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Selos de pintores brasileiros

O Brasil foi o segundo país a emitir um selo, em 1843, o célebre Olho de Boi. Em 1840, a Inglaterra emitiria o Penny Black, o primeiro selo postal do mundo.

Como falamos de Arte, resolvi escrever sobre selos de pintores brasileiros. Achei que iria encontrar centenas. Mas só encontrei 23 selos!

Estes 23 selos são referentes a oito artistas, todos modernistas!

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Selos Portinari: “A primeira missa”, em 1968; “Natal”, em 1970; “O lavrador de café”, em 1980; “Presépio”, em 2002.

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Selo de Portinari: detalhe do painel “Paz”, no ano internacional da paz, em 1986

O grande Cândido Portinari foi homenageado com doze selos:  “A primeira missa”, em 1968; “Natal“, em 1970; “O lavrador de café“, em 1980; o detalhe do painel “Paz“, no ano internacional da paz, em 1986; “Presépio“, em 2002; em seu centenário de nascimento com o selo de um de seus autorretratos, o “Menino de Brodowski” e “Cangaceiro“, emitidos em 2003 e com “Negrinha”, “Composição“, “Marcel Gontrau” e “Menino sentado com carneiro“, como obras desaparecidas, em 2004.

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Selos de Portinari: o “Menino de Brodowski”, “Cangaceiro” e um de seus autorretratos, no centenário de seu nascimento, em 2003

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Selos de Portinari: “Negrinha”, “Composição”, “Marcel Gontrau” e “Menino sentado com carneiro”, como obras desaparecidas, em 2004.

Eliseu Visconti, em seu centenário, foi homenageado com o selo “Juventude“, em 1966 e em seu sesquicentenário, com o selo representando um de seus autorretratos, em 2016.

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Selos Eliseu Visconti: “Juventude”, homenageando seu centenário, em 1966 e um de seus autorretratos, em seu sesquicentenário, em 2016.

O pintor Di Cavalcanti foi homenageado com três selos: “A mulher com filho à janela“, da X Bienal de São Paulo, em 1969; “As cinco moças de Guaratinguetá“, em 1974 e “Ciganos“, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1997.

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Selos de Di Cavalcanti: “A mulher com filho à janela”, da X Bienal de São Paulo, em 1969; “As cinco moças de Guaratinguetá”, em 1974 e “Ciganos”, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1997.

Anita Malfatti teve direito à emissão de um selo, “O homem amarelo“, também em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1989.

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Selo de Anita Malfatti: “O homem amarelo”, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1989.

Outro artista que participou da Semana de 22, Victor Brecheret, teve emissão de dois selos: o “Monumento às Bandeiras“, em 1984 e “Eva“, em 2015.

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Selos de Victor Brecheret: “Monumento às Bandeiras”, em 1984 e “Eva”, em 2015.

Alberto da Veiga Guignard, o pintor das paisagens imaginantes, foi homenageado em seu centenário de nascimento, em 1996, com o selo “Paisagem de Ouro Preto“.

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Selo de Guignard: “Paisagem de Ouro Preto”, em homenagem ao centenário de seu nascimento, em 1996.

Também em 1996, e também em comemoração ao centenário de seu nascimento, Alfredo Volpi, o pintor das bandeirinhas, ganhou o seu selo de homenagem, o “Barco com bandeirinhas e pássaros“.

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Selo de Alfredo Volpi: “Barco com bandeirinhas e pássaros”, em homenagem ao centenário de seu nascimento, em 1996

Finalmente, Tarsila do Amaral, a pintora mais valorizada do Brasil, também tem um selo: o “Urutu“, referente à XIV Bienal de São Paulo, emitido em 1998.

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Selo de Tarsila do Amaral: “Urutu”, referente à XIV Bienal de São Paulo, emitido em 1998.

Destes 23 selos, qual é o seu preferido?

