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Van Gogh em sonhos

Em 1990, quando eu estava na França, vi um filme esplendoroso: “Sonhos“, do cineasta japonês Akira Kurosawa (1910-1998). O filme se baseia em oito sonhos verdadeiros que Kurosawa teve em momentos diferentes de sua vida. Um destes oito episódios tem como personagem um estudante de artes que, em uma visita a um museu, penetra em algumas obras de Van Gogh (1853-1890), caminhando em meio a suas paisagens.

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“A ponte de Langlois em Arles”, de Van Gogh. 1888.
Vídeo com fragmento do filme “Sonhos”, no episódio “Corvos”.

 A caminhada inicia pela obra “A ponte de Langlois em Arles“, de 1888.

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“A ponte de Langlois em Arles”, no sonho de Kurosawa.

A obra, também conhecida como “A Ponte em Langlois com Lavadeiras”, segundo o próprio Van Gogh, “retrata uma ponte com uma pequena carroça amarela e um grupo de lavadeiras, um estudo em que a terra é laranja brilhante, a grama é muito verde, a água e o céu azuis.”

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“Estrela com cipreste e estrela”, no sonho de Kurosawa.

Van Gogh conheceu a ponte de Langlois quando explorava os arredores de Arles. Ele se encantou com sua leve estrutura de madeira e o seu maravilhoso contexto cromático, feito com tijolos multicoloridos nas paredes que a ladeiam.

A caminhada do estudante continua passando por vielas, jardins, campos de trigo… ah, os famosos campos de trigo, dourados e perfumados, junto a ciprestes eretos!

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“Jardim florido em Arles”, no sonho de Kurosawa.

Van Gogh foi considerado louco. Será? O fato de ter cortado a própria orelha faz dele um louco? A lucidez criativa com a qual ele criou sua obra faz dele um louco?  Ao caminhar por essas vielas e campos de trigo, parece que são estas as respostas que o estudante procura.

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“Campo de trigo com corvos”, no sonho de Kurosawa.

Após uma conversa com o próprio Van Gogh, interpretado por Martin Scorsese – que o dispensa alegando “não ter tempo para conversas pois precisa pintar, que o tempo é curto” –  o estudante perde a trilha do artista e viaja através de outros trabalhos tentando reencontrá-lo.

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“Campo de trigo com corvos”, de Van Gogh. 1890.

Finalmente, Van Gogh é avistado pelo estudante, ao fim de uma estradinha em meio a um campo de trigo. O céu é absurdamente azul. De repente, corvos surgem. Aos poucos, inundam o céu com sua cor preta. E um tiro é ouvido ao longe.

A obra “Campo de trigo com corvos” é considerada o testamento pictural de Van Gogh. Um céu azul escurecido pelo voo dos corvos, os três caminhos no campo, sendo o central um beco sem saída e os dois outros de final ou percurso desconhecidos e os corvos, símbolos de maus presságios ou mesmo de morte.

O episódio “Corvos” no filme “Sonhos” é acompanhado pelo belíssimo Prelúdio opus 28 nº 15, de Frédéric Chopin, mais conhecido como “Prelúdio da Gota d’Água“.

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“Autorretrato”, de Van Gogh. 1889.

Em “Sonhos“, também é mostrado um dos autorretratos de Van Gogh, dos 35 pintados somente no período 1886-1889. Uma pergunta: qual teria sido o critério de Akira Kurosawa ao escolher precisamente este autorretrato para representar Van Gogh em seu filme?

 Autor: Catherine Beltrão

Pianos em telas e versos (Parte I)

Entre amores e paixões vividas nessas mais de seis décadas de existência, talvez o piano tenha sido a maior. Paixão que quase me fez ser concertista, um dia. Amor que me fez (e faz) garimpar a música por trás das cenas de filmes, ou no ar por sobre as montanhas e por entre ondas…

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“Musica Inspiradora”, de Lena Gal. 2002.
Vídeo: 32 variações em Dó menor, de Beethoven – Gleen Gould. Duração: 12.29

A pesquisa na Internet me fez achar dezenas de obras de arte onde o piano é protagonista. Os versos já não são tantos… Nesta primeira parte do post, vale apresentar o de Carlos Drummond de Andrade, “Onde há pouco falávamos“:

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“A Sonata de Mozart”, de Berthe Morisot. 1894.
Vídeo: “Prelúdio e Fuga em Lá maior”, do Cravo Bem Temperado, vol.2, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 2:33

É um antigo
 piano, foi
 de alguma avó, morta
 em outro século.

