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Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

A Catedral de Notre-Dame de Rouen, por Claude Monet

É tempo de se falar de catedrais.

Catedral de Rouen

Catedral Notre-Dame de Rouen

Bastante similar à Catedral de Notre-Dame de Paris, a Catedral de Notre-Dame de Rouen é uma catedral católica, também em estilo gótico, situada em Rouen, na região da Normandia, no noroeste da França.

Claude Monet (1840-1926), o célebre pintor das ninfeias do Jardim de Giverny, onde morou em seus últimos quarenta anos de vida, também ficou conhecido pela série de mais de trinta obras sobre a Catedral de Rouen.

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Algumas das mais de 30 pinturas da Catedral de Rouen, pintadas por Claude Monet

As pinturas retratam o mesmo tema pintado em diferentes momentos do dia.

Monet disse: “Todos os dias eu capto e me surpreendo com alguma coisa que ainda não tinha sabido ver. Que difícil de fazer essa catedral! Quanto mais avanço, mais me fatiga restituir o que sinto; eu me digo que aquele que diz ter terminado uma tela é um terrível orgulhoso”.

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“La Cathédrale de Rouen – Le portail au soleil”, de Claude Monet

Para pintar os inúmeros quadros desta série, Monet submeteu-se a muitas sessões, indiferentemente da hora do dia e do tempo. Ele pintou sob o sol, sob a névoa, ao amanhecer, ao entardecer…

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“Cathédrale de Rouen – Harmonie bleue”, de Claude Monet

Ele trabalhou no tema em dois períodos distintos, em que houve um intervalo de cerca de um ano, entre 1890 e 1894. Monet montou seu atelier frente para a catedral. Antes de iniciar cada pintura, estudou a construção e os efeitos luminosos. Foram pintadas cerca de trinta telas (alguns dizem que são mais de cinquenta), onde Monet reproduz o jogo de luz e as inúmeras mudanças na atmosfera, em vários momentos do dia, através da fachada da catedral.

Artistas e críticos acolheram muito bem essa série de Claude Monet, pois tratava-se de um grande acontecimento. Como escreveu Georges Clemenceau, grande estadista e jornalista francês, tratava-se de “uma forma nova de olhar, de sentir, de expressar uma revolução”.

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“Cathédrale de Rouen – Matin”, de Claude Monet. 1893

Também artistas como Picasso, Braque ou Lichtenstein viram essa série de pinturas sobre a Catedral de Rouen como “de importância fundamental na história da arte”, pois “obrigaria gerações inteiras a mudar suas concepções”.

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“Cathédrale de Rouen – Harmonie brune”, de Claude Monet. 1894

Na tentativa de transferir para a tela as diferentes mudanças cromáticas, Monet desabafou dizendo que “tudo muda, inclusive a pedra”.

 Autor: Catherine Beltrão

Girassóis

Diz a lenda grega que Clície era uma ninfa apaixonada por Hélio, o deus do Sol. Helio a trocou por sua irmã e Clície começou a enfraquecer. Ela ficava sentada no chão frio, sem comer e sem beber, se alimentando apenas das suas próprias lágrimas. Enquanto o Sol estava no céu, dirigindo sua carruagem de fogo, Clície não desviava dele o seu olhar nem por um segundo. Durante a noite, o seu rosto se virava para o chão, continuando então a chorar.  Seus pés ganharam raízes e o seu rosto se transformou em uma flor,  que continuou seguindo o Sol. E assim nasceu o primeiro girassol.

Mas o girassol não é uma flor. É uma inflorescência, formada por  flores dispostas de acordo com um esquema em espiral, 34 num sentido e 55 no outro.

Flor ou não, vários pintores trouxeram para suas telas este pedaço de Sol. Haja vista Vincent van Gogh (1853-1890), o mais célebre.

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“Vaso com 14 girassóis”, de Vincent van Gogh. 1889.

Parece que Van Gogh pintou onze telas com girassóis. Difícil dizer a mais bela.  Quatorze deles foram pintados em uma obra, assim referida pelo pintor em uma carta a seu irmão Théo: “Sou intenso nisso, pintando com o entusiasmo de um marselhês comendo bouillabaisse, o que não vai surpreendê-lo quando você sabe que o que eu estou pintando são alguns girassóis. Se eu levar a cabo esta ideia, haverá uma dúzia de painéis. Então a coisa toda será uma sinfonia em azul e amarelo. Estou trabalhando nisso todas as manhãs desde o nascer do sol, pois as flores desaparecem tão rapidamente. Estou agora na quarta pintura de girassóis. Este quarto é um arranjo com 14 flores … dá um efeito singular.”