Autor: Catherine Beltrão

Girassóis

Diz a lenda grega que Clície era uma ninfa apaixonada por Hélio, o deus do Sol. Helio a trocou por sua irmã e Clície começou a enfraquecer. Ela ficava sentada no chão frio, sem comer e sem beber, se alimentando apenas das suas próprias lágrimas. Enquanto o Sol estava no céu, dirigindo sua carruagem de fogo, Clície não desviava dele o seu olhar nem por um segundo. Durante a noite, o seu rosto se virava para o chão, continuando então a chorar.  Seus pés ganharam raízes e o seu rosto se transformou em uma flor,  que continuou seguindo o Sol. E assim nasceu o primeiro girassol.

Mas o girassol não é uma flor. É uma inflorescência, formada por  flores dispostas de acordo com um esquema em espiral, 34 num sentido e 55 no outro.

Flor ou não, vários pintores trouxeram para suas telas este pedaço de Sol. Haja vista Vincent van Gogh (1853-1890), o mais célebre.

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“Vaso com 14 girassóis”, de Vincent van Gogh. 1889.

Parece que Van Gogh pintou onze telas com girassóis. Difícil dizer a mais bela.  Quatorze deles foram pintados em uma obra, assim referida pelo pintor em uma carta a seu irmão Théo: “Sou intenso nisso, pintando com o entusiasmo de um marselhês comendo bouillabaisse, o que não vai surpreendê-lo quando você sabe que o que eu estou pintando são alguns girassóis. Se eu levar a cabo esta ideia, haverá uma dúzia de painéis. Então a coisa toda será uma sinfonia em azul e amarelo. Estou trabalhando nisso todas as manhãs desde o nascer do sol, pois as flores desaparecem tão rapidamente. Estou agora na quarta pintura de girassóis. Este quarto é um arranjo com 14 flores … dá um efeito singular.”

Paul Gauguin (1848-1903), contemporâneo de Van Gogh, dividiu com ele, por alguns meses, um cômodo da famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Foi uma relação conflituosa, que culminou com a partida de Gauguin para Paris, testemunhada por uma carta deste ao mesmo Théo, irmão de Van Gogh: “Sou obrigado a voltar para Paris. Vincent e eu não podemos de modo algum continuar vivendo lado a lado sem atritos, devido à incompatibilidade de nossos temperamentos e porque nós dois precisamos de tranquilidade para nosso trabalho. Ele é um homem de inteligência admirável que tenho em grande estima e deixo com pesar, mas, repito, é necessário que eu parta.”

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“Nature morte à l´Ésperance”, de Paul Gauguin – 1901

É famosa a obra “Nature morte à l´Ésperance“, em que Gauguin representa seu amigo pintando girassóis.

Voltemos um pouco no tempo. Claude Monet (1840-1926), o maior nome do Impressionismo, também pintou girassóis. Em vasos, colhidos de seu jardim de Vétheuil ou ainda florescendo  em seu jardim de Giverny.

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“Ramo de girassóis”, de Claude Monet. 1881.

O inebriante “Ramo de girassóis” é inconfundível, trazendo o frescor do jardim para dentro de casa, contrapondo cores e impressões que somente Monet teria condições de executar.

E que tal um girassol pintado por Gustav Klimt (1862-1918)?

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“O Girassol”, de Gustav Klimt. 1907

Além da célebre obra “Fazenda de campo com girassóis“, é também de Klimt “O Girassol“, solitário e imponente, majestoso, reinando na tela entre dezenas de flores miúdas. O pintor, mestre do Art Nouveau, cujo centenário é comemorado neste ano, nunca deixa de surpreender, na delicadeza de sua pintura, na textura impressa por suas cores…

No Brasil, talvez o nosso maior pintor de flores seja Alberto da Veiga Guignard, ou mais simplesmente Guignard (1896-1962).

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard. 1930

Nascido na cidade serrana de Nova Friburgo/RJ, cidade em que moro e trabalho e que recentemente me adotou como cidadã, o pintor das “paisagens imaginantes” foi extremamente generoso e profícuo em seu tema floral. Uma delas, a obra “Vaso de flores“, de 1930,   foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Na obra, um imenso girassol impera, reverenciado e abraçado por centenas de pétalas e perfumes…

Autor: Catherine Beltrão

Nuvens eternas

As únicas coisas eternas são as nuvens“, escreveu um dia Mario Quintana. É interessante, pois elas não parecem eternas. Mudam de forma a todo instante. Também mudam de cor. E produzem sentimentos variados: tristeza, saudade, medo, esperança. À qual eternidade se referia o poeta?

