Arquivo da tag: Klimt

Cães e gatos ternos e eternos

Um bicho de estimação não se esquece jamais. Será por quê?

Será pela troca intensa de afetos? Será pela alegria mútua a cada reencontro? Será pelos momentos de compreensão compartilhados?

Edith_Bijou

“Bijou!”, de Edith Blin. 1962

Quando eu tinha doze anos, me veio a Bijou, uma cadelinha preta da raça lulu. Era meiga,  inteligente e afetiva. Esteve comigo até os meus dezessete anos. Foram cinco anos de convívio diário e de descobertas do mundo. Nascida carioca, morou comigo em São Paulo naquele inesquecível ano de 1964.  Quando morreu, aos cinco anos, uma parte minha também se foi. E nunca quis que Bijou fosse substituída em meu coração. Ela foi, e continua sendo, única em minha vida.

Pois é. Vez por outra, encontramos cachorros e gatos em pinturas, poemas e escritos. Resolvi juntar alguns deles e apresentar aqui.

Caes_sleeping cat renoir

“Gato dormindo”, de Renoir.

“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.”  Crônica de Carlos Drummond de Andrade.

A23311.jpg

“Menina na cadeira de braço” (detalhe), de Mary Cassatt. 1878

Caes_Picasso_cat

“Gato”, de Pablo Picasso. 1942

Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” , de Milan Kundera.

O Perigo da Hesitação Prolongada, de Victor Hugo.

Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta. Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?» Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura. Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos.

Caes_Giacometti_dog

“Cão”, de Giacometti. 1951.

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí…
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!, de Mário Quintana.

AldemirMartins_gatomulticor

“Gato multicor”, de Aldemir Martins.

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios.”, de Lord Byron.

Caes_Renoir_headofdog

“Cabeça de cachorro”, de Renoir.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Caes_Matisse_chatauxpoissonsrouges

“Gato com peixes vermelhos”, de Matisse

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.”  Lygia Fagundes Telles

Caes_CamilleClaudel_Dog gnawing a bone

“Cachorro roendo o osso”, de Camille Claudel

Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo.” Lygia Fagundes Telles

 Autor: Catherine Beltrão

200 posts! Festa de Arte doce!

Hoje é dia de festa! Dia de comemorar 200 posts do blog ArtenaRede! Dia de festejar e comer muita arte doce!

bolos_mondrian

Mondrian.
Vídeo: “Die ideale Wirklichkeit – Piet Mondrian “. Duração: 2:43

bolos_mondrian2

Mondrian
Vídeo: animação sobre neoplasticismo. Duração: 2:04

bolos_vangogh2

Van Gogh.
Vídeo: animação interativa com “Noite Estrelada”. Duração: 4:15

 

Piet Mondrian (1872-1944) e Vincent van Gogh (1853-1890) são os primeiros a chegar à festa, trazendo duas obras da série “Composições em vermelho, amarelo e azul“, “A Noite Estrelada” e “Amendoeira em flor“. Mondrian, o grande nome do neoplasticismo e Van Gogh, talvez o mais amado dos pintores, são inconfundíveis, até mesmo quando sua arte se transforma em bolos…

bolos_vangogh3

Van Gogh
Vídeo: animação do pintor em 3D. Duração: 1:51

 

bolos_klimt

Klimt.
Vídeo: análise da obra “O beijo”. Duração: 3:56

bolos_munch

Munch
Vídeo: “The Scream”, fantástica animação sobre a obra “O Grito”. Música de Pink Floyd. Duração: 3:22

 

Gustav Klimt (1862-1918) e Edvard Munch (1863-1944) chegam logo em seguida. “O Beijo” e “O Grito” são puro encantamento, trazendo momentos do simbolismo e do expressionismo.

 

E eis que chegam duas das maiores figuras artísticas do século XX!

bolos_picasso

Picasso
Vídeo: pinturas de Picasso. Duração: 3:00

bolos_picasso2

Picasso
Vídeo: história e análise da obra “Les demoiselles d’Avignon. Duração: 4:19

bolos_dali2

Dali
Vídeo: animação “Destino & Time – Salvador Dali, Walt Disney and Pink Floyd”. Duração: 7:05

 

Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989),  os maiores nomes do cubismo e do surrealismo, vêm trazendo “Mulher em frente ao espelho“, “Les demoiselles d’Avignon” e “A persistência da memória“, este em duas versões…

