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As flores de Edith

O que faz uma flor encantar um artista?

Na verdade, as flores encantam qualquer pessoa, seja artista ou não, seja poeta ou não. A beleza, a cor, o perfume, a forma, tudo se funde e, como se fosse uma mágica, se transforma em um pedaço de nossa alma, que queremos partilhar com alguém. Por isso, gostamos de dar flores, por isso gostamos de receber flores.

Edith - Bracada de flores

“Braçada de flores”, ost, déc.50, 60 X 50 cm

Mas um pintor quer mais. Ele quer registrar este momento de partilha. Ele quer partilhar com mais gente e por muito mais tempo, o encantamento que sua alma sentiu. Foi este registro que Edith Blin (1891-1983) deixou, em nada menos de 126 obras com a temática flores.

Edith - Flores vermelhas em ascencao

“Flores vermelhas em ascensão”, ost, 1955, 82 X 65cm

Edith - Flores em erupcao

“Flores em erupção”, ost, déc. 50, 82 X 65cm

Em suas quatro décadas de pintura, Edith pintou flores em telas e cartolinas, a óleo ou pastel. Mas foi nos anos 50 que suas flores desabrocharam em seu mais contundente esplendor, algumas livres e soltas no ar, outras entremeadas a rostos e figuras.

Impossível não se emocionar com a “Braçada de flores“, por exemplo, ao se perceber que são as flores que tendem ao abraço e não o contrário.  Da mesma forma, as “Flores vermelhas em ascensão” arrebata o nosso sentimento em sua pretensão de que um único galho jovem e viçoso inicia a subida de uma escada sem fim…  e as “Flores em erupção” parece estar prestes a explodir, as flores vermelhas ainda seguras em um redemoinho branco em convulsão, querendo se desprender desesperadamente do chão.

Edith - Flores ao vento

“Flores ao vendo”, ost, 1957, 54 X 72cm

Em “Flores ao vento“,  os galhos floridos são levados pelo vento em meio à tempestade, e certamente estas flores  irão embelezar outras paisagens e outros tempos…

Edith - Flores em volteio

“Flores em volteio”, ost, 1955, 46 X 38cm

Após seu falecimento, a principal coletiva em que flores de Edith Blin participaram foi a “Exposição de Primavera“, realizada na D’Bieler Galeria de Arte, no Shopping Center da Gávea, em setembro de 1988. Junto a nomes como Scliar, Aldemir Martins e Sylvio Pinto, entre outros, as flores de Edith resplandeceram e inundaram de luz e força os espaços da exposição. As obras “Flores em volteio” e “Flores amarelas” participaram desta coletiva.

Em dezembro de 1986, na Sala de Exposições do Hotel San Marco, em Brasília, foi realizada a exposição “Flores no Final da Primavera“, constando de 25 obras, produzidas em dois períodos: de 1955 a 60 (técnica óleo sobre tela pintada com pincel) e de 1975 a 80 (óleo sobre cartolina colocada sobre eucatex com predominância da espátula). O sucesso de público e vendas foi enorme, a ponto de algumas obras terem sido disputadas por mais de uma pessoa, como ocorre em leilões.

Edith - Orquidea, rosas e violao

“Orquídea, rosas e violão”, ost, 1952, 73 X 60cm

Orquídea, rosas e violão” é uma das três obras criadas pela artista em que a orquídea é a protagonista do enredo, parecendo sussurrar ao ouvido de uma das rosas brancas que descansam sobre o violão.

Mesmo sendo suspeita para falar sobre as flores de Edith, não existem flores como as que ela pintou. São flores fortes e delicadas. Simbólicas e poéticas. Solitárias e sociáveis. Densas e translúcidas. As flores de Edith Blin são como sua alma.

Autor: Catherine Beltrão

 

Os pierrôs de Edith Blin

O Pierrô é um personagem de mímica e da Commedia dell’Arte, nascido na Itália do século XVI. Seu nome original era Pedrolino, mas foi batizado, na França do século XIX, como Pierrot. O seu caráter é o de um palhaço triste e ingênuo, sempre apaixonado pela Colombina, que sempre o deixa pelo Arlequim.

