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Natais eternizados

De onde vem a tradição de uma árvore de Natal?

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Árvore de Natal da rainha Victoria

A tradição de usar árvores para decorar as casas é bem antiga. Os egípcios, celtas, romanos e até mesmo os vikings traziam árvores para dentro de casa. As árvores eram usadas como decoração no solstício de inverno e acreditava-se que, ao final dessa estação, o sol iria reaparecer e as plantas voltariam a crescer.

Mas foi por volta do século XVI que as árvores de natal tornaram-se um costume cristão. A tradição da árvore de Natal não se espalhou rapidamente pela Europa. Foi somente em 1846, após a publicação de uma ilustração da rainha Victória e do príncipe Albert com seus filhos em volta de uma árvore de natal cheia de presentes, que pessoas de outros países passaram a utilizá-la.

No Brasil, o costume de enfeitar árvores de Natal entre os cristãos só apareceu no começo do século XX.

E, como seria de se esperar, pintores e poetas expressaram o Natal, seja com árvores , seja com meninos em manjedouras…

Natal_ViggoJohansen

“Silent Night”,1891
Viggo Johansen (Dinamarca, 1851-1935)
óleo sobre tela

Manoel de Barros escreveu:

Meu avô hoje ganhou de presente um olhar de pássaro
Acho que ele vai usar esse olhar para fazer as suas artes
O mundo para ele anda muito cansado
Ele quer mudar o jeito das coisas do mundo
Por exemplo ele vai dar primavera aos vermes
O homem não vai mais fabricar armas de fogo
Só vai ter mesmo rio, árvores, o sol, bichos ,pedras
Ele vai desenhar a sua voz nas pedras
Os grilos vão se abrir no meio da noite com enormes lírios
Todo mundo vai gostar mesmo é de obedecer as falas das crianças
Do que as ordens gramaticais
Os sapos vão andar de bicicleta
Depois vamos assistir ao nascimento de Jesus
Será o Natal
E todos vamos adotar as boas falas do filho de Deus
Amar o próximo como a nós mesmos
Então o mundo será renovado !

Poema de Natal“, de Vinicius de Moraes

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“Arbre de Noël”, 1956
Edith Blin (França, 1891-1983)
pastel sobre cartolina

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.”

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“Festa de Natal”, 1943
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela

Canto de Natal“, de Manuel Bandeira:

“O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.”

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“Manhã de Natal”, 1916
Henry Mosler (EUA, 1841-1920)
óleo sobre tela

O Que Fizeram do Natal“, de Carlos Drummond de Andrade

“Natal.
O sino toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
Encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.”

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“A árvore de Natal”, 1911
Albert Chevallier Tayler (GB, 1862-1925)
óleo sobre tela

História Antiga“, de Miguel Torga

“Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.”

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“A árvore de Natal”
Elizabeth Adela Stanhope Forbes (Canadá, 1859–1912)
óleo sobre tela

Natal…“, de Fernando Pessoa

“Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!”

Na manjedoura“, de Clarice Lispector

“Na manjedoura estava calmo e bom. Era de tardinha, ainda não se via a estrela. Por enquanto o nascimento era só de família. Os outros sentiam, mas ninguém via. Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro refulgia o menino, tenro como o nosso filho. Bem de perto, uma cara de boi e outra de jumento olhavam, e esquentavam o ar com o hálito do corpo. Era depois do parto e tudo úmido repousava, tudo úmido e morno respirava. Maria descansava o corpo cansado, sua tarefa no mundo seria a de cumprir o seu destino e ela agora repousava e olhava. José, de longas barbas, meditava; seu destino, que era o de entender, se realizara. O destino da criança era o de nascer. E o dos bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam. A inocência dos meninos, esta a doçura dos brutos compreendia. E, antes dos reis, presenteavam o nascido com o que possuíam: o olhar grande que eles têm e a tepidez do ventre que eles são.

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“Armando a árvore”
Elena Khmeleva (Rússia, 1966)
óleo sobre tela

A humanidade é filha de Cristo homem, mas as crianças, os brutos e os amantes são filhos daquele instante na manjedoura. Como são filhos de menino, os seus erros são iluminados: a marca do cordeiro é o seu destino. Eles se reconhecem por uma palidez na testa, como a de uma estrela de tarde, um cheiro de palha e terra, uma paciência de infante. Também as crianças, os pobres de espírito e os que amam são recusados nas hospedarias. Um menino, porém, é o seu pastor e nada lhes faltará. Há séculos eles se escondem em mistérios e estábulos onde pelos séculos repetem o instante do nascimento: a alegria dos homens.

