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Os carretéis de Iberê

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Iberê Camargo

Iberê Camargo (1914 – 1994), pintor gaúcho, é um dos grandes nomes da arte brasileira do século XX.  É autor de uma obra extensa, incluindo pinturas, desenhos, guaches e gravuras. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942 e lá viveu por 40 anos.

Sem dúvida, o tema mais recorrente em sua obra é o carretel. De acordo com o próprio Iberê, o carretel traz à superfície as mais profundas memórias de sua infância. Ele significa a distância entre inocência e maturidade, figuração e abstração.

O próprio título das obras muda, e a palavra ‘carretel’ é substituída por ‘brinquedo’, ‘figura’, ‘contraste’, ‘símbolos’ ou, ainda, ‘signos’.

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“Desdobramento II”, de Iberê Camargo. 1972

Acerca dos carretéis, ele explica:

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“Ascensão I”, de Iberê Camargo. 1973

Minha pintura em nenhum momento abandonou a estruturação da fase dos carretéis. Esses, embora pareçam soltos, livres no espaço (fundo) do quadro, estão solidamente interligados por linhas de força, como os corpos celestes no sistema planetário.

Por isso, não sinto nenhuma afinidade com Pollock ou De Kooning. Minha volta à figura (em verdade nunca a abandonei) se deve ao esgotamento do tema e à necessidade de tocar a realidade que é a única segurança do nosso estar no mundo – o existir. […]

E vale muito a pena apresentar aqui algumas de suas frases:

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“Contraste”, de Iberê Camargo. 1982

Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão.”

“As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias da minha infância.”

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“Símbolos”, de Iberê Camargo. 1976

É preciso que o fruto que está dentro do artista amadureça no vagar do tempo. Aquele que tem pressa em vendê-lo, fará frutos de cera ou irá apanhá-los no pomar do vizinho.

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“Carretel azul”, de Iberê Camargo. 1981

Só a imaginação pode ir mais longe no mundo do conhecimento. Os poetas e os artistas intuem a verdade. Não pinto o que vejo, mas o que sinto.

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“Composição”, de Iberê Camargo. 1980

O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.

A realidade é um enigma que o tempo não banaliza, e o homem não decifra. Ela é a esfinge que nos devora.”

Debruço-me sobre este misterioso poço, insondável, que existe em cada homem.”

A realidade é um enigma que o tempo não banaliza, e o homem não decifra. Ela é a esfinge que nos devora.

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“Carretéis com figuras”, de Iberê Camargo. 1984

O pintor é o mágico que imobiliza o tempo.”

“No fundo, um quadro para mim é um gesto, é o último gesto.

Esta última frase é perturbadora. Para Iberê, cada obra pintada poderia ser a última. E, um dia, foi. Assim como para qualquer um de nós, cada refeição preparada (ou degustada), cada sala varrida, cada verso escrito, cada página lida, cada abraço dado, poderá ser o último. E um dia, será.

Autor: Catherine Beltrão

Ateliers e versos… (Parte IV)

Eis que chega a parte IV, a derradeira. Desta vez, os ateliers são de artistas brasileiros. E os versos, mais antigos, de quando eu ainda era adolescente. Por isso mesmo, mais puros, mais botões em flor.

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Atelier de Alberto da Veiga Guignard

Dar ao mundo (maio de 1966)

A gente nasce. Nasce pro mundo
E cresce. A gente vai crescendo,
Mas não pensa que é preciso dar,
Que é preciso trazer qualquer coisa
Pra esta terra tão criança… tão nossa!
Que é preciso sentir com vontade,
Desejando muito ser amada,
Mas dando mais amor do que recebe;
Que é lutando que se consegue
Entregar-se toda, à paz de um todo;
Que ao se rir, dá-se vida ao amigo
Que pensa da vida um sofrimento;
E ter piedade dos que não merecem,
Pois se dá demais aos que precisam;
Ver que o céu não é pra se morar
E sim pra se olhar e pra pensar…

Gente que nasce, gente que cresce:
Quem foge, não vence. Só se sente
Feliz por um instante de sonho,
E o nada se segue… Fica-se oco.
Ah, se se pensasse um pouco antes
De não ferir, não se mataria.
Gente, é preciso voltar, trazendo
Um desejo que vibra nas mãos;
Deixar a flor morta em um túmulo,
E seguir em frente, contra o vento;
Seguir com os olhos limpos de dor
E gritar, mesmo sem voz: “Venci!”
E pegar a mão do velho amigo,
Sorrindo, vendo-se tão sincero;
E dar ao mundo a própria vida,
Sem nunca deixar de ser jovem!

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Atelier de Iberê Camargo

Vento e sal (junho de 1966)

Só, terrivelmente só,
O peito mudo de dor,
O coração já sem fé,
Caminho pelo sal branco…
Ando até que o sal se acabe,
Mas nem mesmo este sal todo
Dá pra que eu volte sorrindo
E abrace o mar, de alegria;
O sol já não mais enfeita
O céu que passo a sentir:
Pequeno, pobre e incolor,
Céu sem poesia pra dar.
Se chego a olhar pra cima,
É pra que Deus veja um rosto
Em que não há mais desejo,
Em que não há mais sentimento;
Mas Deus não me reconhece…
E continuo meu caminho.
Meu pés só procuram paz,
E como não a encontro,
Deixo-me cair sem forças,
E morro sem mesmo ver…
O vento vem de mansinho
E canta suave pra mim…

