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O sertanejo é, antes de tudo, um forte

Euclides da Cunha escreveu uma das frases ícones da literatura brasileira: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

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Primeira edição de “Os Sertões (Campanha de Canudos)” – 1902

A obra literária “Os Sertões“, de Euclides da Cunha, é considerada uma das três grandes epopeias da língua portuguesa, podendo ser comparada à “Ilíada“, assim como “Os Lusíadas” podem ser comparados à “Eneida” e “Grande Sertão: Veredas”, à “Odisseia“.

Mas, infelizmente, não são muitos os que conhecem Euclides da Cunha (1866-1909), um dos maiores nomes da literatura brasileira.  Nascido na cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro, ele foi um escritor, poeta, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geógrafo e engenheiro. Sua morte trágica, em que foi assassinado pelo amante da sua esposa Anna de Assis, é conhecida como a “Tragédia da Piedade“.  Até hoje o episódio permanece em discussão.

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Ilustração de O Malho feita em 1909 tenta reconstituir o tiroteio que lhe tirou a vida. (Imagem: Reprodução / original da Fundação Joaquim Nabuco)

Como correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo em Canudos/Bahia, Euclides reuniu material que serviriam para elaborar, durante cinco anos,  “Os Sertões: campanha de Canudos“, publicado em 1902.

Abaixo, trecho da segunda parte de “Os Sertões“: O Homem

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Euclides em desenho a nanquim bico-de-pena, 16 x 13cm, por Cândido Portinari. 1944. Reprod. de Perfil de Euclydes e outros perfis, de Gilberto Freyre, p. 19.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem  ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (…)

É o homem permanentemente fatigado.”

A poesia sempre acompanhou Euclides da Cunha em toda a sua trajetória de vida conturbada. Abaixo, o soneto que escreveu em 1890, para Saninha, (Anna de Assis), sua mulher:

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Euclides a nanquin sobre papel retratado por Tarsila do Amaral. Reprod. de Arte e Pintura brasileira “apud” Diários Associados de São Paulo, [194 -].

 “Ontem, quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias…Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema…
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias…

Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!

E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte…”

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Da esquerda para a direita: Anabelle Loivos, Janaína Botelho e Jane Ayrão, em mesa-redonda sobre Euclides da Cunha, na FLINF.

Escrevi este post após ter ficado inebriada com uma mesa-redonda que assisti na FLINF – Festa Literária de Nova Friburgo, no último domingo dia 16.10, intitulada “Euclides da Cunha, o poeta dos sertões“.  Três mulheres espetaculares – Janaína Botelho, Anabelle Loivos e Jane Ayrão - traçando os contornos e não contornos deste gigante de nossa literatura!

Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.”

 Autor: Catherine Beltrão