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A dança da lua vermelha

Naquela tarde, tinha acabado de chover. Agora, o Sol despontava atrás da última nuvem, trazendo um arco-íris a tiracolo. E lá estavam elas, Edith e Katia, avó e neta, observando o céu. E a paisagem.

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Arco-íris depois da chuva, entre montanhas

Que céu! E que paisagem! Não bastasse o arco-íris colorindo um pedaço do céu, havia  também as folhas ainda cobertas de gotas, que teimavam em secar… Havia as flores que balançavam felizes pelo banho tomado… E havia o cheiro de terra molhada, o cheiro que Katia adorava!

Mas a neta estava cismada com o arco-íris.

- Vó, é verdade que o arco-íris tem sete cores?

- É sim. E elas são lindas! Tem o violeta, o anil, o  azul, o verde, o amarelo, o laranja e o vermelho… , respondeu a avó.

E Katia continuou:

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Lua amarela…

- E a Lua? Ela também tem sete cores? Eu já vi lua azul, lua amarela e até vermelha! Mas nunca vi lua verde… nem violeta! 

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Lua azul…

Nessa, Edith pensou um pouco para responder. Ela não sabia quase nada de cor de Lua. Mas ela sabia alguma coisa de cor… Afinal ela era pintora!

- Olha, na verdade, nada tem cor. O que faz a gente ver alguma coisa colorida é por causa da luz. Quando a luz bate em um objeto, ele absorve algumas cores e reflete outras. Por exemplo, se uma maçã é vermelha, é porque ela absorveu todas as cores, menos a vermelha. Aí a gente vê a cor vermelha que a maçã refletiu.  E continuou:

- Você sabe que alguns povos antigos, como os gregos, e também povos indígenas dançavam em homenagem à Lua?  

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Lua vermelha…

- Puxa, que legal, vó, não sabia não…

- Pois é. E tem mais. Na Grécia, uma das deusas mais importantes foi Ártemis, também chamada de Artemísia. Além de ser a deusa das florestas e dos animais, Ártemis também é representada como a deusa da dança e a deusa da Lua, veja só!

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Deusa Ártemis, estátua original grega do século IV a.C.

Katia estava fascinada. Era muita informação numa tarde de arco-íris. As cores da Lua, a deusa Ártemis que era a Lua e a Dança ao mesmo tempo…

Depois de pensar um pouco, Katia falou:

- Você pinta uma bailarina dançando com a Lua para mim?

- Pinto, sim, respondeu a avó.  - Mas, desta vez, vou pintar um bailarino. Já pintei várias bailarinas… 

E Edith pintou um bailarino, vestido com uma roupa da cor violeta e uma lua vermelha.

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“O bailarino e a lua vermelha”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm

Katia amou a pintura…  Violeta e vermelho eram suas cores preferidas!

 Autor: Catherine Beltrão

Este é o 8º e último post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás“; 3º post: “A Bailarina de Tutu Amarelo”; 4º post: “Odete, Aurora ou Clara?” 5º post: “Isadora”; 6º post: “Julieta“; 7º post: “Cecília, a bailarina que não gostava de sol”.

O amarelo e o azul nas casas de Monet, van Gogh e Frida Kahlo

Outro dia estava pensando na famosa Casa Amarela de van Gogh. E me veio logo à mente a Casa Azul, de Frida Kahlo. Juntando o amarelo e o azul, me veio a cozinha e a sala de jantar da casa de Monet, em Giverny.

Claude Monet (1840-1926) viveu na casa de Giverny de 1883 a 1926. Ele  criou, fora e dentro da casa, uma atmosfera que se confunde com suas pinturas e pôde viver ali por vários anos, até morrer.

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Sala de jantar, toda em amarelo, da casa de Monet, em Giverny.

 

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Cozinha azul na casa de Monet, em Giverny.

A sala de jantar amarela parece ter saído de um recanto dos jardins da casa.  As almofadas das cadeiras são de xadrez azul e branco e há louças amarelas, azuis e brancas.   As porcelanas e gravuras azuis que decoram a sala, já introduzem a atmosfera da cozinha ao lado.

A cozinha, toda azul, é grande sem deixar de ser acolhedora. Azulejos em abundância emolduram as panelas de cobre e as cortininhas xadrez. E flores… flores por toda parte.

Uma das pinturas noturnas de Vincent van Gogh (1853-1890), retrata a famosa Casa Amarela em que o pintor morou em Arles, no sul da França, por menos de um ano, antes de morrer.  A cor amarela da fachada foi escolhida pelo próprio pintor: um “amarelo-manteiga”, segundo sua próprias palavras.

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“A Casa Amarela”, de van Gogh. 1888, ost, 72 X 92cm

A minha casa aqui é pintada por fora de amarelo-manteiga e tem persianas em verde forte; fica rodeada de sol, numa praça, onde também há um parque verde com plátanos, aloendros , acácias. Por dentro é pintada de branco e o chão é de azulejos vermelhos. E por cima, o céu de azul luminoso. Lá dentro posso, com efeito, viver e respirar e pensar e pintar”.

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Foto da Casa Amarela onde morou van Gogh, em Arles, antes de ser demolida, após a 2ª Guerra Mundial.

Van Gogh alugou a parte direita de um prédio de dois andares, onde pensou criar uma escola de arte. Mandou pintar a casa da cor amarela, que para ele era muito importante e bastante simbólica. Seria talvez mais um sol para iluminar e aquecer sua alma conturbada.  Quando pintou o quadro, ele resolveu colorir todas as casas de amarelo na tela, e não só a sua. Esta obra talvez seja  representativa do sonho de vida e de arte de Vincent van Gogh. Mais que isso: talvez represente o sonho de vida de qualquer um de nós: realizando ou não, todos nós temos um sonho na vida.

Frida Kahlo (1907-1954) nasceu na Casa Azul de Coyoacán, na cidade do México e lá viveu toda a sua trágica e sofrida vida. Quatro anos após sua morte, a casa transformou-se em museu.

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A Casa Azul, transformada em Museu Frida Kahlo, na cidade do México.

A casa pertenceu à família Kahlo desde 1904 e foi morando ali que Frida se consolidou como artista e lenda. Contraiu poliomielite na infância, que a deixou manca e sofreu um grave acidente aos 18 anos, que a impossibilitou de ser mãe.

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Cozinha da Casa Azul de Frida Kahlo, toda em amarelo e azul cobalto.

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Jardins externos da Casa Azul de Frida Kahlo.

Casou-se com o muralista Diego Rivera em 1929, que também passou a morar na Casa Azul. Ambos eram  entusiastas do comunismo e tinham fotos de Mao, Lenin, Marx e Stalin em seu quarto e em outros cômodos pela casa. O casal também abrigou Leon Trotsky, que morou um tempo na casa azul e com quem acredita-se que Frida tenha tido um caso.  Por sua vez, Diego traiu Frida com sua própria irmã, dentro da mesma casa. Quando descobriu, Frida externou sua tristeza em alguns detalhes da casa, como um relógio que marca o dia em que terminaram, e o dia em que reataram.

Alguns objetos pessoais estão à mostra no museu: vestidos, cartas de amor, o espelho pendurado na cama de onde ela fazia seus autorretratos enquanto não podia se locomover.

Monet, van Gogh e Frida: três artistas irmanados por duas cores, o amarelo e o azul de suas moradas.

Autor: Catherine Beltrão