É impossível não se emocionar com a Arte e com a história destes dois gênios: o Picasso de várias mulheres e o Dali de uma só…

 

 

bolos_dali

Dali
Vídeo: explicação da criação da obra “A persistência da memória”. Duração: 2:52

bolos_monet

Monet
Vídeo: “Claude Monet – Giverny ‘Les Nymphéas’. Música de Claude Debussy. Duração: 5:25

Matisse Cake

Matisse
Vídeo: obras do pintor. Música de Claude Debussy. Duração: 3:52

 

A festa prossegue com a chegada de Claude Monet (1840-1926) e Henri Matisse (1869-1954), com seus emblemáticos  “Le bassin aux nymphéas” e “Interior com cortina egípcia“, obras máximas do impressionismo e do fauvismo.

 

Mas o abstracionismo não podia ficar de fora!

bolos_pollock

Pollock
Vídeo: Pollock e sua arte de criação. Duração: 1:40

bolos_pollock3

Pollock
Vídeo: Trecho do filme “Pollock” (2000), dirigido e protagonizado por Ed Harris, com música do compositor Jeff Beal. A atuação representa o pintor compondo um mural. Duração: 3:45

 

Já no fim da festa, vem chegando Jackson Pollock (1912-1956), o grande nome do expressionismo abstrato, trazendo duas obras representantes da sua técnica característica, o “gotejamento“.

 

Para abrilhantar a festa, inseri alguns vídeos no post. Basta clicar nas imagens…

E, para acessar os links onde foram obtidas as imagens dos bolos, clique aqui, aqui e aqui.

Que festa! Mondrian, Van Gogh, Klimt, Munch, Picasso, Dali, Monet, Matisse e Pollock… que time de artistas para comemorar os 200 posts do blog!

Autor: Catherine Beltrão

Pérolas e lágrimas

Resolvi juntar lágrimas a pérolas em pinturas e poesias por acreditar que secreções também podem ser sublimes.

O ser sublime fica por conta de Klimt, van der Weiden, Veermer, Rembrandt, Dali, Picasso, Portinari e Mary Cassat. E também de Victor Hugo, Mario Quintana, Cecília Meireles, Drummond, Florbela Espanca, Jean-Paul Sartre, Vinicius de Moraes e Manoel de Barros.

lagrima_Klimt

“Mulher chorando”, de Gustav Klimt

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.
Victor Hugo

lagrima_vanderWeyden

“Descida da cruz” (detalhe), de Rogier van der Weyden. 1435

Chorar é lindo, por Mario Quintana

Chorar é lindo, pois cada lágrima na face
 são palavras ditas de um sentimento calado.

Pessoas que mais amamos, são as que mais magoamos
 porque queremos que sejam perfeitas,
 e esquecemos que são apenas seres humanos.

Nunca diga que esqueceu alguma pessoa, ou um amor.
 Diga apenas que consegue falar neles sem chorar,
 porque qualquer amor por mais simples que seja,
 será sempre inesquecível…

 As lágrimas não doem…
 O que dói são os motivos que as fazem caírem!
 Não deixe de acreditar no amor,
 mas certifique-se de estar entregando seu coração
 para alguém que dê valor

aos mesmos sentimentos que você dá,
 manifeste suas ideias e planos,
 para saber se vocês combinam,
 e certifique-se de que quando estão juntos
 aquele abraço vale mais que qualquer palavra…

Perolas_Vermeer

“Moça com brinco de pérola”, de Jan Vermeer. 1665

Pérolas – Cecília Meireles

O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
 – de que mares?
 – de que conchas?
 – menores que lágrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.

Perolas_Rembrandt

“Retrato de Maria Trip” (detalhe), de Rembrandt

 

Perolas_Dali

“Labios de rubi”, de Salvador Dali

As pérolas -  Carlos Drummond de Andrade

Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto. Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas – disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar. Os clientes queixavam-se de que os doces de Renata estavam demasiado doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola?  Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu. A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola.  A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse: “Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana”.

Minha primeira lágrima caiu de dentro dos teus olhos.
 Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
Cecília Meireles

lagrima_dali2

“O olho do tempo”, de Salvador Dali

Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca

Se me ponho a cismar em outras eras
 Em que ri e cantei, em que era querida,
 Parece-me que foi outras esferas,
 Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
 Que dantes tinha o rir das primaveras,
 Esbate as linhas graves e severas
 E cai num abandono de esquecida!

