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Patricia Piccinini: rejeição e afeto, nessa ordem

Em poucos minutos, a rejeição ao olhar se transforma em afeto no coração. Vontade de tocar. De ficar junto. De deixar cair as lágrimas.

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Patricia Piccinini

Patricia Piccinini (1965) é uma artista que trabalha com uma grande variedade de mídia, incluindo pintura, vídeo, som, instalação, impressões digitais e escultura. Desde o dia 12.10.2015 até 04.01.2016 estará apresentando a exposição ComCiência no CCBB de São Paulo. Depois, a exposição também será apresentada em Brasília e no Rio.

O convite para a exposição é o Skywhale, um grande balão inflável, em formato híbrido de tartaruga e baleia, chamando a atenção por onde ela passa: “O que será isso? Tartaruga que voa? Baleia no céu?”

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Skywhale

As esculturas de Patricia Piccinini são feitas usando fibra de vidro e silicone e podem alcançar até 18 meses de execução. Suas criaturas são realizadas em um estúdio em Melbourne que, abrigado em uma antiga fábrica, mais parece um laboratório de efeitos especiais de cinema.

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“O tão esperado”. 2008.

A arte de Patricia é formada por criaturas bisonhas, estranhas, repulsantes ao primeiro olhar. A maioria de suas esculturas contrapõem seres humanos a seres surreais, mistura de animais com a imaginação da criadora das obras. A artista questiona por meio de sua pesquisa a maneira como se dá o nosso confronto com a estranheza.

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“O Visitante Bem-vindo”. 2011.

Não há como não comparar a arte de Patricia Piccinini e Ron Mueck (1958). Ambos australianos, os dois buscam a emoção de quem contempla suas obras. Ninguém sai de uma exposição de Patricia ou de Ron da mesma forma que entrou. Cada pessoa troca sentimentos com as obras, doando algo de si neste confronto.

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A questão emocional é fundamental na minha obra, pois é através da emoção que nos engajamos em algo”, explica Patricia. “Hoje em dia é muito difícil chamar a atenção das pessoas. Eu poderia fazer um trabalho entediante para provar quão intelectual eu sou, mas não é esse o meu objetivo. Quero me conectar com as pessoas. Sou inclusiva e o mundo da arte é o oposto.” E termina, comentando sobre as crianças adormecidas junto a seres estranhos: “Para que você durma com uma pessoa, você tem que realmente confiar nela”.

Para ver a matéria apresentada no Jornal Nacional da Globo, no dia 12.10.2015, inauguração da exposição,  sobre a exposição ComCiência, clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Da série “Quase cinzas de uma obra permanente”: exposição de 46

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Capa do convite da exposição de 1946, no Palace Hotel

Em junho de 1946, Edith Blin (1891-1983) fez sua terceira exposição, no Palace Hotel, à Av. Rio Branco, 185, no centro do Rio de Janeiro. Foram dezenas de publicações nos jornais da época. Em seu book de recortes de jornais, encontramos ainda parte destas relíquias, amareladas pelos quase setenta anos decorridos.

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Matéria de Lopes da Silva: “A próxima exposição de Edith Blin”

Lopes da Silva, um dos grandes críticos de arte na época, escrevia a matéria “A próxima exposição de Edith Blin“:

No dia 16 do corrente, Edith Blin fará sua quarta (terceira) exposição individual apresentando seus últimos trabalhos no salão nobre do Palace Hotel. A admirável figurista, cuja técnica é das mais vigorosas, firmou-se entre nós como uma das mais distintas pintoras, quer pela sensibilidade que personaliza sua arte, quer pela potencialidade que marca sua maneira de pintar, denunciando uma força interior digna de nota. Filha da velha França, Edith Blin aqui ratificou-se há um punhado de anos e, desde então, vem trabalhando com decisão e entusiasmo, tendo já realizado várias exposições, todas coroadas de absoluto êxito. Hábil na maneira de pintar “nus”, aos quais empresta uma suavidade e delicadeza excepcionais, Edith Blin tem visto adquiridas todas as suas telas desse gênero, hoje integrando as mais credenciadas galerias da terra carioca – terra que ela, francesa da Normandia, ama e idolatra com Edith_expo46.4um enternecimento que muito a recomenda a nossa simpatia. Após a sua mostra de agora, que a sociedade carioca aguarda com indisfarçável interesse, a festejada pintora francesa irá até sua pátria, onde pretende expor uma série de quadros sobre motivos cariocas. E, de regresso ao Rio, o que dará dentro de um ano no máximo, Edith Blin mostrará aos seus admiradores, entre os quais nos incluímos, todos os trabalhos que realizar na sua gloriosa e sempre admirada França. 

Ao lado, a relação de obras que participaram da exposição de 46. Na parte interna do convite, várias opiniões da crítica sobre Edith Blin. Entre elas, podemos destacar:

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Opiniões da crítica sobre Edith Blin

O que ela pinta é expressivo e eloquente, porque em suas telas ela derrama tudo o que a inquieta e faz sofrer” – Jean Manzon

As qualidades de pureza espiritual, de encantada castidade que envolvem as figuras nuas e surgem das telas de Edith Blin onde ela aborda o grande tema clássico e o resolve com segurança… ” – Edmundo Lys

“… E após um demorado exame, vencidos pelo encanto, pela fortaleza e brilho…” – Lopes da Silva

“… Le public attend ce future spectacle d’art fort et pur…” – Andrée Symboliste

É impossível não se encantar e se emocionar com estes textos e estas imagens, extraídas de um tempo que eu teimo em não deixar perder. E assim como Marcel Proust escreveu em seu fabuloso “À la recherche du temps perdu“, as relíquias nos fazem pensar sobre o tempo que passa, sobre o momento presente, sobre o momento passado, sobre o momento passado revivido no momento presente.

Autor: Catherine Beltrão

Duas damas da Arte em Nova Friburgo

Hoje o foco é na cidade onde moro. Na Arte da cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. E neste mês de julho, esta arte se concentra no lugar-mor dos expositores, a Usina Cultural Energisa, no centro da cidade, bem em frente à Praça Getúlio Vargas, ou melhor, ao que restou da Catedral de Eucaliptos, após o abate de dezenas de árvores centenárias em janeiro passado. Mas voltemos ao foco.

Entre os dez expositores da Expoação, estão Adair Costa e Rose Aguiar, duas artistas de longa data, uma pintora e outra fotógrafa. Duas grandes damas que respiram e fazem brotar a arte do cotidiano, das pequenas e não pequenas coisas vivenciadas ou imaginadas.

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Rose Aguiar, com quatro de suas foto-artes.

Conheci Rose Aguiar faz pouco tempo. Suas foto-artes encantam o olhar e intrigam a mente. Enquanto alguns tentam fazer da arte uma fotografia, Rose caminha no sentido inverso, transformando fotos em arte. A partir de objetos e elementos reais, os espaços que surgem são quase abstratos, quase anamórficos.

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Rose Aguiar, com um tríptico foto-arte.

Extremamente bela a sua proposta e totalmente genuíno o seu propósito.  Paisagens urbanas vistas através de vidraças “enchuvaradas” nos deixam de alma lavada… assim como vidros coloridos engavetam cada um de nossos pensamentos!

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Adair Costa, com um de seus “Recortes urbanos”

Conheci Adair Costa em 2002, quando ela doou a obra “Silêncio” para o Museu ArtenaRede.

Como ela mesma define seu trabalho, é uma feliz mistura do real com o imaginário. A partir de alguns elementos reais, a imaginação elabora o resto…  “O artista já vive diariamente pensando como vai elaborar o seu trabalho”.

Na presente Expoação, Adair apresenta três “Recortes urbanos“, com acrílica sobre tela. Adair Costa atravessa uma fase de colorido intenso e provocante, que nos conduz também a um imaginário alegre e de bem com a vida. Sua arte contemporânea, contrariamente à maioria, não choca nem agride. Ela embala nossos sonhos e fantasias. Simples assim. E isso é fantástico!

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Adair Costa, com mais dois trabalhos da série “Recortes Urbanos”

 

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“Silêncio”, de Adair Costa. 2001, técnica mista, 100 X 100cm

Falei da obra “Silêncio“, doada ao Museu ArtenaRede. Aí está ela. E assim falava Adair Costa, em 2002: “Hoje, meu trabalho parte de exercícios de concentração. Deixo surgir livremente a sensibilidade para idéias que vão tomando corpo através de desenhos mentais. Assim sendo, prossigo caminhando para uma ação ( no caso da tela) onde vão se construindo e tomando forma imagens, através da apropriação de materiais e tintas que são cuidadosamente estudados, com vistas ao papel de interrelação, interação e transformação no tempo, dando origem a obras, sem a preocupação de identidades  pré-estabelecidas, mas com características de Abstração Informal.”

 Autor: Catherine Beltrão

Megaexposições, uma tendência

As megaexposições estão tomando conta das grandes cidades.  É uma constatação. Mas por que será?

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Ron Mueck

Em 2014, o eixo Rio-São Paulo apresentou quatro megaexposições em nobres espaços de arte: Ron Mueck no MAM/RJ e Pinacoteca/SP, Dali no CCBB-RJ e Instituto Tomie Ohtaque-ITO/SP e Miró na Caixa Cultural/RJ.

E 2015 mal começou e a mostra de Kandinsky já aparece no CCBB-RJ, após ter sido visitada por mais de 243.000 pessoas no espaço cultural do banco em Brasília .   Em abril, será a vez de Miró no ITO/SP.

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Salvador Dali

Todas estas exposições atraíram centenas de milhares de visitantes. Com certeza, não se trata de preferências de estilos ou de movimentos artísticos. Salvador Dali (1904-1986) e Joan Miró (1893-1983) representam o Surrealismo. Wassily Kandinsky (1866-1944) é o maior nome do Abstracionismo e Ron Mueck ( 1958) atrai multidões com suas figuras hiperrealistas.

O que faria 978.000 pessoas, só na exposição do Rio, enfrentarem horas na fila, para ver algumas obras do Dali? E o que encanta as nove obras de Ron Mueck, apresentadas nas mostras do Rio e São Paulo, para as mais de 600.000, que também enfrentaram horas de espera, embaixo de sol e chuva? Seriam amantes da Arte? Seriam fãs incondicionais dos artistas? Óbvio que não. A grande maioria, definitivamente, não.

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Joan Miró

Uma rápida pesquisa junto aos enfileirados, pode responder à pergunta: “Um(a) amigo(a) já veio ver a exposição, gostou e …  vim conferir“; “Talvez eu não tenha outra oportunidade…”. Estas respostas são fantásticas! Demonstram que existe uma curiosidade latente, uma vontade de absorver cultura, que é o que move grande parte dos que viajam para o exterior, à cata de museus, renomados ou não.

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Wassily Kandinsky

Mas, infelizmente, existem também os que enfrentam a tal fila e, lá dentro do espaço, não são capazes de admirar obra alguma, tão estressados e ocupados estão em tirar fotos e selfies, com ou sem pau, para postar nas redes sociais… uma lástima!

Que venham mais exposições, mega ou mini, em espaços nobres ou não. Precisamos de arte!

Autor: Catherine Beltrão

Exposição com desenhos e gravuras de Miró chegou ao Rio de Janeiro

Depois de temporada em São Paulo e Curitiba, a exposição “A Magia de Miró″ foi inaugurada nesta recente terça-feira, dia 29,  na Caixa Cultural do Rio de Janeiro (coladinho ao metrô da Estação Carioca), onde fica até setembro.

Obra "La Cascade" (1964), de Miró. Litografia/papel (divulgação)

Obra “La Cascade” (1964), de Miró. Litografia/papel (divulgação)

Na mostra são apresentadas 69 obras do artista espanhol e 23 fotografias (em P&B) do próprio Miró registradas por Alfredo Melgar, fotógrafo galerista em Paris e curador da mostra no Brasil.  A entrada é gratuita.

A exposição procura revelar um plano mais íntimo e pessoal do mundo de Miró ao exibir esboços ou notas, além de obras produzidas sobre papel, com lápis e giz de cera ao longo dos últimos cinco anos de vida do artista.

Foto por Alfredo Melgar, no ateliê, 1980. Da esquerda para direita, o pintor cubano Baruj Salinas, o poeta francês Jacques Dupin, o escritor cubano Carlos Franqui, Joan Miró e o diretor da Bienal de Venezia, Luigi Carluccio. (divulgação)

Foto por Alfredo Melgar, no ateliê, 1980. Da esquerda para direita, o pintor cubano Baruj Salinas, o poeta francês Jacques Dupin, o escritor cubano Carlos Franqui, Joan Miró e o diretor da Bienal de Venezia, Luigi Carluccio. (divulgação)

Já as ilustrações correspondem a diferentes épocas da sua produção, entre 1962 e 1983, e remetem ao universo do processo criativo do artista espanhol.

