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Pablos e Ediths

Em muitos de meus posts, gosto de colocar lado a lado pintura e poesia. Cores, formas e palavras. As cores ganham significado e as palavras ganham forma.

Neste post, vou além. Escolhi dois nomes. Pablo e Edith. Um Pablo da pintura e outro da poesia. Uma Edith da pintura e outra da canção.

A primeira dupla: Pablo Picasso e Pablo Neruda…

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“Guernica”, de Pablo Picasso. Painel a óleo, 7,77m X 3,49m. 1937.

Pablo Picasso (1881-1973) foi um pintor, escultor e desenhista espanhol.
Minha mãe me dizia: Se queres ser um soldado, serás general. Se queres ser um monge, acabarás sendo Papa. Então eu quis ser um pintor e agora sou Picasso.

Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno e um dos mais importantes da língua castelhana do século XX.

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Pablo Picasso

“Saudade”, de Pablo Neruda (vídeo com Aldo Bastos)

Pablo NerudaSaudade é solidão acompanhada,

é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

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“Maternidade”, de Pablo Picasso. Ost, 1905.

A segunda dupla: Edith Blin e Edith Piaf…

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“Maquis”, de Edith Blin. Osm. 1945.

Edith Blin (1891-1983) foi uma pintora francesa.
Sou espontânea. Minha técnica é completamente livre. Depende de meu estado de espírito. Sinto mais atração pela forma do que pela cor. Não aprecio os detalhes. Somente os essenciais. É o que importa realmente. Sou uma pintora da alma“.

Edith Piaf (1915-1973) foi uma cantora francesa e, segundo pesquisa da BBC, considerada a 10ª maior francesa de todos os tempos.

Piaf

Edith Piaf

Edith

Edith Blin

“Rien de rien”, de (Charles Dumont e Michel Vaucaire). Clique aqui para ver o vídeo com Edith Piaf.

 

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
C’est payé, balayé et oublié.
Je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
J’ai allumé le feu.
Mes chagrins, mes plaisirs.
Je n’ai plus besoin d’eux.
Balayé les amours
Avec les trémolos.
Balayé pour toujours.
Je repars à zéro.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies aujourd’hui,
Ça commence avec toi!

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“Katia e seus amigos” (detalhe), de Edith Blin. Pastel sobre cartolina, 1955.

Uma curiosidade: Pablo Picasso (1881-1973) e Edith Blin (1891-1983) passaram ambos 92 anos neste nosso planeta. Quando Edith nasceu, Pablo tinha dez anos. Quando Edith morreu, Pablo tinha morrido fazia dez anos…

 Autor: Catherine Beltrão

Três mulheres: Edith, Katia e Cecília

Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi escrever mais de um post. Este é reunindo três mulheres: a escritora Cecília Meireles, a pintora Edith Blin e a sua modelo Katia (eu).

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“Retrato de Katia com fita azul no cabelo”, 1956. Óleo sobre tela, 55 X 45cm.

“Mulher adormecida”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia em verde e amarelo”, 1955. Pastel sobre cartolina, 30 X 22cm.

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“Retrato de Katia com os olhos no além”, 1957. Óleo sobre tela, 55 X 46cm.

Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?

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“Retrato de Katia vestindo azul”, 1971. Pastel sobre cartolina preta, 75 X 50cm.

“Mulher ao espelho”, de Cecília Meireles

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Figura 43 – “Katia! Mon modèle!”, 1961. Desenho a carvão, 70 X 50cm.

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“Retrato de Katia com margarida no cabelo”, 1967. Desenho a carvão e pastel, 30 X 22cm

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

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“Retrato de Katia com mechas”, 1971. Patel sobre cartolina preta, 35 X 28cm.

“Retrato de Mulher Triste”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia por inteiro”, 1968. Óleo sobre tela, 146 X 50cm.

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“Retrato de Katia com rabo-de-cavalo”, 1964. Pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm.

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

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“Retrato de Katia meiga”, 1976. Óleo sobre cartolina preta, 51 X 38cm.

A poesia e a pintura sempre foram amigas. Minhas amigas. Edith chegou a ser cúmplice. Cecília, confidente de meus segredos de alma. Somos as três, mulheres. Mulheres da Arte e da Literatura. Que dádiva!

