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Mosaicos e releituras

Mosaico é possivelmente uma palavra de origem grega. Trata-se de um aglomerado de pequenas peças (tesselas) de pedra ou de outros materiais como vidro, azulejo, cerâmica, plástico, areia, papel ou conchas, formando determinado desenho. Para aderir a uma superfície, usa-se cola ou argamassa e, após a colagem das peças, aplica-se uma massa para o rejunte, que irá preencher os espaços existentes entre as peças.

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Releitura de “A noite estrelada”, de Vincent van Gogh, por Carla Verena

A técnica do mosaico é muito antiga. O primeiro registro data de 3.500 a.C., na cidade de Ur, na região da Mesopotâmia.

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Releitura de “Mulher no Espelho”, de Pablo Picasso, por Liz Panek

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Releitura de “Portrait De Femme au Col D’Hermine”, de Pablo Picasso, por Giulio Pedrana

No antigo Egito, havia preciosos trabalhos feitos em sarcófagos de antigas múmias; também havia mosaicos que decoravam colunas e paredes de templos. Mais tarde, Pompeia foi um viveiro de mosaicistas: desde os poderosos e os abastados até o povo em geral apreciavam esta arte. No período paleo-cristão, abre-se para o mosaico uma nova era: a arte bizantina, que é o verdadeiro triunfo das artes visuais do cristianismo. No mundo islâmico, a arte do mosaico teve importante aplicação na ornamentação de edifícios e mesquitas.

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Releitura de um autorretrato de Frida Kahlo, por Stacy Alexander

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Releitura de uma obra de Frida Kahlo, por Susan Elliot

No século XIX, a arte do mosaico caiu quase em abandono. No período moderno, o mosaico, arte mural por excelência, conseguiu a metamorfose: parede-cimento-pedra-cor. Com isto, ele consegue harmonizar a arquitetura moderna.

Nos dias atuais, alguns artistas resolveram fazer releituras de obras famosas de grandes mestres como Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Frida Kahlo,  Gustav Klimt e Tarsila do Amaral, entre muitos outros. São novas formas de penetrar nas obras e transformá-las em novos contextos.

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Releitura de “O Abaporu”, de Tarsila do Amaral, por Patricia Iamin

E, mais uma vez, a poesia não poderia ficar de fora. Durante um tempo, tentei achar os cacos de Cecília, Drummond, Quintana e Manoel. Estava sem sorte. Não encontrei. Na falta dos cacos mais nobres, resolvi deixar aqui os meus cacos de alma.

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Releitura de “Três idades da mulher”, de Gustav Klimt, por Silvia Danelutti

Cacos.
Cacos de vidro.
Coloridos.
Formatados.
Mas sem a forma
de nossa alma.
Aí são cortados,
pra seguir a forma
de nossa alma.

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Releitura de “O beijo”, de Gustav Klimt, por Kasia Polkowska

Cacos.
Cacos de alma.
Sem cor.
Sem forma.
Mas que vão aos poucos
tomando forma
de nosso querer.
De nosso poder.

Cacos.
Cacos de vida.
Sem o antes.
Sem o depois.
Mas com o agora
que se desvenda
através dos cacos…
de vidro.
Ou de alma.

  Autor: Catherine Beltrão

O amarelo e o azul nas casas de Monet, van Gogh e Frida Kahlo

Outro dia estava pensando na famosa Casa Amarela de van Gogh. E me veio logo à mente a Casa Azul, de Frida Kahlo. Juntando o amarelo e o azul, me veio a cozinha e a sala de jantar da casa de Monet, em Giverny.

Claude Monet (1840-1926) viveu na casa de Giverny de 1883 a 1926. Ele  criou, fora e dentro da casa, uma atmosfera que se confunde com suas pinturas e pôde viver ali por vários anos, até morrer.

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Sala de jantar, toda em amarelo, da casa de Monet, em Giverny.