 E fico, pensativa, olhando o vago…
 Toma a brandura plácida dum lago
 O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
 Ninguém as vê brotar dentro da alma!
 Ninguém as vê cair dentro de mim!

lagrima_picasso

“Mulher chorando”, de Pablo Picasso. 1937

Lágrimas de um adulto eram como uma catástrofe mística, qualquer coisa como o choro de Deus acerca da maldade do homem.
Jean-Paul Sartre

 

lagrima_portinari

“Menino morto”, de Cândido Portinari

Poética (II) – Vinícius de Moraes

 Com as lágrimas do tempo
 e a cal do meu dia
 eu fiz o cimento
 da minha poesia

e na perspectiva
 da vida futura
 ergui em carne viva
 sua arquitetura

 não sei bem se é casa
 se é torre ou se é templo
 (um templo sem Deus)

mas é grande e clara
 pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!

Perolas_MaryCassatt

“Opera Woman with a pearl necklace”, de Mary Cassat

Acontecimento - Vinicius de Moraes

Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
Muitos sentirão inveja
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada.
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

E, para finalizar, uma frase definitiva de Manoel de Barros: “Escrever é cheio de casca e de pérola”.

Autor: Catherine Beltrão

Outonos perenes

Mais um outono que chega. Para nós, o outono é uma estação. Uma das quatro. Morna. Nem fria nem quente. Nem alegre nem triste. Simplesmente amena. Tão somente plácida.

Mas um pintor pensa diferente. Para ele, o outono é tão importante que ele precisa permanecer eterno. Perene. Como estes outonos europeus do século XIX, eternizados pelos impressionistas franceses Claude Monet (1840-1926) e Pierre-Auguste Renoir (1841-1919),  da comuna de Argenteuil, na França.

Outono_Monet1

“Outono no Sena em Argenteuil”, de Claude Monet

Outono_Renoir

“Ponte em Argenteuil no Outono”, de Renoir

O tempo passa, trazendo e levando outonos. E trazendo e levando artistas que pintam outonos. Como estes dos austríacos Gustav Klimt (1862-1918), simbolista, e Egon Schiele (1890-1918), expressionista.

Outono_Klimt1

“Madeira de bétula”, de Gustav Klimt

Outono_Schiele2

“Arvores de outono”, de Egon Schiele

Os anos trouxeram novos outonos e mais pintores. Entre eles, Wassily Kandinsky (1866-1944), abstracionista russo, que pintou um outono na Baviera, região da Alemanha.

Outono_Kandinsky

“Outono na Baviera”, de Wassily Kandinsky

Na música, existe uma canção que eternizou todos os outonos: “Les Feuilles Mortes”, com a letra do poeta maior francês Jacques Prévert.   Em 1945, Prévert escreveu o roteiro do filme “Les Portes de la Nuit“, baseado no ballet “Le Rendez-Vous“, criado por Roland Petit neste mesmo ano. Petit e Prevért … que dupla!

Foram – e continuam sendo - muitos os intérpretes de “Feuilles Mortes“. Mas é impossível não deixar registradas aqui as interpretações de Yves Montand (1921-1991) e de Andrea Bocelli (1958).

outono_YvesMontand

Vídeo com Yves Montand, interpretando “Les Feuilles Mortes”

Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois je n’ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Les souvenirs et les regrets aussi

Et le vent du nord les emportent
Dans la nuit froide de l’oubli
Tu vois, je n’ai pas oublié
La chanson que tu me chantais

outono_Bocelli

Vídeo com Andrea Bocelli, interpretando “Les Feuilles Mortes”

C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais, et je t’aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m’aimait, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants desunis

C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais, et je t’aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m’aimait, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aime
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants désunis

Outonos. Amenos e plácidos pedaços de tempo. Do tempo que passa, fluindo pela vida que segue, sempre em frente, até o último instante… de um certo outono.

 Autor: Catherine Beltrão

Da relação de alguns pintores com a morte

Já dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Temos a arte para não morrer da verdade” ou ainda “A arte existe para que a realidade não nos destrua“.

Pretendo neste post apresentar obras de alguns pintores que tenham retratado de alguma maneira sua relação com a morte. Muitos fizeram isso. Mas resolvi destacar somente sete nomes: Bosch, Caravaggio, David, Munch,  Klimt, Dali e Portinari.

