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Um dia, 13 gatos

Em 1963, o filme tcheco “Um dia, um gato“, vencedor do prêmio do juri em Cannes, conta aos alunos de uma escola a vida de um professor, a história de um antigo amor e seu gato de óculos escuros. Ao tirar os óculos, o gato colore as pessoas de acordo com seus sentimentos e personalidades.

Este post apresenta 13 gatos, segundo os sentimentos e as personalidades de seus criadores: nove pintores e quatro escritores.

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Desenho de Gustave Doré (1832-1883) para o conto “O Gato de Botas”.

O Gato de Botas“, de Charles Perrault (1628-1703)

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Marc Chagall (1887-1985)

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Henri Matisse (1869-1954)

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram preguiçosos e o caçula era muito trabalhador.

Quando o moleiro morreu, só deixou como herança o moinho, um burrinho e um gato. O moinho ficou para o filho mais velho, o burrinho para o filho do meio e o gato para o caçula. Este último ficou muito descontente com a parte que lhe coube da herança, mas o gato lhe disse:

- Meu querido amo, compra-me um par de botas e um saco e, em breve, te provarei que sou de mais utilidade que um moinho ou um asno.

…………… (para saber o meio da história, clique aqui)

Então, o moço pediu a mão da princesa, e o casamento foi celebrado com a maior pompa. O gato assistiu, calçando um novo par de botas com cordões encarnados e bordados a ouro e preciosos diamantes.
E daí em diante, passaram a viver muito felizes. E se o gato às vezes ainda se metia a correr atrás dos ratos, era apenas por divertimento; porque absolutamente não mais precisava de ratos para matar a fome…

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Pablo Picasso (1881-1973)

Impossível se falar em gatos e não citar o  Gato de Cheshire, de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll (1832-1898).

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Aldemir Martins (1922-2006)

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Cândido Portinari (1903-1962)

“Aonde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde você quer ir…”, disse o gato.
“Eu não sei para onde ir!”, disse Alice.
“Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.”

“Mas eu não quero me encontrar com gente louca”, observou Alice.
” Você não pode evitar isso”, replicou o gato.
“Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco,você é louca”.
“Como você sabe que eu sou louca?” indagou Alice.
“Deve ser”, disse o gato, “Ou não estaria aqui”.

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Di Cavalcanti (1897-1976)

Mas os gatos também cabem na poesia… Pablo Neruda (1904-1973) já sabia disso, em “Ode ao gato“:

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Frida Kahlo (1907-1954)

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Luiza Caetano (1946)

O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato, quer ser só gato
e todo gato é gato, do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

E, para terminar, a delicadeza do andar sobrenatural do gato de Clarice Lispector:

Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.

 Autor: Catherine Beltrão

Anjos

Neste início de ano, uma vontade imensa de escrever sobre anjos. Estes seres alados e sem tempo, que povoam nossa imaginação e, em consequência, nossos pensamentos e crenças. E, mais uma vez, poetas, pintores e escultores se juntam neste louvor.

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Leonardo da Vinci (1452-1519): “A Anunciação” – 1472/75

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam
Clarice Lispector (1920-1977)

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Michelangelo Buonarroti (1475-1564): “Angel with Candlestick” – 1494/95. Faz parte da decoração da Arca de São Domingo, na Basílica de São Domingo em Bolonha.

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Giotto(1266-1337): “Anjo”, na capela Arena Scrovegni, em Pádua – 1304/06

A doce canção“, de Cecília Meireles (1901-1964)

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve,no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

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Rafael Sanzio (1483-1520): “Madonna Sistine” (detalhe) – 1512

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Aleijadinho (1730-1814): “Anjo do Getsêmani”, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas/MG

O mistério do meu canto,
Deus não soube,tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o universo
de pólo a pólo contente.

O Anjo da Escada“, de Mario Quintana (1906-1994)

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

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Vincent van Gogh (1853-1890): “Cabeça de Anjo, a partir de Rembrandt”

Eu vi o anjo no mármore e o esculpi até ‘libertá-lo‘”.
Michelangelo Buonarroti

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Salvador Dali (1904-1989): “O anjo caído”, em O Purgatório, Canto I, de Dante Aleghieri – déc.60

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Paul Cezanne (1839-1906): “O beijo da Musa” – 1860

Com licença poética“, de Adélia Prado (1935)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

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Marc Chagall (1887-1985): “A queda do anjo” – 1947

A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar.
Clarice Lispector

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “Anjos” – 1924

O anjo“, de Ferreira Gullar (1930-2016)

1. O anjo, contido
em pedra
e silêncio
me esperava.

Olho-o, identifico-o
tal se em profundo sigilo
de mim o procurasse desde o início.

