque, João Pott, Arnaldo Damasceno Vieira (assinou 6 vezes o Livro), ….

Edith - Paris

“Paris”, ost, 1943, 64 X 53cm

Edith - Maquis

“Maquis”, osm, 1945, 41 X 33xm

A 2ª exposição veio em 1945, quando 43 obras foram expostas na Galeria Montparnasse, à rua Siqueira Campos nº 10, em Copacabana. A França continuava sempre presente em suas telas: “Maquis” e “Paris” constavam desta exposição. Entre inúmeras matérias e críticas publicadas em jornais da época, eis o que dizia Edmundo Lys, crítico e grande amigo de Edith: “A essa exposição podíamos chamar “alma da França”, pois aquelas telas, aquelas figuras são momentos de beleza e heroísmo, espírito da França em imagens, por sobre as quais ondeia a bandeira tricolor e de cujo silêncio parece subir a voz da França, entoando o hino imortal da Liberdade.”

Em 1945, era esse o pensamento de Edith:  “Sobre a arte moderna, direi apenas que o assunto é por  demais vasto e complexo para  que possamos defini-lo.  Não concebo na arte uma maneira de pintar, um estilo.  Mas sim a maneira de sentir porque é a única maneira  capaz de exprimir alguma coisa de real significado. Não há maneira de  pintar, ela deve se diferenciar  em cada obra. A tensão  nervosa deve mudar segundo o tema a desenvolver. Esta é a minha opinião.”

Edith - Pieta

“Piétà“, osm, 1947, 102 X 78cm

Documento Tourville

Manuscrito sobre a batalha Tourville-sur-Odon

Em 1947, Edith  viajou para a França, realizando duas exposições em Paris,  uma na Galerie Séverin-Mars e outra na École des Beaux-Arts. Na cidade de Caen, Normandia, mais precisamente no dia 4 de outubro deste mesmo ano, foi colocado em leilão, em prol do Monumento Comunal do Cemitério Militar de Tourville-sur-Odon, a obra “Pietá“. Trata-se de uma obra fortíssima, um jovem carregando uma mulher nos braços, tendo por trás ruínas de uma cidade devastada pela guerra. Pelos relatos de Edith, teriam posado para esta pintura seu irmão Jean e sua sobrinha Jeannine. A cidade em ruínas seria Caen.

A doação desta obra para o leilão deu origem a um manuscrito – relatando a batalha de Tourville-sur-Odon e o agradecimento da cidade pela doação – oferecido para Edith. Acerca da obra “Pietá“, assim falou Paul Lecompte, grande prêmio de Roma: “Ela se eleva muito alto, acima da massa dos pintores e alguma coisa de indefinível, de misterioso -  que ultrapassa a todos nós – se desprende de sua obra. Simplesmente Edith, pássaro das ilhas, é uma grande, uma muito grande artista!

Mais informações: www.edithblin.com

Autor: Catherine Beltrão