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O Jardim de Dentro e o Jardim de Fora

Como pode isso, vovó? Não entendi… Jardim de Dentro? Jardim de Fora?

Vou explicar. Primeiro você tem que acreditar que já fui criança um dia. Igualzinha a você. Sei que é difícil, mas faça um esforcinho…

Bem, tudo começou com o Jardim de Dentro. Eu já lhe contei que sua tataravó Edith era pintora, certo? Então… ela pintava retratos, pintava paisagens, pintava palhaços, pintava bailarinas… e pintava flores!

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“Braçada de flores”, de Edith Blin. Déc.50, ost, 60 X 50 cm.

Mas suas flores eram diferentes. Quase nunca ficavam presas dentro de vasos. As flores de Edith gostavam de ser livres, de dançar e de cantar.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin. 1955, ost, 82 X 65cm.

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“Bouquet de la nuit”, de Edith Blin. 1956, ost, 81 X 65cm.

E eu adorava dançar e cantar com elas. Me levavam a lugares incríveis. Quase sempre, estes lugares eram muito coloridos, mas as vezes não.  Coloridos ou sem cor, tudo era tão bonito que eu até sonhava com estes lugares.

Uma noite, sonhei que os galhos das flores nos levavam para um lugar mágico, todo iluminado e cheiroso: era uma floresta encantada e cantante!

Outra vez, sonhei que um vento forte nos levava para bem longe. A gente rodopiou, rodopiou, até o vento parar. Nessa viagem, as flores tinham perdido muitas pétalas… mas não teve problema, pois eu remendei uma a uma.

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“Flores ao vento”, de Edith Blin.1957, ost, 54 X 72cm.

Pelo que me diziam (porque eu também conversava com as flores de Edith), só eu conhecia estes lugares. E eles passaram a ser o meu Jardim de Dentro!

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“Orquídea amarela com rosas”, de Edith Blin.1952, ost, 54 X 72cm.

Mas e o Jardim de Fora, vovó? Como era?

O Jardim de fora não “era”. Ele “é”. É o nosso Jardim dos Poetas!

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Cerejeira em flor no Jardim dos Poetas

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Samambaia portuguesa ao sol, no Jardim dos Poetas

É o jardim onde você brinca com seus irmãos e seus primos quando vem me visitar… é o jardim das bromélias, das orquídeas, das cerejeiras, dos beija-flores e dos bem-te-vis. É o jardim dos ipês, dos bambus, das camélias, dos jacus e dos sabiás. E é também o jardim das azaleias, dos antúrios, das palmeiras, das corujas e dos tico-ticos.

Eu tive o meu Jardim de Dentro quando criança, onde plantei as sementes do meu Jardim de Fora de hoje, o nosso Jardim dos Poetas. Quem sabe ele, o Jardim dos Poetas, não seja o seu Jardim de Dentro e que dê muitas sementes para você plantar em seu Jardim de Fora de amanhã…

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Buganvília no portão do Jardim dos Poetas

 Autor: Catherine Beltrão

Giverny e Inhotim: sonhos e jardins…

Devo ter sido abençoada pois Giverny e Inhotim fazem parte de minhas lembranças. Lembranças ainda frescas pois só fui conhecer estes jardins há poucos anos: Inhotim em 2013 e Giverny em 2014.

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Lago das ninfeias. Foto: Catherine Beltrão.

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Jardins de Monet. Foto de F. Didillan

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Jardins de Monet. Extraída de: http://viagememfamilia.net/2015/04/23/jardins-de-monet-giverny/

Em 1883, Claude Monet (1840-1926) descobriu Giverny, pequena cidade da Normandia, na França:  passeando pela região, se apaixonou. Alugou uma vila e transformou todo o local em um maravilhoso jardim, onde se inspirava diariamente. Muitos dos seus quadros foram pintados neste cenário de sonhos.  Sonhou suas flores e pintou seu jardim. Em 1890, Monet comprou esta vila e viveu ali até a sua morte, em 1926. Foram 43 anos de amor e comunhão entre o artista e seu jardim…

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“A ponte Japonesa”, de Claude Monet. Ost, 1889.

Conheci o Jardim de Monet, após 40 anos de espera, por ocasião de minha última viagem à França, em 2014, quando fui fazer a dispersão das cinzas de minha mãe, que havia falecido dois meses antes. Na época, publiquei este post: “As Flores de Giverny“.

Inhotim é a Disneylândia dos amantes da arte contemporânea e dos imensos jardins de plantas tropicais. É considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina e está localizada em Brumadinho, pequena cidade a 60 km de Belo Horizonte.