Fotos das obras: Ana Cláudia Gadini.

Autor: Catherine Beltrão

As mulheres do Museu e do Vinicius

No Dia Internacional da Mulher é mais do que óbvio falar de mulheres. E hoje as mulheres são do Museu e do Vinicius. Do Museu ArtenaRede e do Vinicius de Moraes.

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“Negra com lençol azul”, de Edith Blin – 1943, ost, 65 X 50cm

“São demais os perigos desta vida” (ou “Soneto do Corifeu”)

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“Paixão I”, de Glaucia Scherer – 2002 – ast – 64 X 53cm

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“Retração”, de Lena Gal – 2015, aquarela, 70 X 50cm

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

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-“Frida Kahlo e Diego de Rivera”, de Luiza Caetano – 2000, ost, 70 X 90cm

“A Mulher que Passa”

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“Deleite”, de Sônia Guaraldi – 1997, ost, 38 X 68cm

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

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“Grávida”, de Karlla Pio – 1999, escultura em resina, 65 X 18 X 32cm

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

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“Dor silenciosa”, de Lena Gal – 2002, ast, 54 X 65cm

“Minha namorada”

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“Felicidade”, de Tânia Leal – 2003, ast, 72 X 55cm

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê

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“Intimidade”, de Catia Garcia – 2001, act, 100 X 150cm

Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois…

Nos anos 60, o poema “Minha Namorada“, que depois recebeu música do Carlos Lyra, foi meu hino ao amor de adolescente. Mais tarde, “Os perigos desta vida” resgatava meus anos de “música, luar e sentimento”. Hoje, quem dera ser “A mulher que passa“…

As imagens das obras são de mulheres que representam mulheres. Fazem parte do futuro Museu ArtenaRede.

Autor: Catherine Beltrão

A bailarina azul

Katia, a menina que tinha uma avó pintora que se chamava Edith, costumava sonhar acordada. Sonhava com quase tudo que a avó pintava: sonhava com ursos, palhaços, flores, praias e… bailarinas.

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“Bailarina vestida de azul”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

Um dia, Katia sonhou com uma bailarina azul. Não, não era uma bailarina vestida de azul. Era uma bailarina azul mesmo. E o cabelo era de ouro…

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“Bailarina vestida de lilás”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

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“Bailarina ajoelhada com tutu branco”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

A partir daquele dia, ela resolveu procurar a bailarina azul com cabelo de ouro entre os quadros da avó.

Primeiro achou uma bailarina vestida de lilás. Era linda, com aquela saia esvoaçante… parecia um pássaro!

Procurando mais um pouco, ela encontrou uma bailarina ajoelhada, toda de branco. Esta também parecia um pássaro. Pra dizer a verdade, parecia um cisne mesmo! Um cisne que se preparava para deslizar no lago…

E por entre flores e palhaços, Katia achou outra bailarina: ela estava na pontinha do pé, com um tutu todo dourado! Parecia uma princesa dançando solitária em seu castelo…

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“Bailarina de tutu amarelo”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

Mas nada da bailarina azul…

Foi aí que a avó de Katia perguntou:

- “O que você está procurando?”

- “A bailarina azul“, respondeu a neta… “Eu sei que não existe, mas…” . “Não existe?”, disse Edith. “Espera um pouco.”

E Edith fez uma linda bailarina azul para Katia. Com cabelo de ouro.

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“Bailarina azul”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

A avó não precisou falar mais nada. Katia já tinha entendido. Se a gente tem um sonho, primeiro a gente procura. E, de tanto procurar, a gente encontra. De alguma forma. É só acreditar.

  Autor: Catherine Beltrão

O Jardim de Dentro e o Jardim de Fora

Como pode isso, vovó? Não entendi… Jardim de Dentro? Jardim de Fora?

Vou explicar. Primeiro você tem que acreditar que já fui criança um dia. Igualzinha a você. Sei que é difícil, mas faça um esforcinho…

Bem, tudo começou com o Jardim de Dentro. Eu já lhe contei que sua tataravó Edith era pintora, certo? Então… ela pintava retratos, pintava paisagens, pintava palhaços, pintava bailarinas… e pintava flores!

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“Braçada de flores”, de Edith Blin. Déc.50, ost, 60 X 50 cm.

Mas suas flores eram diferentes. Quase nunca ficavam presas dentro de vasos. As flores de Edith gostavam de ser livres, de dançar e de cantar.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin. 1955, ost, 82 X 65cm.

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“Bouquet de la nuit”, de Edith Blin. 1956, ost, 81 X 65cm.

E eu adorava dançar e cantar com elas. Me levavam a lugares incríveis. Quase sempre, estes lugares eram muito coloridos, mas as vezes não.  Coloridos ou sem cor, tudo era tão bonito que eu até sonhava com estes lugares.

Uma noite, sonhei que os galhos das flores nos levavam para um lugar mágico, todo iluminado e cheiroso: era uma floresta encantada e cantante!

Outra vez, sonhei que um vento forte nos levava para bem longe. A gente rodopiou, rodopiou, até o vento parar. Nessa viagem, as flores tinham perdido muitas pétalas… mas não teve problema, pois eu remendei uma a uma.

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“Flores ao vento”, de Edith Blin.1957, ost, 54 X 72cm.

Pelo que me diziam (porque eu também conversava com as flores de Edith), só eu conhecia estes lugares. E eles passaram a ser o meu Jardim de Dentro!

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“Orquídea amarela com rosas”, de Edith Blin.1952, ost, 54 X 72cm.

Mas e o Jardim de Fora, vovó? Como era?

O Jardim de fora não “era”. Ele “é”. É o nosso Jardim dos Poetas!

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Cerejeira em flor no Jardim dos Poetas

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Samambaia portuguesa ao sol, no Jardim dos Poetas

É o jardim onde você brinca com seus irmãos e seus primos quando vem me visitar… é o jardim das bromélias, das orquídeas, das cerejeiras, dos beija-flores e dos bem-te-vis. É o jardim dos ipês, dos bambus, das camélias, dos jacus e dos sabiás. E é também o jardim das azaleias, dos antúrios, das palmeiras, das corujas e dos tico-ticos.

Eu tive o meu Jardim de Dentro quando criança, onde plantei as sementes do meu Jardim de Fora de hoje, o nosso Jardim dos Poetas. Quem sabe ele, o Jardim dos Poetas, não seja o seu Jardim de Dentro e que dê muitas sementes para você plantar em seu Jardim de Fora de amanhã…

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Buganvília no portão do Jardim dos Poetas

 Autor: Catherine Beltrão

Os sessenta anos de um urso e de um palhaço

Era uma vez um ursinho preto. De pelúcia. E também era uma vez um palhaço. De pano, listrado de vermelho e branco.  Eles se encontraram na casa de uma menina. Ela tinha seis anos. Seu nome era Katia.

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“Katia e seus amigos”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 48 X 30cm.

 Katia adorava brincar com eles. O ursinho preto e o palhacinho vermelho e branco. E eles adoravam brincar com ela.

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“Katia com ursinho preto”, de Edith Blin.1954, pastel sobre cartolina, 46 X 32cm

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso I”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 50 X 35cm.

A menina morava com a avó. E a avó de Katia era pintora! Ela gostava muito de pintar a Katia. Já tinha feito vários retratos dela. Então, um dia Edith – era o nome da avó -  resolveu pintar a Katia com os seus amigos, o ursinho e o palhaço. Primeiro, ela pintou a neta só com o ursinho que, a essa altura, já tinha nome e se chamava Teddy.

Katia já estava acostumada a posar… ela sabia que precisava ficar quietinha. Mas Edith não precisou falar nada  para o Teddy. Ele também não se mexeu nem um pouco enquanto posava.

Depois, Edith pintou Katia com o palhacinho listrado de vermelho e branco também. E pintou… e pintou… e pintou…

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso II”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 63 X 47cm.

Muitas vezes, Katia ouvia os dois cochicharem: “Quando é que vamos posar de novo? ” Eles adoravam posar com a Katia para a Edith.

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso III”, de Edith Blin. 1956, óleo sobre tela, 61 X 50cm.