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“Carnaval”, carvão sobre papel, 42 X 32cm, 1943

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“Pierrot enfant”, aquarela sobre cartão, 30 X 22cm, década de 50

Em suas quatro décadas de produção pictórica, Edith Blin (1891 – 1983) pintou e desenhou pierrôs, quarenta e dois ao todo. O personagem era um de seus preferidos, tendo até feito uma exposição com este tema, nos anos 70. Em 1943, apenas poucos meses após a artista ter começado a pintar, ela desenhou seu primeiro pierrô, “Carnaval!”. Nos anos que se seguiram, produziu algumas aquarelas com o tema, entre as quais “Pierrot enfant”.

A partir dos anos 60, Edith passou a usar a cartolina preta como suporte para a maioria de seus trabalhos. Ela dizia que, desta forma, conseguia se livrar mais facilmente de alguma obra que fizesse quando não gostava do resultado. Era mais fácil rasgar uma cartolina do que uma tela… A maior parte de seus pierrôs foram feitos na década de 70. O meu preferido é o intitulado “Pedido“, onde se percebe que o tratamento pictórico desta obra, agressivo e vigoroso, dá força à expressão de súplica sofrida apresentado pelo pierrô.

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“Pedido”, óleo sobre cartolina, 50 X 37cm, 1970

Abaixo, três pierrôs: a “Pierrete” foi feita em 1964, em São Paulo, época de grande produção artística de Edith. “A dor do pierrô” mostra o personagem dentro da dor, sofrendo o desespero e a angústia da perda do amor. “Sonhos de uma noite de verão” seria uma interpretação da artista sobre a peça homônima de William Shakespeare …

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“Pierrette”, óleo sobre cartolina, 48 X 36cm, 1964. “Sonhos de uma noite de verão”, óleo sobre cartolina preta, 50 X 37cm, 1970

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“A dor do pierrô”, óleo sobre cartolina, 75 X 50cm, 1970

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“Desafio”, óleo sobre cartolina, 52 X 38cm, 1979

Em abril de 1979,  seu filho Ivan morreu. Na época, Edith tinha quase 89 anos. Para desfocá-la da dor terrível que sentiu com a perda do filho,  uma exposição foi programada para o mês de agosto, na Biblioteca Regional da Lagoa, à convite de sua diretora, Maria Helena Perfeito. A temática da exposição foi “Pierrôs”. Apresentando a exposição, escreveu Paschoal Carlos Magno: “Tendo o tipo aparentemente gasto pelo tempo, as mãos pequenas e alvas veiadas de azul mais puro, não precisa informar quantos anos tem. Ela é dos seres que não têm idade. Pois pertence à raça dos constantemente jovens. É certo que sofreu muitas dores físicas e morais. Mas não aprendeu o vocabulário da revolta, o fraseado das queixas. Quando se afasta do seu mundo, sua sensibilidade se multiplica naqueles seres de sonho que são os Pierrots. Cada um de seus pierrots vale como poesia, com suas caras esfarinhadas, suas roupas arcoirizadas. Um artista é um ser autônomo que se revela de maneira pessoal: sua arte não imita coisa alguma. A respeito da pintora Edith Blin, vale a pena repetir Malraux quando diz que todo grande artista descobre com seu estilo uma expressão do mundo. Este é o mistério e o estilo de Edith Blin.”

Entre as obras expostas, estavam “Renascer é preciso” e “Desafio”.  Esta última representa o pierrô depois do sofrimento, desafiando o mundo. A obra “Renascer é preciso” foi feita poucos dias depois da morte do filho Ivan. Percebe-se claramente o desamparo da mulher (representando ela própria) sendo abraçada pela figura do pierrô, personagem sempre presente em sua temática de figuras.

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“Renascer é preciso”, óleo sobre cartolina, 75 X 52cm, 1979

Uma curiosidade a respeito desta exposição: Edith chegou a fazer alguns retratos ao vivo no local, entre eles a da inesquecível repórter Maria d’Ajuda, mulher do cantor Carlos José.

