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O amor em traços e versos

O amor é um tema eterno. Não há no mundo quem não tenha amado. Pra falar de amor, surgem os poetas. Pra desenhar o amor, os pintores. Pra viver o amor, qualquer um de nós.

Este post apresenta  oito textos/poemas sobre o amor, de oito escritores que amo, ilustrados com imagens de obras de Edith Blin (1891-1983), a “pintora da alma.

Amor1

“Casal em cinza”, de Edith Blin: 1973, osc, 55 X 36cm

“Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.”

Pablo Neruda

Amor2

“Aproximação”, de Edith Blin: 1970, osc, 49 X 37cm

“Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.

Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.

A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.”

Mario Quintana

Amor3

“Depois da Fantasia”, de Edith Blin: 1972, osc, 48 X 34cm

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Luis de Camões

Amor4

“Duas figuras, uma nos braços da outra”, de Edith Blin: 1977, osc, 50 X 38cm

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.”

Vinicius de Moraes

Amor5

“Inspiré de Rodin II”, de Edith Blin: 1971, osc, 52 X 39cm

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…”

Florbela Espanca

Amor6

“Jovens do futuro”, de Edith Blin : 1978, osc, 53 X 38cm

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.”

Carlos Drummond de Andrade

Amor7

“Pausa I”, de Edith Blin: 1970, osc, 52 X 38cm

Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.” (De Julieta para Romeu)

William Shakespeare

Amor8

“Casal n•5″, de Edith Blin: 1980, osc, 51 X 37cm. Esta obra participou do Nouveau Salon de Paris – CIAC, em janeiro de 1986. Após o evento, a obra desapareceu, sendo desconhecido o seu paradeiro atualmente.

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.”

Fernando Pessoa

Uma nota a ser feita sobre as oito obras de Edith Blin apresentadas neste post: todas elas datam da década de 70, quando a artista tinha mais de 80 anos. É realmente fantástico o vigor e a força que transmitem, sem deixar de lado a ternura que o tema sugere…

Autor: Catherine Beltrão

No Dia do Poeta, a poesia de todos os dias…

Todos os dias, quando abro a porta de casa, dou de cara com o Jardim dos Poetas. Meu jardim e meus poetas: Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana e Cecília Meireles.

Fernando Pessoa chega até a alma da gente, arranca as cordas e os cadeados, pega a alma nas mãos e sopra, tira a poeira acumulada. Aí, a alma fica solta, limpa… e feliz. Como ele consegue fazer isso? Mas, não, ele só faz isso se a gente deixa. Eu deixo.

Poesia_Fernando

Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos. Ao clicar na imagem, você acessa o post “Luiza e Fernando, DNA de almas”

HÁ UM TEMPO

Há um tempo em que é preciso
Abandonar as roupas usadas,
Que já têm a forma do nosso corpo,
E esquecer os nossos caminhos,
Que nos levam sempre  aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia.
E, se não ousarmos fazê-la,
Teremos  ficado,para sempre,
À margem de nós mesmos…

Vinicius de Moraes me abriu as portas da poesia e, assim sendo, tive acesso ao infinito. “Para viver um grande amor” e “Para uma menina com uma flor” tiveram suas páginas lidas e relidas, em desordem é claro, porque a gente não lê Vinicius como se lê um romance, a gente lê como se estivesse mergulhando em mar profundo: entre um mergulho e outro, é preciso voltar à superfície, pra saber que o mundo ainda está lá. Lendo e sentindo Vinicius, lá nas profundezas azuis, entre corais e estrelas deitadas na areia, a gente vira concha grávida.

Poesia_vinicius1

Retrato de Vinicius, feito por Cândido Portinari

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente.

A poesia do Carlos Drummond me encontrou já adulta, a contar desamores e lágrimas gastas. Não a considero leitura para iniciantes, ávidos de luas cor de prata ou de corações aprendizes. Precisei ter caminhado na esteira do tempo vivido para absorvê-la como é preciso. E como é preciso devorar estas palavras, este jeito de ser e de se transmitir poeta…

Poesia_Drummond

Retrato de Drummond, feito por Cândido Portinari

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Com o Mário Quintana, a poesia se torna meio-sorriso, meio-espanto. Com poucas palavras, ele brinca com a expectativa do lugar-comum, da coisa estabelecida. É um deleite colecionar seus poemetos (poemas pequenos, não poemas menores), para serem lidos em momentos incertos. Pois nos momentos certos, a gente não se espanta com nada.

Poesia_Quintana

Caricatura de Mario Quintana, por Ziraldo

POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

AUTORRETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore…

Cecília Meireles escreveu poesia para as crianças. Poucos sabem que crianças são poesia em sua essência, antes de se transformarem em seres lógicos e coerentes. Ela sabia. Ler um poema seu é dar um banho na alma, escovando e esfregando bem as reentrâncias formadas pelas rugas que os anos deixaram.

Poesia_Cecilia

Autorretrato de Cecília Meireles. Ao clicar na imagem, você acessa o post “As três orquídeas de Edith e de Cecília”

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Para quem quiser saber mais sobre meu Jardim dos Poetas, acesse aqui.