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“Madame Juliette Pascal ao piano”, de Toulouse Lautrec. 1896.
Vídeo: “Variações 1 a 7 de Goldberg”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 9:49

 E ele toca e ele chora e ele canta
 sozinho,
 mas recusa raivoso filtrar o mínimo
 acorde, se o fere
 mão de moça presente.

Ai piano enguiçado, Jesus!
 Sua gente está morta,
 seu prazer sepultado,
 seu destino cumprido,
 e uma tecla
 põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
 É um rato?
 O vento?
 Descemos a escada, olhamos apavorados
 a forma escura, e cessa o seu lamento.

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“Jeunes filles au piano”, de Pierre-Auguste Renoir. 1892.
Vídeo: “Concerto de Brandenburg nº 5″, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 6:07

Mas esquecemos. O dia perdoa.
 Nossa vontade é amar, o piano cabe
 em nosso amor. Pobre piano, o tempo
 aqui passou, dedos se acumularam
 no verniz roído. Floresta de dedos,
 montes de música e valsas e murmúrios
 e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
 Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
 Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
 ele estronda. A poeira profusa salta,
 e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
 circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
 Assim nosso carinho
 encontra nele o fel, e se resigna.

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“Mademoiselle Gachet ao piano”, de Vincent van Gogh. 1890.
Vídeo: “Prelúdio em Dó menor”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 1:14

Uma parede marca a rua
 e a casa. É toda proteção,
 docilidade, afago. Uma parede
 se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
 ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
 o medo imemorial, os inspetores
 da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
 Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
 Uma cadeira se renova ao meu desejo.
 A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
 e confiantes. A casa vive.
 Confio em cada tábua. Ora, sucede
 que um incubo perturba
 nossa modesta, profunda confidencia.

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“O descanso do modelo”, de Almeida Junior. 1892.
“Noturno op.9 nº1″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrrau. Duração: 5:51

É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
 busto e humour. Uma dolência rígida,
 o reumatismo de noites imperiais, irritação
 de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
 e tudo que deixam mudanças,
 viagens, afinadores,
 experimento de jovens,
 brilho fácil de rapsódia,
 outra vez mudanças,
 golpes de ar, madeira bichada,
 tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
 meio grotesco também, nada piedoso.

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“Madame Camus ao piano”, de Edgar Degas. 1869.
Vídeo: “Noturno op.9 nº2″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 4:51

Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
 objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
 de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
 a coleção de retratos, também alguns livros,
 cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
 antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
 bem sei, mas e esse piano?

Está no fundo
 da casa, por baixo
 da zona sensível, muito
 por baixo do sangue.

Está por cima do teto, mais alto
 que a palmeira, mais alto
 que o terraço, mais alto
 que a cólera, a astúcia, o alarme.

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“Manuela González Velázquez tocando piano”, de González Velázquez . 1820.
Vídeo: “Noturno op.9 nº3″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 7:20

Cortaremos o piano
 em mil fragmentos de unha?
 Sepultaremos o piano
 no jardim?
 Como Aníbal o jogaremos
 ao mar?
 Piano, piano, deixa de amofinar!
 No mundo, tamanho peso
 de angústia
 e você, girafa, tentando.

Resta-nos a esperança
 (como na insônia temos a de amanhecer)
 que um dia se mude, sem noticia,
 clandestino, escarninho, vingativo,
 pesado,
 que nos abandone
 e deserto fique esse lugar de sombra
 onde hoje impera. Sempre imperará?

(É um antigo piano, foi
 de alguma dona, hoje
 sem dedos, sem queixo, sem
 música na fria mansão.
 Um pedaço de velha, um resto
 de cova, meu Deus, nesta sala
 onde ainda há pouco falávamos.)

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“Jovem ao piano”, de Paul Cézanne. 1868.
Vídeo: “Bénédiction de Dieu dans la solitude”, de Franz Liszt – Claudio Arrau. Duração: 19:07

Como trilha sonora deste post escolhi 5 peças de J.S. Bach e Ludwig van Beethoven, interpretadas por Gleen Gould e 4 peças de Frédéric Chopin e Franz Liszt, com interpretação de Claudio Arrau. Puro deleite!

Para ler a parte II deste post, acesse aqui.

 Autor: Catherine Beltrão