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“A imensidão”, de Gustave Courbet (1819-1877)

Mario Quintana também escreveu: “Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento“. É. O vento deserteniza a forma das nuvens…

Cecília Meireles também eternizou suas nuvens, como no poema “Improviso do Amor-Perfeito“:

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“A baía de Weymouth”, de John Constable (1776-1837)

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

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“Paisagem com Céu de Tempestade”, de Camile Pissarro (1830-1903)

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se alteia,
entre pálpebras de areia…

Longe, longe… Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

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“Paisagem imaginante”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)

Ou ainda, nos versos a seguir:

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“Barcas no Rio Sena”, de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

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“Prado”, de Alfred Sisley (1839-1899)

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis
de andar. Meu rosto vário
desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.”

“Encostei-me a ti sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí.

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“Casal com a cabeça cheia de nuvens”, de Salvador Dali (1904-1989)

No bem conhecido poema “O Auto Retrato“, Mario Quintana volta a se eternizar nuvem …

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“Campo de trigo com cipreste”, de Vincent van Gogh (1853-1890)

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“O Farol”, de Anita Malfatti (1889-1964)

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Terminado por um louco!

É. Talvez a eternidade das nuvens do poeta se refere àquelas que se eternizam através da pintura. Ou da poesia.

 Autor: Catherine Beltrão

Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

Ateliers e versos… (Parte IV)

Eis que chega a parte IV, a derradeira. Desta vez, os ateliers são de artistas brasileiros. E os versos, mais antigos, de quando eu ainda era adolescente. Por isso mesmo, mais puros, mais botões em flor.

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Atelier de Alberto da Veiga Guignard

Dar ao mundo (maio de 1966)

A gente nasce. Nasce pro mundo
E cresce. A gente vai crescendo,
Mas não pensa que é preciso dar,
Que é preciso trazer qualquer coisa
Pra esta terra tão criança… tão nossa!
Que é preciso sentir com vontade,
Desejando muito ser amada,
Mas dando mais amor do que recebe;
Que é lutando que se consegue
Entregar-se toda, à paz de um todo;
Que ao se rir, dá-se vida ao amigo
Que pensa da vida um sofrimento;
E ter piedade dos que não merecem,
Pois se dá demais aos que precisam;
Ver que o céu não é pra se morar
E sim pra se olhar e pra pensar…

Gente que nasce, gente que cresce:
Quem foge, não vence. Só se sente
Feliz por um instante de sonho,
E o nada se segue… Fica-se oco.
Ah, se se pensasse um pouco antes
De não ferir, não se mataria.
Gente, é preciso voltar, trazendo
Um desejo que vibra nas mãos;
Deixar a flor morta em um túmulo,
E seguir em frente, contra o vento;
Seguir com os olhos limpos de dor
E gritar, mesmo sem voz: “Venci!”
E pegar a mão do velho amigo,
Sorrindo, vendo-se tão sincero;
E dar ao mundo a própria vida,
Sem nunca deixar de ser jovem!

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Atelier de Iberê Camargo

Vento e sal (junho de 1966)

Só, terrivelmente só,
O peito mudo de dor,
O coração já sem fé,
Caminho pelo sal branco…
Ando até que o sal se acabe,
Mas nem mesmo este sal todo
Dá pra que eu volte sorrindo
E abrace o mar, de alegria;
O sol já não mais enfeita
O céu que passo a sentir:
Pequeno, pobre e incolor,
Céu sem poesia pra dar.
Se chego a olhar pra cima,
É pra que Deus veja um rosto
Em que não há mais desejo,
Em que não há mais sentimento;
Mas Deus não me reconhece…
E continuo meu caminho.
Meu pés só procuram paz,
E como não a encontro,
Deixo-me cair sem forças,
E morro sem mesmo ver…
O vento vem de mansinho
E canta suave pra mim…

Há vento em meus olhos…
Há sal em mi’as mãos…
Há uma saudade na tarde…

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Atelier de Bruno Pedrosa

Impressões em estudo (agosto de 1966)