Me ilumino! todo
o existido
fora apenas preparação
deste encontro.

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Victor Brecheret (1894-1955): “Ave Maria 1″ – 1955. Última obra de Brecheret. Túmulo família Scuracchio. Cemitério São Paulo.

2. Antes que o olhar, detendo o pássaro
no voo, do céu descesse
até o ombro sólido
do anjo,
criando-o
– que tempo mágico
ele habitava?
3. Tão todo nele me perco
que de mim se arrebentam
as raízes do mundo;
tamanha
a violência de seu corpo contra
o meu,
que a sua neutra existência
se quebra:
e os pétreos olhos
se acendem;
o facho
emborcado contra o solo, num desprezo
à vida
arde intensamente;
a leve brisa
faz mover a sua
túnica de pedra.

4. O anjo é grave
agora.
Começo a esperar a morte.

 Autor: Catherine Beltrão

Nascimento. Natividade. Natal.

O Natal celebra o nascimento de Jesus, chamado também de Natividade.

Diz o Evangelho de Lucas que José e Maria viajaram de Nazaré para Belém para comparecer a um censo e que Jesus nasceu durante a viagem numa simples manjedoura.  A Natividade foi pintada e escrita por grandes artistas e poetas. Não podia ser diferente. É um evento maior. 

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Sandro Botticelli (1445-1510)

 

Soneto de Natal“, de Machado de Assis

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Hieronymus Bosch (1450-1516)

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El Greco (1541-1614)

Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

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Caravaggio (1571-1610)

 

O que fizeram do Natal“, de Carlos Drummond de Andrade

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Paul Rubens (1577-1640)

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Georges de La Tour (1593-1652)

Natal.
O sino longe toca fino,
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus-menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

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Paul Gauguin (1848-1903)

 

Poesia de Natal“, de Cora Coralina

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Mark Chagall (1887-1985)

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Di Cavalcanti (1897-1976)

Enfeite a árvore de sua vida
com guirlandas de gratidão!
Coloque no coração laços de cetim rosa,
amarelo, azul, carmim,
Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante

Em sua lista de presentes
em cada caixinha embrulhe
um pedacinho de amor,
carinho,
ternura,
reconciliação,
perdão!

Tem presente de montão
no estoque do nosso coração
e não custa um tostão!
A hora é agora!
Enfeite seu interior!
Sejas diferente!
Sejas reluzente!

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Adriana Varejão (1964)

 

Finalizando, “Compras de Natal“, de Cecília Meireles

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes, os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

Autor: Catherine Beltrão

Janelas abertas

Artistas gostam de pintar janelas. Poetas também pensam em janelas. Será por quê? As janelas nos protegem do desconhecido. As janelas nos espiam todo o tempo. As janelas nos sugerem a liberdade.

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“Mulher na janela”, de Salvador Dali. 1925.

Houve um tempo em que minha janela se abria
 sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
 Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
 Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
 e o jardim parecia morto.
 Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
 e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
 Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
 E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
 Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
 Outras vezes encontro nuvens espessas.
 Avisto crianças que vão para a escola.
 Pardais que pulam pelo muro.
 Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
 Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
 Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
 Ás vezes, um galo canta.
 Às vezes, um avião passa.
 Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
 E eu me sinto completamente feliz.
 Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
 que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
 outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
 finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
(Cecília Meireles)

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“Interior com Violino”, de Henri Matisse. 1917

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
(Alberto Caeiro – heterônimo de Fernando Pessoa)

 

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“Morning Sun”, de Edward Hopper. 1930

 

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“Vista de uma janela, Ilha do mar do Norte”, de Paul Klee. 1923

Quem faz um poema abre uma janela.
 Respira, tu que estás numa cela abafada,
 esse ar que entra por ela.
 Por isso é que os poemas têm ritmo
 - para que possas profundamente respirar.
 Quem faz um poema salva um afogado.
(Mario Quintana)

“Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto É como se abrisse o mesmo livro Numa página nova…” (Mário Quintana)

 “Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado. Morri? Não. Ressuscitei.” (Mário Quintana)

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“Mulher na janela”, de Edgar Degas. 1875-1878

O poema é antes de tudo um inutensílio
Hora de iniciar algum
 convém se vestir roupa de trapo.
 Há quem se jogue debaixo de carro
 nos primeiros instantes.
 Faz bem uma janela aberta
 uma veia aberta.
 Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
 enquanto vida houver.
 Ninguém é pai de um poema sem morrer.
(Manoel de Barros - do livro Arranjos para Assobio)

 

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“Paris através da janela”, de Marc Chagall. 1913

 

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“Mulher diante de uma Janela”, de Fernando Botero. 1990

Uma noite de lua pálida e gerânios
 ele virá com a boca e mão incríveis
 tocar flauta no jardim.
 Estou no começo do meu desespero
 e só vejo dois caminhos:
 ou viro doida ou santa.
 Eu que rejeito e exprobo
 o que não for natural como sangue e veias
 descubro que estou chorando todo dia,
 os cabelos entristecidos,
 a pele assaltada de indecisão.
 Quando ele vier, porque é certo que vem,
 de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
 A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
 De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
 Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado

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“Open Window toward the Seine”, de Pierre Bonnard. 1911-12

O mundo é grande e cabe
 nesta janela sobre o mar.
 O mar é grande e cabe
 na cama e no colchão de amar.
 O amor é grande e cabe
 no breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade in “Amar se Aprende Amando”)

 “Existem manhãs em que abrimos a janela, e temos a impressão de que o dia está nos esperando.”
(Charles Baudelaire)

“Existe algo mais importante que a lógica: a Imaginação. Se a ideia é boa, jogue a lógica pela janela.”
(Alfred Hitchcock)

Mas o importante é que a janela esteja aberta. Para que possamos alcançar a liberdade. Para que possamos nos exibir ao tempo. Para que possamos fechá-las e nos proteger do desconhecido.

 Autor: Catherine Beltrão

Murais: de pinturas rupestres a grafites

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Pintura rupestre na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, na Serra da Capivara. Piaui, Brasil. Datação provável: 12000 anos.

Desde sempre, desenhos foram pintados em paredes: poderiam ser dentro de cavernas, dentro de igrejas, dentro e fora de casas, de palácios, de monumentos ou mesmo, de simples prédios.  A pintura mural tem raízes no instinto primitivo dos povos de decorar seu ambiente e de usar as superfícies das paredes para expressar idéias, emoções e crenças.

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Mural na Vila dos Mistérios, em Pompeia, pintado por volta de 60 a 70 a,C.

A cidade de Pompeia, na Itália, foi totalmente devastada pelas lavas do vulcão Vesúvio, em 24 de agosto de 79. Construída no sec. II a.C, a Vila dos Mistérios é uma das casas mais bem preservadas de Pompeia, com afrescos representando um rito de iniciação misterioso dionisíaco das mulheres no casamento.

A técnica de uso mais generalizado para o muralismo é a do afresco, que consiste na aplicação de pigmentos de cores diferentes, diluídos em água, sobre argamassa ainda úmida.

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“A última ceia”, afresco de Leonardo da Vinci. 1495–1498, 460 cm × 880 cm. Localização: Santa Maria delle Grazie, Milão

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“O Juízo Final” (detalhe), afresco de Michelangelo. 1537-1541, 1370 x 1220 cm. Localização: Capela Sistina, Vaticano.

No Renascimento, foram criadas algumas obras-primas do muralismo, como os afrescos da capela Sistina, por Michelangelo, e a “Última ceia“, de Leonardo da Vinci. Este afresco foi pintado com técnica mista, com predominância da têmpera e óleo sobre duas camadas de preparação de gesso aplicadas sobre reboco (estuque).

“O Juízo Final” é um afresco do pintor renascentista italiano Michelangelo Buonarroti, pintado na parede do altar da Capela Sistina. É, na visão do artista, uma representação do Juízo Final inspirada na narrativa bíblica.

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“Tiradentes” (detalhe), de Cândido Portinari. 1949. Têmpera s∕tela, 309 x 1767 cm. Localização: Memorial da América Latina – São Paulo.