Mais informações:

www.edithblin.com e www.artenarede.com.br

Autor: Catherine Beltrão

“Maquis”, de Edith Blin (1891-1983)

Em meu post anterior, disse que acreditava que a valorização de uma obra passava pela sua história, pela trajetória percorrida desde a sua criação.

Decidi então, a partir de agora, postar pequenos textos sobre as histórias que conheço sobre algumas obras, sejam elas de autores renomados ou não. Inicio esta série pela história de uma das obras-primas da pintora Edith Blin, intitulada “Maquis”.

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Edith Blin – “Maquis”, óleo sobre madeira, 41 X 33cm, 1945

Esta obra representa o rosto de um homem que participou da Resistência Francesa, na Segunda Guerra Mundial. Foi exposta pela primeira vez em 1945, de 14 a 30 de agosto, na Galeria Montparnasse, à rua Siqueira Campos nº 10, em Copacabana. Nesta ocasião, a autora não a vendeu mesmo tendo sido feita a oferta de compra de todos os quadros da mostra caso esta obra também fosse adquirida pelo comprador.

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Convite da exposição de 1946

Menos de um ano depois, em junho de 1946, a obra participou da terceira exposição da artista, desta vez no Salão Nobre do Palace Hotel, no centro do Rio de Janeiro, tendo sido, inclusive, sua imagem estampada na frente do convite da mostra.

Edith nunca vendeu esta obra. Após sua morte, o quadro participou da exposição do “Centenário de Edith Blin”, em 1991, realizada na Galeria PresenteArte, em Ipanema/RJ.

Para quem tiver curiosidade sobre a relação de Edith Blin com a Resistência Francesa, clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Edith Blin e a Resistência Francesa

Edith Blin nasceu em 22 de julho de 1891, na cidadezinha de Pontorson, na região francesa da Normandia. Essa cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, um dos ícones franceses mais conhecidos do mundo, junto à Tour Eiffel. Se todos os que visitaram o Mont Saint-Michel não conseguem mais esquecê-lo pela vida afora, não é difícil imaginar o que representava este lugar para Edith! Para ela, era simplesmente um lugar sagrado, símbolo maior da grandeza da França.

E por que iniciar este post falando do Mont Saint-Michel? O que ele  tem a ver com a Resistência Francesa? Para Edith Blin, tem tudo a ver. A paixão de Edith pela Normandia, a região onde nasceu, é a mesma paixão que a fez expressar seus sentimentos através da pintura, nos anos 40.

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Edith Blin nos anos 20, como atriz de teatro

Edith passou os primeiros 50 anos de sua vida sem ter nenhuma relação com pincéis e telas, não tendo frequentado sequer uma aula de pintura. Nos anos 20, trabalhou como atriz na Companhia de Teatro Molière, cuja sede ficava no nº 1 da Avenue du Congo, em Bruxelas, usando o nome de Edith Dereine. Após dois casamentos e tendo tido três filhos, foi somente em 1942, com a idade de 51 anos, que Edith decidiu pintar, desafiada por Georges Wambach, grande aquarelista e representante da iconografia brasileira. (Este episódio foi narrado em outro post deste blog, de 20.02.2014. Se quiser ler este post, clique aqui).

Mesmo habitando terras brasileiras, Edith se angustiava com o sofrimento de seus patrícios na Europa, vitimados pela Segunda Guerra Mundial. Resolveu então expressar seus sentimentos através da pintura.  Após o desafio de Wambach, foram 13 meses de trabalho intenso para Edith. No atelier improvisado de sua então moradia, situada à rua Miguel Lemos em Copacabana, nº 57, Edith desenhava e pintava, Edith pintava e desenhava. Colocava nos desenhos e nas telas toda a angústia que sentia pela França bombardeada, pelo seu povo sofrendo as atrocidades da guerra.