A respiração é amorfa
E é tudo tão natural
Que a monotonia se instala.
Procura-se um sentido,
Quer-se uma explicação absoluta
Mas não há nada completo
Não há nada que satisfaz plenamente.
Às vezes o riso transborda
E a razão, qual é?
Já se ultrapassa o soluço
E, querendo chegar à histeria,
Só se aborda uma resignação idiota.
Tudo tão parado, tão cansado…
Mas cansado de quê?
Cansado da ignorância involuntária?
Cansado de querer ser livre?
Cansado de gritar: “Ajuda-me!”?
E a compreensão humana?
Será útil, uma vez pelo menos?
E ainda por cima, precisa-se viver:
Questão de se adaptar…
Há amor nisto tudo?
Ou simples hábito de obedecer?
Há alegria em ser jovem?
Ou desespero de ser o “meio” de nada?
Luta-se contra uma ideia
E aceita-se uma conclusão.
Vive-se por obrigação.
Há mesquinhez até no amor
E, para se convencer, é dado chorar…

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Atelier de Cândido Portinari

Não há depois (setembro de 1966)

Não há depois,
Há sempre um antes
De uma criação qualquer.
O depois do olhar,
O depois da chuva,
O depois do amor…
Há o sorriso
Há a terra
Há o silêncio;
Tudo vem antes
Do rosto
Do sol
Do cansaço…
O pensar no depois
É a preguiça do jovem
É o consolo do velho.
Nasça, ande,
Corra, criança!
E o correr virá antes
Do que você mais desejar…
O que faço hoje
Não é porque o fiz ontem
E sim porque o farei amanhã.

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Atelier de Alfredo Volpi

Tempo e certeza (setembro de 1966)

O vento a cortar
A estrada vazia
E eu…
Uma folha cai
No meio de todas as outras
Mas essa eu amo
Porque ela caiu pra mim
E chorei ao vê-la sem vida.
Ah, se o amor fosse assim tão simples
De folha e lágrima…
Na solidão de meus passos
Vejo a inutilidade de prosseguir.
Neste momento, daria a vida
Por uma certeza qualquer.
Assim como piso nestas folhas
Secas e irresponsáveis,
Sinto o sentimento frágil,
A compreensão em dúvida.
O sentido da própria vida
Parece fugir e perder-se
No vazio de uma realidade suposta.
A estrada perde-se também
Quando subimos demais…
A noite chega e
Estrelas caem de todos os lados.
As folhas irão descansar,
Mas eu viverei pelo caminho
Porque o tempo não acabou.

Guignard, Iberê, Portinari, Pedrosa e Volpi: brasileiros na arte, brasileiros na vida. Como cada um de nós. Sofridos. Perseverantes. Grandiosos.

Autor: Catherine Beltrão

De Guignard a Tunga passando por Lea e Gerardo

Um dia, em 1940, Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) pintou a obra “As Gêmeas“, retratando as irmãs Léa e Maura, filhas do senador Barros Carvalho.

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“As Gêmeas”, de Guignard. 1940, ost , 130X111cm

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As duas Léas

Em 2002, em Nova Friburgo/RJ, por ocasião do depoimento do poeta Gerardo Mello Mourão, iniciando a série “Encontros com Guignard“, um pedaço vivo da história e da obra de Alberto da Veiga Guignard estava presente: Lea, a mulher de Gerardo, uma das irmãs retratadas no quadro “As Gêmeas“, datado de 1940.

Na ocasião, bastante emocionada, Lea falou de sua experiência e privilégio de ter posado para o grande mestre: mal sabia ela, quando posava com sua irmã Maura, naqueles idos dos anos 40, que esta obra viajaria mundo afora, e seria a obra brasileira mais famosa exposta no exterior. 

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão (1917-2007) foi o poeta que escreveu “Os Lusíadas” brasileiro: “Invenção do Mar“, poema épico dedicado a Luiz Gonzaga.  Dele disse Drummond: “É um poeta que não se pode medir a palmo e conseguiu o máximo de expressão usando recursos artísticos que nenhum outro empregou em nossa língua (…). Algumas pessoas pensam que sou o grande poeta do Brasil, mas o grande poeta do Brasil é o Gerardo Mello Mourão“.  E disse Tristão de Athayde: “Creio que jamais, em nossa história literária, se colocou a poesia em tão alto pódio“.

