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Anjos

Neste início de ano, uma vontade imensa de escrever sobre anjos. Estes seres alados e sem tempo, que povoam nossa imaginação e, em consequência, nossos pensamentos e crenças. E, mais uma vez, poetas, pintores e escultores se juntam neste louvor.

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Leonardo da Vinci (1452-1519): “A Anunciação” – 1472/75

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam
Clarice Lispector (1920-1977)

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Michelangelo Buonarroti (1475-1564): “Angel with Candlestick” – 1494/95. Faz parte da decoração da Arca de São Domingo, na Basílica de São Domingo em Bolonha.

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Giotto(1266-1337): “Anjo”, na capela Arena Scrovegni, em Pádua – 1304/06

A doce canção“, de Cecília Meireles (1901-1964)

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve,no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

anjos_raphael

Rafael Sanzio (1483-1520): “Madonna Sistine” (detalhe) – 1512

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Aleijadinho (1730-1814): “Anjo do Getsêmani”, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas/MG

O mistério do meu canto,
Deus não soube,tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o universo
de pólo a pólo contente.

O Anjo da Escada“, de Mario Quintana (1906-1994)

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

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Vincent van Gogh (1853-1890): “Cabeça de Anjo, a partir de Rembrandt”

Eu vi o anjo no mármore e o esculpi até ‘libertá-lo‘”.
Michelangelo Buonarroti

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Salvador Dali (1904-1989): “O anjo caído”, em O Purgatório, Canto I, de Dante Aleghieri – déc.60

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Paul Cezanne (1839-1906): “O beijo da Musa” – 1860

Com licença poética“, de Adélia Prado (1935)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

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Marc Chagall (1887-1985): “A queda do anjo” – 1947

A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar.
Clarice Lispector

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “Anjos” – 1924

O anjo“, de Ferreira Gullar (1930-2016)

1. O anjo, contido
em pedra
e silêncio
me esperava.

Olho-o, identifico-o
tal se em profundo sigilo
de mim o procurasse desde o início.

Me ilumino! todo
o existido
fora apenas preparação
deste encontro.

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Victor Brecheret (1894-1955): “Ave Maria 1″ – 1955. Última obra de Brecheret. Túmulo família Scuracchio. Cemitério São Paulo.

2. Antes que o olhar, detendo o pássaro
no voo, do céu descesse
até o ombro sólido
do anjo,
criando-o
– que tempo mágico
ele habitava?
3. Tão todo nele me perco
que de mim se arrebentam
as raízes do mundo;
tamanha
a violência de seu corpo contra
o meu,
que a sua neutra existência
se quebra:
e os pétreos olhos
se acendem;
o facho
emborcado contra o solo, num desprezo
à vida
arde intensamente;
a leve brisa
faz mover a sua
túnica de pedra.

4. O anjo é grave
agora.
Começo a esperar a morte.

 Autor: Catherine Beltrão

São Francisco de Assis, de Giotto a Portinari

São Francisco de Assis (1182 – 1226), fundador da ordem dos Franciscanos, é talvez a maior figura do cristianismo depois de Jesus.  Alguns estudiosos afirmam que sua visão positiva da natureza e do homem, que impregnou a imaginação de toda a sociedade de sua época, foi uma das forças que nortearam a formação da filosofia da Renascença.

São Francisco foi intensamente representado em obras de grandes mestres da pintura. Neste post, selecionei apenas dois: Giotto e Portinari.

“São Francisco prega com as aves”, de Giotto

Giotto di Bondone (1267 – 1337) foi um pintor e arquiteto italiano, maior nome da pintura gótica. Introdutor da perspectiva na pintura da época, Giotto é considerado  o precursor da pintura renascentista. A característica principal do seu trabalho é a identificação da figura dos santos como seres humanos de aparência comum. Esses santos com ar humanizado eram os mais importantes das cenas que pintava, ocupando sempre posição de destaque na pintura. Assim, a pintura de Giotto vem ao encontro de uma visão humanista do mundo, que vai cada vez mais se firmando até o Renascimento.

Sao Francisco - Giotto2

“A confirmação da Ordem dos Frades”, de Giotto

Vinte e oito afrescos de Giotto ornamentam as paredes da Basílica de São Francisco de Assis, construída entre 1228 e 1230. Patrimônio da Humanidade deste 2000, o artista reconstruiu os maiores eventos da vida  de São Francisco. Executados entre 1296 e 1304, os afrescos são vívidos, como se Giotto tivesse sido uma testemunha ocular da história.

Sao Francisco - Portinari

“São Francisco”, de Portinari

Quase setecentos anos mais tarde, surgem os São Franciscos de Cândido Portinari (1903 – 1962). Maior nome do modernismo brasileiro e também pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional, Portinari retratou como ninguém as questões sociais do país.

Portinari criou também grandes obras de tema religioso, como os 14 painéis da “Via Sacra”, que ornamentam as paredes da Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, em Belo Horizonte.  Nesta igreja, São Francisco, o santo preferido de Portinari, está representado no altar principal  e no grande mural de azulejos, exibido em sua parede frontal externa.

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Painel do altar principal da Igreja São Francisco de Assis, de Portinari - Pampulha/BH

 

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Detalhe do painel de azulejos, na parte externa da Igreja São Francisco de Assis, na Pampulha – BH.

 Dinah Silveira de Queiroz, grande romancista e cronista, escreveu, logo após a morte de Portinari, em 1962: “… dizia-se materialista, mas os santos, decerto, não acreditavam. Quem pintou aquela maravilhosa Pampulha, quem tinha o dom de transmitir o místico num São Francisco, quem exprimiu, como só Candinho fez, a tortura e a vocação da santidade, em suas figuras, muito rezou através de seus pincéis…”

A propósito, 4 de outubro é dia de São Francisco de Assis.

Autor: Catherine Beltrão