Morte - Bosch

“A morte do avarento”, 1494, óleo sobre madeira, 93 x 31 cm – Bosch

Hieronymus Bosch (c. 1450-1516) pintou “A morte do avarento” por volta de 1494.  Possivelmente esta pintura seria o painel direito de um tríptico dividido. Apesar de pertencer a outro tempo, Bosch olha para trás e retrata temas medievais, embora com perspectiva distinta. O moribundo avarento se divide entre o anjo que lhe oferece um crucifixo e o demônio que aparece por debaixo da cortina com um saco de dinheiro na mão. Interessante constatar que, mesmo com todo o ambiente sinistro da pintura, ainda há esperança para o avarento, coisa impensável trezentos anos antes. Esta obra se encontra na National Gallery of Art, em Washington.

Morte - Caravaggio

“Morte da Virgem”, 1606, ost, 369cm × 245cm – Caravaggio

A morte da Virgem“ é o maior quadro de altar pintado por Michelangelo Caravaggio (1571 – 1610), sendo encomendada por Laerzio Alberti Cherubini, o advogado do papa, para a sua capela na Igreja das Carmelitas de Santa Maria della Scala em Roma. No entanto, na ocasião a pintura foi recusada, pois o clero achou a obra ofensiva à igreja católica. As figuras são quase do tamanho real e o ambiente da cena é simples: a virgem Maria está morta e é retratada com simplicidade. Os apóstolos se entristecem com a cena, enquanto Maria Madalena chora sentada em uma simples cadeira, com o rosto escondido entre as mãos. Nada há neste quadro que revele a natureza sagrada de seu tema. Seu tratamento é naturalista, inclusive brutal e de grande crueza. Esta obra monumental pode ser vista no Museu do Louvre, em Paris.

Morte - David

“A morte de Marat”, 1793, ost, 165 X 128cm – David

Uma das obras mais famosas de Jacques-Louis David (1748-1825), pintor preferido de Napoleão, é “A morte de Marat“. A pintura retrata Jean-Paul Marat, revolucionário francês, assassinado em casa por Charlotte Corday. A inscrição “À Marat, David”, que aparece na caixa de madeira, cuja forma sugere uma lápide, indica que se trata de uma homenagem a Marat, que o pintor conhecia pessoalmente e que teria visto na véspera de sua morte tal como a representado, dentro de uma banheira. A obra está exposta no Musée Royal des Beaux-Arts, em Bruxelas.

Morte - Munch

“Morte no quarto da paciente”, 1894, ost – Munch

Edvard Munch (1863-1944), autor de uma das obras mais famosas do mundo – “O Grito” – foi um pintor  que retratou por diversas vezes as temáticas de doença e morte. Quando ainda não havia completado cinco anos de idade, sua mãe morreu vítima de tuberculose e, nove anos depois, faleceu da mesma causa a sua irmã Sophie. A obra “Morte no quarto da paciente“ reproduz o momento da morte de Sophie. Ela não aparece, pois está sentada em uma cadeira de espaldar alto, ao lado da cama, rodeada por três pessoas que a olham: o pai, a tia e o próprio Munch. Toda executada em tons verdes e ocre, a obra se encontra no Museu National Gallery, em Oslo.

Morte - Klimt

“A vida e a morte”, 1911 – Klimt

Gustav Klimt (1862-1918) recebeu o 1º  prêmio  na Exposição Internacional de Roma com a obra “A vida e a morte“. Conflito entre vida e morte, a tela tem sentido ambíguo. Parecendo duas peças de um quebra-cabeça que se encaixam, as sinuosidades à direita das vestes da Morte, de cores frias, se completam com as do contorno esquerdo da coluna da Vida, cujas cores quentes adicionam dramaticidade à cena. Não se trata de um confronto, mas de um inevitável encaixe, já que o ciclo da vida só se compreende com a presença da morte.

Morte - Dali

“Construção mole com feijões cozidos”, 1936 – Dali

Construção Mole com Feijões Cozidos” ou “Premonição da Guerra Civil” foi pintado pro Salvador Dali (1904-1989) e encontra-se atualmente no Museu de Arte da Filadélfia, na Filadélfia. Concluída antes que a Guerra Civil Espanhola estourasse, em julho de 1936, a obra baseia-se em dolorosos pensamentos de saudade e de morte. O monstro que domina a tela parece ter as mesmas proporções do contorno do mapa da Espanha e dele saem braços e pernas que se rasgam mutuamente, enquanto uma forma fálica e flácida se debruça de um quadril rompido. Os feijões se esparramam pelo chão sem saciar a fome de ninguém.  Observa-se o rosto do monstro em êxtase, enquanto os músculos tensos de seu pescoço e seus braços transformam-se e apodrecem. É provável que Dali acreditasse que mostrando a Espanha se autodestruindo, tentasse também  mostrar as atrocidades cometidas pelas partes envolvidas em uma guerra.