Passaram-se anos. Na verdade, sessenta anos. Edith continua pintando no céu. Já ouvi dizer que pinta estrelas e arco-íris.

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O ursinho Teddy e o palhacinho vermelho e branco, sessenta anos depois…

Quanto ao ursinho Teddy e ao palhacinho listrado de vermelho e branco (nunca teve nome), eles continuam por aqui mesmo. Junto com a Katia. Que não é mais menina. Que teve filhos.  E netos.

Tem dia que os três ficam lembrando de como era bom ficar posando para Edith. De como era bom ter sido criança! Afinal, mesmo sexagenários, mesmo com a pele murchando, o pelo faltando ou o pano desbotando, os três continuam amigos e eternos nas pinturas…

 Autor: Catherine Beltrão

Os modelos de Edith Blin

O que seria dos pintores sem os seus modelos? Para alguns pintores, o modelo é fundamental. Para outros, nem tanto. Quem terá sido o modelo da obra mais famosa do mundo, a Monalisa, de Leonardo da Vinci? Há controvérsias sobre esta questão, que persistem até hoje…

No decorrer de suas quatro décadas de criação, Edith Blin teve vários modelos. Apresento neste post somente os cinco modelos de minha avó com os quais eu também convivi, nos anos 60 e 70. A ordem de apresentação não é cronológica.

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“Vera segurando o cabelo”, 1972. Osc, 48 X 35cm

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“Vera vestida de amarelo”, 1974. Ost, 65 X 54cm

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“Grupo lendo jornal”, 1974, ost, 116 X 89cm. Vera está sentada, de cabelos soltos, enquanto eu aponto para o jornal.

A primeira modelo que apresento é a Vera, uma adolescente quando a conheci nos anos 70. Era (e continua sendo) linda. Morava no mesmo prédio que eu, na rua Miguel Lemos em Copacabana. Vera deu o seguinte depoimento, em 2008, no site www.edithblin.com:

Edith deixou suas pinceladas marcadas indelevelmente em meu coração. Ela tinha a capacidade de falar de sua paixão pela arte em geral e enquanto eu posava, ouvia aulas incríveis (e em francês!) sobre todos os movimentos artísticos europeus, falava da biografia dos grandes pintores, abria um mundo fantástico que teve imensa importância em minha vida.”

No final dos anos 80 e início dos anos 90, Vera e eu fomos sócias da PresenteArte, uma galeria de arte em Ipanema e fábrica de molduras em São Cristóvão.

Nos anos 60, dois modelos de Edith se destacaram: Geneviève Hours e seu filho Serge.

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“Jovem de olhos verdes fumando”, 1967, osc, 50 X 36cm

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“Grupo estudando”, 1970, ost, 116 X 89cm. O Serge é a figura central, apoiando o cotovelo em meu ombro.

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“Loura decidida”, 1966, osc, 50 X 37cm.

Geneviève era uma bela francesa, louríssima, e que posou muitas vezes para várias obras de minha avó. Ela se tornou amiga da família e lembro de ter passado alguns dias em sua casa de Teresópolis. Época dos festivais de música e que eu não podia perder de jeito nenhum, mesmo desfrutando das delícias serranas do Rio…

Serge Hours, seu filho, era um belo rapaz. Aliás, belíssimo. Deve ter sido esta a razão que o tornou modelo de Edith, posando para algumas obras. Ele também iniciou uma série – “Grupos” – que Edith realizou com jovens amigos meus, que ficaram imortalizados em telas de grandes formatos.

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“Nu de costas com almofada vermelha”, 1967, osc, 76 X 50cm

Nos anos 70, além de Vera, mais dois modelos também frequentaram assiduamente o atelier de Edith Blin: Nelson Borges, que viria a se tornar o meu marido, e sua prima Leila Borges.

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“Retrato de Nelson em azul e vermelho”, 1973, ost, 92 X 73cm

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“Retrato de Nelson com camisa verde”, 1975, ost, 65 X 50cm.

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“Nu iluminado”, 1979, osc, 68 X 48cm.