Gerardo e Lea foram os pais de Tunga (1952-2016).

Tunga nos deixou há pouco. Abriu caminhos para a arte brasileira no mundo. Considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea nacional, ele foi o primeiro a ter uma obra exposta no museu do Louvre em Paris.

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“Lézart” (lagarto), de Tunga.1989, cobre , aço e ímã. Galeria Psicoativa Tunga, em Inhotim.

No Instituto Inhotim, em Brumadinho/MG, existem várias obras de Tunga. Algumas delas constam da Galeria Psicoativa Tunga.

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“True Rouge”, de Tunga. 1997, redes, madeira, vidro soprado, pérolas de vidro, tinta vermelha, esponjas do mar, bolas de sinuca, escovas limpa-garrafa, feltro, bolas de cristal, 1315 x 750 x 450 cm. Em Inhotim, desde 2002.

Com certeza a obra de Tunga já entrou para a história importante da arte brasileira e internacional. Ele foi extremamente inovador no desenvolvimento de suas estruturas, utilizando sempre pessoas, o corpo, fisicamente numa espécie de alquimia e ciência. E isso acabava se transformando em objetos“, avaliou a artista plástica Beatriz Milhazes.

Neste post, tentei fazer uma ligação entre Guignard e Tunga. Dois artistas. Duas mentes. Duas épocas. Unidos pela força poética e trajetória conturbada de um casal: Gerardo e Lea.

Não sei se consegui. Talvez como primeira tentativa, sim.

Autor: Catherine Beltrão

Renoir e Guignard: banhistas e flores no verão de fevereiro

55 anos e um oceano separam a vinda ao mundo destes dois imensos artistas. Ambos de 25 de fevereiro, Pierre Auguste Renoir nasceu em 1841, na cidade de Limoges/França e Alberto da Veiga Guignard nasceu em 1896, em Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro.

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“Banhista enxugando a perna direita”, de Renoir. ost, 1910

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“Banhista arrumando seus cabelos”, de Renoir. Ost, 1893.

Renoir, um dos grandes nomes do impressionismo, nunca deixou de lado o cuidado com a forma. Desde o princípio, sua obra foi influenciada pelo sensualismo e pela elegância do rococó. Embora tenha pintado naturezas mortas, flores e paisagens, foi na figura humana – sobretudo na figura feminina – que ele deixou seu maior legado. Ninguém pintou como ele as formas generosas das mulheres dos séculos XIX e XX, dando forma e fama à série “Banhistas“.

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“As grandes banhistas”, de Renoir. Ost, 1918-9.

 

Guignard_vasocomflores_1933Guignard_semtitulo_1937Guignard foi um artista completo, atuando em todos os gêneros da pintura: de naturezas mortas, paisagens e retratos até pinturas com temática religiosa e política, além de temas alegóricos. Mas foi pintando exuberantes vasos de flores é que Guignard alcançou, mais tarde, uma grande valorização em suas obras.  É dele o “Vaso de Flores“, arrematado em um leilão da Bolsa de Arte, em agosto de 2015, por R$ 5,7 milhões, tornando-se até então, a obra de arte mais valiosa de um brasileiro já vendida em um leilão.

 

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“Vaso de Flores”, de Guignard. Ost, 1933. A obra de arte mais valiosa de um pintor brasileiro já vendida em um leilão.

A tela foi pintada em 1933, sendo apresentada no 1° Salão Paulista de Belas Artes, em 1934. A obra já pertenceu a Mário de Andrade e fez parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

Autor: Catherine Beltrão

 

Simplesmente Flores

É lugar comum se falar de flores na primavera. Mas a primavera, a cada ano, é incomum. E as flores também. Talvez seja por essa razão que os artistas pintam flores. Quase todos. Neste post, apresento somente cinco flores de cinco artistas: Redon, Monet, Van Gogh, Guignard e Edith Blin.