 

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Cozinha azul na casa de Monet, em Giverny.

A sala de jantar amarela parece ter saído de um recanto dos jardins da casa.  As almofadas das cadeiras são de xadrez azul e branco e há louças amarelas, azuis e brancas.   As porcelanas e gravuras azuis que decoram a sala, já introduzem a atmosfera da cozinha ao lado.

A cozinha, toda azul, é grande sem deixar de ser acolhedora. Azulejos em abundância emolduram as panelas de cobre e as cortininhas xadrez. E flores… flores por toda parte.

Uma das pinturas noturnas de Vincent van Gogh (1853-1890), retrata a famosa Casa Amarela em que o pintor morou em Arles, no sul da França, por menos de um ano, antes de morrer.  A cor amarela da fachada foi escolhida pelo próprio pintor: um “amarelo-manteiga”, segundo sua próprias palavras.

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“A Casa Amarela”, de van Gogh. 1888, ost, 72 X 92cm

A minha casa aqui é pintada por fora de amarelo-manteiga e tem persianas em verde forte; fica rodeada de sol, numa praça, onde também há um parque verde com plátanos, aloendros , acácias. Por dentro é pintada de branco e o chão é de azulejos vermelhos. E por cima, o céu de azul luminoso. Lá dentro posso, com efeito, viver e respirar e pensar e pintar”.

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Foto da Casa Amarela onde morou van Gogh, em Arles, antes de ser demolida, após a 2ª Guerra Mundial.

Van Gogh alugou a parte direita de um prédio de dois andares, onde pensou criar uma escola de arte. Mandou pintar a casa da cor amarela, que para ele era muito importante e bastante simbólica. Seria talvez mais um sol para iluminar e aquecer sua alma conturbada.  Quando pintou o quadro, ele resolveu colorir todas as casas de amarelo na tela, e não só a sua. Esta obra talvez seja  representativa do sonho de vida e de arte de Vincent van Gogh. Mais que isso: talvez represente o sonho de vida de qualquer um de nós: realizando ou não, todos nós temos um sonho na vida.

Frida Kahlo (1907-1954) nasceu na Casa Azul de Coyoacán, na cidade do México e lá viveu toda a sua trágica e sofrida vida. Quatro anos após sua morte, a casa transformou-se em museu.

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A Casa Azul, transformada em Museu Frida Kahlo, na cidade do México.

A casa pertenceu à família Kahlo desde 1904 e foi morando ali que Frida se consolidou como artista e lenda. Contraiu poliomielite na infância, que a deixou manca e sofreu um grave acidente aos 18 anos, que a impossibilitou de ser mãe.

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Cozinha da Casa Azul de Frida Kahlo, toda em amarelo e azul cobalto.

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Jardins externos da Casa Azul de Frida Kahlo.

Casou-se com o muralista Diego Rivera em 1929, que também passou a morar na Casa Azul. Ambos eram  entusiastas do comunismo e tinham fotos de Mao, Lenin, Marx e Stalin em seu quarto e em outros cômodos pela casa. O casal também abrigou Leon Trotsky, que morou um tempo na casa azul e com quem acredita-se que Frida tenha tido um caso.  Por sua vez, Diego traiu Frida com sua própria irmã, dentro da mesma casa. Quando descobriu, Frida externou sua tristeza em alguns detalhes da casa, como um relógio que marca o dia em que terminaram, e o dia em que reataram.

Alguns objetos pessoais estão à mostra no museu: vestidos, cartas de amor, o espelho pendurado na cama de onde ela fazia seus autorretratos enquanto não podia se locomover.

Monet, van Gogh e Frida: três artistas irmanados por duas cores, o amarelo e o azul de suas moradas.

Autor: Catherine Beltrão

Ateliers e versos… (Parte III)

Tomei uma decisão. Quando iniciei mais uma parte do post “Ateliers e versos…” , percebi que a trilogia prevista iria virar uma tetralogia: agora, serão vinte espaços onde a arte se cria, seja em forma de pinturas, desenhos, instalações ou mesmo, versos.