Após alguns séculos de decadência, a pintura mural ressurgiu no século XX, com todo vigor, com trabalhos de grupos cubistas e fauvistas, em Paris, incluindo artistas como Picasso, Matisse, Léger, Miró, Portinari e Chagall,  e também a partir do movimento revolucionário mexicano, com Diego Rivera.

Em “Tiradentes“, Portinari representa os episódios e os principais protagonistas da Inconfidência Mineira. A escolha do tema é do próprio Portinari que se dedica aos estudos e documentos sobre os fatos que sucederam ao martírio de Joaquim José da Silva Xavier. Adota como fonte importante de pesquisa o “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles e tem como desafio implícito a tela “Tiradentes Esquartejado“, 1893, de Pedro Américo.

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“Pan American Unity Mural”, de Diego Rivera. 1940. Localização: City College of San Francisco

O mexicano Diego Rivera acreditava que somente o mural poderia redimir artisticamente um povo que esquecera a grandeza de sua civilização pré-colombiana durante séculos de opressão estrangeira. Assim como os outros muralistas, considerava burguesa a pintura de cavalete, pois na maior parte dos casos as telas ficavam confinadas em coleções particulares. Dentro deste conceito, realizou gigantescos murais que contavam a historia política e social do México, mostrando a vida e o trabalho do povo mexicano, seus heróis, a terra, as lutas contra as injustiças, as inspirações e aspirações.

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Teto do Opéra Garnier, em Paris, de Marc Chagall – 1964

O famoso Ópera de Paris apresentou em 23 de setembro de 1964 um deslumbrante novo teto pintado como oferecimento pelo artista bielo-russo Marc Chagall, que passou grande parte da vida na França. O teto era característico das obras primas de Chagall – infantil em sua aparente simplicidade, embora luminoso pelas cores e evocativo do mundo de sonhos e do subconsciente. Trabalhando em uma superfície de 560 metros quadrados, Chagall dividiu o teto em zonas coloridas que preencheu com paisagens e figuras representativas dos luminares da ópera e do balé.

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“The Fischerman”, um dos cinco murais de concreto de Picasso. Localização: Oslo, Noruega.

O sempre inovador Pablo Picasso se aventurou em murais de concreto. Os prédios do Regjeringskvartale (Quarteirão do Governo), em Oslo, na Noruega, apresentam cinco murais de Picasso esculpidos no concreto. Trata-se da primeira incursão do artista espanhol neste material. Os murais variam em tamanho. Vão do “The Fisherman”, uma imagem de 12 metros de largura que ocupa uma parede inteira, a “The Beach”, gravada na parede interior de outro prédio.

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Maior grafite do Rio de Janeiro, by Toz. 30 X 70m. Localização: Praça Mauá, Rio de Janeiro.

Desde 2013, um imenso painel de cores vibrantes e formas harmoniosas chama a atenção em meio à paisagem cinza das construções antigas e às obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, Brasil. Com 30 metros de altura e 70 de largura, o maior grafite do Rio, na lateral de um prédio na Rua Coelho e Castro, na Saúde, próximo à Praça Mauá, do artista plástico Tomaz Viana, o Toz. Na pintura, em sua maior parte dividida em triângulos, aparecem, entre outras,  imagens de meninas, animais e balões.

De pinturas rupestres a grafites, o homem sempre procurou, através dos tempos e ao mesmo tempo, popularizar e eternizar sua arte pictórica em espaços públicos e perenes, vinculados à arquitetura de seus ambientes.

Autor: Catherine Beltrão

Visconti e Chagall deixaram suas almas nos céus de teatros…

Eliseo d’Angelo Visconti (1866-1944) foi um pintor, desenhista e designer ítalo-brasileiro ativo entre os séculos XIX e XX. É considerado um dos mais importantes artistas brasileiros do período e o mais expressivo representante da pintura impressionista no Brasil.

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Teto do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, pintado por Eliseu Visconti, entre 1905 e 1908.

 

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Detalhe do teto do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Em 1901, Visconti organizou sua primeira exposição individual na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. O sucesso desta exposição rendeu o convite que lhe fez o prefeito Pereira Passos para executar os trabalhos de decoração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, realizados em Paris, em duas etapas. Entre 1905 e 1908 Eliseu Visconti executou o pano de boca, o plafond (teto sobre a platéia) e o friso sobre o palco (proscênio). E entre 1913 e 1916, pintou os painéis do foyer do Theatro, considerados uma obra prima da pintura decorativista no Brasil.