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“Flores exóticas em um vaso”, de Odilon Redon, pastel, 1906, 90 X 72,5 cm

Odilon Redon (1840-1916) foi  um pintor e artista gráfico francês. A técnica mais utilizada por Redon era o pastel, que lhe permitia trabalhar as cores com texturas diferentes e bastante mescladas.  Considerado o mais importante dos pintores do Simbolismo, suas flores são belíssimas e únicas, praticamente dialogando com quem as contempla.

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“Vaso com flores”, de Claude Monet, ost, 1880

Por suas magníficas ninfeias e o seu jardim em Giverny, Claude Monet (1850-1926) será sempre associado a flores. Delicadas ou exuberantes. Em lagos ou em vasos. Pequenas ou majestosas. Não importa. São inconfundíveis. São flores de Monet. Para quem quiser ler um pouco mais sobre as flores de Monet em Giverny, clique aqui.

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“Iris”, de Vincent Van Gogh, ost, 1889, 71 X 93 cm

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou o Sol e pintou girassóis. Não há quem não conheça pelo menos um dos girassóis de Van Gogh. Mas ele também pintou íris. Muitos íris. E assim como seus girassóis, cada um de seus íris é único. Ele estudava cuidadosamente os movimentos e os contornos das flores para criar uma variedade de silhuetas coloridas dançantes ao som do vento…

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), ost, 1930.

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) transformou seu lirismo em paisagens imaginantes e flores. Muitas flores. Extremamente esfuziantes e coloridas. No último dia 13 de agosto, a obra “Vaso de Flores”, foi disputada por vários compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Para quem quiser saber um pouco mais sobre a hora e a vez de Guignard, clique aqui.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin, ost, 1955, 82 X 65 cm

Em suas quatro décadas de pintura, Edith Blin (1891-1983) pintou flores em telas e cartolinas, a óleo ou pastel. Mas foi nos anos 50 que suas flores desabrocharam em seu mais contundente esplendor, algumas livres e soltas no ar, outras entremeadas a rostos e figuras. É impossível não se emocionar com as “Flores vermelhas em ascensão”, que arrebata o nosso sentimento em sua pretensão de que um único galho jovem e viçoso inicia a subida de uma escada sem fim… Para quem quiser ler e ver mais flores de Edith, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

A hora e a vez de Alberto da Veiga Guignard

No último dia 13 de agosto, a obra “Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard (1896 – 1962), foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão.

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“Vaso de flores”. Ost, 1930.

 

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Escola Guignard, em Belo Horizonte

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Museu Casa Guignard, em Ouro Preto

Tendo sido “adotado” nos anos 40 pelo então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek,  é em Belo Horizonte que existe hoje a Escola Guignard e é em Ouro Preto que se encontra o Museu Casa Guignard, ambas construções que homenageiam este grande artista.  Também é em Ouro Preto que repousam os seus restos mortais, na Igreja de São Francisco de Assis. Assim, para muitos, Guignard teria nascido em Minas Gerais.

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Logo do projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo”

Mas Alberto da Veiga Guignard nasceu em Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro. Em 2003, a ArtenaRede, empresa então ainda incubada na UERJ, incentivada pelo jornalista e cineasta Luis Carlos Prestes Filho, teve a ideia de criar o projeto “Guignard – filho de Nova Friburgo“, que tem por objetivo valorizar a vida e a obra do artista Alberto da Veiga Guignard em sua cidade natal. Além da criação do site, na época várias pesquisas sobre a vida e a obra do pintor foram realizadas pela ArtenaRede, a ponto de localizar o famoso Solar Savory, local em que  o artista residiu por alguns meses no início dos anos 40. Em tempo: nenhum livro sobre Guignard, já publicado até aquele ano, havia mencionado o exato local deste Solar. Infelizmente, hoje o Solar Savory já não existe: foi demolido e em seu lugar, construído um shopping de moda íntima.

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“Solar Savory”, em Mury, Nova Friburgo, região serrana fluminense. Hoje, o solar não existe mais.

Alberto da Veiga Guignard, um dos grandes nomes do modernismo brasileiro, agora chegou ao topo da escala de valorização dos artistas plásticos brasileiros. Será que continuará desconhecido da população friburguense? Será que o projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo” terá vez na cidade, que em 2018 completa 200 anos?Quem tiver curiosidade, aqui está o post “Guignard, filho de Nova Friburgo“, que escrevi neste blog, em março de 2014.