Após a temporada no Rio, a mostra segue para Recife e Salvador.

Serviço
Exposição “A Magia de Miró″
Quando:
 29 de julho a 28 de setembro de 2014 (terça-feira a domingo), das 10h às 21h
Onde: Caixa Cultural Rio de Janeiro – Galeria 3 – Av. Almirante Barroso, 25 – Centro (Metrô: Estação Carioca)
Quanto: Entrada gratuita
Classificação indicativa: Livre
Acesso para pessoas com deficiência
Mais informações: (21) 3980-3815

Dali visto daqui (Parte II)

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Salvador Dali

A partir de 29 maio até 22 de setembro, uma mega exposição de 150 obras de Salvador Dali estará acontecendo no Brasil, no CCBB/RJ, em comemoração aos 25 anos da instituição. Pinturas, gravuras, documentos, fotografias e ilustrações produzidas entre 1920 e 1982 serão expostas, com ênfase no período surrealista, que consagrou o artista.

Uma das pinturas mais importantes da exposição é “Figuras tumbadas en la arena” (1926), da época em que Dali conheceu Pablo Picasso e foi influenciado pelo cubista.

Dali - figuras tumbadas em la arena - 1926

“Figuras tumbadas em la arena” – 1926

As peças que vem ao Brasil pertencem aos três maiores acervos de Salvador Dali no mundo: o da Fundação Gala-Salvador Dali — que mantém, além do Teatro Museu Dali, em Figueras, outros dois museus (o Castelo de Púbol e a casa de Portlligat, que o artista construiu em Cadaqués, às margens do Mediterrâneo) —, o do Salvador Dali Museum, na Flórida e o do Museu Reina Sofía, em Madri.

À luz de Portlligat, uma área de pescadores na minúscula cidade de Cadaqués, Dali pintou, entre outras telas, “El pie de Gala”, obra que também estará exposta no Brasil. Em tempo: Gala foi a mulher-musa de Dali, que abandonou o poeta Paul Elouard e sua filha para ficar com o artista em 1929.

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“El pie de Gala” – 1975/76

Dali - casa Portlligat

Casa de Portlligat, em Cadaqués

A casa de Portlligat, conhecida por ter ovos de gesso gigantes instalados no telhado, recebe visitas de pequenos grupos de até oito pessoas por vez, que têm 40 minutos para percorrer o estranho acervo de dentro da casa: um urso branco empalhado segurando um abajur e com o peito coberto de medalhas, além de corujas, cisnes, bodes, gaiolas para grilos, esquilos, leões e veados de pelúcia.  No closet do casal, cobrem os armários fotos de Dali com várias personalidades como o Papa João XXIII, o ator Gregory Peck, o general Franco, o artista Marcel Duchamp e a estilista Coco Chanel, entre outras.

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“Autoretrato cubista” – 1923

Esta exposição de Salvador Dali pretende superar a marca recorde de 561.142 visitantes que O CCBB recebeu em 2012 em uma exposição de impressionistas que incluiu obras de Monet, Cézanne, Renoir, Gauguin e Van Gogh. As obras da exposição tem valor estimado em cerca de R$ 400 milhões e o orçamento da mostra brasileira ficou em R$ 9 milhões, um terço custeando apenas os direitos autorais das peças.

Em outubro a exposição será levada para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Fontes: http://oglobo.globo.com/cultura/exposicao-de-9-milhoes-traz-ao-rio-em-maio-obras-de-dali-11936839#ixzz31KGIfLiY e http://catracalivre.com.br/rio/agenda/gratis/maior-exposicao-da-obra-de-salvador-dali-no-brasil-desembarca-no-ccbb/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter&utm_campaign=TwitterRio

 Autor: Catherine Beltrão

 

Dali visto daqui (parte I)

No espaço de menos de um ano, três exposições de Salvador Dali terão sido apresentadas ao público brasileiro.

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Salvador Dali

Salvador Dali (1904-1989), nasceu e morreu na Catalunha, Espanha. Passou pelos movimentos do Dadaísmo, Cubismo e Simbolismo, mas até hoje é considerado o nome mais importante do Surrealismo. Dali produziu mais de 1500 quadros ao longo da sua carreira, e também ilustrações para livros, litografias, desenhos para cenários e trajes de teatro, um grande número de desenhos e dezenas de esculturas, além de projetos para cinema. Tinha uma reconhecida tendência a atitudes e realizações extravagantes destinadas a chamar a atenção, o que aborrecia os que apreciavam a sua arte, ao mesmo tempo que incomodava os seus críticos, já que sua forma um tanto quanto excêntrica tendia a eclipsar o seu trabalho artístico.

