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Os barcos de meu pai (versão infantil)

Meu pai era pintor.
Pintava barcos.
Barcos coloridos.

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“Barco colorido em fundo preto”, ost.

Alguns eram barcos tristes.
Outros pareciam mais alegres.
Mas todos eram encantados.

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“Barco colorido em fundo branco”, ost.

Um dia ele pintou dois barcos
com um céu todo preto.
Devia ser de noite.

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“Dois barcos”, ost.

E foi de noite que ele pintou
um barco chamado “Thamar
ouvindo a música de uma estrela.

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“Thamar”, ost.

Passou mais um dia
e ele pintou vários barcos
apostando corrida.

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“Corrida de barcos”, ost.

Teve também um dia
Em que ele pintou um cais
e do barco dava pra ver um cidade.

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“Cais”, ost.

E em outro dia de tempestade de neve
ele pintou uma vela
com as cores do arco-iris.

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“Vela”, ost

E você?
Que tal você também pintar um barco?
Ou dois? Ou talvez três?
Podia ser um barco todo colorido…
Ou dois barcos à noite…
Ou quem sabe, uma corrida de barcos…

Autor: Catherine Beltrão

Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

Arte anamórfica, um caso de micro versus macro?

Anamorfismo

Brócolis romanesco, exemplo de fractal na natureza

O conceito de anamorfose se refere ao retorno, à reiteração e à reversão da forma. Utilizado em vários áreas do conhecimento – matemática, óptica (com aplicações nas artes visuais), biologia e geologia – este conceito aplica-se a qualquer situação onde a base constitutiva transfere suas características para a constituição geral – tal como um fractal, estrutura geométrica complexa cujas propriedades, em geral, repetem-se em qualquer escala.

A arte anamórfica é um efeito de perspectiva, utilizado por artistas plásticos, forçando o observador a se colocar sob um determinado ponto de vista ou distância do objeto observado, capaz de fazê-lo ver este objeto de forma clara ou de uma nova forma inesperada. Nos tempos atuais, vários artistas se aventuram nesta forma de arte. Um exemplo notável é o francês Bernard  Pras (Roumazières-Loubert, 1952). Vivendo e trabalhando em Montreuil, França, tornou-se conhecido por apresentar, sob outras perspectivas, retratos clássicos e da arte pop, por meio de técnicas de aquagravura, por ele inventada, e de transformação de sucata em obra de arte.

Bernard Pras 1

Bernard Pras - reformação da obra “O Lago das Ninfeias”, de Claude Monet

São fantásticas as suas criações, reformando as obras “O Grito“, de Edvard Munch e “O Lago das Ninfeias“, de Claude Monet.

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Bernard Pras –  reformação da obra “O Grito”, de Edvard Munch

 

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“Cabanas”, de Ivan Blin, ost.

 

Uma outra forma de tratar esta relação micro versus macro nas artes plásticas é o tratamento das imagens de obras. Esta experiência foi realizada com algumas obras do brasileiro Ivan Blin (1923-1979), por ocasião de uma exposição póstuma – “A Ciência pelo Caminho das Artes“, na Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, em novembro de 2013. Ao se tratar a imagem de uma determinada obra com zoom, várias outras imagens aparecem, totalmente inusitadas e inesperadas.

Ivan - Cabanas zoom e ceu

Ivan Blin – imagem reformada de uma pequena parte da obra “Cabanas”, com tratamento de zoom na imagem original

Ivan - Viela

Ivan Blin – “Viela”, ost

 

Na apresentação da exposição, as imagens de várias obras  foram tratadas e, após este tratamento, foram agrupadas em um vídeo e novamente tratadas, inserindo som e movimento. Ao final, o vídeo foi projetado na cúpula do Planetário. Resultado único e fantástico! Uma sublime dança de nebulosas…

 

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Ivan Blin – imagem reformada de uma pequena parte da obra “Viela”, com tratamento de zoom na imagem original

 

Afinal, quando se fala em fractal, quando se fala dos caminhos percorridos do macro ao micro, ou do micro ao macro (não importa, pois em sua grande maioria são os mesmos caminhos), onde inicia a Arte e acaba a Ciência, ou vice-versa? E de que maneira a arte anamórfica se insere neste contexto?