Autor: Catherine Beltrão

Guignard, filho de Nova Friburgo

Eu já conhecia a obra de Guignard desde os tempos da Galeria Montmartre Jorge. Nas décadas de 50 e 60, meu tio Jorge Beltrão, marchand e empresário, dono da Galeria, promoveu exposições de vários artistas, entre eles José Pancetti, Flávio de Carvalho e Guignard.

"Autoretrato", osm, 1961

“Autoretrato”, osm, 1961

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) nasceu em Nova Friburgo/RJ e morreu  em Belo Horizonte/MG. Considerado um dos maiores pintores modernistas do Brasil, junto a Cândido Portinari e Di Cavalcanti, sua produção pictórica compreende paisagens, retratos e temas florais,  além de pinturas de gênero e de temática religiosa.

Escreveu Cecília Meireles, em 1947:

 “Árvores de nuvem e flores do mar - levai-me a esse mundo do Rei Guignard! (…)

As rochas, de espuma. As conchas, de luar. O sonho pousado em ramagens de ar… Levai-me a este reino do Rei Guignard.”

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“Fantasia”, osm, 30 X 122cm,1960

 

LogoEm 2003, a ArtenaRede, empresa então ainda incubada na UERJ, incentivada pelo jornalista e cineasta Luis Carlos Prestes Filho, teve a ideia de criar o projeto “Guignard – filho de Nova Friburgo“, que tem por objetivo valorizar a vida e a obra do artista Alberto da Veiga Guignard em sua cidade natal. Trata-se de um assunto de importância estratégica para o desenvolvimento cultural e econômico de Nova Friburgo/Rio de Janeiro, local de seu nascimento.

"Paisagem imaginante", osm, 1955

“Paisagem imaginante”, osm, 1955

O projeto é constituído de vários módulos: além do site do projeto e dos “Encontros com Guignard“ (que foram iniciados na época),  constam do projeto uma retrospectiva de obras do artista na cidade em que nasceu, a construção de um “Memorial Guignard“, a criação e a construção de uma escultura do artista a ser fixada em local de destaque na cidade, exposições de arranjos florais reproduzindo

"Vaso de flores", osm, 60 X 50 cm, 1946

“Vaso de flores”, osm, 60 X 50 cm, 1946

flores pintadas por Guignard, seminários com palestras e mesas-redondas sobre o legado do artista, quiosques espalhados pela cidade, vendendo produtos contendo reproduções de obras de Guignard e artigos comemorativos como camisas, posters, agendas, cadernos, toalhas, lençóis, pastas, medalhas, selos, moedas, entre outros.

Nas andanças e pesquisas realizadas na tentativa de o Projeto vingar, vale a pena citar três momentos:

1. Em junho de 2004, a convite de Sylvio Lago Junior, grande historiador, ensaísta e musicólogo, proferi uma palestra sobre o projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo“, na Academia Brasileira de Arte, no Rio de Janeiro;

2. Em 2005, após intensa pesquisa, o site do projeto apresentou fotos e informações referentes ao famoso Solar Savory, localizado em Mury, local esse em que Guignard residiu por alguns meses no início dos anos 40. Cabe ressaltar que nenhum livro sobre Guignard, já publicado até aquele ano, mencionava o exato local deste Solar. Na época, mandei uma carta à Secretaria de Educação e Cultura do município, solicitando o tombamento do Solar e a sugestão para a transformação do local em Centro Cultural. Como resposta, o Solar foi demolido e em seu lugar, construído um shopping de moda íntima;

Solar Savory, em Mury.

Solar Savory, em Mury, em 2005.

3. No evento do Fashion Rio de junho de 2006,  a Moda Íntima de Nova Friburgo apresentou o tema floral de Guignard como linha mestra para promoção.

Apesar destes momentos gloriosos e inesquecíveis, “Guignard, filho de Nova Friburgo” é mais um projeto, entre muitos, a esperar a evolução da inteligência e da sensibilidade dos que detém  a governança das áreas pública e privada da cidade de Nova Friburgo.

Mais informações sobre o projeto “Guignard, filho de Nova Friburgo”, clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão