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O Jardim Botânico de Tom e de Clarice

No Dia Mundial do Meio Ambiente, não há como não pensar no Jardim Botânico. O que nos leva naturalmente a Tom Jobim e a Clarice Lispector.

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 O Jardim Botânico do Rio de Janeiro foi fundado em 13 de junho de 1808. Ele surgiu de uma decisão do então príncipe regente português D. João de instalar no local uma fábrica de pólvora e um jardim para aclimatação de espécies vegetais originárias de outras partes do mundo. Ele abriga cerca de 6 500 espécies da flora brasileira e estrangeira (algumas ameaçadas de extinção), distribuídas por uma área de 54 hectares, ao ar livre e em estufas.

Deve-se a Clarice Lispector (1920-1977) uma das mais belas crônicas escritas tendo o Jardim Botânico como cenário: “Ato gratuito”.

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“Jardim Botânico do Rio de Janeiro”, de P. G. Bertichem, 1856.

Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquí­ssimas, estava eu escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo cansaço da luta.

E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar ideias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava – precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.

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“Jardim Botânico”, de Paulo Gagarin. 1922, óleo sobre cartão, 23 x 33 cm

Então minha própria sede guiou-me.  Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?”, perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe, “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro.” Não sei por que olhou-me um instante com atenção.

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“Jardim Botânico”, de Guignard.1937

Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver. Saltei do táxi e atravessei os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.

O mistério me rodeava. Olhei arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvores de tronco nodoso e escuro, tão largo que me seria impossí­vel abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha, através de raí­zes pesadas e duras como garras – como é que corria a seiva, essa coisa quase intangí­vel que é a vida? Havia seiva em tudo como há sangue em nosso corpo.

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“Jardim Botânico”, de Georges Wambach. Aquarela, década de 40.

De propósito não vou descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raí­zes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas. Eu sentia um medo bom – como um estremecimento apenas perceptí­vel de alma – um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! achar a porta de saí­da.

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“Jardim Botânico no Rio”, de Henrique Cavalleiro.1965

O chão estava às vezes coberto de bolinhas de aroeira, daquelas que caem em abundância nas calçadas da nossa infância e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom. Estava com um cansaço benfazejo, era hora de voltar, o sol já estava mais fraco.

Voltarei num dia de chuva – só para ver o gotejante jardim submerso.

Nota da autora: peço licença para pedir à pessoa que tão bondosamente traduz meus textos em braile para os cegos que não traduza este. Não quero ferir os olhos que não vêem.

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“Histórias de Chico”: Tom Jobim e o Jardim Botânico. Duração: 3:41

Antonio Carlos Jobim (1927-1994) sempre foi um grande apaixonado pelo Jardim Botânico. Com o decorrer dos anos, seu nome tornou-se sinônimo de preservação do patrimônio ecológico e cultural do país e sua visão de mundo é sempre objeto de inspiração para as novas gerações. Em maio de 2001, foi criado o Instituto Antônio Carlos Jobim, dentro do Jardim Botânico, para preservar e tornar público o seu acervo, e também para desenvolver projetos educativos sobre ecologia e artes em geral.

Chico Buarque fez um depoimento emocionado sobre Tom Jobim, seu amigo e parceiro de canções. O cenário escolhido para falar da amizade não podia ser outro que não o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que Tom Jobim frequentava assiduamente, fascinado pela natureza e pelas belezas do Brasil.

Quanto a mim, o Jardim Botânico me remete a três infâncias: a minha, que aconteceu nos anos 50. Três décadas depois, eu já percorria as suas alamedas com meus filhos. Agora, construo minhas futuras lembranças do jardim com meus netos. É uma relação de amor, com certeza.

Autor: Catherine Beltrão

Primeiro contato com Inhotim

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Vista deslumbrante de parte minúscula dos jardins de Inhotim, situada frente à Galeria True Rouge

 

Não conhecia Inhotim até novembro do ano passado. Só de ouvir falar e de acessar o site. Já sabia que é o maior museu a céu aberto do mundo, com 2 milhões de metros quadrados. Já sabia que, além de possuir um dos mais belos e variados acervos de arte contemporânea mundial e uma arquitetura de galerias e galpões fartamente premiada, desde 2010 Inhotim obteve a chancela de Jardim Botânico, com cerca de 5.000 espécies, representando mais de 28% das famílias botânicas conhecidas no planeta.

Mas então, no primeiro feriado de novembro, fui conhecer pessoalmente este lugar fantástico. Inebriante! Um choque na alma de qualquer um. Não precisa ser artista ou botânico. Basta ser alguém que se comova com a beleza de ver magistralmente integrados criações artísticas e jardins.

Desde o Som da Terra, do artista Doug Aitken, até o Galpão Cardiff & Miller, com a obra “The Murder of Crowd”, passando pelas galerias de Adriana Varejão, Miguel Rio Branco e Lygia Pape, só para citar alguns dos espaços criados no jardim monumental de Inhotim, o que se vê e o que se ouve atinge diretamente nossos pedaços ainda intactos do coração e do cérebro, que ficam totalmente linkados nestes momentos gloriosos de contemplação.

Não há como não voltar a Inhotim. Ainda são vários os espaços não visitados, os caminhos e aléas não trilhadas. Vou querer ter novas e antigas emoções. Mesmo porque se emocionar nos impulsiona a seguir em frente…

Para saber mais sobre Inhotim, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão