Arquivo da tag: Cora Coralina

Escadas

No início deste ano resolvi focar escadas. Vou precisar delas. Para subir. Para descer também. Pois as escadas são as grandes companheiras de nossa trajetória de vida. Sempre.

Escada_MuseuVaticano

Esta escada em espiral dos Museus Vaticanos foi construída em 1932 por Giuseppe Momo. Acima da estrutura, uma roseta octogonal de vidro permite a entrada da luz natural. Sua dupla hélice com duas rampas faz com que pareça mais longa. Os Museus Vaticanos também abriram outra escadaria famosa, mas fechada ao público, que costuma ser confundida com esta. Trata-se da criação de Donato Bramante, que viveu entre os séculos XV e XVI, e na qual Momo se inspirou.

Escadas“, de Mario Quintana

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam…
Quando as desce, a gente
Se desparafusa…
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica…
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado…
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E ‘sabes’ que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa…
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos…
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola…
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora…
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo…
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos…

Escada_LivrariaLello

Livraria Lello: A beleza destas escadas conquistou fama mundial quando virou cenário da saga Harry Potter (a autora, J. K. Rowling, morou no Porto, dando aulas de inglês, antes de se tornar uma estrela da literatura juvenil). Classificada como monumento de interesse público, a escadaria fica no interior da livraria Lello. Há dois anos, o local passou a cobrar 3 euros (12 reais) de entrada, já que seus donos não conseguiam mais dar conta da grande quantidade de turistas.

Das Pedras“, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Escada_EscritorioZecc

Escritório Zecc: O escritório de arquitetos Zecc , na Holanda, transformou uma antiga torre de água em mirante. Uma escada se eleva a 45 metros de altura para oferecer uma vista panorâmica através de quatro janelas. Os degraus mudam de linha e robustez à medida que a pessoa sobe, combinando rampas diferentes: a primeira é uma escada de aço já existente que circula seguindo a parede; a segunda, de criação recente em madeira comprimida, faz um ziguezague pela barriga da torre. Na cúpula se encontra o último trecho, que leva até o observatório.

O Tempo e o Vento“, de Mario Quintana

Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos…

Escada_HotelemHiroshima

Hotel em Hiroshima: Duas escadas em caracol entrelaçadas formam esta capela nupcial de um complexo hoteleiro de Hiroshima. Os dois braços da escadaria simbolizam a união matrimonial, o abraço entre os amantes. “As duas partes que antes percorriam caminhos separados se unem na parte superior”, explica o arquiteto Hiroshi Nakamura em seu site. No alto, a 15 metros de altura, descortina-se uma vista panorâmica para o mar interior do Japão, ou mar de Seto.

Vaticano. Portugal. Holanda. Japão.  Um dia, gostaria de fazer uma viagem com roteiro  focando escadas.

 Autor: Catherine Beltrão

Pedras macias feito poesia…

Nem sempre as pedras machucam. Algumas vezes elas ficam é preocupadas com a nossa tristeza… e mostram suas rugas. Outras vezes,  até choram… Quase sempre nos embalam em seu colo quente, pois de versos também são feitas.

Pedras1

“Recorte de pele” – granito

José Manuel Castro López é um artista espanhol que utiliza e transforma pedras em objetos acariciáveis. Manoel (de Barros), Cecília (Meireles), (Carlos) Drummond (de Andrade) e Cora (Coralina) são poetas brasileiros que transformam versos que falam de pedra em ninho-colo.

Pedras5

“Pedra-cérebro” – granito

“A Pedra”, de Manoel de Barros

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a – Eu irrito o silêncio dos insetos.
b – Sou batido de luar nas solitudes.
c – Tomo banho de orvalho de manhã.
d – E o sol me cumprimenta por primeiro.

Pedras4

“Lágrimas de pedra”

Manoel de Barros também escreveu:  “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.

Pedras7

“Beliscão” – quartzo

“No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

Pedras10

“Paralelepípedos” – granito e aço inoxidável

Mais uma pedra-pensamento de Manoel de Barros: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito.

Pedras6

“Contratura” – pedra e óxido de ferro

Pedras”, de Cecília Meireles

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

Pedras8

“Contraste de personalidades” – pedra morceña e óxido de ferro

Daquele que deixou um pequeno príncipe fazer a volta de um asteróide, não podia deixar de também dizer o que achava das pedras:

Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral.” – Antoine de Saint-Exupéry

Pedras3

“Lambida” – pedra morceña

“Das pedras”, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Autor: Catherine Beltrão

Nascimento. Natividade. Natal.

O Natal celebra o nascimento de Jesus, chamado também de Natividade.