A primeira das exposições, “Dali, a Divina Comédia“, aconteceu em 2013, passando pelo Rio de Janeiro, Curitiba, Recife e São Paulo, nos espaços da Caixa Cultural destas cidades.

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Purgatório – O reino dos penitentes

Assim como a obra “Guerra e Paz“, de Cândido Portinari, nasceu a partir de uma solicitação de doação de obra de arte aos países membros para a sede da ONU (vide post neste blog), o governo italiano, em meados do século XX, para comemorar os 700 anos de nascimento de Dante Alighieri, encomendou a diversos pintores obras em homenagem ao grande poeta. Salvador Dali produziu, entre 1950 e 1960, 100 xilogravuras inspiradas na obra A Divina Comédia.

Com curadoria de Rodolfo de Athayde e Ania Rodriguez, a exposição “Dali, a Divina Comédia“ foi estruturada nos moldes da obra de Dante. Em três ambientes, as 100 xilogravuras de Dalí percorrem a viagem imaginária do poeta, desde o Inferno (com 34 imagens) em que Dante foi acompanhado por Virgílio até o centro da terra, onde se depara com Lúcifer; depois, guiado pela amada Beatriz, quando regressa à superfície e passa pelo Purgatório (33 imagens), até chegar a ser admitido no Paraíso (33 imagens).  As gravuras de Dalí ilustram, um a um, os cantos do poema épico de Dante.

A segunda exposição de Dali no Brasil nestes últimos meses se intitula “Salvador Dali – Esculturas“, com a curadoria de Francisco Lara, inaugurada em abril e cuja visitação se estenderá até 15 de junho de 2014, na galeria Vitrine da Caixa Cultural de Brasília/DF. A mostra reúne 26 esculturas, produzidas entre 1970 e 1981, confeccionadas em bronze com técnica de fundição por cera.

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Um quadro do pintor Francisco de Goya serviu de impulso para Salvador Dali criar toda uma série de esculturas no início dos anos 1970. Durante um passeio com a mulher, Gala, pelas ruas de Madri, o artista se deparou com um retrato de São Paulo pintado por Goya no século 18 e pendurado no interior de uma galeria. O dono da loja, Isidro Clot, apresentou Dali à obra e deu início a uma relação que resultaria em 44 moldes de escultura em cera, negociados em troca da pintura de Goya e de uma série de pagamentos sucessivos realizados ao longo dos anos.

Dali vendeu a Clot os direitos de reprodução das obras em diversos tamanhos e com diferentes utilidades. O conjunto foi batizado de Coleção Clot. As obras que vieram ao Brasil pesam, em média, 4 toneladas, e, por causa das dimensões, as peças viajaram de navio da Espanha até o Brasil. O curador fez uma montagem pedagógica para explicar a questão da autoria na arte.  Além das 24 peças consideradas originais, foram incluídas duas outras que não pertencem à Coleção Clot, embora sejam tidas como obras de Salvador Dali. As obras feitas para Clot são consideradas originais porque foram modeladas pelo próprio artista e reproduzidas em edições de apenas oito exemplares, detalhe que, no mercado de arte, é responsável pela autenticação da autoria e valorização da obra.

A continuação do texto segue em outro post, “Dali visto daqui (parte II)”.

Fontes: http://www.favodomellone.com.br/dali-a-divina-comedia-mostra-aproxima-literatura-e-artes-visuais/ e http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2014/04/13/interna_diversao_arte,422854/exposicao-com-26-esculturas-de-salvador-dali-chega-em-brasilia.shtml

 Autor: Catherine Beltrão

Obras da brasileira Lygia Clark são expostas no MoMa, em Nova York

A pintora e escultora brasileira Lygia Clark vai ganhar sua primeira grande retrospectiva nos Estados Unidos. Entre os dias 10 de maio e 24 de agosto, o Museu de Arte Moderna de Nova York – MoMA vai exibir quase 300 obras da artista, entre pinturas, esculturas e instalações. A exposição, chamada “Lygia Clark: O Abandono da Arte, 1948-1988”, será também o tema de um documentário dirigido por Daniela Thomas.

