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Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

O Jardim de Dentro e o Jardim de Fora

Como pode isso, vovó? Não entendi… Jardim de Dentro? Jardim de Fora?

Vou explicar. Primeiro você tem que acreditar que já fui criança um dia. Igualzinha a você. Sei que é difícil, mas faça um esforcinho…

Bem, tudo começou com o Jardim de Dentro. Eu já lhe contei que sua tataravó Edith era pintora, certo? Então… ela pintava retratos, pintava paisagens, pintava palhaços, pintava bailarinas… e pintava flores!

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“Braçada de flores”, de Edith Blin. Déc.50, ost, 60 X 50 cm.

Mas suas flores eram diferentes. Quase nunca ficavam presas dentro de vasos. As flores de Edith gostavam de ser livres, de dançar e de cantar.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin. 1955, ost, 82 X 65cm.

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“Bouquet de la nuit”, de Edith Blin. 1956, ost, 81 X 65cm.

E eu adorava dançar e cantar com elas. Me levavam a lugares incríveis. Quase sempre, estes lugares eram muito coloridos, mas as vezes não.  Coloridos ou sem cor, tudo era tão bonito que eu até sonhava com estes lugares.

Uma noite, sonhei que os galhos das flores nos levavam para um lugar mágico, todo iluminado e cheiroso: era uma floresta encantada e cantante!

Outra vez, sonhei que um vento forte nos levava para bem longe. A gente rodopiou, rodopiou, até o vento parar. Nessa viagem, as flores tinham perdido muitas pétalas… mas não teve problema, pois eu remendei uma a uma.

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“Flores ao vento”, de Edith Blin.1957, ost, 54 X 72cm.

Pelo que me diziam (porque eu também conversava com as flores de Edith), só eu conhecia estes lugares. E eles passaram a ser o meu Jardim de Dentro!

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“Orquídea amarela com rosas”, de Edith Blin.1952, ost, 54 X 72cm.

Mas e o Jardim de Fora, vovó? Como era?

O Jardim de fora não “era”. Ele “é”. É o nosso Jardim dos Poetas!

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Cerejeira em flor no Jardim dos Poetas

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Samambaia portuguesa ao sol, no Jardim dos Poetas

É o jardim onde você brinca com seus irmãos e seus primos quando vem me visitar… é o jardim das bromélias, das orquídeas, das cerejeiras, dos beija-flores e dos bem-te-vis. É o jardim dos ipês, dos bambus, das camélias, dos jacus e dos sabiás. E é também o jardim das azaleias, dos antúrios, das palmeiras, das corujas e dos tico-ticos.

Eu tive o meu Jardim de Dentro quando criança, onde plantei as sementes do meu Jardim de Fora de hoje, o nosso Jardim dos Poetas. Quem sabe ele, o Jardim dos Poetas, não seja o seu Jardim de Dentro e que dê muitas sementes para você plantar em seu Jardim de Fora de amanhã…

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Buganvília no portão do Jardim dos Poetas

 Autor: Catherine Beltrão

Renoir e Guignard: banhistas e flores no verão de fevereiro

55 anos e um oceano separam a vinda ao mundo destes dois imensos artistas. Ambos de 25 de fevereiro, Pierre Auguste Renoir nasceu em 1841, na cidade de Limoges/França e Alberto da Veiga Guignard nasceu em 1896, em Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro.

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“Banhista enxugando a perna direita”, de Renoir. ost, 1910

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“Banhista arrumando seus cabelos”, de Renoir. Ost, 1893.

Renoir, um dos grandes nomes do impressionismo, nunca deixou de lado o cuidado com a forma. Desde o princípio, sua obra foi influenciada pelo sensualismo e pela elegância do rococó. Embora tenha pintado naturezas mortas, flores e paisagens, foi na figura humana – sobretudo na figura feminina – que ele deixou seu maior legado. Ninguém pintou como ele as formas generosas das mulheres dos séculos XIX e XX, dando forma e fama à série “Banhistas“.

