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Anjos

Neste início de ano, uma vontade imensa de escrever sobre anjos. Estes seres alados e sem tempo, que povoam nossa imaginação e, em consequência, nossos pensamentos e crenças. E, mais uma vez, poetas, pintores e escultores se juntam neste louvor.

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Leonardo da Vinci (1452-1519): “A Anunciação” – 1472/75

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam
Clarice Lispector (1920-1977)

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Michelangelo Buonarroti (1475-1564): “Angel with Candlestick” – 1494/95. Faz parte da decoração da Arca de São Domingo, na Basílica de São Domingo em Bolonha.

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Giotto(1266-1337): “Anjo”, na capela Arena Scrovegni, em Pádua – 1304/06

A doce canção“, de Cecília Meireles (1901-1964)

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve,no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

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Rafael Sanzio (1483-1520): “Madonna Sistine” (detalhe) – 1512

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Aleijadinho (1730-1814): “Anjo do Getsêmani”, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas/MG

O mistério do meu canto,
Deus não soube,tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o universo
de pólo a pólo contente.

O Anjo da Escada“, de Mario Quintana (1906-1994)

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

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Vincent van Gogh (1853-1890): “Cabeça de Anjo, a partir de Rembrandt”

Eu vi o anjo no mármore e o esculpi até ‘libertá-lo‘”.
Michelangelo Buonarroti

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Salvador Dali (1904-1989): “O anjo caído”, em O Purgatório, Canto I, de Dante Aleghieri – déc.60

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Paul Cezanne (1839-1906): “O beijo da Musa” – 1860

Com licença poética“, de Adélia Prado (1935)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

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Marc Chagall (1887-1985): “A queda do anjo” – 1947

A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar.
Clarice Lispector

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “Anjos” – 1924

O anjo“, de Ferreira Gullar (1930-2016)

1. O anjo, contido
em pedra
e silêncio
me esperava.

Olho-o, identifico-o
tal se em profundo sigilo
de mim o procurasse desde o início.

Me ilumino! todo
o existido
fora apenas preparação
deste encontro.

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Victor Brecheret (1894-1955): “Ave Maria 1″ – 1955. Última obra de Brecheret. Túmulo família Scuracchio. Cemitério São Paulo.

2. Antes que o olhar, detendo o pássaro
no voo, do céu descesse
até o ombro sólido
do anjo,
criando-o
– que tempo mágico
ele habitava?
3. Tão todo nele me perco
que de mim se arrebentam
as raízes do mundo;
tamanha
a violência de seu corpo contra
o meu,
que a sua neutra existência
se quebra:
e os pétreos olhos
se acendem;
o facho
emborcado contra o solo, num desprezo
à vida
arde intensamente;
a leve brisa
faz mover a sua
túnica de pedra.

4. O anjo é grave
agora.
Começo a esperar a morte.

 Autor: Catherine Beltrão

Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

200 posts! Festa de Arte doce!

Hoje é dia de festa! Dia de comemorar 200 posts do blog ArtenaRede! Dia de festejar e comer muita arte doce!

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Mondrian.
Vídeo: “Die ideale Wirklichkeit – Piet Mondrian “. Duração: 2:43

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Mondrian
Vídeo: animação sobre neoplasticismo. Duração: 2:04

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Van Gogh.
Vídeo: animação interativa com “Noite Estrelada”. Duração: 4:15

 

Piet Mondrian (1872-1944) e Vincent van Gogh (1853-1890) são os primeiros a chegar à festa, trazendo duas obras da série “Composições em vermelho, amarelo e azul“, “A Noite Estrelada” e “Amendoeira em flor“. Mondrian, o grande nome do neoplasticismo e Van Gogh, talvez o mais amado dos pintores, são inconfundíveis, até mesmo quando sua arte se transforma em bolos…

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Van Gogh
Vídeo: animação do pintor em 3D. Duração: 1:51

 

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Klimt.
Vídeo: análise da obra “O beijo”. Duração: 3:56

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Munch
Vídeo: “The Scream”, fantástica animação sobre a obra “O Grito”. Música de Pink Floyd. Duração: 3:22

 

Gustav Klimt (1862-1918) e Edvard Munch (1863-1944) chegam logo em seguida. “O Beijo” e “O Grito” são puro encantamento, trazendo momentos do simbolismo e do expressionismo.

 

E eis que chegam duas das maiores figuras artísticas do século XX!

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Picasso
Vídeo: pinturas de Picasso. Duração: 3:00

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Picasso
Vídeo: história e análise da obra “Les demoiselles d’Avignon. Duração: 4:19

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Dali
Vídeo: animação “Destino & Time – Salvador Dali, Walt Disney and Pink Floyd”. Duração: 7:05

 

Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989),  os maiores nomes do cubismo e do surrealismo, vêm trazendo “Mulher em frente ao espelho“, “Les demoiselles d’Avignon” e “A persistência da memória“, este em duas versões…

É impossível não se emocionar com a Arte e com a história destes dois gênios: o Picasso de várias mulheres e o Dali de uma só…

 

 

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Dali
Vídeo: explicação da criação da obra “A persistência da memória”. Duração: 2:52

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Monet
Vídeo: “Claude Monet – Giverny ‘Les Nymphéas’. Música de Claude Debussy. Duração: 5:25

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Matisse
Vídeo: obras do pintor. Música de Claude Debussy. Duração: 3:52

 

A festa prossegue com a chegada de Claude Monet (1840-1926) e Henri Matisse (1869-1954), com seus emblemáticos  “Le bassin aux nymphéas” e “Interior com cortina egípcia“, obras máximas do impressionismo e do fauvismo.

 

Mas o abstracionismo não podia ficar de fora!

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Pollock
Vídeo: Pollock e sua arte de criação. Duração: 1:40

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Pollock
Vídeo: Trecho do filme “Pollock” (2000), dirigido e protagonizado por Ed Harris, com música do compositor Jeff Beal. A atuação representa o pintor compondo um mural. Duração: 3:45

 

Já no fim da festa, vem chegando Jackson Pollock (1912-1956), o grande nome do expressionismo abstrato, trazendo duas obras representantes da sua técnica característica, o “gotejamento“.

 

Para abrilhantar a festa, inseri alguns vídeos no post. Basta clicar nas imagens…

E, para acessar os links onde foram obtidas as imagens dos bolos, clique aqui, aqui e aqui.

Que festa! Mondrian, Van Gogh, Klimt, Munch, Picasso, Dali, Monet, Matisse e Pollock… que time de artistas para comemorar os 200 posts do blog!

Autor: Catherine Beltrão

Pérolas e lágrimas

Resolvi juntar lágrimas a pérolas em pinturas e poesias por acreditar que secreções também podem ser sublimes.

O ser sublime fica por conta de Klimt, van der Weiden, Veermer, Rembrandt, Dali, Picasso, Portinari e Mary Cassat. E também de Victor Hugo, Mario Quintana, Cecília Meireles, Drummond, Florbela Espanca, Jean-Paul Sartre, Vinicius de Moraes e Manoel de Barros.

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“Mulher chorando”, de Gustav Klimt

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.
Victor Hugo

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“Descida da cruz” (detalhe), de Rogier van der Weyden. 1435

Chorar é lindo, por Mario Quintana

Chorar é lindo, pois cada lágrima na face
 são palavras ditas de um sentimento calado.

Pessoas que mais amamos, são as que mais magoamos
 porque queremos que sejam perfeitas,
 e esquecemos que são apenas seres humanos.

Nunca diga que esqueceu alguma pessoa, ou um amor.
 Diga apenas que consegue falar neles sem chorar,
 porque qualquer amor por mais simples que seja,
 será sempre inesquecível…

 As lágrimas não doem…
 O que dói são os motivos que as fazem caírem!
 Não deixe de acreditar no amor,
 mas certifique-se de estar entregando seu coração
 para alguém que dê valor

aos mesmos sentimentos que você dá,
 manifeste suas ideias e planos,
 para saber se vocês combinam,
 e certifique-se de que quando estão juntos
 aquele abraço vale mais que qualquer palavra…

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“Moça com brinco de pérola”, de Jan Vermeer. 1665

Pérolas – Cecília Meireles

O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
 – de que mares?
 – de que conchas?
 – menores que lágrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.