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Atelier de Ron Mueck

Mergulho (abril de 1973)

Hoje a estrela se consome
Mais uma vez.
Dentro da noite há loucuras
Que se confundem.
Hoje me despeço das coisas
Já feitas…
Momentos vitais aparecem nus.

Hoje há discussão entre sons e tons
Dentro de mim
E fora da realidade.
Tristezas se entregam à poesia
E cansadas,
Adormecem vagamente
Sem se importar com meu espanto.

Hoje o mistério se descontrola
E se torna tenso.
Imenso o sentimento
Que se concentra em minha mente.
Penso poder distrair ilusões
Esquecida que estou eu mesma
Embriagada por uma ilusão.

Hoje todos os silêncios se explicam.
Meu pensamento acorda o mundo
E se confessa emocionado.
Há uma presença na espera.
O tempo se desequilibra
E se espalha num mergulho
Através o infinito…

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Atelier Frida Kahlo

A lágrima (novembro de 1967)

Vento e noite se misturam.
Fazem do tempo um mistério esquecido
E do murmúrio, um silêncio a dois.
Um tom de melancolia se desgraça
Se funde, pra voltar sorriso.
Uma folha cai…
Uma folha vai…
Não se lembra do que deixa atrás de si.
E o ritmo do espaço
Abraça todas as folhas,
Toda a vertigem, toda a loucura.
A noite fica incrédula
De tanto abandono
Em tão pouca esperança.
Chega o momento, imóvel:
Nada respira.
Tudo vive.
Tudo exclama.

Abro os olhos de espanto
E deixo escapar uma lágrima:
A da ausência.

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Atelier de Edvard Munch

Campos da solidão (março de 1973)

Vim me justificar pelas tristezas
Que cometi.
Vim permitir a velocidade do espaço
Num passado amado.
Vim ter com a noite
Um pacto de ternura.

Preciso me apoiar na poesia
Vinda lá do fundo do amor…

Vou me soltar pelos campos
Da solidão.
Vou acalentar sons e cores
Com os silêncios de meu corpo.
Vou atravessar vidas inertes
Inexistentes no tempo presente.

Preciso me apoiar na poesia
Vinda lá do fundo do amor.

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Atelier de Fernando Botero

Sou vapor (novembro de 1973)

 Sou vapor.
O que resta de um sentimento.
Sou o que precisa de um som.
Sou desesperadamente um pedaço de vida.

O amor me foge pelos dedos, pelos cabelos.
Pelos silêncios,
Pressinto a solidão divina.
Pouco a pouco,
A música se torna amante única.

Sou música.
Estou separada do mundo e da morte.
Vivo plenamente o momento dinâmico.
Tudo se concentra e se dispersa:
Eu, o espaço, o ideal.
Porque pertenço inteiramente ao futuro.

Sou música.
O tempo não me desanima.
Encanta-me a virgindade
Do silêncio derradeiro.
Procuro acompanhar o movimento dos corpos.
E dos pensamentos…

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Atelier de Alberto Giacometti

Os homens (junho de 1973)

Por um descuido
Mais ou menos envolvido por ternura,
Hoje me lembrei de vocês.
Me deu melancolia
E constatação de saudade,
Em meio a um sentimento livre:
Vivência.

A partir de vocês
Convivi com o pensamento da noite.
A partir de vocês
Amei tristezas e silêncios.
A partir de vocês
Fiz nascer versos e sons.

Ainda não sei por que
Fertilizei instantes de solidão
Com ilusões.
Talvez seja porque
Vocês fizeram parte demais
De minha existência.

Mueck, Frida, Munch, Botero e Giacometti: homem, mulher, pintor, escultor, vivo, morto… não interessa. O que interessa é a obra. O que permanece é o legado.