Os trabalhos expostos, que reúnem todas as fases da obra da artista plástica brasileira Lygia Clark, serão apresentados pela primeira vez no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMa. É a primeira grande exposição nos Estados Unidos da artista, que é autora da obra de arte brasileira mais valiosa até hoje — “Superfície modulada nº 4”, de 1958, comprada por R$ 5,3 milhões num leilão em São Paulo no ano passado — e que atrai cada vez mais atenção internacional. Além de agrupados por datas, seus desenhos, pinturas, esculturas e projetos participativos são organizados em três temas-chave no sexto andar do MoMA: abstração, neoconcretismo e, claro, o “abandono da arte”.

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Mineira de Belo Horizonte, mas presente no Rio de Janeiro e em Paris, Lygia Clark tem uma obra difícil até de ser definida devido a seu aspecto atemporal, mas certamente a palavra genialidade pode ser utilizada como predicado. Reconhecendo isso, o MoMA presta um solene tributo,  dedicando suas galerias mais importantes às obras de Lygia.

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Divulgção/MoMA/Alécio de Andrade/Cortesia Associação Cultural “O Mundo de Lygia Clark”, Rio de Janeiro

Trata-se verdadeiramente de uma mostra de consagração. Para nós é uma honra e um privilégio ter a possibilidade de expor a obra completa de Lygia Clark, desde o começo da sua carreira até o final, no MoMA.  Acho mais importante para o MoMA do que para a Lygia”, diz o  curador de arte latino-americana do museu, Luis Pérez-Oramas, que organizou a exposição com a curadora-chefe do Hammer Museum de Los Angeles, Connie Butler.

A exposição “O abandono da arte” reúne todas as fases da artista. No começo, a influência de um artista importante: Roberto Burle Marx.

Nas superfícies moduladas, a moldura do quadro é uma extensão da obra. O neo-concretismo, um movimento brasileiro, que resultou na série de esculturas “Bichos“.

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Para Eduardo, filho de Lygia, ver uma exposição tão grande foi como reencontrar a mãe, que morreu há 26 anos. “Desde o início, quando ela começou a pintar, ela tinha um objetivo, uma missão. Eu tenho a impressão que aqui, hoje, ela está completando essa missão“, afirma Eduardo Clark, filho de Lygia.

A exposição em Nova York revela uma preocupação que a Lygia Clark sempre teve: ela queria que o público fosse muito mais que apenas espectador de suas obras. E conseguiu. Uma das provas é a instalação ‘A casa é o corpo’, que a Lygia criou para a Bienal de Veneza, em 1968.

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A exposição se estende ao quarto andar do museu, onde foi remontada a instalação penetrável “A casa é o corpo”, de 1968. O MoMA aproveita para apresentar, de carona, a mostra “On the edge: Brazilian film experiments of the 1960’s and early 1970’s”, com filmes experimentais de Anna Bella Geiger, Arthur Omar, Glauber Rocha e Neville D’Almeida, entre outros. Até o fim da mostra, em 24 de agosto, haverá ainda workshops com artistas como Carlito Carvalhosa, Michel Groisman, Ricardo Basbaum e Allison Smith.

Autor: Eduardo Vieira

 

A Ciência pelo Caminho das Artes (parte II)

O projeto “A Ciência pelo Caminho das Artes” consiste na apresentação da trajetória de Ivan Beltrão (1923-1979), que percorreu caminhos da ARTE e da CIÊNCIA, mostrando algumas de suas relações, interseções e tangenciamentos.

Como já foi dito no post A Ciência pelo Caminho das Artes (parte I)”, Ivan foi matemático, engenheiro, cientista, poeta e pintor.

O primeiro passo do projeto foi dado em novembro de 2013, na Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, dentro do contexto do III Equinócio Cultural. Na ocasião, foram expostas 16 obras de Ivan de épocas e temas variados: barcos, rostos, flores, cidades, planetas, cristos.

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Baner Ivan – pintor. Criador da arte: Eduardo Vieira

Ivan assinava suas obras como Ivan Blin. Autodidata, nunca frequentou qualquer escola de desenho ou de pintura. Começou a desenhar em meados da década de 50. É um pintor fauve, que vem da palavra fauvisme. 