Gostaria muito de debater estas perguntas.

Autor: Catherine Beltrão

A Ciência pelo Caminho das Artes (parte II)

O projeto “A Ciência pelo Caminho das Artes” consiste na apresentação da trajetória de Ivan Beltrão (1923-1979), que percorreu caminhos da ARTE e da CIÊNCIA, mostrando algumas de suas relações, interseções e tangenciamentos.

Como já foi dito no post A Ciência pelo Caminho das Artes (parte I)”, Ivan foi matemático, engenheiro, cientista, poeta e pintor.

O primeiro passo do projeto foi dado em novembro de 2013, na Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, dentro do contexto do III Equinócio Cultural. Na ocasião, foram expostas 16 obras de Ivan de épocas e temas variados: barcos, rostos, flores, cidades, planetas, cristos.

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Baner Ivan – pintor. Criador da arte: Eduardo Vieira

Ivan assinava suas obras como Ivan Blin. Autodidata, nunca frequentou qualquer escola de desenho ou de pintura. Começou a desenhar em meados da década de 50. É um pintor fauve, que vem da palavra fauvisme. 

Matisse – “La Femme au chapeau”, 1905, 80,7 X 59,7 cm

Fauvisme é uma corrente da pintura do início do século XX e se caracteriza pela audácia e pela novidade de suas pesquisas cromáticas. Estes pintores recorrem a largas pinceladas ou espatuladas com cores violentas, puras. Eles separam a cor e sua referência ao objeto a fim de acentuar a expressão e reagem de forma provocadora contra as sensações visuais e a doçura do impressionismo. Principais nomes: Henri Matisse (1869-1954) e André Derain (1880-1954).

 

As 16 obras de Ivan foram expostas no hall de entorno da cúpula Galileu Galilei da Fundação Planetário. Abaixo, duas destas obras:

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Ivan Blin – “Barco colorido em fundo escuro”

Ivan - Cristo2

Ivan Blin – “Cristo 2″

Fundamentado pelas Leis das Curvaturas, Ivan afirmava que  “as curvaturas do Universo são feitas para se unir, tanto na espiral de uma galáxia quanto numa nuvem eletrônica que envolve o proton para formar um átomo de hidrogênio.” Em outras palavras, o macro e o micro são regidos pelas mesmas leis!

Mas como isto poderia ser mostrado no contexto de uma exposição de pintura, de forma lúdica e inteligível, sem utilizar fórmulas complexas de Matemática, Física, Biologia ou Cosmologia, apresentadas no livro de meu pai?

Para esta primeira apresentação do projeto “A Ciência pelo Caminho das Artes“, em uma cúpula da Fundação Planetário, tive então um insight! Ao fazer alguns zooms (micro) das obras em exposição, percebi que essas imagens se pareciam muito com nebulosas (macro). Se essas imagens fossem inseridas em um fundo de céu estrelado e projetadas na cúpula, o efeito poderia ser fantástico… e se, além disso, as nebulosas se movimentassem de um lado para outro e pra frente e pra trás, com um fundo musical adequado ao contexto, com certeza o resultado seria totalmente inédito e inesquecível!

No dia da abertura da exposição, apresentei uma palestra sobre o projeto na cúpula Galileu Galilei. Ao final da apresentação, uma surpresa: pequenas partes de algumas das obras expostas tinham sido tratadas com zoom sobre fundo estrelado e projetadas na cúpula, imagens que pareciam verdadeiras nebulosas, dançando ao som do “Danúbio Azul“, de Richard Strauss…

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Zoom de parte da obra “Cristo 2″, aplicada em fundo estrelado

 

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Zoom de parte da obra “Casa na montanha”, aplicada em fundo estrelado

 

E que venham as próximas etapas do projeto “A Ciência pelo Caminho das Artes“!