  Autor: Catherine Beltrão

E por falar em vento…

O vento está na moda. É bem verdade que não dá pra ser estocado. Mas dá pra ser sentido. E pra ser registrado, em sua força, beleza ou leveza. Um poema, três pinturas e uma canção… e o vento invade nossa alma.

Já dizia o grande Fernando Pessoa:

 “As vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
 vale a pena ter nascido”.

Vento_Monet2

“Essai de Figure en Plein Air (Vers La Droite)” e “Essai de Figure en Plein Air (Vers La Gauche)” , de Claude Monet. 1886, ost.

Claude Monet (1840-1926), grande nome do Impressionismo, é frequentemente lembrado por seu jardim em Giverny e suas ninfeias, plácidas e deslumbrantes. Mas ele também soube interpretar o vento através de cores, écharpes e flores. Definitivas são as obras “Essai de Figure en Plein Air (Vers La Gauche)” – “Ensaio de figura ao ar livre (voltada para a esquerda) e “Essai de Figure en Plein Air (Vers La Droite)”  – “Ensaio de figura ao ar livre (voltada para a direita).

Kokoschka_A-Noiva-do-Vento

“A Noiva do Vento”, de Oscar Kokoschka. Ost, 1914.

Oscar Kokoschka (1886-1980), nascido na Áustria, é um dos grandes nomes do Expressionismo. Recebeu a influência de Gustav Klimt e Van Gogh mas criou o seu próprio estilo pessoal, visionário e atormentado. Suas composições apresentam a supremacia da linha sobre a cor e a sua temática costuma ser o amor, a sexualidade e a morte. As obras mais puramente expressionistas destacam-se pelas figuras retorcidas, de expressão torturada e apaixonamento romântico, como “A noiva do vento“, certamente a obra mais famosa de Kokoschka.

Vento_Lenagal1

“Correndo com o vento”, de Lenagal. Acrílica sobre tela, 2005.

Lenagal (1957), artista açoriana contemporânea, pinta mulheres. Mulheres em silêncio, mulheres com a música, mulheres ao vento. Ela se define: “Eu sou sinfonia do vento ao entardecer. O animal abandonado por mão cruel. Eu sou a água do mar agitado, pedra que todos pisam. O Espaço. O vazio. O Nada . Tudo . Sou o fogo que arde, sou a terra, o ar. Eu sou a flor que todos cheiram. Eu sou Eu, sou muitos rostos. Eu sou a liberdade que todos desejam, a lágrima que nos rostos rola, sou arvore queimada , pétala arrancada , dor que ninguém consola . Sou o procriar da criança, amante do amor, da Lua, irmã de sangue . Eu sou simplesmente MULHER.”

E quando se trata de vento, é impossível não lembrar da canção de Bob Dylan, “composta em 1963, “Blowin’In the Wind” – “Soprando ao vento” (Vídeo com duração de 2:46):

The answer, my friend, is blowin’ in the wind…”

Autor: Catherine Beltrão

Luiza e Fernando, DNA de almas

Se alma tivesse DNA, Luiza Caetano era filha de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa (1888-1935), o mais universal poeta português, deixou para os leitores do mundo um mundo de poemas e pensamentos sobre a sensibilidade de ser. O autor de “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena“, transformou a alma de  muita gente, inclusive a minha, em meus jovens anos de adolescência. Naqueles anos, eu também acreditava que “Tenho em mim  todos os sonhos do mundo.”

Aos poucos fui também, como ele, fazer a travessia:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos“.

Luiza - Fernando 1

Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos

 

Durante a travessia, fui aprender a amar. Várias lições se passaram até que fui entender o que o poeta quis dizer: “Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.” Aí, fui me perceber, com todas as minhas fraquezas e covardias. “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios“.

Luiza

Luiza Caetano

Daí, após anos de estrada com Fernando Pessoa, fui conhecer Luiza Caetano, a grande dama da pintura e da poesia portuguesa
destes nossos novos tempos. Iniciada de forma virtual, nossa amizade tomou corpo em três cidades, duas de morada – Nova
Friburgo e Lisboa – e a outra, Rio de Janeiro, servindo de ponte.

Encontrei em Luiza a alma de Fernando. Alma que expõe tormento e angústia. Mesmo adulta, alma que procura a liberdade: “Não tenho para onde fugir sou um pássaro de asas cortadas”. E que constata a inexorável passagem do tempo: “No calendário do mundo, tombam folhas como lágrimas… Tão longe o que já foi perto!

Luiza - Fernando 3

Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos

 

Talvez no poema “Almas gêmeas” Luiza não pensou em Fernando… mas quem conhece Fernando Pessoa e Luiza Caetano, com certeza pensa neles ao ler estes versos:

Tal qual dois espíritos
se encontram e se perdem
na volatidade dos dias,

Dois espíritos
necessitados
do oxigénio do sonho
para reinventarem a vida,

Dois rios
que se encontram
na confluência dos mares
explodindo as marés,

Dois rios,
duas estrelas
ou dois vulcões

que se cruzam
se abraçam
ou se anulam

lutando contra
o inexorável limite
dos limites.

Para quem quiser o deleite máximo, vale a pena clicar aqui neste vídeo de Jorge Soares, que reúne Maria Bethânia, Fernando Pessoa e Luiza Caetano, e que começa com “Todas as cartas de amor são ridículas …”

 Autor: Catherine Beltrão