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“Oh, árvore de Natal”
Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875 – 1941)
óleo sobre tela

Tudo tão vago“, de Mário Quintana

Nossa senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do bento filhinho…
São João estendia,
São José enxugava
e a criança chorava
do frio que fazia

Dorme criança
dorme meu amor
que a faca que corta
dá talho sem dor
(de uma cantiga de ninar)
Tudo tão vago…Sei que havia um rio…
Um choro aflito…Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu…
O menino dormira…Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu…
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…
E era a voz que eu ouvi em pequenino…
E era Maria junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino…

Eras tu…que ao me ver neste abandono
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…

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“A árvore de Natal”
Alexei Mikhailovich Korin (Rússia, 1865 – 1923)
óleo sobre tela

Para muitos de nós, as árvores de Natal são pedaços de nossa infância. Que teimamos em perpetuar em nossos filhos. Lembranças de crianças para crianças. Não há necessidade de mais presentes.

Autor: Catherine Beltrão

Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

Sete pipas e um catavento

Hoje vamos falar de vento. E, por causa do vento, nasceram as pipas. E os cataventos.

Tudo indica que foram os ventos chineses os primeiros a absorver pipas e cataventos. Mas quem terá sido a primeira criança a empinar uma pipa? E qual delas soprou primeiro um catavento?

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“Meninos Soltando Papagaios”, de Cândido Portinari. 1947

Cândido Portinari (1903-1962) pintou muitas pipas. Meninos soltando pipas. E foram muitos poetas que versaram sobre pipas: Bandeira, Drummond, Toquinho, Chico …

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“As Marias”, de Cândido Portinari

Canção da Pipa, de Manuel Bandeira

Voa, pequena pipa, voa,
Eleva-te com vontade aos ares
Empina, pequena coisa azul, empina,
Sobre a nossa catacumba de casas!

Se nós te seguramos pela linha
Tu te manténs nos ares
Escravo dos sete ventos
A levantar-te os obrigarás.

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“Empinando pipa”, de Cândido Portinari. 1942

Drummond

O bom da pipa não é mostrar aos outros.
É sentir individualmente a pipa dando ao céu o recado da gente.
Você solta o bichinho e se solta também!
Ele é a tua liberdade, teu eu girando por ai,
Dispensando de todos as limitações

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“Meninos soltando Pipas”, de Cândido Portinari. 1943

Esse menino, de Toquinho

Dentro do tempo, o universo na imensidão.
Dentro do sol, o calor peculiar do verão.
Dentro da vida, uma vida me conta
Uma história que fala de mim.
Dentro de nós, os mistérios do espaço sem fim.

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“Menino com pipa”, de Cândido Portinari

Volto no tempo, menino, fieira e pião.
Sonhos embalam no vento a pipa e o balão.
Entre piratas e primas, tesouros
E medos de assombração.

Eu só sabia que a vida
Invadia os sentidos, regia o coração.
E o sol me aquecia e brilhava
Em qualquer estação.

Se hoje me perco nos labirintos da razão,
Vem o menino que eu fui e me estende sua mão.
E ele me acalma trazendo
A antiga e serena doce sensação.

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“Meninos soltando pipa”, de Cândido Portinari. 1941

Doze anos, de Chico Buarque, para a peça Ópera do Malandro

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“Meninos soltando pipas”, de Cândido Portinari

Ai, que saudades que eu tenho
Dos meus doze anos
Que saudade ingrata
Dar banda por aí
Fazendo grandes planos
E chutando lata
Trocando figurinha
Matando passarinho
Colecionando minhoca
Jogando muito botão
Rodopiando pião
Fazendo troca-troca
Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
O futebol de rua
Sair pulando muro
Olhando fechadura
E vendo mulher nua
Comendo fruta no pé
Chupando picolé
Pé-de-moleque, paçoca
E, disputando troféu
Guerra de pipa no céu
Concurso de … pipoca

Alfredo Volpi (1896-1988) gostava de desenhar triângulos. E de triângulos a cataventos, é um pulo. E, para acompanhar, um poema de Affonso Romano de Sant’Anna:

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“Cataventos”, de Alfredo Volpi

Além do entendimento

A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.

O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
- estatelado -
mais pareço
um catavento.

 Autor: Catherine Beltrão

Janelas de Hopper entreversos

Abrem-se janelas para o que está do lado de fora. Fecham-se janelas para pensar melhor sobre nós mesmos. E se abríssemos janelas para dentro de nós? Quais seriam nossos pensamentos? Traríamos o que está fora para dentro?

As janelas sempre foram tema para artistas e poetas. Neste post, algumas janelas de Edward Hopper, o pintor da solidão, entremeadas por versos de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Mario Quintana.

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“Chop Suey”, de Edward Hopper. 1929

Fernando Pessoa (alguns versos do célebre poema Tabacaria)

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“Quarto em Brooklyn”, de Edward Hopper. 1932

… Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. …

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“Escritório em Nova York”, de Edward Hopper. 1962

Turno à Janela do Apartamento, de Carlos Drummond de Andrade

Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração da noite.
Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.
A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.
Suicídio, riqueza ciência…
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.
Triste farol da ilha rosa.