Nelson era meu colega no curso de mestrado em Informática na PUC-RJ. Sua figura peculiar, ostentando barba preta e cabelos grisalhos sem ainda ter completado 30 anos, chamou a atenção de minha avó. Ele logo se tornou seu modelo e pouco tempo depois, meu marido. Hoje, não somos mais casados.

Leila era uma bela mulher. Posou para Edith na criação de vários nus, espatulados em cartolina preta. Foi sua última modelo, contribuindo com obras pintadas em 1979 e 1980, o último ano em que minha avó usou pincéis, espátulas, cartolinas e telas.

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“Nu recostado em almofada vermelha”, 1979, osc, 50 X 70cm.

Vera, Serge, Geneviève, Nelson e Leila. Cinco nomes que ficaram gravados na alma de Edith. Cinco pessoas que tiveram o privilégio de terem posado para minha avó. Cinco vidas que foram tocadas e transformadas de alguma forma pelo convívio com Edith Blin.

 Autor: Catherine Beltrão

Gladíolos…

Às vezes, vale juntar flores e batalhas. É quando se fala de gladíolos.

Gladíolo vem do latim Gladius que significa Gládio, ou espada, devido a sua forma longa e pontiaguda. A referência à espada se dá por causa dos Gladiadores Romanos que recebiam a flor quando saíam vencedores do combate. Por isso seu simbolismo é de vitória em batalha.

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“Jarro com gladíolos”, de Vincent van Gogh

 

Na minha opinião, o mais belo poema envolvendo gladíolos é de Arthur Rimbaud (1854-1891): “Le dormeur du val” (“Adormecido no vale“, em tradução de Ferreira Gullar).

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“Gladíolos”, de Claude Monet

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“Glaieuls”, de Chaim Soutine

“Le dormeur du val”

C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

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“Gladíolos em um jarro”, de Pierre Auguste Renoir

 

“Adormecido no vale”, em tradução de Ferreira Gullar

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“Gladíolos em ascensão”, de Edith Blin

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“Gladíolos”, de Anita Malfatti

É um vão de verdura onde um riacho canta
 A espalhar pelas ervas farrapos de prata
 Como se delirasse, e o sol da montanha
 Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
 Banhando a nuca em frescas águas azuis,
 Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
 Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os gladíolos, sorri mansamente
 Como sorri no sono um menino doente.
 Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
 Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
 Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Van Gogh, Renoir, Soutine, Monet, Anita Malfatti e Edith Blin. E Rimbaud. Uma voz em um berço de cores e perfumes. E que voz… que cores… que perfumes!

Autor: Catherine Beltrão

Sangue, tempo e aquarelas

Minha família veio de longe. De terras brumosas e brumas uivantes. E de tempos em tempos, a saudade costuma ganhar peso. Nessas horas, recorre-se a fotos antigas, a objetos que teimam não apodrecer… e que justificam nossas lembranças. Como algumas das aquarelas de Wambach.

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“Retrato de Edith”, de Georges Wambach. 1932, aquarela, 16 X 18cm

Georges Wambach (1902-1965), grande aquarelista nascido em Anvers/Bélgica, era muito boêmio e conheceu minha avó Edith Blin (1891-1983) em 1926, na época em que ela era atriz de teatro. Edith era uma mulher lindíssima e, mesmo sendo casada e mãe de três filhos, atraía olhares e provocava emoções masculinas. Wambach ficou fascinado por essa atriz apaixonante e foi se aproximando da família… Fez retratos da mãe de Edith, dos irmãos de Edith, dos sobrinhos, dos filhos… até chegar nela.

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“Bonne Maman” (mãe de Edith), de Georges Wambach. 1938, aquarela, 38 X 32cm

Para compor este post que fala de tempos passados e de sangues familiares, um poema sublime de Cecília Meireles: “Memória

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“Retrato de Jean” (irmão de Edith), de Georges Wambach. 1933, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe,
 com trajos de circunstância:
 uns converteram-se em flores,
 outros em pedra, água, líquen;
 alguns, de tanta distância,
 nem têm vestígios que indiquem
 uma certa orientação.

Minha família anda longe,
– na Terra, na Lua, em Marte –
uns dançando pelos ares,
 outros perdidos no chão.