Diz o Evangelho de Lucas que José e Maria viajaram de Nazaré para Belém para comparecer a um censo e que Jesus nasceu durante a viagem numa simples manjedoura.  A Natividade foi pintada e escrita por grandes artistas e poetas. Não podia ser diferente. É um evento maior. 

natal_sandrobotticelli

Sandro Botticelli (1445-1510)

 

Soneto de Natal“, de Machado de Assis

natal_hieronymusbosch

Hieronymus Bosch (1450-1516)

natal_elgreco

El Greco (1541-1614)

Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

natal_caravaggio

Caravaggio (1571-1610)

 

O que fizeram do Natal“, de Carlos Drummond de Andrade

natal_rubens

Paul Rubens (1577-1640)

natal_delatour

Georges de La Tour (1593-1652)

Natal.
O sino longe toca fino,
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus-menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

natal_paulgauguin

Paul Gauguin (1848-1903)

 

Poesia de Natal“, de Cora Coralina

natal_chagall

Mark Chagall (1887-1985)

natal_di

Di Cavalcanti (1897-1976)

Enfeite a árvore de sua vida
com guirlandas de gratidão!
Coloque no coração laços de cetim rosa,
amarelo, azul, carmim,
Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante

Em sua lista de presentes
em cada caixinha embrulhe
um pedacinho de amor,
carinho,
ternura,
reconciliação,
perdão!

Tem presente de montão
no estoque do nosso coração
e não custa um tostão!
A hora é agora!
Enfeite seu interior!
Sejas diferente!
Sejas reluzente!

natal_varejao

Adriana Varejão (1964)

 

Finalizando, “Compras de Natal“, de Cecília Meireles

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes, os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

Autor: Catherine Beltrão

A poesia do dia

Todos os dias são de poesia. Mas há dias em que a poesia chega mais perto.

Considerado o “Poeta dos Escravos“, pelo seu monumental “O Navio Negreiro“, o baiano Castro Alves (1847-1871) nasceu em um 14 de março. Em sua homenagem comemora-se neste dia o Dia da Poesia.

A duas flores” é um poema-encanto.

Poesia_CastroAlves1

Castro Alves

São duas flores unidas,
 São duas rosas nascidas
 Talvez do mesmo arrebol,
 Vivendo no mesmo galho,
 Da mesma gota de orvalho,
 Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
 Das duas asas pequenas
 De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
 Como a tribo de andorinhas
 Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
 Que em parelha descem tantos
 Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
 Como as covinhas do rosto,
 Como as estrelas do mar.

Unidas… Ai quem pudera
 Numa eterna primavera
 Viver, qual vive esta flor.
 Juntar as rodas da vida,
 Na rama verde e florida,
 Na verde rama do amor!

Poesia_coracoralina

Cora Coralina

A goiana Cora Coralina (1889-1985) é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, tendo sido seu primeiro livro publicado somente em 1965, com 76 anos de idade. Nasceu em  20 de agosto, dia em que Goiás comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

A “Mãe”  é um poema-reflexão.

Renovadora e reveladora do mundo
 A humanidade se renova no teu ventre.
 Cria teus filhos,
 não os entregues à creche.
 Creche é fria, impessoal.
 Nunca será um lar
 para teu filho.
 Ele, pequenino, precisa de ti.
 Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
 Independência, igualdade de condições…
 Empregos fora do lar?
 És superior àqueles
 que procuras imitar.
 Tens o dom divino
 de ser mãe
 Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
 Serás um animal somente de prazer
 e às vezes nem mais isso.
 Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
 Tumultuada, fingindo ser o que não és.
 Roendo o teu osso negro da amargura.

Poesia_Drummond

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1985) é considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Nasceu em  31 de outubro, dia em que Minas Gerais comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

No meio do caminho” é um poema-vivência.

No meio do caminho tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 tinha uma pedra
 no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
 na vida de minhas retinas tão fatigadas.
 Nunca me esquecerei que no meio do caminho
 tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 no meio do caminho tinha uma pedra.

Poesia_ManoeldeBarros1

Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916-2014) é considerado hoje o maior ou um dos maiores poetas do Brasil. É o poeta “misturador dos sentidos“.  Nasceu em 19 de dezembro, dia em que Mato Grosso comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

Abaixo, um de seus poemas-cósmicos. (Trecho de “Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros“)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras
 fatigadas de informar.
 Dou mais respeito
 às que vivem de barriga no chão
 tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas.
 Dou respeito às coisas desimportantes
 e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade
 das tartarugas mais que a dos mísseis.
 Tenho em mim esse atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado
 para gostar de passarinhos.
 Tenho abundância de ser feliz por isso.
 Meu quintal é maior do que o mundo.
 Sou um apanhador de desperdícios:
 Amo os restos
 como as boas moscas.
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Poesia_einstein

Albert Einstein

Hoje, dia 14 de março, também nasceu Albert Einstein (1879-1955). Um dos maiores físicos que já existiram, Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral e é conhecido por sua fórmula  E=mc² , certamente a equação mais famosa do mundo.  Nesse Dia Nacional da Poesia, impossível não incluir esta unanimidade científica, que certa vez, perguntado sobre qual seria a definição de luz, deu esta resposta:

“ A luz… é a sombra de Deus…”.

Autor: Catherine Beltrão