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“As grandes banhistas”, de Renoir. Ost, 1918-9.

 

Guignard_vasocomflores_1933Guignard_semtitulo_1937Guignard foi um artista completo, atuando em todos os gêneros da pintura: de naturezas mortas, paisagens e retratos até pinturas com temática religiosa e política, além de temas alegóricos. Mas foi pintando exuberantes vasos de flores é que Guignard alcançou, mais tarde, uma grande valorização em suas obras.  É dele o “Vaso de Flores“, arrematado em um leilão da Bolsa de Arte, em agosto de 2015, por R$ 5,7 milhões, tornando-se até então, a obra de arte mais valiosa de um brasileiro já vendida em um leilão.

 

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“Vaso de Flores”, de Guignard. Ost, 1933. A obra de arte mais valiosa de um pintor brasileiro já vendida em um leilão.

A tela foi pintada em 1933, sendo apresentada no 1° Salão Paulista de Belas Artes, em 1934. A obra já pertenceu a Mário de Andrade e fez parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

Autor: Catherine Beltrão

 

Simplesmente Flores

É lugar comum se falar de flores na primavera. Mas a primavera, a cada ano, é incomum. E as flores também. Talvez seja por essa razão que os artistas pintam flores. Quase todos. Neste post, apresento somente cinco flores de cinco artistas: Redon, Monet, Van Gogh, Guignard e Edith Blin.

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“Flores exóticas em um vaso”, de Odilon Redon, pastel, 1906, 90 X 72,5 cm

Odilon Redon (1840-1916) foi  um pintor e artista gráfico francês. A técnica mais utilizada por Redon era o pastel, que lhe permitia trabalhar as cores com texturas diferentes e bastante mescladas.  Considerado o mais importante dos pintores do Simbolismo, suas flores são belíssimas e únicas, praticamente dialogando com quem as contempla.

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“Vaso com flores”, de Claude Monet, ost, 1880

Por suas magníficas ninfeias e o seu jardim em Giverny, Claude Monet (1850-1926) será sempre associado a flores. Delicadas ou exuberantes. Em lagos ou em vasos. Pequenas ou majestosas. Não importa. São inconfundíveis. São flores de Monet. Para quem quiser ler um pouco mais sobre as flores de Monet em Giverny, clique aqui.

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“Iris”, de Vincent Van Gogh, ost, 1889, 71 X 93 cm

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou o Sol e pintou girassóis. Não há quem não conheça pelo menos um dos girassóis de Van Gogh. Mas ele também pintou íris. Muitos íris. E assim como seus girassóis, cada um de seus íris é único. Ele estudava cuidadosamente os movimentos e os contornos das flores para criar uma variedade de silhuetas coloridas dançantes ao som do vento…

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), ost, 1930.

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) transformou seu lirismo em paisagens imaginantes e flores. Muitas flores. Extremamente esfuziantes e coloridas. No último dia 13 de agosto, a obra “Vaso de Flores”, foi disputada por vários compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Para quem quiser saber um pouco mais sobre a hora e a vez de Guignard, clique aqui.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin, ost, 1955, 82 X 65 cm

Em suas quatro décadas de pintura, Edith Blin (1891-1983) pintou flores em telas e cartolinas, a óleo ou pastel. Mas foi nos anos 50 que suas flores desabrocharam em seu mais contundente esplendor, algumas livres e soltas no ar, outras entremeadas a rostos e figuras. É impossível não se emocionar com as “Flores vermelhas em ascensão”, que arrebata o nosso sentimento em sua pretensão de que um único galho jovem e viçoso inicia a subida de uma escada sem fim… Para quem quiser ler e ver mais flores de Edith, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

E pra não dizer que não falei das flores

Resolvi comemorar o primeiro aniversário do blog ArtenaRede falando de flores. Tendo escolhido o tema, é natural que apresentasse neste post obras do mestre Monet, com as flores do seu grandioso Jardim de Giverny, ou com os vigorosos girassóis de van Gogh, ou ainda com as maravilhosas composições florais de Guignard.