Edith - Cocorico

“Co-co-ri-co”, osm, 1942, 27 X 22cm

Edith - Normandie

“Normandie!”, ost, 1944, 27 X 21cm

Em 1943, Edith fez sua 1ª exposição, quando 46 telas foram expostas no Salão Nobre do Palace Hotel, no centro do Rio de Janeiro. A afluência de público foi enorme – muitos queriam ver as obras de uma pintora que havia  começado a pintar apenas há alguns meses – e a crítica foi unânime em elogiar a força expressiva que suas obras transmitiam. A grande maioria dos trabalhos foram figuras, fortes e vigorosas, com sentido patriótico.  Entre as obras apresentadas, estavam  “Cocorico” e  “Normandie!“. Entre as presenças que deixaram seu autógrafo em 18 folhas do Livro de Assinaturas da exposição, estavam Henrique e Yvonne Visconti Cavalleiro, Jarbas Vasconcellos, Lopes da Silva, Nivouliés de Pierrefort, Álvarus, Paulo Gagarin, João Austregésilo de Athayde, Georgina de Albuquerque, João Pott, Arnaldo Damasceno Vieira (assinou 6 vezes o Livro), ….

Edith - Paris

“Paris”, ost, 1943, 64 X 53cm

Edith - Maquis

“Maquis”, osm, 1945, 41 X 33xm

A 2ª exposição veio em 1945, quando 43 obras foram expostas na Galeria Montparnasse, à rua Siqueira Campos nº 10, em Copacabana. A França continuava sempre presente em suas telas: “Maquis” e “Paris” constavam desta exposição. Entre inúmeras matérias e críticas publicadas em jornais da época, eis o que dizia Edmundo Lys, crítico e grande amigo de Edith: “A essa exposição podíamos chamar “alma da França”, pois aquelas telas, aquelas figuras são momentos de beleza e heroísmo, espírito da França em imagens, por sobre as quais ondeia a bandeira tricolor e de cujo silêncio parece subir a voz da França, entoando o hino imortal da Liberdade.”

Em 1945, era esse o pensamento de Edith:  “Sobre a arte moderna, direi apenas que o assunto é por  demais vasto e complexo para  que possamos defini-lo.  Não concebo na arte uma maneira de pintar, um estilo.  Mas sim a maneira de sentir porque é a única maneira  capaz de exprimir alguma coisa de real significado. Não há maneira de  pintar, ela deve se diferenciar  em cada obra. A tensão  nervosa deve mudar segundo o tema a desenvolver. Esta é a minha opinião.”

Edith - Pieta

“Piétà“, osm, 1947, 102 X 78cm

Documento Tourville

Manuscrito sobre a batalha Tourville-sur-Odon

Em 1947, Edith  viajou para a França, realizando duas exposições em Paris,  uma na Galerie Séverin-Mars e outra na École des Beaux-Arts. Na cidade de Caen, Normandia, mais precisamente no dia 4 de outubro deste mesmo ano, foi colocado em leilão, em prol do Monumento Comunal do Cemitério Militar de Tourville-sur-Odon, a obra “Pietá“. Trata-se de uma obra fortíssima, um jovem carregando uma mulher nos braços, tendo por trás ruínas de uma cidade devastada pela guerra. Pelos relatos de Edith, teriam posado para esta pintura seu irmão Jean e sua sobrinha Jeannine. A cidade em ruínas seria Caen.

A doação desta obra para o leilão deu origem a um manuscrito – relatando a batalha de Tourville-sur-Odon e o agradecimento da cidade pela doação – oferecido para Edith. Acerca da obra “Pietá“, assim falou Paul Lecompte, grande prêmio de Roma: “Ela se eleva muito alto, acima da massa dos pintores e alguma coisa de indefinível, de misterioso -  que ultrapassa a todos nós – se desprende de sua obra. Simplesmente Edith, pássaro das ilhas, é uma grande, uma muito grande artista!