Paul Gauguin (1848-1903), contemporâneo de Van Gogh, dividiu com ele, por alguns meses, um cômodo da famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Foi uma relação conflituosa, que culminou com a partida de Gauguin para Paris, testemunhada por uma carta deste ao mesmo Théo, irmão de Van Gogh: “Sou obrigado a voltar para Paris. Vincent e eu não podemos de modo algum continuar vivendo lado a lado sem atritos, devido à incompatibilidade de nossos temperamentos e porque nós dois precisamos de tranquilidade para nosso trabalho. Ele é um homem de inteligência admirável que tenho em grande estima e deixo com pesar, mas, repito, é necessário que eu parta.”

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“Nature morte à l´Ésperance”, de Paul Gauguin – 1901

É famosa a obra “Nature morte à l´Ésperance“, em que Gauguin representa seu amigo pintando girassóis.

Voltemos um pouco no tempo. Claude Monet (1840-1926), o maior nome do Impressionismo, também pintou girassóis. Em vasos, colhidos de seu jardim de Vétheuil ou ainda florescendo  em seu jardim de Giverny.

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“Ramo de girassóis”, de Claude Monet. 1881.

O inebriante “Ramo de girassóis” é inconfundível, trazendo o frescor do jardim para dentro de casa, contrapondo cores e impressões que somente Monet teria condições de executar.

E que tal um girassol pintado por Gustav Klimt (1862-1918)?

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“O Girassol”, de Gustav Klimt. 1907

Além da célebre obra “Fazenda de campo com girassóis“, é também de Klimt “O Girassol“, solitário e imponente, majestoso, reinando na tela entre dezenas de flores miúdas. O pintor, mestre do Art Nouveau, cujo centenário é comemorado neste ano, nunca deixa de surpreender, na delicadeza de sua pintura, na textura impressa por suas cores…

No Brasil, talvez o nosso maior pintor de flores seja Alberto da Veiga Guignard, ou mais simplesmente Guignard (1896-1962).

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard. 1930

Nascido na cidade serrana de Nova Friburgo/RJ, cidade em que moro e trabalho e que recentemente me adotou como cidadã, o pintor das “paisagens imaginantes” foi extremamente generoso e profícuo em seu tema floral. Uma delas, a obra “Vaso de flores“, de 1930,   foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Na obra, um imenso girassol impera, reverenciado e abraçado por centenas de pétalas e perfumes…

Autor: Catherine Beltrão

Kobra e a arte efêmera dos murais

Em janeiro deste ano, recebi a notícia de uma morte.  A obra “Genial é andar de byke“, do fantástico muralista Eduardo Kobra, estava sendo apagada e substituída por outra pintura na Rua Oscar Freire, nos Jardins, bairro nobre de São Paulo.

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“Genial é andar de byke”, por Eduardo Kobra, em São Paulo.
Mural apagado em janeiro de 2018.

O mural de 15 metros de altura retratando o físico Albert Einstein andando de bicicleta,  tinha sido feito em 2015 pelo artista, que sequer foi comunicado da substituição.

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O apagar do mural.

Eduardo Kobra, para quem não sabe, é um expoente da neovanguarda paulistana, que surgiu com os grafiteiros na década de 1980. Após ter executado trabalhos em vários países, hoje é considerado um dos maiores muralistas do mundo.

Enquanto o Brasil vai matando arte – a sua e a de muitos outros – Kobra continua a fazê-la mundo afora. Em meados de 2017, dois trabalhos seus foram destaque na Europa.

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O mural de Monet pintando “Mulher com sombrinha”, por Eduardo Kobra, na França. Produzida em 2017.

Em Boulogne-sur-Mer, ao norte da França, à borda do Canal da Mancha, o artista reproduziu Claude Monet, em dois painéis. O pintor aparece em uma das obras, pintado com as cores e o estilo que marcaram boa parte do trabalho de Kobra. No outro mural, uma reprodução do quadro “Mulher com sombrinha“, feita por Monet em 1875, retratando Camille,a primeira esposa do artista eJean, o filho do casal.

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“Mulher com sombrinha”, por Eduardo Kobra.

Localizados quase frente a frente, os dois murais ocupam as laterais de dois edifícios da cidade. Ao escolher essas duas paredes, Kobra possibilitou uma interação entre as duas pinturas. Assim, o retrato de Monet parece estar finalizando a reprodução de sua obra. Um dos espaços tem 15m X 10m e o outro tem 17m X 13m.