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Lírios

Mas não escolhi essa vertente. Resolvi, desta vez, apresentar fotos. E também não serão apresentadas imagens de grandes e renomados fotógrafos. Neste post, as fotos são  minhas, tiradas no Jardim dos Poetas, com exceção de uma, tirada na praça Getúlio Vargas, em Nova Friburgo.  Estas imagens irão tão somente emoldurar a letra antológica da música “Pra não dizer que não falei das flores“, também conhecida como “Caminhando” (ou será o contrário?), de Geraldo Vandré (1935).

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Gérberas

Em 1968, a música participou do III Festival Internacional da Canção da TV Globo, ficando em segundo lugar, sob as vaias ensurdecedoras do público perante o primeiro lugar dado à belíssima “Sabiá“, de Tom Jobim e Chico Buarque.  “Pra não dizer que não falei das flores” teve sua execução proibida durante anos, após tornar-se um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar brasileira.

Em 1968, eu cursava o meu primeiro ano de Engenharia na PUC/RJ. Abençoada mais uma vez, eu estava na plateia de um auditório lotado de jovens que, como eu, tinham ido ver o Vandré e ouvir a canção.

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Flor de cerejeira

Pra nao dizer_CB7Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Somos todos iguais
 Braços dados ou não
 Nas escolas, nas ruas
 Campos, construções
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Pelos campos há fome
 Em grandes plantações
 Pelas ruas marchando
 Indecisos cordões
 Ainda fazem da flor
 Seu mais forte refrão
 E acreditam nas flores
 Vencendo o canhão

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Amarilis

 Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

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Flor de cactus

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Buganvile

Nas escolas, nas ruas
 Campos, construções
 Somos todos soldados
 Armados ou não
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Somos todos iguais
 Braços dados ou não

Os amores na mente
 As flores no chão
 A certeza na frente
 A história na mão
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Aprendendo e ensinando
 Uma nova lição

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Para quem quiser ouvir a canção, na voz do próprio Geraldo Vandré, clique aqui. Trata-se de um vídeo-montagem, com fotos da época e áudio extraído do III Festival Internacional da Canção, em 1968.

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Ninfeia

Alguns anos se passaram desde 1968. Na verdade, quase meio século! Os anos 60 eram os anos de “paz e amor”. A juventude acreditava na força das flores para combaterem as armas da ditadura. Que era importante caminhar e cantar, junto ou sozinho, para fazer a hora. Que era preciso, sobretudo, jamais esperar.

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Últimas flores do monumental eucalipto tombado na praça Getúlio Vargas, em 28.01.2015. Autor: Marcelo Brantes.

Passado esse tempo, em que podem estar acreditando os jovens de hoje? Será que acreditam em alguma coisa? Com certeza, as flores murcharam. Com certeza, as lágrimas foram rareando até as águas dos rios secarem. E, com certeza, as árvores também continuam tombando, dia após dia.

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Passeata dos Cem Mil, com Tonia Carrero, Eva Vilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker

Este post é uma homenagem à Odete Lara, falecida hoje, 04.02.2015. Acima, a artista junto a Tonia Carrero, Eva Vilma, Norma Benguell e Cacilda Becker, na Passeata dos Cem Mil, um dos mais importantes protestos contra a ditadura militar, em junho de 1968, nas ruas do centro do Rio de Janeiro.

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Autor: Catherine Beltrão

Arcimboldo, de animais a legumes, de elementos a estações…

Arcimboldo

Arcimboldo, autorretrato.

Giuseppe Arcimboldo (1527 — 1599) foi um pintor italiano. Sua singularidade foi ter usado, pela primeira vez, imagens da natureza, tais como frutas, verduras e flores, para compor fisionomias humanas. Iniciou-se na vida artística aos 22 anos, projetando os vitrais da catedral de Milão, juntamente com seu pai. Arcimboldo viveu muito tempo em Praga, na corte do imperador Rodolfo II, onde estudou e criou algumas de suas obras mais conhecidas: a série “Os quatro elementos” e a série “As quatro estações“.

Contrapondo-se à autoridade clássica do Renascentismo, Arcimboldo foi um dos grandes nomes do Maneirismo, movimento artístico de protesto do século XVI, junto a pintores como Michelangelo (em sua fase madura), Ticiano, Tintoretto, Veronese e El Greco, entre muitos outros.

Outra característica do Maneirismo – a ênfase no aspecto espiritual da arte – se faz presente na obra de vários dos artistas citados. Tintoretto e El Greco eram ligados à religiosidade católica. Mas Arcimboldo, não. Mesmo sendo Praga uma corte católica, ela tinha total independência em relação à Igreja Romana e seus monarcas eram de grande tolerância em relação a outras religiões e crenças. Ali conviviam judeus, cristãos e ocultistas. E o ocultismo foi uma referência importante para Arcimboldo, como se percebe em suas paisagens antropomorfas.

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“Os quatro elementos”. Água, ar, fogo (1566) e terra (1570).

A série “Os quatro elementos” mostra a água, o ar, o fogo e a terra, magistralmente apresentados através de cabeças-retratos, cada uma das quais compostas de figuras existentes nestes elementos. Na água, peixes, pérolas, camarões, tartarugas, caranguejos, polvos, sapos; no ar, pavões, faisões, araras, entre diversos outros tipos de aves; no fogo, velas, castiçais, fogueiras, armas, canhões; na terra, dezenas de animais, como elefantes, cavalos, tigres, ratos, carneiros, antílopes, leões… interessante ver a coroa que se forma nesta cabeça, formada com os chifres de alguns destes animais.

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“As quatro estações”. 1573

A série “As quatro estações” data de 1573. A exemplo da série anterior, o artista também utilizou, em cada tela, elementos que correspondem ao tema retratado. Assim, “A Primavera” é composta basicamente por flores, “O Verão”, por frutas próprias dessa estação, “O Outono”, por folhas e frutas dessa época do ano e “O Inverno”, por uma árvore praticamente sem folhas.

É bastante interessante ver o aspecto antropomórfico destas obras. A cabeça humana é formada de flora e fauna, ou qualquer outra coisa. E tudo está a serviço do homem. Pois é ele que rege a composição, o formato.

Após a morte de Arcimboldo o interesse por sua obra diminuiu, chegando quase ao esquecimento, talvez pela estranheza que podem causar suas criações. Passaram-se trezentos anos e foi apenas no século XX, com o surgimento do Surrealismo, que este e outros maneiristas foram resgatados, recebendo a atenção e o valor merecido.

 Autor: Catherine Beltrão

As três orquídeas de Edith e de Cecília

Um tanto quanto difícil foi escolher o tema do primeiro post do ano que se inicia. Percorri algumas alternativas e resolvi me decidir por flores, e mais especificamente, as orquídeas de Edith Blin (1891-1983) e de Cecília Meireles (1901-1964).

Já escrevi sobre As flores de Edith neste blog. Naquele texto, eu já tinha apresentado uma das suas orquídeas, a obra “Orquídea, rosas e violão“.

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“Orquídea, rosas e violão”, ost, 73 X 60cm, 1952.

Edith pintou somente três obras com orquídeas, ou melhor, com uma orquídea.  Amarela. E as três obras foram pintadas em 1952.

Infelizmente, não conheço a história destas obras. Mas, com certeza, sua criação deve ter sido motivada por uma linda história. Me atrevo a dizer que foi uma única história, pois a flor é única e a data também.