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Detalhe do teto do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

O alargamento do palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em meados da década de 1930, iria proporcionar a Visconti um retorno às emoções da mocidade. O artista executou um novo friso sobre a boca de cena (friso sobre o proscênio), em perfeita harmonia com as demais decorações. Em 2008, durante a reforma do Teatro Municipal para a festa do seu centenário, foi encontrado por acaso o proscênio primitivo. Ao contrário do que se imaginava, o proscênio primitivo, escondido há mais de setenta anos, foi preservado, afastado do atual e em bom estado de conservação.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as pinturas de Eliseu Visconti no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, vale a pena assistir a este magnífico vídeo abaixo. E, como se não bastasse, as imagens vem acompanhadas do belíssimo “Clair de Lune“, de Debussy.

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Vídeo “As pinturas de Eliseu Visconti no Theatro Municipal do Rio de Janeiro”

 

A exemplo de Visconti em terras brasileiras, Chagall também deixou sua marca artística no teto de um teatro: o deslumbrante Opéra Garnier, em Paris.

Marc Chagall (1887 — 1985) foi um pintor, ceramista e gravurista surrealista judeu russo-francês. Em 1958, desenhou os cenários e figurinos para a representação do balé Daphnis e Chloé de Maurice Ravel para o Opéra de Paris. Após ter assistido ao trabalho do artista em Daphnis e Chloé, Andre Malraux, ministro da Cultura francês, encomendou-lhe a pintura do novo teto do Opéra de Paris.

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Teto do Opéra Garnier, pintado por Marc Chagall, em 1963/64

 

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Detalhe do teto do Opéra Garnier

Trabalhando em uma superfície de 560 metros quadrados, e circundando o candelabro central do salão principal pesando mais de seis toneladas, Chagall dividiu o teto em zonas coloridas que preencheu com paisagens e figuras representativas dos luminares da ópera e do balé. O teto era característico das obras-primas de Chagall – infantil em sua aparente simplicidade, embora luminoso pelas cores e evocativo do mundo de sonhos e do subconsciente.

No começo da década de 60, Chagall foi convidado para substituir os afrescos que existiam no magnífico teatro do Opéra, e colocar ali uma criação sua. O fato criou uma polêmica enorme e deixou os mais puristas da época ultrajados com a ideia de ter o teatro marcado com um teto colorido e com uma pintura tão moderna. Desde então, já se passaram 50 anos e, hoje em dia, a marca de Chagall é mais uma razão para visitar o Palais Garnier.

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Detalhe do teto do Opéra Garnier

 

Neste ano, para comemorar o aniversário desta belíssima pintura, o diretor Laurence Thiriat foi convidado para realizar o documentário Le Plafond Chagall, il y a 50 ans le scandale (em tradução livre: O teto de Chagall, 50 anos de escândalo). Durante as filmagens, foram usados drones que sobrevoaram o Opéra e registraram imagens do teto nunca antes captadas. Foi lançado um teaser do filme e é possível ver uma pequena parte do impressionante resultado das filmagens acessando o link do vídeo abaixo. É simplesmente fantástico!

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Teaser feito por um drone do teto do Opera Garnier

   Autor: Catherine Beltrão

Chagall e os sonhos alados

Conheço muito pouco Chagall. Mesmo assim, me atrevo a escrever este post. O texto não será fruto de conhecimento ou de experiência. Mas será o que sinto e percebo, admirando suas obras. E um pouco de pesquisa na Internet, óbvio.

ChagallMarc Chagall (1887 – 1985) foi um pintor, ceramista e gravurista surrealista judeu russo-francês.  O artista viajou para Paris em 1910, tendo feito lá vários amigos poetas – Blaise Cendrars, Max Jacob e Apollinaire – e pintores – Delaunay, Modigliani e La Fresnay. Neste primeiro contato com Paris, produz obras de extrema importância, como “O soldado bebê” e “Eu e minha aldeia“.  Esta última é considerada a mais famosa obra de Marc Chagall e uma das mais famosas de todo o Mundo e de toda a história da arte, também considerada uma das primeiras obras surrealistas, embora que em 1911 ainda não existisse oficialmente o Surrealismo.

Chagall - Eu e a aldeia

“Eu e a aldeia”, 1911, ost, 192 X 151cm. Exposta no MoMA, em Nova Iorque.

 

Classificado como surrealista, Chagall passeou pelas trilhas do construtivismo, do fauvismo e do expressionismo.

Chagall - le coq et le renard

“Le coq et le renard” em “Fables”

A Primeira Guerra Mundial encontra Chagall na Rússia e, quando irrompe a Revolução de 1917, após fundar uma escola aberta a todas as tendências, entra em conflito com Kasimir Malevith, fundador do Suprematismo (clique aqui se quiser saber mais sobre este movimento).  Nesta época pintou murais para a sala e o foyer do teatro judeu de Moscou, só voltando à Paris em 1922. Por encomenda de Ambroise Vollard, executou 96 gravuras para uma edição de “Almas mortas“, de Gogol e em 1927 ilustrou as “Fábulas” de La Fontaine (um conjunto de 100 gravuras).

Sendo judeu, Chagall foi perseguido na Segunda Guerra Mundial e em 1941, partiu para os Estados Unidos. O clima de perseguição e de guerra repercutiu em sua pintura, onde surgiram elementos dramáticos, sociais e religiosos. Assim, a arte, a origem judaica e a sua trajetória de vida estão intimamente interligadas.

Chagall - A queda de um anjo

“A queda de um anjo”, 1947

Uma das obras pós-guerra mais significativas e cheia de elementos simbólicos é “A queda de um anjo“, feita em 1947.  O anjo vermelho (Terceiro Reich) está caindo, resta uma vela (resistência judaica) no menorah (símbolo judaico) e dois símbolos cristãos também aparecem: Nossa Senhora com o Menino, na asa do anjo, e o Cristo crucificado, outro símbolo de resistência.

Chagall - la mariee

“La mariée”, guache e pastel, 1950, 68 X 53cm

Chagall - Les amants au ciel rouge

“Les amants au ciel rouge”, ost, 1950, 65,1 X 66,4cm

Anjos, relógios, violinos, animais, luas e uma cor predominante, o vermelho. Chagall recorria frequentemente a estes elementos para expressar seus pensamentos, seus desejos. E por que alguns destes elementos aparecem voando em suas telas? Porque são frutos de sua imaginação, de seus sonhos. Por que um bode não pode tocar violino? Por que um casal aparece voando sobre as casas, como se fosse nuvem? Tudo pode. Tudo são manifestações oníricas de suas memórias, ou de seus desejos.

Em 1964, o famoso Opéra de Paris inaugurou o seu novo teto, pintado por Marc Chagall. Após ter assistido ao trabalho do artista em Daphnis e Chloe, Andre Malraux, ministro da Cultura francês, encomendou-lhe a pintura do novo teto do Opéra de Paris. Trabalhando em uma superfície de 560 metros quadrados, Chagall dividiu o teto em zonas coloridas que preencheu com paisagens e figuras representativas dos luminares da ópera e do balé.

Chagall - teto do Opera

Teto do Opéra de Paris

Já estive algumas vezes neste teatro monumental em Paris e nunca deixo de ir admirar esta obra onírica, que transporta qualquer pessoa dotada de um mínimo de sensibilidade a lugares que sua imaginação permitir.

É de Chagall a frase: “Haverá sempre crianças que amarão a pureza, apesar do inferno criado pelos homens”. Artista longevo e de ininterrupta produção, Chagall foi ao mesmo tempo um sonhador e um lírico, um mágico e um ingênuo, e usava sua arte para materializar o que tinha de mais nobre em sua alma: a bondade e a inocência. (*)

No âmbito da arte contemporânea, marcada pelo formalismo e a abstração, a pintura de Chagall se destaca pela importância que tem nela o elemento temático, de fundo onírico, que, por sua vez, reflete as profundas raízes afetivas e culturais do artista. Nestes tempos de tecnologia imperante, de desconforto com tudo o que possa ser ingênuo ou inocente, a obra de Chagall aparece como um oásis na arte de nossos tempos.

(*) Vale a pena ler este texto sobre Marc Chagall.

Autor: Catherine Beltrão