Logo após Monet, foi a vez de John Lennon ser retratado por Eduardo Kobra. Localizada em Bristol, na Inglaterra, o mural se espalha por 256 metros quadrados. Foi batizada de “Imagine”, tendo sido apresentada no UpFest – The Urban Paint Festival, considerado o maior evento de arte urbana da Europa. Durante uma semana, diversos grafiteiros realizaram produções artísticas em muros do bairro de Bedminster. Kobra recebeu a principal parede do evento para realizar seu mural, que consumiu 300 latas de tinta spray e demandou trabalho de 14 horas por dia, durante os 7 dias do festival.

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“Imagine”, por Eduardo Kobra, na Inglaterra. Produzida em 2017.

E, também para quem não sabe, “Imagine” foi composta em 1971,  passando uma mensagem de paz, incentivando as pessoas a imaginarem um mundo sem barreiras nacionais ou religiosas, ganância ou posses materiais. É um símbolo de união e respeito entre os povos. Um mote recorrente na obra de nosso maior muralista.

A Arte é efêmera em países cujos povos – governantes e governados – possuem mentes efêmeras.

 Autor: Catherine Beltrão

Macieiras em flor

Aqui em Nova Friburgo, as cerejeiras começam a florir. É um espetáculo único e efêmero, para os que gostam do inverno e das montanhas. E aí, eu me lembro de outras flores, depositadas no eterno por artistas e poetas: as flores das macieiras!

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“Pommiers en fleurs”, de Georges Wambach. 1937

“Solau à moda antiga”, de Mário Quintana

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto…

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Que seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa,
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa.

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor…

Claude Monet's Le Printemps.

“Le Printemps”, de Claude Monet. 1901

“Declaração de amor”, de Carlos Drummond de Andrade

Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona. florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus. meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta… amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

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“Macieira em flor no jardim”, de Edvard Munch.

“Poema duma macieira”, de Miguel Torga

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

 

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“Pommiers en fleurs près de Vetheuil”, de Claude Monet.

Ode à tristeza, de Pablo Neruda

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“Macieira em flor”, de Vincent van Gogh. 1888

Tristeza, escaravelho
de sete patas sujas,
ovo de teia de aranha,
rato descalabrado,
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Anda-te.
Volta
ao Sul com teus guarda-chuvas,
volta
ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e de suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Sacode
tuas asas de morcego,
eu pisarei as penas
que caem de teu manto,
eu varrerei os pedaços
de teu cadáver para
os quatro cantos do vento,
eu te torcerei o pescoço,
te costurarei os olhos,
te cortarei a mortalha
e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira.

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“Macieiras em flor”, de Alfred Sisley.

“A História da Macieira”, de Clarice Lispector

A macieira ficava a mesma durante todo o dia espiando as árvores frondosas que cresciam ao seu redor

Durante a noite a macieira olhava para o alto e via as estrelas no céu…e debaixo de sua pequenez, imaginava que as mesmas
estavam penduradas nos galhos das árvores ao seu redor e pensava – “por que razão Deus deu estrelas para essas árvores e
nada cresce nos meus galhos?”.

Ficava tristonha e esbravejava contra a sua sorte.

Pois que chega a primavera e os ganhos da macieira enchem-se de flores – lindas e perfumadas. As pessoas que frequentavam o
bosque correram para sua sombra, todos queriam descansar sob os galhos da pequena macieira. Ela, sempre querendo as
estrelas, desdenhava de suas flores.

_ Por que razão me destes flores ao invés de estrelas? Flores morrem e caem e eu não as terei mais em breve. Dizia a
macieira para Deus que respondia:

_ Não vês, então, macieira, que és a única que abriga pessoas sob teus galhos? Mas a pequena árvore não se satisfazia.

Chega o outono e um vento forte corta os ares do bosque. Macieira percebe que algo cai de seus galhos e olha para o chão.

_ Nossa, meu Deus, já não bastassem as flores que caíram e agora essas bolas vermelhas???!!!

Deus olha risonho para a pequena e petulante arvorezinha e pergunta:

_ Não vês, minha querida, o presente que te dei? Olha com atenção para este que partiu-se em dois.

Macieira, então, olha para a maçã que partira-se em dois e percebe, encantada, a pequena estrela escondida dentro dela.

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“Macieira em flor”, de Claude Monet.

“Mulheres são como maçãs”, de Machado de Assis

As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos,
mulheres são como maçãs em árvores.
As melhores estão no topo,
os homens não querem alcançar essas boas,
porque eles têm medo de cair e se machucar.
Preferem pegar as maçãs mais podres que ficam no chão,
que não são boas como as do topo,
mas são fáceis de se conseguir.
Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade,
ELES estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar…
Aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

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“Macieira em flor”, de Piet Mondrian. 1912

A flor da macieira não é só beleza, não é só perfume, não é só ternura. É também a presença de Monet e de Neruda. De Van Gogh e de Machado. De Munch e de Torga. De Sisley e de Quintana. De Wambach e de Clarice. De Mondrian e de Drummond.