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Foto: © Ricardo Mallaco

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Árvore suspensa de Giuseppe Penone. Escultura em bronze suspensa entre árvores de verdade, que se fundem com a escultura.

Os jardins de Inhotim também foram sonhados. O Instituto Inhotim começou a ser idealizado pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980. A propriedade privada se transformou com o tempo, tornando-se um lugar singular, com um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo e uma coleção botânica que reúne espécies raras e de todos os continentes.

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Detalhe de uma piazzetta com 3 esculturas de bronze do Edgard de Souza.

O Instituto Inhotim abriga um complexo museológico com uma série de pavilhões e galerias com obras de arte e esculturas expostas ao ar livre. Inhotim é a única instituição brasileira que exibe continuamente um acervo de excelência internacional de arte contemporânea.

Para além da contemplação, os jardins são campo para estudos florísticos e catalogação de novas espécies botânicas. Em 2010, o Instituto Inhotim recebeu a chancela de Jardim Botânico, atribuída pela Comissão Nacional de Jardins Botânicos (CNJB), e, desde então, integra a Rede Brasileira de Jardins Botânicos (RNJB). (Fonte: http://www.inhotim.org.br)

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“Inmensa”, de Cildo Meireles. Escultura em aço, 400 x 810 x 445 cm, 1982 – 2002. Foto: Tibério França

Também esperei anos para conhecer Inhotim. E, após a visita, também escrevi um post, o terceiro deste blog: “Primeiro contato com Inhotim“.

E assim, embora tardiamente, alguns sonhos meus vão se realizando e se misturam aos sonhos dos idealizadores destes dois magníficos jardins: Claude Monet e Bernardo Paz.

 Autor: Catherine Beltrão

As flores de Giverny

Pensei em iniciar esse post com uma pergunta mas não sei qual seria a melhor. Fiquei indecisa entre perguntar “Quem nunca ouviu falar em Giverny?” ou “Quem já ouviu falar em Giverny? ”

Giverny é uma cidade francesa, situada ao norte de Paris, já na região da Normandia. Sua importância se deve aos famosos jardins da Casa de Claude Monet  ( 1840-1926 ), pintor francês e o maior nome da pintura impressionista.

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Lago das ninfeias. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

 

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Detalhe de uma das obras da série “Ninfeias”

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Detalhe da ponte japonesa em uma das obras da série “Ninfeias”

Claude Monet viveu em Giverny de 1883 até sua morte. Cuidar do jardim  era uma de suas atividades preferidas. Para ajudá-lo nesta tarefa, foram contratados seis jardineiros. Em 1893, Monet comprou também um terreno vizinho onde construiu o jardim  aquático, que seria sua grande fonte de inspiração nos anos seguintes. Em 1899, Monet pintou em Giverny a famosa série de quadros chamadas “Nenúfares” ou “Ninfeias”, inspirada no jardim aquático.

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Lago das ninfeias com a ponte japonesa ao fundo. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

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Lago das ninfeias com foco no amarelo. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

 

Na semana passada, estive na França para participar do ritual da dispersão das cinzas de minha mãe, falecida há dois meses. Nesta viagem, realizei dois desejos: o de minha mãe, que queria suas cinzas dispersadas nas “forêts de l’Oise“, em Chevrières, onde passou sua infância. O outro desejo era meu, que queria conhecer os jardins de Monet, em Giverny. Os dois desejos foram realizados. As cinzas pintaram de branco a relva no entorno da pequena capela de uma propriedade privada na pequena cidade perto de Compiegne, na região da Picardia. E as flores dos jardins de Monet coloriram meus pensamentos um tanto quanto cinzentos em que me encontrava …

 

Na semana em que se inicia a Primavera aqui ao sul do Equador, as flores outonais de Giverny são as mais belas do planeta.

 

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Inacreditável estas flores aparentemente aquáticas brotando da grama… Foto tirada em 17.09.2014

 

Monet soube expressar a beleza das flores como ninguém. Jamais alguém o superou na concepção destas obras eternas que criou a partir do jardins de sua casa em Giverny. Ele eternizou momentos de intensa harmonia entre cores e formas, todas imaginadas em sua mente como uma quebra-cabeça de peças do paraíso…

 

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Obra de Monet, retratando parte de seu jardim em Giverny

 

Benditas sejam as flores no coração da natureza!

 

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Dálias colossais nos jardins de Monet. Foto tirada em 17.09.2014

 

 Autor: Catherine Beltrão