Matisse – “La Femme au chapeau”, 1905, 80,7 X 59,7 cm

Fauvisme é uma corrente da pintura do início do século XX e se caracteriza pela audácia e pela novidade de suas pesquisas cromáticas. Estes pintores recorrem a largas pinceladas ou espatuladas com cores violentas, puras. Eles separam a cor e sua referência ao objeto a fim de acentuar a expressão e reagem de forma provocadora contra as sensações visuais e a doçura do impressionismo. Principais nomes: Henri Matisse (1869-1954) e André Derain (1880-1954).

 

As 16 obras de Ivan foram expostas no hall de entorno da cúpula Galileu Galilei da Fundação Planetário. Abaixo, duas destas obras:

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Ivan Blin – “Barco colorido em fundo escuro”

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Ivan Blin – “Cristo 2″

Fundamentado pelas Leis das Curvaturas, Ivan afirmava que  “as curvaturas do Universo são feitas para se unir, tanto na espiral de uma galáxia quanto numa nuvem eletrônica que envolve o proton para formar um átomo de hidrogênio.” Em outras palavras, o macro e o micro são regidos pelas mesmas leis!

Mas como isto poderia ser mostrado no contexto de uma exposição de pintura, de forma lúdica e inteligível, sem utilizar fórmulas complexas de Matemática, Física, Biologia ou Cosmologia, apresentadas no livro de meu pai?

Para esta primeira apresentação do projeto “A Ciência pelo Caminho das Artes“, em uma cúpula da Fundação Planetário, tive então um insight! Ao fazer alguns zooms (micro) das obras em exposição, percebi que essas imagens se pareciam muito com nebulosas (macro). Se essas imagens fossem inseridas em um fundo de céu estrelado e projetadas na cúpula, o efeito poderia ser fantástico… e se, além disso, as nebulosas se movimentassem de um lado para outro e pra frente e pra trás, com um fundo musical adequado ao contexto, com certeza o resultado seria totalmente inédito e inesquecível!

No dia da abertura da exposição, apresentei uma palestra sobre o projeto na cúpula Galileu Galilei. Ao final da apresentação, uma surpresa: pequenas partes de algumas das obras expostas tinham sido tratadas com zoom sobre fundo estrelado e projetadas na cúpula, imagens que pareciam verdadeiras nebulosas, dançando ao som do “Danúbio Azul“, de Richard Strauss…

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Zoom de parte da obra “Cristo 2″, aplicada em fundo estrelado

 

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Zoom de parte da obra “Casa na montanha”, aplicada em fundo estrelado

 

E que venham as próximas etapas do projeto “A Ciência pelo Caminho das Artes“!

Mais informações sobre Ivan Beltrão: www.ivanbeltrao.com

Autor: Catherine Beltrão

Você já viu Ron Mueck no MAM – RJ?

Com sucesso absoluto de público em Paris e Buenos Aires, a exposição com as esculturas hiper-realistas do australiano Ron Mueck chegou ao Museu de Arte Moderna do Rio no dia 20 de março, única cidade brasileira que irá receber a mostra.

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Mueck já é reconhecidamente um fenômeno no meio das artes, ainda que o próprio evite ao máximo circular socialmente nesses ambientes.

O acervo do escultor é ainda pequeno, com cerca de 40 obras, muitas ainda de acervo pessoal. Outras unidades são pertencentes ao museu Tate em Londres ou a Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, responsável pela exposição em Paris e na América Latina.

Esse número ainda incipiente de obras, por si só, já nos dá uma dimensão da qualidade e curiosidade pelo trabalho de Mueck. É difícil citar artistas que tenham alcançado um patamar de reconhecimento mundial com tão poucas obras e em tão pouco tempo ´no mercado´.

Um de seus primeiros trabalhos artísticos, a obra “Dead Dad” (finalizada em 1997), se tornou uma das esculturas mais famosas mundialmente, contrariando tanto o ideal clássico da escultura quanto o da abstração modernista.

As características visuais da obra de Mueck formam um produto final bastante apropriado ao contexto atual, pelo estilo plástico hiperrealista e inusitado, de potencial altamente popular quando levamos em conta a quantidade de megapixels presentes em nossas câmeras digitais ou celulares de última geração, sempre no punho da geração  mais exibicionista de toda a história, disposta a compartilhar imagens e impressões (muitas vezes rasas) nas redes sociais.

