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Vik Muniz: reflexos e versos

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Vik Muniz. “Autorretrato”, feito com folhas, galhos, terra e sementes.

Vik Muniz (1961) é artista plástico, brasileiro, nascido em São Paulo e radicado em Nova York. A partir de 1988, começou a desenvolver trabalhos que faziam uso da percepção e representação de imagens a partir de materiais como o açúcar, chocolate, catchup e outros como o gel para cabelo, diamantes e lixo.

Vik define sua trajetória de artista da seguinte forma: “Meu sonho é mudar a forma elitista com a qual a arte é encarada. Não acredito na separação entre o popular e o inteligente, como se fossem coisas antagônicas.”

Ainda no século passado, Vik Muniz fez trabalhos inusitados, como a cópia da “Mona Lisa“, de Leonardo da Vinci, usando manteiga de amendoim e geleia de uva, como matéria prima. Suas releituras de obras famosas  são inúmeras. Entre elas, “Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso, feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam e “A Noite Estrelada“, de Vincent van Gogh, confeccionada com pedaços de papel colados.

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“Mona Lisas”, de Vik Muniz, a partir da obra de Da Vinci. Feitas com geleia de uva e com pasta de amendoim.

Um projeto inédito desenvolvido pelo artista e apresentado em diversos museus e galerias pelo mundo, inclusive no Brasil, é o intitulado “Versos“.

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Verso da obra “Mona Lisa”, de Da Vinci, por Vik Muniz

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“Mona Lisa”, de Da Vinci. 1503-1506

Vik Muniz começou fotografando os versos de pinturas famosas em 2002. Em seu livro “Reflexo” (2005), já manifestava o desejo de fazer impressões de tamanho natural dessas fotografias e exibi-las. As primeiras delas, meticulosas cópias em 3D dos lados reversos, foram feitas em 2008. Ele as intitulou “Versos“, imitações perfeitas do lado dos quadros que normalmente fica voltado para a parede.

Para Muniz, o verso de cada pintura é único: os furos, os suportes de metal, as etiquetas e todas as outras marcas, contando a sua história.

 

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“A Noite Estrelada”, de Vik Muniz, a partir da obra de Van Gogh. Feita com colagem de pedaços de papel.

À medida que os anos passam, o verso de uma pintura se modifica. Novos donos deixam sua marca.

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Verso da obra “A noite estrelada”, de Van Gogh, por Vik Muniz.

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“A noite estrelada”, de Van Gogh. 1889.

 Os processos mais recentes deixam uma marca. O verso revela os materiais dos quais a pintura é feita – tela, painéis – e mostra detalhes da tela e qualquer outra medida de segurança tomada enquanto estava em exposição. Seria como poder ver a intimidade de uma obra-prima, algo que deveria permanecer secreto mas que enfim se revela – como um segredo que não deveria ser mostrado, cicatrizes expostas, uma certa verdade de obras tão conhecidas quanto inacessíveis.

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“Les demoiselles d’Avignon”, de Vik Muniz, a partir da obra de Picasso. Feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam.

Para recriar os versos das obras, Vik Muniz percorreu seis anos trabalhando com pesquisadores, curadores, artesãos, técnicos e até falsificadores, para executarem cada detalhe, como molduras, arranhões, manchas, etiquetas e ferragens.

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Verso da obra “Les demoiselles d’Avignon”, de Picasso, por Vik Muniz

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“Les demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso. 1907.

Assim, o espectador recria em sua cabeça a imagem icônica de cada obra, e a encaixa sobre o verso a sua frente, para que obras tão célebres ganhem enfim uma dimensão nova e, até então, desconhecida.

Em 2008, Muniz organizou sua primeira exposição de “Verso“, na galeria Sikkema, Jenkins & Co., em Nova Iorque. Na ocasião, ele apresentou o lado reverso de obras-primas como “Les Demoiselles d’Avignon“, de Picasso (MoMA, Nova Iorque) e “A Noite estrelada“, de Van Gogh (MoMA), entre outras. Outros “Versos“ foram mostrados em outras exposições, como “A Mona Lisa“, de Da Vinci (Louvre, Paris).

Reflexos e versos. Reflexo pode ser de espelho. Ou de reação. Verso pode ser de poesia. Ou o lado de trás. Vik Muniz, por ser artista, é o espelho, a reação, a poesia e o lado de trás.

 Autor: Catherine Beltrão

Detalhes

Detalhe é um pedaço. De um pensamento. De uma atitude. De um fazer. Quase sempre, um pedaço bem pequeno. Ou até muito pequeno. Mas, um detalhe não é coisa menor. Pode até ficar grande. Muito grande. Imenso. Como são os detalhes de certas pinturas. Ou esculturas.