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“Orquídea amarela com rosas I”, ost , 70 X 70cm, 1952

Também sei que Edith, frequentemente, transformava sua emoção em pinturas. E quando recebia flores que a emocionavam, ela pintava sua emoção. Deve ter sido o caso. E a emoção deve ter sido grande, pois pintou três vezes a mesma flor…

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“Orquídea amarela com rosas II”, ost, 56 X 42cm, 1952

 

As três orquídeas de Cecília Meireles não eram amarelas. Eram brancas. E perfumaram seu último poema, escrito no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, em agosto de 1964…

“As três orquídeas”

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Cecília Meireles

As orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são alvas, toda pureza,
com uma leve mácula violácea para uma pureza de sonho triste, um dia.

Que dia? que dia? dói-me a sua brevidade.
Ah! não vêem o mundo. Ah! não me vêem como eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais amadas?
Mas eu amo o terno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno.

As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não vêem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
Antecipo-me em sofrer pelo seu desaparecimento.
E aspira sobre elas a gentileza igualmente frágil,
a gentileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.

Durai, durai, flores, como se estivésseis ainda
no jardim do mosteiro amado onde fostes colhidas,
que escrevo para perdurares em palavras,
pois desejaria que para sempre vos soubessem,
alvas, de olhos roxos (ah! cegos?)
com leves tristezas violáceas na brancura de alabastro.

As flores sempre inspiraram  artistas, pintores e poetas. Ou qualquer um que tenha alma sensível como os artistas, pintores e poetas. E é com esta inspiração em forma de pintura-orquídea e poema-orquídea que brindo o ano de 2015 com você, amiga e amigo leitor!

Autor: Catherine Beltrão

 

 

As flores de Giverny

Pensei em iniciar esse post com uma pergunta mas não sei qual seria a melhor. Fiquei indecisa entre perguntar “Quem nunca ouviu falar em Giverny?” ou “Quem já ouviu falar em Giverny? ”

Giverny é uma cidade francesa, situada ao norte de Paris, já na região da Normandia. Sua importância se deve aos famosos jardins da Casa de Claude Monet  ( 1840-1926 ), pintor francês e o maior nome da pintura impressionista.

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Lago das ninfeias. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

 

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Detalhe de uma das obras da série “Ninfeias”

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Detalhe da ponte japonesa em uma das obras da série “Ninfeias”

Claude Monet viveu em Giverny de 1883 até sua morte. Cuidar do jardim  era uma de suas atividades preferidas. Para ajudá-lo nesta tarefa, foram contratados seis jardineiros. Em 1893, Monet comprou também um terreno vizinho onde construiu o jardim  aquático, que seria sua grande fonte de inspiração nos anos seguintes. Em 1899, Monet pintou em Giverny a famosa série de quadros chamadas “Nenúfares” ou “Ninfeias”, inspirada no jardim aquático.

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Lago das ninfeias com a ponte japonesa ao fundo. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

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Lago das ninfeias com foco no amarelo. Foto tirada em 17.09.2014, em minha visita a este jardim fantástico.

 

Na semana passada, estive na França para participar do ritual da dispersão das cinzas de minha mãe, falecida há dois meses. Nesta viagem, realizei dois desejos: o de minha mãe, que queria suas cinzas dispersadas nas “forêts de l’Oise“, em Chevrières, onde passou sua infância. O outro desejo era meu, que queria conhecer os jardins de Monet, em Giverny. Os dois desejos foram realizados. As cinzas pintaram de branco a relva no entorno da pequena capela de uma propriedade privada na pequena cidade perto de Compiegne, na região da Picardia. E as flores dos jardins de Monet coloriram meus pensamentos um tanto quanto cinzentos em que me encontrava …

 

Na semana em que se inicia a Primavera aqui ao sul do Equador, as flores outonais de Giverny são as mais belas do planeta.

 

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Inacreditável estas flores aparentemente aquáticas brotando da grama… Foto tirada em 17.09.2014

 

Monet soube expressar a beleza das flores como ninguém. Jamais alguém o superou na concepção destas obras eternas que criou a partir do jardins de sua casa em Giverny. Ele eternizou momentos de intensa harmonia entre cores e formas, todas imaginadas em sua mente como uma quebra-cabeça de peças do paraíso…

 

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Obra de Monet, retratando parte de seu jardim em Giverny

 

Benditas sejam as flores no coração da natureza!