Mais informações sobre Ivan Beltrão: www.ivanbeltrao.com

Autor: Catherine Beltrão

A Ciência pelo Caminho das Artes (parte I)

Einstein

Albert Einstein

Shopenhauer

Shopenhauer

Albert Einstein fez um discurso sobre o físico Max Planck em 26 de abril de 1918, no qual dizia: “Eu sou da opinião de Schopenhauer quando falava: um dos motivos mais fortes que nos conduz em direção à Arte e à Ciência é a evasão da vida cotidiana, da sua aridez e do seu vazio desesperador.” Um dos maiores gênios de nosso século colocava no mesmo plano e ocupando o mesmo espaço a ARTE e a CIÊNCIA, possivelmente sentindo o entrelaçamento íntimo entre estes dois estados da inquietação do homem.

Assim começa o prefácio do livro “A Ciência pelo Caminho das Artes“, escrito pelo meu pai, Ivan Beltrão (Ivan Blin, como pintor), que foi cientista, engenheiro, matemático, pintor, poeta. E parceiro de Baden Powell.

Ivan Beltrao

Ivan Beltrão, meu pai

Meu pai, falecido em 1979 aos 56 anos, procurava uma lei que unificasse todas as formas de forças conhecidas no Universo, através das leis das curvaturas. Segundo ele, “as curvaturas do Universo são feitas para se unir, tanto na espiral de uma galáxia quanto numa nuvem eletrônica que envolve o proton para formar um átomo de hidrogênio.”

Bach

J. S. Bach

Tudo é curvatura: em uma fuga de Bach, os caminhos musicais tem suas curvaturas, formando uma verdadeira arquitetura em movimento; na hélice dupla da ADN, existe um verdadeiro casamento de curvaturas espaciais entre a adenina e timina e a guanina e a citosina; e na Fé, existe uma curvatura com dimensões enormes, numa tentativa sobre-humana de alcançar Deus.”

“A verdadeira riqueza de um homem é sua capacidade em aumentar suas dimensões em todas as direções da sensação da vida. A riqueza não é ser o proprietário de uma tela de Van Gogh, mas sim saber olhar para ela.”

E acrescenta: “Os artistas sempre se anteciparam aos cientistas, justamente por não utilizarem ferramentas pesadas e, pelo menos por enquanto, os sonhos serão sempre mais velozes que a própria luz.

Na verdade, o que Ivan propõe nos seus escritos é o total relacionamento entre Arte e Ciência, entre o micro e o macro. E, para provar isso, utiliza um poderoso ferramental matemático, baseado nas leis das curvaturas. Ao mesmo tempo, está longe de enaltecer a Matemática: “A matemática é uma bengala para o artritismo intelectual. O homem inventou a matemática para usar como ferramenta sobre a qual se apoia a fraqueza de nossa análise e síntese mental para acompanhar penivelmente a compreensão do espaço e do tempo que nossa imaginação deveria abraçar de um golpe só.

Ivan - Cristo2.zoom

Arte ou Ciência? Qual seria o contexto dessa imagem?

Em novembro de 2013, dentro do contexto do projeto “A Ciência pelo Caminho das Artes“, foi realizada uma exposição de parte da obra de meu pai, na Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, mais especialmente no evento “III Equinócio Cultural”. Em tempo: equinócio tem a ver com equilíbrio entre dia e noite. Equilíbrio entre Ciência e Arte.

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Convite da exposição “A Ciência pelo Caminho das Artes”. Criação da arte: Eduardo Vieira

No que consistiu este projeto apresentado na Fundação Planetário? Isto já é texto para outro post…

Mais informações sobre Ivan Beltrão: www.ivanbeltrao.com

Autor: Catherine Beltrão