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“Retrato de Raymonde” (irmã de Edith), de Georges Wambach. 1931, aquarela, 20 X 14cm

Tão longe a minha família!
 Tão dividida em pedaços!
 Um pedaço em cada parte…
Pelas esquinas do tempo,
 brincam meus irmãos antigos:
 uns anjos, outros palhaços…
Seus vultos de labareda
 rompem-se como retratos
 feitos em papel de seda.
 Vejo lábios, vejo braços,
– por um momento persigo-os;
 de repente, os mais exatos
 perdem sua exatidão.
 Se falo, nada responde.
 Depois, tudo vira vento,
 e nem o meu pensamento
 pode compreender por onde
 passaram nem onde estão.

retrato_Janine

“Retrato de Jeannine” (sobrinha de Edith), de Georges Wambach. 1933, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe.
 Mas eu sei reconhecê-la:
 um cílio dentro do oceano,
 um pulso sobre uma estrela,
 uma ruga num caminho
 caída como pulseira,
 um joelho em cima da espuma,
 um movimento sozinho
 aparecido na poeira…
Mas tudo vai sem nenhuma
 noção de destino humano,
 de humana recordação.

retrato_Georges

“Retrato de Georges” (filho de Edith), de Georges Wambach. 1928, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe.
 Reflete-se em minha vida,
 mas não acontece nada:
 por mais que eu esteja lembrada,
 ela se faz de esquecida:
 não há comunicação!
 Uns são nuvem, outros, lesma…
Vejo as asas, sinto os passos
 de meus anjos e palhaços,
 numa ambígua trajetória
 de que sou o espelho e a história.
 Murmuro para mim mesma:
“É tudo imaginação!”

Mas sei que tudo é memória…

retrato_Ivan

“Retrato de Ivan” (filho de Edith, meu pai), de Georges Wambach. 1929, aquarela, 20 X 14cm

O tempo passa. E o sangue continua correndo nas veias da família Blin. Mesmo naqueles que não mais possuem o Blin em seu nome. Pois eu sou a última da família, aqui no Brasil, a ter este privilégio.

  Autor: Catherine Beltrão

Retratos de uma velha senhora

A velha senhora se chama Marie Pivert Blin. A velha senhora é mãe de Edith Blin. A velha senhora também era conhecida como a “Bonne Maman“. Minha bisavó.

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“Bonne Maman en noir”, de Edith Blin. 1945, óleo sobre tela, 76 X 60cm

Não cheguei a conhecê-la. Nossos caminhos se cruzaram, mas em planos diferentes. Ela partiu em dezembro de 1947 e eu cheguei alguns meses depois.

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“Bonne Maman au tricot”, de Edith Blin. 1942, desenho a carvão, 30 X 22cm

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“Bonne Maman au journal” de Edith Blin. Década de 40, óleo sobre tela, 98 X 72cm

Edith foi nosso denominador comum. Marie e eu amamos Edith de uma forma que não dá para mensurar. Aquela forma que não cabe em formas de amor materno, de amor filial, ou de qualquer outro amor familiar. E Edith também nos amou desmedidamente.

Até onde sei, Marie era de pequena estatura, e possuía uma alma gigantesca. Normanda até o último fio de cabelo, passou para Edith a veneração pelo Mont Saint-Michel, aquele monumento que orgulha a nação francesa, senhor das marés e dos ventos uivantes.  Veneração que acabou passando também pra mim.

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“Portrait Maman”, de Edith Blin. 1943, desenho a carvão, 30 X 22cm

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“Bonne Maman au fauteuil”, de Edith Blin. Década de 40, desenho a carvão, 30 X 22cm

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“Les pensées de Maman sont vers la France”, de Edith Blin. 1942, desenho a carvão, 30 X 22cm

Não tenho lembranças diretas de Marie, a “Bonne Maman“. Mas guardo lembranças das lembranças de Edith de sua “Boa Mamãe“: algumas fotos, uma poltrona bergère Luis X V (ou Luis XVI, não sei ao certo), um armário normando com mais de três séculos de existência…

Lembranças que um dia não serão mais lembranças. Lembranças que irão se transformar em histórias. Sem afeto. Sem tristezas. Sem risos. E, quem sabe até, sem família.

 Autor: Catherine Beltrão