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“Retrato de Maria Trip” (detalhe), de Rembrandt

 

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“Labios de rubi”, de Salvador Dali

As pérolas -  Carlos Drummond de Andrade

Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto. Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas – disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar. Os clientes queixavam-se de que os doces de Renata estavam demasiado doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola?  Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu. A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola.  A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse: “Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana”.

Minha primeira lágrima caiu de dentro dos teus olhos.
 Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
Cecília Meireles

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“O olho do tempo”, de Salvador Dali

Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca

Se me ponho a cismar em outras eras
 Em que ri e cantei, em que era querida,
 Parece-me que foi outras esferas,
 Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
 Que dantes tinha o rir das primaveras,
 Esbate as linhas graves e severas
 E cai num abandono de esquecida!

 E fico, pensativa, olhando o vago…
 Toma a brandura plácida dum lago
 O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
 Ninguém as vê brotar dentro da alma!
 Ninguém as vê cair dentro de mim!

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“Mulher chorando”, de Pablo Picasso. 1937

Lágrimas de um adulto eram como uma catástrofe mística, qualquer coisa como o choro de Deus acerca da maldade do homem.
Jean-Paul Sartre

 

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“Menino morto”, de Cândido Portinari

Poética (II) – Vinícius de Moraes

 Com as lágrimas do tempo
 e a cal do meu dia
 eu fiz o cimento
 da minha poesia

e na perspectiva
 da vida futura
 ergui em carne viva
 sua arquitetura

 não sei bem se é casa
 se é torre ou se é templo
 (um templo sem Deus)

mas é grande e clara
 pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!

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“Opera Woman with a pearl necklace”, de Mary Cassat

Acontecimento - Vinicius de Moraes

Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
Muitos sentirão inveja
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada.
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

E, para finalizar, uma frase definitiva de Manoel de Barros: “Escrever é cheio de casca e de pérola”.

Autor: Catherine Beltrão

Janelas abertas

Artistas gostam de pintar janelas. Poetas também pensam em janelas. Será por quê? As janelas nos protegem do desconhecido. As janelas nos espiam todo o tempo. As janelas nos sugerem a liberdade.

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“Mulher na janela”, de Salvador Dali. 1925.

Houve um tempo em que minha janela se abria
 sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
 Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
 Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
 e o jardim parecia morto.
 Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
 e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
 Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
 E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
 Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
 Outras vezes encontro nuvens espessas.
 Avisto crianças que vão para a escola.
 Pardais que pulam pelo muro.
 Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
 Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
 Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
 Ás vezes, um galo canta.
 Às vezes, um avião passa.
 Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
 E eu me sinto completamente feliz.
 Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
 que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
 outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
 finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
(Cecília Meireles)

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“Interior com Violino”, de Henri Matisse. 1917

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
(Alberto Caeiro – heterônimo de Fernando Pessoa)

 

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“Morning Sun”, de Edward Hopper. 1930

 

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“Vista de uma janela, Ilha do mar do Norte”, de Paul Klee. 1923

Quem faz um poema abre uma janela.
 Respira, tu que estás numa cela abafada,
 esse ar que entra por ela.
 Por isso é que os poemas têm ritmo
 - para que possas profundamente respirar.
 Quem faz um poema salva um afogado.
(Mario Quintana)

“Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto É como se abrisse o mesmo livro Numa página nova…” (Mário Quintana)

 “Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado. Morri? Não. Ressuscitei.” (Mário Quintana)

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“Mulher na janela”, de Edgar Degas. 1875-1878

O poema é antes de tudo um inutensílio
Hora de iniciar algum
 convém se vestir roupa de trapo.
 Há quem se jogue debaixo de carro
 nos primeiros instantes.
 Faz bem uma janela aberta
 uma veia aberta.
 Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
 enquanto vida houver.
 Ninguém é pai de um poema sem morrer.
(Manoel de Barros - do livro Arranjos para Assobio)

 

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“Paris através da janela”, de Marc Chagall. 1913

 

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“Mulher diante de uma Janela”, de Fernando Botero. 1990

Uma noite de lua pálida e gerânios
 ele virá com a boca e mão incríveis
 tocar flauta no jardim.
 Estou no começo do meu desespero
 e só vejo dois caminhos:
 ou viro doida ou santa.
 Eu que rejeito e exprobo
 o que não for natural como sangue e veias
 descubro que estou chorando todo dia,
 os cabelos entristecidos,
 a pele assaltada de indecisão.
 Quando ele vier, porque é certo que vem,
 de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
 A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
 De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
 Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado

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“Open Window toward the Seine”, de Pierre Bonnard. 1911-12

O mundo é grande e cabe
 nesta janela sobre o mar.
 O mar é grande e cabe
 na cama e no colchão de amar.
 O amor é grande e cabe
 no breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade in “Amar se Aprende Amando”)

 “Existem manhãs em que abrimos a janela, e temos a impressão de que o dia está nos esperando.”
(Charles Baudelaire)

“Existe algo mais importante que a lógica: a Imaginação. Se a ideia é boa, jogue a lógica pela janela.”
(Alfred Hitchcock)

Mas o importante é que a janela esteja aberta. Para que possamos alcançar a liberdade. Para que possamos nos exibir ao tempo. Para que possamos fechá-las e nos proteger do desconhecido.

 Autor: Catherine Beltrão

Lua, nosso alvo de pensamentos

A Lua, nosso satélite desde quase sempre, é o único corpo celeste para além da Terra no qual os seres humanos já pisaram. Mas se alguns pés humanos já passaram por lá, não passa um dia sequer que a Lua não seja bombardeada por nossos pensamentos, sentimentos, pinturas, poesias e canções.

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Lenagal

São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

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Tarsila do Amaral

Tenho fases, como a lua.  Fases de andar escondida,  fases de vir para a rua…  Perdição da minha vida!  Perdição da vida minha!  Tenho fases de ser tua,  tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,  no secreto calendário  que um astrólogo arbitrário  inventou para meu uso.

E roda a melancolia  seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles

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Van Gogh

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.

Pablo Neruda

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Luiza Caetano

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!

Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[...]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa

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Paul Klee

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardin.
Estou no começo do meu dessespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

 Adélia Prado

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Salvador Dali

Eu tenho pena da Lua!  Tanta pena, coitadinha,  Quando tão branca, na rua  A vejo chorar sozinha!…

As rosas nas alamedas,  E os lilases cor da neve  Confidenciam de leve  E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha…  Tão triste na minha rua  Lá anda a chorar sozinha …

Eu chego então à janela:  E fico a olhar para a lua…  E fico a chorar com ela! …

 Florbela Espanca

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Juan Miró

Têm para mim Chamados de outro mundo  as Noites perigosas e queimadas,  quando a Lua aparece mais vermelha  São turvos sonhos, Mágoas proibidas,  são Ouropéis antigos e fantasmas  que, nesse Mundo vivo e mais ardente  consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas  e escuto essas Canções encantatórias  que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,  a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:  passaram-me por cima da cabeça  e, como um Halo escuso, te envolveram.  Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,  a ventania me agitando em torno  esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,  ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida  e nossos pés a Ela estão ligados.  Deixa que teu cabelo, solto ao vento,  abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,  o vento encrespa as Águas dos dois rios  e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

 Ariano Suassuna

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Lua na Pedra Furada do Gongo, uma das áreas mais isoladas e selvagens do Parque Nacional Serra da Capivara – Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO)

Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Mario Quintana

O que seria dos poetas, dos escritores, dos pintores, sem a Lua? O que seria de nós sem suas obras lunares?

Autor: Catherine Beltrão

Megaexposições, uma tendência

As megaexposições estão tomando conta das grandes cidades.  É uma constatação. Mas por que será?

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Ron Mueck

Em 2014, o eixo Rio-São Paulo apresentou quatro megaexposições em nobres espaços de arte: Ron Mueck no MAM/RJ e Pinacoteca/SP, Dali no CCBB-RJ e Instituto Tomie Ohtaque-ITO/SP e Miró na Caixa Cultural/RJ.

E 2015 mal começou e a mostra de Kandinsky já aparece no CCBB-RJ, após ter sido visitada por mais de 243.000 pessoas no espaço cultural do banco em Brasília .   Em abril, será a vez de Miró no ITO/SP.

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Salvador Dali

Todas estas exposições atraíram centenas de milhares de visitantes. Com certeza, não se trata de preferências de estilos ou de movimentos artísticos. Salvador Dali (1904-1986) e Joan Miró (1893-1983) representam o Surrealismo. Wassily Kandinsky (1866-1944) é o maior nome do Abstracionismo e Ron Mueck ( 1958) atrai multidões com suas figuras hiperrealistas.

O que faria 978.000 pessoas, só na exposição do Rio, enfrentarem horas na fila, para ver algumas obras do Dali? E o que encanta as nove obras de Ron Mueck, apresentadas nas mostras do Rio e São Paulo, para as mais de 600.000, que também enfrentaram horas de espera, embaixo de sol e chuva? Seriam amantes da Arte? Seriam fãs incondicionais dos artistas? Óbvio que não. A grande maioria, definitivamente, não.

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Joan Miró

Uma rápida pesquisa junto aos enfileirados, pode responder à pergunta: “Um(a) amigo(a) já veio ver a exposição, gostou e …  vim conferir“; “Talvez eu não tenha outra oportunidade…”. Estas respostas são fantásticas! Demonstram que existe uma curiosidade latente, uma vontade de absorver cultura, que é o que move grande parte dos que viajam para o exterior, à cata de museus, renomados ou não.

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Wassily Kandinsky

Mas, infelizmente, existem também os que enfrentam a tal fila e, lá dentro do espaço, não são capazes de admirar obra alguma, tão estressados e ocupados estão em tirar fotos e selfies, com ou sem pau, para postar nas redes sociais… uma lástima!

Que venham mais exposições, mega ou mini, em espaços nobres ou não. Precisamos de arte!

Autor: Catherine Beltrão

Da relação de alguns pintores com a morte

Já dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Temos a arte para não morrer da verdade” ou ainda “A arte existe para que a realidade não nos destrua“.

Pretendo neste post apresentar obras de alguns pintores que tenham retratado de alguma maneira sua relação com a morte. Muitos fizeram isso. Mas resolvi destacar somente sete nomes: Bosch, Caravaggio, David, Munch,  Klimt, Dali e Portinari.

Morte - Bosch

“A morte do avarento”, 1494, óleo sobre madeira, 93 x 31 cm – Bosch

Hieronymus Bosch (c. 1450-1516) pintou “A morte do avarento” por volta de 1494.  Possivelmente esta pintura seria o painel direito de um tríptico dividido. Apesar de pertencer a outro tempo, Bosch olha para trás e retrata temas medievais, embora com perspectiva distinta. O moribundo avarento se divide entre o anjo que lhe oferece um crucifixo e o demônio que aparece por debaixo da cortina com um saco de dinheiro na mão. Interessante constatar que, mesmo com todo o ambiente sinistro da pintura, ainda há esperança para o avarento, coisa impensável trezentos anos antes. Esta obra se encontra na National Gallery of Art, em Washington.

Morte - Caravaggio

“Morte da Virgem”, 1606, ost, 369cm × 245cm – Caravaggio

A morte da Virgem“ é o maior quadro de altar pintado por Michelangelo Caravaggio (1571 – 1610), sendo encomendada por Laerzio Alberti Cherubini, o advogado do papa, para a sua capela na Igreja das Carmelitas de Santa Maria della Scala em Roma. No entanto, na ocasião a pintura foi recusada, pois o clero achou a obra ofensiva à igreja católica. As figuras são quase do tamanho real e o ambiente da cena é simples: a virgem Maria está morta e é retratada com simplicidade. Os apóstolos se entristecem com a cena, enquanto Maria Madalena chora sentada em uma simples cadeira, com o rosto escondido entre as mãos. Nada há neste quadro que revele a natureza sagrada de seu tema. Seu tratamento é naturalista, inclusive brutal e de grande crueza. Esta obra monumental pode ser vista no Museu do Louvre, em Paris.

