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Arte a partir de livros

Ah, os livros! Fonte de nossa alma, onde sempre podemos beber, seja com sofreguidão ou delicadeza, os pensamentos de nossos pares…

Hoje conheci mais um artista. Mike Stilkey. Um artista californiano que cria sua arte ao amontoar e pintar livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como assim? Ele não lê os livros? Não sei. Só sei que ele cria incríveis “pinturas” utilizando livros velhos como telas.

Mas isso é um sacrilégio! Será? E os livros que apodrecem nos sótãos, devorados por cupins? E os livros vendidos aos kilos como lixo?

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Mike Stilkey pintando…

Mike Stilkey é um artista estadunidense que usa livros para produzir obras de arte que ficam entre a pintura e a escultura. Seu belo trabalho já lhe rendeu exposições em vários países.

Seus personagens misteriosos, melancólicos, antropomórficos e impressionantes, que parecem saídos de algum filme.

Mike Stilkey refere que as suas pinturas são influenciadas por vários estilos: “adoro ilustração figurativa, expressionismo alemão e surrealismo”. Quantos aos protagonistas, tanto animais como pessoas são apenas situações recorrentes do dia-a-dia: representam qualquer um, mas não identificam ninguém em particular.

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Obra de Mike Stilkey

E, por falar em livros, vamos também falar de poesia. De poesia que fala de livros…

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Obra de Mike Stilkey

Humildade“, de Cecília Meireles

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Obra de Mike Stilkey

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem pra quê.

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Mike Stilkey pintando…

Um dia, Fernando Pessoa escreveu:

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

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Obra de Mike Stilkey

Castro Alves também gostava de poemar…

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

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Obra de Mike Stilkey

E como não se deliciar com estes versos de Mario Quintana?

Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas.

Ou esta sua “Dupla Delícia“?

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

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Obra de Mike Stilkey

Os ” Livros e flores“, de Machado de Assis, perfumam nossos pensamentos:

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

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Obra de Mike Stilkey

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

E Jorge Luis Borges…

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como não podia ser diferente, René Descartes foi cartesiano:

A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.

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Obra de Mike Stilkey

E, finalmente, Arthur Schopenhauer, lacrou:

Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mundo e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.

Os livros estão aí. Para serem lidos. Relidos. Enfeitados. Restaurados. Abraçados. Beijados. Amados. Transformados. Em Arte.

Autor: Catherine Beltrão

A poesia do dia

Todos os dias são de poesia. Mas há dias em que a poesia chega mais perto.

Considerado o “Poeta dos Escravos“, pelo seu monumental “O Navio Negreiro“, o baiano Castro Alves (1847-1871) nasceu em um 14 de março. Em sua homenagem comemora-se neste dia o Dia da Poesia.

A duas flores” é um poema-encanto.

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Castro Alves

São duas flores unidas,
 São duas rosas nascidas
 Talvez do mesmo arrebol,
 Vivendo no mesmo galho,
 Da mesma gota de orvalho,
 Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
 Das duas asas pequenas
 De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
 Como a tribo de andorinhas
 Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
 Que em parelha descem tantos
 Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
 Como as covinhas do rosto,
 Como as estrelas do mar.

Unidas… Ai quem pudera
 Numa eterna primavera
 Viver, qual vive esta flor.
 Juntar as rodas da vida,
 Na rama verde e florida,
 Na verde rama do amor!

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Cora Coralina

A goiana Cora Coralina (1889-1985) é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, tendo sido seu primeiro livro publicado somente em 1965, com 76 anos de idade. Nasceu em  20 de agosto, dia em que Goiás comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

A “Mãe”  é um poema-reflexão.

Renovadora e reveladora do mundo
 A humanidade se renova no teu ventre.
 Cria teus filhos,
 não os entregues à creche.
 Creche é fria, impessoal.
 Nunca será um lar
 para teu filho.
 Ele, pequenino, precisa de ti.
 Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
 Independência, igualdade de condições…
 Empregos fora do lar?
 És superior àqueles
 que procuras imitar.
 Tens o dom divino
 de ser mãe
 Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
 Serás um animal somente de prazer
 e às vezes nem mais isso.
 Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
 Tumultuada, fingindo ser o que não és.
 Roendo o teu osso negro da amargura.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1985) é considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Nasceu em  31 de outubro, dia em que Minas Gerais comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

No meio do caminho” é um poema-vivência.

No meio do caminho tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 tinha uma pedra
 no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
 na vida de minhas retinas tão fatigadas.
 Nunca me esquecerei que no meio do caminho
 tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 no meio do caminho tinha uma pedra.

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Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916-2014) é considerado hoje o maior ou um dos maiores poetas do Brasil. É o poeta “misturador dos sentidos“.  Nasceu em 19 de dezembro, dia em que Mato Grosso comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

Abaixo, um de seus poemas-cósmicos. (Trecho de “Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros“)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras
 fatigadas de informar.
 Dou mais respeito
 às que vivem de barriga no chão
 tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas.
 Dou respeito às coisas desimportantes
 e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade
 das tartarugas mais que a dos mísseis.
 Tenho em mim esse atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado
 para gostar de passarinhos.
 Tenho abundância de ser feliz por isso.
 Meu quintal é maior do que o mundo.
 Sou um apanhador de desperdícios:
 Amo os restos
 como as boas moscas.
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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Albert Einstein

Hoje, dia 14 de março, também nasceu Albert Einstein (1879-1955). Um dos maiores físicos que já existiram, Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral e é conhecido por sua fórmula  E=mc² , certamente a equação mais famosa do mundo.  Nesse Dia Nacional da Poesia, impossível não incluir esta unanimidade científica, que certa vez, perguntado sobre qual seria a definição de luz, deu esta resposta:

“ A luz… é a sombra de Deus…”.

Autor: Catherine Beltrão