 

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Dálias colossais nos jardins de Monet. Foto tirada em 17.09.2014

 

 Autor: Catherine Beltrão

As flores de Edith

O que faz uma flor encantar um artista?

Na verdade, as flores encantam qualquer pessoa, seja artista ou não, seja poeta ou não. A beleza, a cor, o perfume, a forma, tudo se funde e, como se fosse uma mágica, se transforma em um pedaço de nossa alma, que queremos partilhar com alguém. Por isso, gostamos de dar flores, por isso gostamos de receber flores.

Edith - Bracada de flores

“Braçada de flores”, ost, déc.50, 60 X 50 cm

Mas um pintor quer mais. Ele quer registrar este momento de partilha. Ele quer partilhar com mais gente e por muito mais tempo, o encantamento que sua alma sentiu. Foi este registro que Edith Blin (1891-1983) deixou, em nada menos de 126 obras com a temática flores.

Edith - Flores vermelhas em ascencao

“Flores vermelhas em ascensão”, ost, 1955, 82 X 65cm

Edith - Flores em erupcao

“Flores em erupção”, ost, déc. 50, 82 X 65cm

Em suas quatro décadas de pintura, Edith pintou flores em telas e cartolinas, a óleo ou pastel. Mas foi nos anos 50 que suas flores desabrocharam em seu mais contundente esplendor, algumas livres e soltas no ar, outras entremeadas a rostos e figuras.

Impossível não se emocionar com a “Braçada de flores“, por exemplo, ao se perceber que são as flores que tendem ao abraço e não o contrário.  Da mesma forma, as “Flores vermelhas em ascensão” arrebata o nosso sentimento em sua pretensão de que um único galho jovem e viçoso inicia a subida de uma escada sem fim…  e as “Flores em erupção” parece estar prestes a explodir, as flores vermelhas ainda seguras em um redemoinho branco em convulsão, querendo se desprender desesperadamente do chão.

Edith - Flores ao vento

“Flores ao vendo”, ost, 1957, 54 X 72cm

Em “Flores ao vento“,  os galhos floridos são levados pelo vento em meio à tempestade, e certamente estas flores  irão embelezar outras paisagens e outros tempos…

Edith - Flores em volteio

“Flores em volteio”, ost, 1955, 46 X 38cm

Após seu falecimento, a principal coletiva em que flores de Edith Blin participaram foi a “Exposição de Primavera“, realizada na D’Bieler Galeria de Arte, no Shopping Center da Gávea, em setembro de 1988. Junto a nomes como Scliar, Aldemir Martins e Sylvio Pinto, entre outros, as flores de Edith resplandeceram e inundaram de luz e força os espaços da exposição. As obras “Flores em volteio” e “Flores amarelas” participaram desta coletiva.

Em dezembro de 1986, na Sala de Exposições do Hotel San Marco, em Brasília, foi realizada a exposição “Flores no Final da Primavera“, constando de 25 obras, produzidas em dois períodos: de 1955 a 60 (técnica óleo sobre tela pintada com pincel) e de 1975 a 80 (óleo sobre cartolina colocada sobre eucatex com predominância da espátula). O sucesso de público e vendas foi enorme, a ponto de algumas obras terem sido disputadas por mais de uma pessoa, como ocorre em leilões.

Edith - Orquidea, rosas e violao

“Orquídea, rosas e violão”, ost, 1952, 73 X 60cm

Orquídea, rosas e violão” é uma das três obras criadas pela artista em que a orquídea é a protagonista do enredo, parecendo sussurrar ao ouvido de uma das rosas brancas que descansam sobre o violão.

Mesmo sendo suspeita para falar sobre as flores de Edith, não existem flores como as que ela pintou. São flores fortes e delicadas. Simbólicas e poéticas. Solitárias e sociáveis. Densas e translúcidas. As flores de Edith Blin são como sua alma.

Autor: Catherine Beltrão