Mais informações: www.edithblin.com

Autor: Catherine Beltrão

 

De como “o pintor andarilho” fez nascer “a pintora da alma”

Georges Wambach (1901-1965), nasceu na Antuérpia/Bélgica e morreu no Rio de Janeiro. Chamado de “andarilho da pintura” pelo crítico José Roberto Teixeira Leite, Wambach viajou pelo Brasil afora, com cavalete, paleta, tintas e pincéis na mochila, registrando em pequenos álbuns uma grande variedade de locais desse imenso e belíssimo Brasil.

Edith Blin (1891-1983), nasceu em Pontorson/Bélgica e morreu também no Rio de Janeiro. Foi chamada de “pintora da alma”, pela forma como incorporava às figuras que pintava nas telas a alma dos modelos retratados e dos temas representados.

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Edith, como atriz, nos anos 20

Wambach, muito boêmio, conheceu Edith em 1926, na época em que ela era atriz de teatro. Edith era uma mulher lindíssima e, mesmo sendo casada e mãe de três filhos, atraía olhares e provocava emoções masculinas. Wambach ficou fascinado por essa atriz apaixonante e foi se aproximando da família… Fez retratos dos irmãos de Edith, dos sobrinhos, dos filhos… até chegar nela. E chegou. É dele um magnífico óleo sobre tela, o “Pommiers en fleur”, datado de 1937, pintado em frente à casa onde morava Edith na Normandia. A obra representa uma paisagem da região, com macieiras em flor e possui uma dedicatória a Edith: “À Edith Blin de A. – son ami G. W.”

 

Wambach - Pommiers

Wambach – “Pommiers en fleur”, ost, 1937

 

Foi em companhia de Wambach e dos dois filhos mais novos que Edith aportou pela primeira vez no Brasil, a 25 de julho de 1935, a bordo do navio Bagé, fugindo do avanço do fascismo e do nazismo, que paralisavam a vida artística europeia.

No início dos anos 40, aqui no Brasil, quando a II Guerra Mundial estava no seu auge na Europa, Edith, sensibilidade à flor da pele, teria perguntado a Wambach como ele podia continuar a pintar lindas paisagens enquanto os seus patrícios sofriam e caíam mortos pelos campos da Europa devastada. Wambach teria se ofendido com a observação e respondido: “Por que não pinta você o sofrimento do seu povo?” E colocou no cavalete uma tela virgem, uma paleta recém lavada e duas cores: branco e ocre. Neste momento, os filhos de Edith, Georges e Ivan, passavam por ali. Ela os chamou: “Fiquem aqui, façam uma pose, parece que vou pintar!” Em cerca de meia hora, os retratos estavam feitos, de forma inesquecível e pessoal. Esse episódio se deu em 1942. Um ano depois, Edith fez sua primeira exposição. E a separação de Wambach estava consumada.

Edith - Normandie

Edith Blin – “Normandie!”, ost, 1944

Edith - Maquis

Edith Blin – “Maquis”, osm, 1945

 

Por ocasião da 2ª exposição de Edith Blin, em 1945, entre inúmeras matérias e críticas publicadas em jornais da época, eis o que dizia Edmundo Lys: “A essa exposição podíamos chamar “alma da França”, pois aquelas telas, aquelas figuras são momentos de beleza e heroísmo, espírito da França em imagens, por sobre as quais ondeia a bandeira tricolor e de cujo silêncio parece subir a voz da França, entoando o hino imortal da Liberdade.”

São de Edith estas palavras, ditas em 1979: “Sou espontânea. Minha técnica é completamente livre. Depende de meu estado de espírito. Sinto mais atração pela forma do que pela cor. Não aprecio os detalhes. Somente os essenciais. É o que importa realmente. Sou uma pintora da alma”.

Mais informações: www.edithblin.com e www.artenarede.com/wambach

 Autor: Catherine Beltrão

 

Os 129 retratos

EdithEdith Blin (1891-1983), artista plástica, nasceu em Pontorson, França e morreu no Rio de Janeiro. Autodidata, começou a pintar nos anos 40, já no Brasil, motivada pela necessidade interior de expressar o sofrimento de seu povo ante os horrores da Segunda Guerra Mundial.