Há vento em meus olhos…
Há sal em mi’as mãos…
Há uma saudade na tarde…

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Atelier de Bruno Pedrosa

Impressões em estudo (agosto de 1966)

A respiração é amorfa
E é tudo tão natural
Que a monotonia se instala.
Procura-se um sentido,
Quer-se uma explicação absoluta
Mas não há nada completo
Não há nada que satisfaz plenamente.
Às vezes o riso transborda
E a razão, qual é?
Já se ultrapassa o soluço
E, querendo chegar à histeria,
Só se aborda uma resignação idiota.
Tudo tão parado, tão cansado…
Mas cansado de quê?
Cansado da ignorância involuntária?
Cansado de querer ser livre?
Cansado de gritar: “Ajuda-me!”?
E a compreensão humana?
Será útil, uma vez pelo menos?
E ainda por cima, precisa-se viver:
Questão de se adaptar…
Há amor nisto tudo?
Ou simples hábito de obedecer?
Há alegria em ser jovem?
Ou desespero de ser o “meio” de nada?
Luta-se contra uma ideia
E aceita-se uma conclusão.
Vive-se por obrigação.
Há mesquinhez até no amor
E, para se convencer, é dado chorar…

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Atelier de Cândido Portinari

Não há depois (setembro de 1966)

Não há depois,
Há sempre um antes
De uma criação qualquer.
O depois do olhar,
O depois da chuva,
O depois do amor…
Há o sorriso
Há a terra
Há o silêncio;
Tudo vem antes
Do rosto
Do sol
Do cansaço…
O pensar no depois
É a preguiça do jovem
É o consolo do velho.
Nasça, ande,
Corra, criança!
E o correr virá antes
Do que você mais desejar…
O que faço hoje
Não é porque o fiz ontem
E sim porque o farei amanhã.

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Atelier de Alfredo Volpi

Tempo e certeza (setembro de 1966)

O vento a cortar
A estrada vazia
E eu…
Uma folha cai
No meio de todas as outras
Mas essa eu amo
Porque ela caiu pra mim
E chorei ao vê-la sem vida.
Ah, se o amor fosse assim tão simples
De folha e lágrima…
Na solidão de meus passos
Vejo a inutilidade de prosseguir.
Neste momento, daria a vida
Por uma certeza qualquer.
Assim como piso nestas folhas
Secas e irresponsáveis,
Sinto o sentimento frágil,
A compreensão em dúvida.
O sentido da própria vida
Parece fugir e perder-se
No vazio de uma realidade suposta.
A estrada perde-se também
Quando subimos demais…
A noite chega e
Estrelas caem de todos os lados.
As folhas irão descansar,
Mas eu viverei pelo caminho
Porque o tempo não acabou.

Guignard, Iberê, Portinari, Pedrosa e Volpi: brasileiros na arte, brasileiros na vida. Como cada um de nós. Sofridos. Perseverantes. Grandiosos.

Autor: Catherine Beltrão

Pedaladas artísticas

Nestes últimos dias a bicicleta está em alta. Mas não é pela (ainda) pouca existência de ciclovias na maioria das cidades brasileiras. O que cresceu no noticiário cotidiano são as já famosas “pedaladas fiscais“. O que logo me deu vontade de expor o tema aqui no blog. Não as pedaladas fiscais. Mas algumas pedaladas artísticas.

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Obra da série “Ciclistas”, de Iberê Camargo

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“Ciclista”, de Iberê Camargo

Certamente, o primeiríssimo nome que vem à mente com este tema é Iberê Camargo (1914 – 1994), gaúcho de Restinga Seca. “Sou um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza.”

Criador de séries como “Carretéis“, “Idiotas“ e “Ciclistas“, a obra de Iberê é cada vez mais respeitada e reverenciada. No último dia 27 de maio foi inaugurada  a exposição virtual “As Bicicletas de Iberê Camargo“, em plataforma web e mobile friendly, organizada pelo Itaú Cultural, disponibilizando 56 obras e com duração prevista de um ano.

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“Bicicleta de rodas quadradas”, de Juarez Machado

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Obra da série “Bicicletas”, de Juarez Machado

Outro artista que tem a bicicleta como tema permanente em sua produção artística é o catarinense Juarez Machado (1941). Com ateliers em Paris, Joinville e Rio de Janeiro, Juarez, além de pintor, é escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo e ator. Em novembro de 2014, foi inaugurada em Joinville, sua cidade natal, o Instituto Internacional Juarez Machado, com uma mostra de obras do artista que têm como tema central a bicicleta: “A bicicleta na vida e na obra de Juarez Machado“. O Instituto foi montado na casa onde Machado viveu nos anos 1960. Vale a pena assistir ao vídeo.

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“Vendedor de Artes II”, de Anderson Lemes (Alemão)

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Obra da série “Bicicletas”, de Anderson Lemes (Alemão)

Adepto do grafismo e conhecido como “Alemão”, Anderson Ferreira Lemes (1983) nasceu em Assis e é professor, desenvolvendo o grafitti e as artes plásticas desde 2004. Com o grafitti registra a arte urbana em espaços públicos apontando as realidades locais e dando vida à grandes superfícies, monumentos e regiões isoladas de diversas cidades do Brasil. Os quadros da série “Bicicletas” ganhou notoriedade na internet e embora bastante jovem ainda, já fez exposições na Suíça, França, Alemanha, Portugal, Irlanda, Argentina, Chile, México, Japão, Estados Unidos, entre outros, totalizando 25 países.

Benditos sejam Iberê, Juarez e Alemão em suas pedaladas!

  Autor: Catherine Beltrão