Mãos. É bom começar pelas mãos. Pelas mãos da “Canção” de Cecília Meireles.

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Detalhe das mãos de “O pensador”, de Rodin.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

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Detalhe das mãos de “David”, de Michelangelo.

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Detalhe das mãos de Plutão, em “O rapto de Prosérpina”, de Bernini.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Van Gogh

Depois das mãos, o detalhe do olhar. O olhar de Vinicius de Moraes, em seu “Soneto da Separação“.

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Detalhe do olhar de Mona Lisa, de Da Vinci.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Lucien Freud.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

E aí chega a hora do detalhe da flor. Mas, dentro da flor, fica a palavra do “Apanhador de desperdícios“, de Manoel de Barros.

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Detalhe de uma das “Ninfeias”, de Monet.

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

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Detalhe de “Flores em um vaso”, de Renoir.

Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

As mãos, o olhar, flores. Palavras. Os versos. Einstein sabia das coisas:

Eu quero conhecer os pensamentos de Deus; o resto são detalhes“.

Autor: Catherine Beltrão

Anjos

Neste início de ano, uma vontade imensa de escrever sobre anjos. Estes seres alados e sem tempo, que povoam nossa imaginação e, em consequência, nossos pensamentos e crenças. E, mais uma vez, poetas, pintores e escultores se juntam neste louvor.

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Leonardo da Vinci (1452-1519): “A Anunciação” – 1472/75

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam
Clarice Lispector (1920-1977)

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Michelangelo Buonarroti (1475-1564): “Angel with Candlestick” – 1494/95. Faz parte da decoração da Arca de São Domingo, na Basílica de São Domingo em Bolonha.

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Giotto(1266-1337): “Anjo”, na capela Arena Scrovegni, em Pádua – 1304/06

A doce canção“, de Cecília Meireles (1901-1964)

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve,no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

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Rafael Sanzio (1483-1520): “Madonna Sistine” (detalhe) – 1512

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Aleijadinho (1730-1814): “Anjo do Getsêmani”, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas/MG

O mistério do meu canto,
Deus não soube,tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o universo
de pólo a pólo contente.

O Anjo da Escada“, de Mario Quintana (1906-1994)

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

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Vincent van Gogh (1853-1890): “Cabeça de Anjo, a partir de Rembrandt”

Eu vi o anjo no mármore e o esculpi até ‘libertá-lo‘”.
Michelangelo Buonarroti

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Salvador Dali (1904-1989): “O anjo caído”, em O Purgatório, Canto I, de Dante Aleghieri – déc.60

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Paul Cezanne (1839-1906): “O beijo da Musa” – 1860

Com licença poética“, de Adélia Prado (1935)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

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Marc Chagall (1887-1985): “A queda do anjo” – 1947

A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar.
Clarice Lispector

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “Anjos” – 1924

O anjo“, de Ferreira Gullar (1930-2016)

1. O anjo, contido
em pedra
e silêncio
me esperava.

Olho-o, identifico-o
tal se em profundo sigilo
de mim o procurasse desde o início.

Me ilumino! todo
o existido
fora apenas preparação
deste encontro.

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Victor Brecheret (1894-1955): “Ave Maria 1″ – 1955. Última obra de Brecheret. Túmulo família Scuracchio. Cemitério São Paulo.

2. Antes que o olhar, detendo o pássaro
no voo, do céu descesse
até o ombro sólido
do anjo,
criando-o
– que tempo mágico
ele habitava?
3. Tão todo nele me perco
que de mim se arrebentam
as raízes do mundo;
tamanha
a violência de seu corpo contra
o meu,
que a sua neutra existência
se quebra:
e os pétreos olhos
se acendem;
o facho
emborcado contra o solo, num desprezo
à vida
arde intensamente;
a leve brisa
faz mover a sua
túnica de pedra.

4. O anjo é grave
agora.
Começo a esperar a morte.

 Autor: Catherine Beltrão

Avós eternizados

O dia dos avós é comemorado no Brasil em 26 de Julho. Dia da Santa Ana, mãe de Maria e avó de Jesus. Sant’Ana, a padroeira dos avós.

A base do texto de hoje é o conjunto de poemas chamado “Elegia“, de Cecília Meireles (1901-1964). Para ilustrar, obras de Leonardo da Vinci, Paul Cezanne, William Quiller Orchardson, John Morgan, Lucian Freud,  Ron Mueck, Edith Blin e um monumento da civilização olmeca.

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Cecília Meireles

Uma elegia é uma composição poética que pertence ao gênero lírico, geralmente redigido em verso livre ou em tercetos. Este subgênero está associado ao lamento pela morte de um ente querido ou a qualquer acontecimento que provoca dor e tristeza. Esta “Elegia” de Cecília Meireles consta de oito poemas. Escrita no período de 1933 a 1937, foi dedicada à avó Jacinta Garcia Benevides. À sua leitura, percebe-se que os poemas discorrem desde o  falecimento até a exumação de Jacinta, percorrendo quatro anos de sentimentos de dor, separação, resignação, aceitação e lembranças da neta Cecília, um dos maiores nomes da poesia brasileira.

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“A Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana”, de Leonardo da Vinci (1452-1519). Pintada entre 1508 e 1513, ost, 168 x 112 cm.

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos. Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva, modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos. Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua. Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr -sem que a recolhessem teus ouvidos inertes. Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis? no teto? Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho, E tristemente te procurava. Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

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“O monumento a Avó″, do sítio arqueológico La Venta,  em Xalapa, Veracruz, no México. Da civilização olmeca, uma das primeiras civilizações das Américas, estabelecida entre 1600 AC a 600 AC.

Neste mês, as cigarras cantam e os trovões caminham por cima da terra, agarrados ao sol. Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas, e depois a noite é mais clara, e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão. Mas tudo é inútil, porque os teus ouvidos estão como conchas vazias, e a tua narina imóvel não recebe mais notícia do mundo que circula no vento. Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero das vespas… -e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra, como água que borbulha. Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro; a areia queima, branca e seca. junto ao mar lampejante; de cada fronte desce uma lágrima de calor. Mas tudo é inútil, porque estás encostada à terra fresca, e os teus olhos não buscam mais lugares nesta paisagem luminosa, e as tuas mãos não se arredondam já para a colheita nem para a carícia. Neste mês, começa o ano, de novo, e eu queria abraçar-te. Mas tudo é inútil: eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.

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“Procurando o Texto” , de John Morgan (1822-1885)

Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas, e as flores novas como aroma em brasa, com as coroas crepitantes de abelhas. Teus olhos sorririam, agradecendo a Deus o céu e a terra: eu sentiria teu coração feliz como um campo onde choveu. Minha tristeza é não poder acompanhar contigo o desenho das pombas voantes, o destino dos trens pelas montanhas, e o brilho tênue de cada estrela brotando à margem do crepúsculo. Tomarias o luar nas tuas mãos, fortes e simples como as pedras, e dirias apenas: “Como vem tão clarinho!” E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida, sem perturbar sua claridade, mas também sem diminuir minha tristeza.

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“Idosa com um Rosário”, de Paul Cézanne (1839-1906)

Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo. Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras. E as cigarras sobre as resinas continuam cantando. Tu percorrias o céu com teus olhos nevoentos, e calcularias o sol de amanhã, e a sorte oculta de cada planta. É amanhã descerias toda coberta de branco, brilharias à luz como o sal e a cânfora, tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes, e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos. E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo. Tuas mãos e a terra secariam bruscamente. Em teu rosto, como no chão, haveria flores vermelhas abertas. Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas, sussurrando. E os canteiros viam-te passar como a nuvem mais branca do dia.

(c) Museums Sheffield; Supplied by The Public Catalogue Foundation

“Nell e seu Avô na Floresta”, de William Quiller Orchardson (1832-1910)

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria desse pequeno mundo em que estás. Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso, das tuas que calculavam primaveras e outonos, fechadas em sementes e escondidos na flor! Tua voz sem corpo estará comandando, entre terra e água, o aconchego das raízes tenras, a ordenação das pétalas nascentes. À margem desta pedra que te cerca, o rosto das flores inclinará sua narrativa: história dos grandes luares, crescimento e morte dos campos, giros e músicas de pássaros, arabescos de libélulas roxas e verdes. Conversareis longamente, em vossa linguagem inviolável. Os anjos de mármore ficarão para sempre ouvindo: que eles também falam em silêncio. Mas a mim – se te chamar, se chorar – não me ouvirás por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra caminhando em redor de uma fortaleza. Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste: o mar com seus peixes e suas barcas; os pomares com cestos derramados de frutos; os jardins de malva e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos. E aquela estrela maior, que a noite levava na mão direita. E o sorriso de uma alegria que eu não tive, mas te dava.

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“Autorretrato”, de Edith Blin (1891-1983), minha avó. 1948, ost.

Tudo cabe aqui dentro: vejo tua casa, tuas quintas de fruta, as mulas deixando descarregarem seirões repletos, e os cães de nomes antigos ladrando majestosamente para a noite aproximada. Tange a atafona sobre uma cantiga arcaica: e os fusos ainda vão enrolando o fio para a camisa, para a toalha, para o lençol. Nesse fio vai o campo onde o vento saltou. Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado. Vai o sol com suas vestimentas de ouro cavalgando esse imenso gavião do céu. Tudo cabe aqui dentro: teu corpo era um espelho pensante do universo. E olhavas para essa imagem, clarividente e comovida. Foi do barco das flores, o teu rosto terreno, e uns líquens de noite sem luzes se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica. Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam para perderem-se. Então, teus braços se abriram, querendo levar-te mais longe: porque eras a que salvava. E ficaste com um pouco de asas. Teus olhos, porém, mediram a flutuação do caminho. Por isso, tua testa se vincou de alto a baixo, e tuas pálpebras meigas se cobriram de cinza.

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Um dos retratos da mãe do pintor, feito em 1972. De Lucian Freud (1922-2011)

O crepúsculo é este sossego do céu com suas nuvens paralelas e uma última cor penetrando nas árvores até os pássaros. É esta curva dos pombos, rente aos telhados, este cantar de galos e rolas, muito longe; e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas, ainda sem luz. Mas não era só isto, o crepúsculo: faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores, e em tuas mãos o teu rosto, aprendendo com as nuvens a sorte das transformações. Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos, tua boca, onde a passagem da vida tinha deixado uma doçura triste, que dispensava palavras. Ah, falta o silêncio que estava entre nós, e olhava a tarde, também. Nele vivia o teu amor por mim, obrigatório e secreto. Igual à face da Natureza: evidente, e sem definição. Tudo em ti era uma ausência que se demorava: uma despedida pronta a cumprir-se. Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido. Agora, tenho medo que não visses o que havia por detrás dele. Aqui está meu rosto verdadeiro, defronte do crepúsculo que não alcançaste Abre o túmulo, e olha-me: dize-me qual de nós morreu mais.

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“Mulher velha na cama”, de Ron Mueck (1958). Escultura feita em 2002, inspirada na sua avó doente.

Hoje! Hoje de sol e bruma, com este silencioso calor sobre as pedras e as folhas! Hoje! sem cigarras nem pássaros. Gravemente. Altamente. Com flores abafadas pelo caminho, entre essas máscaras de bronze e mármore eterno rosto da terra. Hoje. Quanto tempo passou entre a nossa mútua espera! Tu, paciente e inutilizada, cantando as horas que te desfaziam. Meus olhos repetindo essas tuas horas heróicas, no brotar e morrer desta última primavera que te enfeitou. Oh, a montanha de terra que agora vão tirando do teu peito! Alegra-te, que aqui estou, fiel, neste encontro, como se do modo antigo vivesses ou pudesses, com a minha chegada, reviver. Alegra-te, que já se desprendem em tábuas que te fecharam, como se desprendeu o corpo em que aprendeste longamente a sofrer. E, como o áspero ruído da pá cessou neste instante, ouve o amplo e difuso rumor da cidade em que continuo, -tu, que resides no tempo, no tempo unânime! Ouve-o e relembra não as estampas humanas: mas as cores do céu e da terra, o calor do sol, a aceitação das nuvens, o grato deslizar das águas dóceis, tudo o que amamos juntas. Tudo em que me dispersei como te dispersaste. E mais esse perfume de eternidade, intocável e secreto, que o giro do universo não perturba. Apenas, não podemos correr, agora, uma para a outra. Não sofras, por não te poderes levantar do abismo em que te reclinas: não sofras, também, se um pouco de choro se debruça nos meus olhos, procurando-te. Não te importes que escute cair, no zinco desta humilde caixa, teu crânio, tuas vértebras, teus ossos todos, um por um… Pés que caminhavam comigo, mãos que me iam levando, peito do antigo sono, cabeça do olhar e do sorriso… Não te importes. Não te importes… Na verdade, tu vens como eu te queria inventar: e de braço dado desceremos por entre pedras e flores. Posso levar-te ao colo, também, pois na verdade estás mais leve que uma criança. – Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito! irás dizendo, sem queixa, apenas como recordação. E eu, como recordação, te direi: – Pesaria tanto quanto o coração que tiveste, o coração que herdei? Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos? E hoje era o teu dia de festa Meu presente é buscar-te: Não para vires comigo: para te encontrares com os que, antes de mim, vieste buscar, outrora. Com menos palavras, apenas. Com o mesmo número de lágrimas. Foi lição tua chorar pouco, para sofrer mais. Aprendi-a demasiadamente. Aqui estamos, hoje. Com este dia grave, de sol velado. De calor silencioso. Todas as estátuas ardendo. As folhas, sem um tremor. Não tens fala, nem movimento nem corpo. E eu te reconheço. Ah, mas a mim, a mim. Quem sabe se me poderás reconhecer!

É importante lembrar que Cecília Meireles foi criada pela avó Jacinta, citada na dedicatória desta “Elegia“, desde os três anos de idade, depois da morte de seus pais.

Quanto a mim, fui criada pela minha avó Edith Blin, desde os dez dias de vida.

Por hoje, é só.

Autor: Catherine Beltrão