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Aliás, prepare-se para, em meio a apreciação das esculturas, para ouvir seguidamente os ´clicks´ de ´selfies´ tirados pelos demais visitantes e até mesmo para, a pedidos, ajudar alguém a tirar uma divertida foto, dadas as proporções e tamanhos de algumas obras, característica  muito bem explorada pelo artista, garantindo reações das mais diversas, e divertidos instantâneos capturados.

Mueck trabalha sem pressa, sem brigar com o tempo em um ateliê em Londres, onde mora. Pode passar uma hora e meia fazendo apenas o olho de uma escultura. Tanto perfeccionismo teve origem ainda na infância, nas cobranças do pai, um alemão rigoroso. “Quando era criança, ele já fazia os bonecos e as marionetes para vender no mercado. O pai ficava o tempo todo dizendo ‘não, muda, não está bom, faz de novo’. Era uma exigência e daí essa super perfeição, esse detalhismo que ele tem para tudo”, conta Carlos Alberto Chateubriand, presidente do MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro.

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A realidade (ou hiper-realidade) de seu trabalho é oriunda dessa paciente trabalho, feito a partir de materiais como resina, fibra de vidro e silicone. Ron Mueck revitalizou a escultura figurativa contemporânea, fazendo uso de uma rica diversidade de fontes, tais como fotografias jornalísticas, histórias em quadrinhos ou obras de arte históricas, memórias proustianas ou fábulas e lendas antigas, iluminando as verdades universais. Estes temas que parecem ser tão comuns também irradiam uma espiritualidade e profunda humanidade que provoca uma resposta.  Visando muito além das tradições do retrato, Mueck revela a natureza misteriosa da nossa relação com o corpo e a existência.  Trata-se de um trabalho único, muito realista sobre a vida humana, sobre a vida em geral.

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É muito curiosa a escala em que o artista trabalha. Quando você tende a ver uma escultura humana em grandes proporções, você tende a encará-la como um monumento, mas essa, definitivamente, não é a sensação quando se avista suas obras. Pelo contrário, elas parecem familiares e íntimas.

O presidente do MAM ainda explica que a figura que está em um barco à deriva é o pai do artista Ron Mueck. Em outra escultura, o próprio Mueck está retratado.

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Fotos de jornal, lendas e até desenhos animados. Tudo isso serve de inspiração para Ron Mueck. Em uma obra, chamada “À Deriva”, ele fez a partir de uma fotografia de um grande amigo, que tinha morrido. Uma homenagem eternizada pela arte.

As esculturas são carregadas de tensão. Mueck é um homem que gosta de estar só.  Ele foge de aglomerações,  que,  ironicamente,  é por onde passam suas exposições que batem recordes de público e de fotos que os visitantes tiram das obras.

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A exposição no Rio recebe nove obras de Mueck, um conjunto muito representativo do trabalho do artista, segundo a curadora da mostra Grazia Quaroni. Além das esculturas monumentais, a mostra exibe o documentário “Still Life: Ron Mueck At Work” (2011-2013), de Gautier Deblonde, que apresenta o artista trabalhando em seu ateliê e mostra o trabalho que ele faz com as mãos, sem utilizar recursos de computadores, segundo seu assistente, Charlie Clarke.

Entre as obras, três são inéditas e foram produzidas em 2013, especialmente para a mostra na América Latina. São elas “Woman With Shopping” (Mulher com as Compras), “Young Couple” (Jovem Casal) e a maior obra da exposição, “Couple Under a Umbrella” (Casal debaixo do Guarda-Sol).

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Aliás, prepare-se para as filas. Em poucos dias, um total de 15 mil visitantes já haviam passado pela  exposição, surpreendendo até mesmo os responsáveis pela organização.  A expectativa é levar pelo menos 300 mil pessoas até o fim da mostra, cujo encerramento será no dia 1º de junho. O público também é bastante variado, compreendendo várias faixas etárias e até visitantes de outros estados e países.  Chateaubriand informa que essa mesma exposição atraiu 400 mil pessoas em Paris e outras 180 mil quando passou por Buenos Aires.

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Ron Mueck
MAM-Rio – Museu de Arte Moderna do Rio
Av. Infante Dom Henrique 85 – Parque do Flamengo
Rio de Janeiro – RJ
ter – sex 12h – 18h
sab – dom e feriados 12h – 19h
a bilheteria fecha 30 min antes
www.mamrio.com.br

Informações / serviço: http://mamrio.org.br/museu/servico/

 Autor: Eduardo Vieira