Autor: Catherine Beltrão  

Gladíolos…

Às vezes, vale juntar flores e batalhas. É quando se fala de gladíolos.

Gladíolo vem do latim Gladius que significa Gládio, ou espada, devido a sua forma longa e pontiaguda. A referência à espada se dá por causa dos Gladiadores Romanos que recebiam a flor quando saíam vencedores do combate. Por isso seu simbolismo é de vitória em batalha.

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“Jarro com gladíolos”, de Vincent van Gogh

 

Na minha opinião, o mais belo poema envolvendo gladíolos é de Arthur Rimbaud (1854-1891): “Le dormeur du val” (“Adormecido no vale“, em tradução de Ferreira Gullar).

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“Gladíolos”, de Claude Monet

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“Glaieuls”, de Chaim Soutine

“Le dormeur du val”

C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

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“Gladíolos em um jarro”, de Pierre Auguste Renoir

 

“Adormecido no vale”, em tradução de Ferreira Gullar

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“Gladíolos em ascensão”, de Edith Blin

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“Gladíolos”, de Anita Malfatti

É um vão de verdura onde um riacho canta
 A espalhar pelas ervas farrapos de prata
 Como se delirasse, e o sol da montanha
 Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
 Banhando a nuca em frescas águas azuis,
 Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
 Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os gladíolos, sorri mansamente
 Como sorri no sono um menino doente.
 Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
 Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
 Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Van Gogh, Renoir, Soutine, Monet, Anita Malfatti e Edith Blin. E Rimbaud. Uma voz em um berço de cores e perfumes. E que voz… que cores… que perfumes!

Autor: Catherine Beltrão

Giverny e Inhotim: sonhos e jardins…

Devo ter sido abençoada pois Giverny e Inhotim fazem parte de minhas lembranças. Lembranças ainda frescas pois só fui conhecer estes jardins há poucos anos: Inhotim em 2013 e Giverny em 2014.

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Lago das ninfeias. Foto: Catherine Beltrão.

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Jardins de Monet. Foto de F. Didillan

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Jardins de Monet. Extraída de: http://viagememfamilia.net/2015/04/23/jardins-de-monet-giverny/

Em 1883, Claude Monet (1840-1926) descobriu Giverny, pequena cidade da Normandia, na França:  passeando pela região, se apaixonou. Alugou uma vila e transformou todo o local em um maravilhoso jardim, onde se inspirava diariamente. Muitos dos seus quadros foram pintados neste cenário de sonhos.  Sonhou suas flores e pintou seu jardim. Em 1890, Monet comprou esta vila e viveu ali até a sua morte, em 1926. Foram 43 anos de amor e comunhão entre o artista e seu jardim…

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“A ponte Japonesa”, de Claude Monet. Ost, 1889.

Conheci o Jardim de Monet, após 40 anos de espera, por ocasião de minha última viagem à França, em 2014, quando fui fazer a dispersão das cinzas de minha mãe, que havia falecido dois meses antes. Na época, publiquei este post: “As Flores de Giverny“.

Inhotim é a Disneylândia dos amantes da arte contemporânea e dos imensos jardins de plantas tropicais. É considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina e está localizada em Brumadinho, pequena cidade a 60 km de Belo Horizonte.

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Foto: © Ricardo Mallaco

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Árvore suspensa de Giuseppe Penone. Escultura em bronze suspensa entre árvores de verdade, que se fundem com a escultura.

Os jardins de Inhotim também foram sonhados. O Instituto Inhotim começou a ser idealizado pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980. A propriedade privada se transformou com o tempo, tornando-se um lugar singular, com um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo e uma coleção botânica que reúne espécies raras e de todos os continentes.

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Detalhe de uma piazzetta com 3 esculturas de bronze do Edgard de Souza.

O Instituto Inhotim abriga um complexo museológico com uma série de pavilhões e galerias com obras de arte e esculturas expostas ao ar livre. Inhotim é a única instituição brasileira que exibe continuamente um acervo de excelência internacional de arte contemporânea.