Morte - Portinari

“Criança morta”, 1944, ost, 176 X 190cm – Portinari

Criança Morta“, de Cândido Portinari (1903-1962), faz parte da série sobre os retirantes nordestinos e é, com certeza, a obra de maior conteúdo dramático do artista. A dramaticidade é  potencializada pela composição do quadro que mostra um  agrupamento humano do qual se projeta a criança morta. Os tons terrosos predominam na parte inferior da tela, que não são afetados pelas lágrimas da menina ou pelas imensas mãos do homem que segura a criança morta: nada irá amenizar a dor de mais uma perda desta família. Um quadro dantesco de luta entre a vida e a morte. A obra faz parte da coleção do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand .

Nietzsche sabia das coisas. A Arte não deixa a realidade nos destruir. E os artistas entendem isso todos os dias.

  Autor: Catherine Beltrão

“Retrato de Adele Bloch-Bauer I”, de Gustav Klimt (1862-1918)

Dando prosseguimento à série “Histórias de obras”, este post foca uma das obras mais valorizadas do mercado de arte mundial, uma obra-prima de Gustav Klimt. A trajetória percorrida por este retrato é bastante interessante, tendo sido, inclusive, roubada  pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, resgatada.

Retrato de Klimt por Egon Schiele - 1913

Retrato de Klimt por Egon Schiele – 1913

Gustav Klimt foi um pintor simbolista austríaco, um dos fundadores do movimento da Secessão de Viena, que recusava a tradição acadêmica nas artes. Seus primeiros trabalhos notórios foram como decorador de átrios, escadarias e auditórios de grandes espaços em Viena. No início do século XX, conheceu Veneza, Florença, Paris. E também Toulouse-Lautrec, Van Gogh, Munch, Toorop, Gauguin, Bonnard e Matisse. É a época do período dourado de sua obra, da qual faz parte o “Retrato de Adele Bloch-Bauer I”.

 

Klimt - Adele

“Retrato de Adele Bloch-Bauer I”, óleo e ouro sobre tela marinheira, 1905, 138 X 138cm

Adele , mulher de Ferdinand Bloch-Bauer, tornou-se a única modelo pintada em duas ocasiões por Klimt, em 1905 e em 1912.  Em 1925 Adele faleceu de meningite, e quando os nazistas  ocuparam a Áustria, o seu viúvo exiliou-se na Suíça. Todas as suas propriedades foram confiscadas, incluída a coleção Klimt.  No seu testamento de 1945, Bauer-Bloch designou os seus sobrinhos e sobrinhas, incluindo a Maria Altmann, como herdeiros do seu patrimônio. Nos anos que se seguiram, as pinturas de Klimt foram disputadas em batalha judicial entre os Estados Unidos e a Áustria. As obras acabaram ficando nos Estados Unidos, sendo exibidas em Los Angeles até o Retrato de Adele Bloch-Bauer I ser vendido a Lauder, dono da Neue Galerie de Nova Iorque.

A pintura passou a ser a peça central da coleção de Lauder, que passou parte de sua vida tentando recuperar a arte que tinha sido propriedade da comunidade judaica, a maioria da Alemanha e Áustria, e que fora confiscada ou roubada pelo governo nazista. Lauder trabalhou para esta meta enquanto foi embaixador dos Estados Unidos na Áustria, membro da “World Jewish Restitution Organization”, e da comissão designada por Bill Clinton para examinar casos de roubo nazista. É significativo o comentário de Lauder ao recuperar o Retrato de Adele Bloch-Bauer I: “Esta é a nossa Mona Lisa….”

Esta obra foi vendida a Lauder, em junho de 2006, em leilão da Christie’s, por US$ 87,9 milhões, o que a tornou naquele momento na segunda pintura de maior valor de todo o mundo. Atualmente, ela ocupa o sétimo lugar.

Fontes das informações:

- http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2013/06/mulheres-na-historia-xxiii-adele-bloch.html -http://pt.wikipedia.org/wiki/Retrato_de_Adele_Bloch-Bauer_I

Autor: Catherine Beltrão