“Retrato de Katia em verde e amarelo”, pastel sobre cartolina, 30 X 22cm, 1955

O tema Retrato acompanhou Edith em suas quatro décadas de trajetória na pintura. Foram muitos os seus modelos, retratados nas mais variadas técnicas: óleo, pastel, aquarela, crayon. Mas, sem dúvida alguma, uma modelo se destacou, sua neta Catherine. Dela, Edith realizou nada menos do que 129 retratos, desde quando a neta era bebê até às vésperas de sua morte, quando Catherine tinha 32 anos.

Depoimento de Catherine, em 2006:

“A sensação de ser retratada por um grande artista é extremamente gratificante. Se este artista é a pessoa que criou você, e consequentemente conhece muito você, é mais gratificante ainda. E se este artista tem como singularidade maior o fato de expressar os sentimentos – dele e do modelo – na obra que produz, aí é a glória! E eu fui glorificada nada menos do que 129 vezes, durante um período de 32 anos, desde o meu nascimento. De bebê a mulher feita, entre desenhos, aquarelas, pastéis e óleos, servi de modelo para Edith Blin. Como ambas gostávamos muito de música clássica, Bach, Beethoven, Chopin, Liszt, Debussy e Villa-Lobos eram presenças constantes nestes encontros entre pintora e modelo. As horas que passei posando para a criação de obras eternas foram das mais significativas da minha vida. Foram horas de comunhão com a Arte, de intensa interação com o processo de criação de uma artista maior. Hoje, percebo que esta comunhão e esta interação fundamentaram minha vida a tal ponto que a minha procura de felicidade passa através da Arte e de seu processo de criação.

“Retrato de Katia com bonecas”, psc, 63 X 49cm, 1955

Katia de trancinhas

“Katia de trancinhas”, psc, 52 X 38cm, 1954

Participei de todas as décadas e de todas as técnicas do processo criativo de Edith. Tendo nascido no final da década de 40, nesta época servi de modelo para vários desenhos feitos a carvão e a lápis em folhas de caderno de desenho. Na década de 50, fui retratada em alguns óleos e vários pastéis sobre cartolina, azul claro ou rosa. A maioria destes pastéis eu posei com dois objetos de estimação, que conservo até hoje: um palhacinho vestido de macacão listrado em vermelho e branco e um ursinho de pelúcia preto, o “Teddy”. São dezenas de retratos, em que a menina Katia – meu apelido quando criança – aprendia a ser modelo e a se encantar com os trabalhos feitos. Foi também nesta década que Edith começou a utilizar cartolina preta como suporte para os trabalhos feitos em pastel. Os traços de menina, sobre fundo preto, não perdiam de forma nenhuma sua delicadeza e ingenuidade, muito pelo contrário, realçavam toda a pureza que existia… 

Retrato de Katia em fundo colorido

“Retrato de Katia em fundo colorido”, ost, 65 X 54cm, 1966

Katia a la maniere antique

“Katia à la manière antique…”, psc, 63 X 48cm, 1964

 A década de 70, Edith octogenária e eu na faixa dos vinte e tantos anos, foi para ambas uma época de total entendimento artístico. Retrato de Katia com vestido roxo estilo marquesaCom um simples olhar de minha avó, eu já sabia que ela queria que eu posasse. Prontamente, eu atendia seu pedido e lá surgia mais uma obra fantástica, dessa mulher incrível em sua energia e entusiasmo! Tendo a música quase sempre como companhia, a produção dos óleos sobre cartolina preta imperava e, quando Edith não gostava do resultado, era mais uma cartolina rasgada… Posei as últimas vezes para Edith no ano de 1980, entre um derrame cerebral e outro.

Retrato de Katia meigaApós 32 anos de convivência e centenas de horas tendo posado para 129 obras de Edith Blin, tenho absoluta certeza que um pedaço de sua alma faz parte da minha”. 

Mais informações sobre Edith Blin: www.edithblin.com e sobre Catherine Beltrão: www.catherinebeltrao.com

 

Autor: Catherine Beltrão