Morte - David

“A morte de Marat”, 1793, ost, 165 X 128cm – David

Uma das obras mais famosas de Jacques-Louis David (1748-1825), pintor preferido de Napoleão, é “A morte de Marat“. A pintura retrata Jean-Paul Marat, revolucionário francês, assassinado em casa por Charlotte Corday. A inscrição “À Marat, David”, que aparece na caixa de madeira, cuja forma sugere uma lápide, indica que se trata de uma homenagem a Marat, que o pintor conhecia pessoalmente e que teria visto na véspera de sua morte tal como a representado, dentro de uma banheira. A obra está exposta no Musée Royal des Beaux-Arts, em Bruxelas.

Morte - Munch

“Morte no quarto da paciente”, 1894, ost – Munch

Edvard Munch (1863-1944), autor de uma das obras mais famosas do mundo – “O Grito” – foi um pintor  que retratou por diversas vezes as temáticas de doença e morte. Quando ainda não havia completado cinco anos de idade, sua mãe morreu vítima de tuberculose e, nove anos depois, faleceu da mesma causa a sua irmã Sophie. A obra “Morte no quarto da paciente“ reproduz o momento da morte de Sophie. Ela não aparece, pois está sentada em uma cadeira de espaldar alto, ao lado da cama, rodeada por três pessoas que a olham: o pai, a tia e o próprio Munch. Toda executada em tons verdes e ocre, a obra se encontra no Museu National Gallery, em Oslo.

Morte - Klimt

“A vida e a morte”, 1911 – Klimt

Gustav Klimt (1862-1918) recebeu o 1º  prêmio  na Exposição Internacional de Roma com a obra “A vida e a morte“. Conflito entre vida e morte, a tela tem sentido ambíguo. Parecendo duas peças de um quebra-cabeça que se encaixam, as sinuosidades à direita das vestes da Morte, de cores frias, se completam com as do contorno esquerdo da coluna da Vida, cujas cores quentes adicionam dramaticidade à cena. Não se trata de um confronto, mas de um inevitável encaixe, já que o ciclo da vida só se compreende com a presença da morte.

Morte - Dali

“Construção mole com feijões cozidos”, 1936 – Dali

Construção Mole com Feijões Cozidos” ou “Premonição da Guerra Civil” foi pintado pro Salvador Dali (1904-1989) e encontra-se atualmente no Museu de Arte da Filadélfia, na Filadélfia. Concluída antes que a Guerra Civil Espanhola estourasse, em julho de 1936, a obra baseia-se em dolorosos pensamentos de saudade e de morte. O monstro que domina a tela parece ter as mesmas proporções do contorno do mapa da Espanha e dele saem braços e pernas que se rasgam mutuamente, enquanto uma forma fálica e flácida se debruça de um quadril rompido. Os feijões se esparramam pelo chão sem saciar a fome de ninguém.  Observa-se o rosto do monstro em êxtase, enquanto os músculos tensos de seu pescoço e seus braços transformam-se e apodrecem. É provável que Dali acreditasse que mostrando a Espanha se autodestruindo, tentasse também  mostrar as atrocidades cometidas pelas partes envolvidas em uma guerra.

Morte - Portinari

“Criança morta”, 1944, ost, 176 X 190cm – Portinari

Criança Morta“, de Cândido Portinari (1903-1962), faz parte da série sobre os retirantes nordestinos e é, com certeza, a obra de maior conteúdo dramático do artista. A dramaticidade é  potencializada pela composição do quadro que mostra um  agrupamento humano do qual se projeta a criança morta. Os tons terrosos predominam na parte inferior da tela, que não são afetados pelas lágrimas da menina ou pelas imensas mãos do homem que segura a criança morta: nada irá amenizar a dor de mais uma perda desta família. Um quadro dantesco de luta entre a vida e a morte. A obra faz parte da coleção do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand .

Nietzsche sabia das coisas. A Arte não deixa a realidade nos destruir. E os artistas entendem isso todos os dias.

  Autor: Catherine Beltrão