Para além da contemplação, os jardins são campo para estudos florísticos e catalogação de novas espécies botânicas. Em 2010, o Instituto Inhotim recebeu a chancela de Jardim Botânico, atribuída pela Comissão Nacional de Jardins Botânicos (CNJB), e, desde então, integra a Rede Brasileira de Jardins Botânicos (RNJB). (Fonte: http://www.inhotim.org.br)

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“Inmensa”, de Cildo Meireles. Escultura em aço, 400 x 810 x 445 cm, 1982 – 2002. Foto: Tibério França

Também esperei anos para conhecer Inhotim. E, após a visita, também escrevi um post, o terceiro deste blog: “Primeiro contato com Inhotim“.

E assim, embora tardiamente, alguns sonhos meus vão se realizando e se misturam aos sonhos dos idealizadores destes dois magníficos jardins: Claude Monet e Bernardo Paz.

 Autor: Catherine Beltrão

Brasil no ranking mundial de roubo de obras de arte

Há 10 anos, o Brasil integra o ranking mundial de roubo de obras de arte. Em 24.02.2006,  quatro obras e um livro de gravuras foram roubadas do Museu Chácara do Céu, situado no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. É o maior roubo de arte do Brasil e um dos dez maiores do mundo. Nessa lista, o roubo à Chácara é o único da América Latina.

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“A Dança”, de Picasso. 1956, ost, 100 X 81 cm

Na época,  as obras roubadas foram avaliadas em mais  de US$ 10 milhões.

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“Dois balcões”, de Salvador Dalí. 1929, ost, 23,5 cm X 34,5 cm

Era uma sexta-feira antes do carnaval. Quatro homens armados invadiram o Museu da Chácara do Céu, obrigaram os seguranças a desligar o circuito interno de TV e prenderam turistas em uma sala. Os ladrões levaram as obras “Os Dois Balcões“, de Salvador Dalí, “A Dança“, de Pablo Picasso, “Marine“, de Claude  Monet, e “Jardim de Luxemburgo“, de Henri Matisse. Além disso, os bandidos quebraram uma vitrine para levar uma edição de “Toros“, livro de gravuras de Picasso.

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“Jardim de Luxemburgo”, de Henri Matisse.1903, ost

Fragmentos da obra “A Dança”, de Picasso, foram encontrados em uma fogueira no Morro dos Prazeres, também em Santa Teresa. Depois do roubo, o quadro de Matisse foi noticiado como sendo oferecido em um site de leilões virtuais da Bielo-Rússia, com lance mínimo de US$ 13 milhões. Parece que foi um alarme falso.

Mas não foi a única vez que a Chácara do Céu teve peças roubadas. Em 1989, havia tido um assalto e levaram várias obras, entre as quais estavam duas que novamente seriam roubadas em 2006.  Estas peças, roubadas em 1989, foram encontradas em um apartamento no Rio.

Roubo_Monet

“Marine”, de Monet. Ost, pintado entre 1880 e 1890

 

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Capa do livro “A Arte do Descaso”, de Cristina Tardáguila

Foi lançado recentemente o livro-reportagem “A Arte do Descaso“, da jornalista Cristina Tardáguila, que pesquisou a respeito deste roubo, até agora sem solução. O crime, embora tenha decorrido há mais de 10 anos, ainda está na fase de inquérito. Falta ser analisado pelo Ministério Público para, só depois, ser transformado em denúncia e, aí sim, ir para a Justiça, que pode ou não aceitar a denúncia. O crime prescreve em 2026.

Autor: Catherine Beltrão

A Paris de Monet era outra…

Em 14 de novembro de 1840, nascia Claude Monet, em Paris. Faz 175 anos.

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“Fête du 30 juin de 1878 – Rue Saint-Denis à Paris”, 0st, 1878, 76 X 52cm. Musée des Beaux-Arts de Rouen

Em 1878, Claude Monet (1840-1926), o maior entre os pintores impressionistas, pintou duas obras com o mesmo tema: “30 de junho de 1878“, celebrando a Terceira Exposição Universal, realizada em Paris.  Uma mostra a  Rua Saint Denis e a outra a Rua Montorgueil, ambas pintadas do ponto de vista de um balcão, ambas ostentando um mar de bandeiras tricolores – azuis, brancas e vermelhas – tremulando nas janelas dos prédios, saudando a multidão que percorria o trajeto.  Com certeza, Monet acreditava na República e na democracia.

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“Fête du 30 juin de 1878 – Rue Montorgueil à Paris”, 0st, 1878, 81 X 50,5cm. Musée d’Orsay

O 30 de junho de 1878 era um domingo. A Paris de Monet estava em festa, fervilhava de alegria e esperança.

Os 175 anos do nascimento de Monet foram comemorados com dor e medo. Em 14 de novembro de 2015, Paris está de luto, após o dia mais negro de sua história de atentados terroristas, com um saldo de 129 mortos e mais de 300 feridos.

Autor: Catherine Beltrão