Autor: Catherine Beltrão

As Fridas de Luiza

Estamos na semana de Frida Kahlo (1907-1954).  Ícone da pintura mexicana, Frida nasceu em Coyoacán no dia 6 de julho e morreu na mesma cidade em 13 de julho. Luiza Caetano, pintora e escritora, nasceu em Mafra, Portugal, em 1946. A primeira eu não conheci. A segunda, tive esta felicidade em 2001.

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Frida Kahlo e Diego Rivera, em 1949.

A vida de Frida Kahlo se resume a uma sucessão de tragédias. Quando criança, foi vítima de poliomielite que lhe afetaria a perna direita e aos 18 anos sofreu um grave acidente automobilístico que dilacerou seu corpo e a levou a sofrer mais de 30 cirurgias durante sua vida. Começou a pintar durante a convalescença em sua cama.  Casou-se duas vezes com Diego Rivera (1886-1957), expoente da pintura muralista mexicana. As cirurgias não permitiram Frida exercer a maternidade. Teve três abortos. “A pintura tem ocupado minha vida. Perdi três filhos e uma série de coisas que poderiam ter preenchido a minha vida horrível. A pintura substituiu tudo. Eu acho que não há nada melhor do que trabalhar.” Teve também casos amorosos com homens e mulheres, entre eles o marxista Leon Trotsky. Um ano antes de morrer, sua perna direita foi amputada por gangrena. “Para que pés, se tenho asas para voar?”

Sem dúvida alguma a vida trágica e a força da sua pintura fazem de Frida Kahlo um dos personagens mais emblemáticos da História da Arte. A coragem com a qual ela enfrentou suas dores e seus amores provocam reflexão e admiração. É o que acontece com Luiza Caetano, a excelência na arte naïve e cuja alma apresenta o mesmo DNA de Fernando Pessoa.

Luiza - Frida e Diego

“Diego Rivera e Frida Kahlo”, de Luiza Caetano. 2002, ast. Obra doada pela autora para o Museu ArtenaRede.

Luiza Caetano, que se define “órfã de pais, filhos e maridos“, retratou Frida Kahlo várias vezes. Uma dessas obras, a artista doou para o Museu ArtenaRede, sendo hoje uma das mais importantes do acervo do Museu, contundente até, ultrapassando qualquer estilo ou escola a que possa pertencer.

Tentei achar poemas de Luiza sobre Frida. Não achei. Isto não significa que não existam. Só não consegui achar. Por isso, resolvi aliar algumas das pinturas que Luiza fez de Frida a poemas de Luiza que não se referem a Frida.

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“Seis rosas”, de Luiza Caetano

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“Frida Kahlo com pássaro – meu tributo”, de Luiza Caetano

RASTRO DAS ESTRELAS

Assisto ao dobrar dos dias
dentro de cada madrugada,

Sinto a neve
sulcada em meus cabelos,
sorvo a chuva mágoa dos meus olhos
onde os lírios e a esperança
se rasgam em rugas cansadas
de gestos e de nadas.

Invento o dia que não chega
na pura ressonância
do esquecimento.

Órfã do teu sorriso
feito de promessas e de horizontes,
me deixo inesperadamente
apaixonar pelo rasto luminoso
das estrelas.

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“Feridamente ferida”, de Luiza Caetano

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“Ferida de Amor”, de Luiza Caetano

“PONTES”

Do lado esquerdo da vida
há uma ponte que te segue
Apenas metade de inteira
porque a outra, talvez perdida te pressegue na margem direita

braço estendido no horizonte
dolorido de tanta esperança
ferindo o espaço e a fonte
onde o desejo te espreita        e a sede não te alcança.

As Fridas de Luiza. Feridas e luzes. Frida e Luiza. Kahlo e Caetano. Duas mulheres que são oceanos. Ou universos. Na emoção e na expressão.

 Autor: Catherine Beltrão