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“Notívagos”, de Edward Hopper. 1942

A arte de ser feliz, de Cecília Meireles

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“Janela noturna”, de Edward Hooper.

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“Luz do sol no restaurante”, de Edward Hopper. 1958

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

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“Sol da Manhã”, de Edward Hopper. 1952

Por fim, os versos de Mario Quintana:

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

 Autor: Catherine Beltrão

Pedras macias feito poesia…

Nem sempre as pedras machucam. Algumas vezes elas ficam é preocupadas com a nossa tristeza… e mostram suas rugas. Outras vezes,  até choram… Quase sempre nos embalam em seu colo quente, pois de versos também são feitas.

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“Recorte de pele” – granito

José Manuel Castro López é um artista espanhol que utiliza e transforma pedras em objetos acariciáveis. Manoel (de Barros), Cecília (Meireles), (Carlos) Drummond (de Andrade) e Cora (Coralina) são poetas brasileiros que transformam versos que falam de pedra em ninho-colo.

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“Pedra-cérebro” – granito

“A Pedra”, de Manoel de Barros

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a – Eu irrito o silêncio dos insetos.
b – Sou batido de luar nas solitudes.
c – Tomo banho de orvalho de manhã.
d – E o sol me cumprimenta por primeiro.

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“Lágrimas de pedra”

Manoel de Barros também escreveu:  “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.

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“Beliscão” – quartzo

“No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

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“Paralelepípedos” – granito e aço inoxidável

Mais uma pedra-pensamento de Manoel de Barros: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito.

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“Contratura” – pedra e óxido de ferro

Pedras”, de Cecília Meireles

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

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“Contraste de personalidades” – pedra morceña e óxido de ferro

Daquele que deixou um pequeno príncipe fazer a volta de um asteróide, não podia deixar de também dizer o que achava das pedras:

Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral.” – Antoine de Saint-Exupéry

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“Lambida” – pedra morceña

“Das pedras”, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Autor: Catherine Beltrão

As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

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Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

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“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

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“A mãe costurando”

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“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

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“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

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“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

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“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

Cassat10

“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

Cassat12

“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

Memórias de bronze (Parte I)

E assim, em um dia simples e de puro encantamento, passeando pela orla marítima do Leme ao Leblon, eis que surgem sete personagens de bronze…

ESCRITORA CLARICE LISPECTOR GANHA ESTÁTUA NO LEME

Clarice Lispector, por Edgar Duvivier, na orla da praia do Leme.

Clarice Lispector (1920-1977), uma das mais conhecidas escritoras brasileiras, é a primeira a surgir. Instalada na orla do Leme desde 14.05.2016, a estátua foi criada e produzida pelo artista Edgar Duvivier, tendo sido Clarice retratada com seu cão Ulisses. A obra é a primeira a retratar uma mulher pelas praias da zona sul.

Estatua_Ary

Ary Barroso, por Leo Santana, no Leme.

Ainda no Leme, a estátua de Ary Barroso (1903-1964) foi colocada em frente ao Restaurante Fiorentina, em 18.12.2003. Realizada pelo escultor Leo Santana, Ary Barroso, um dos compositores brasileiros mais conhecidos em seu país e fora dele, está sentado junto a uma mesinha de bar, e uma cadeira vazia, aguardando quem queira sua companhia para tomar um chope…

Estatua_Ibrahim

Ibrahim Sued, por Marcos André Salles, em frente ao hotel Copacabana Palace.

Continuando o passeio, a estátua de Ibrahim Sued (1924-1995) aparece em uma área do calçadão em frente ao hotel Copacabana Palace, local divulgado por este  que foi o maior de todos os colunistas sociais, tido como o pai do gênero, durante 45 anos de trabalho. De autoria de Marcos André Salles, a estátua foi instalada em 26 de setembro de 2004. Para os que viveram esta época, é impossível esquecer estes jargões: “Olho vivo que cavalo não sobe escada.”, “Stop e ademã, gente, que eu vou em frente.” e “Os cães ladram e a caravana passa”.

Estatua_drummond

Carlos Drummond de Andrade, por Leo Santana, no posto 6.

Talvez a mais famosa estátua da orla de Copacabana seja a de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), localizada nas imediações do posto 6. Instalada em 30 de outubro de 2002, imortalizado também pelas mãos do mineiro Leo Santana, Drummond, um dos maiores poetas brasileiros, gostava de ficar todo final de tarde sentado exatamente naquele mesmo banco onde hoje está sua estátua, perto do prédio onde morava.

Estatua_Caymmi

Dorival Caymmi, por Otto Dumovich, perto do Forte de Copacabana.

Ainda no posto 6, na altura da Rua Francisco Otaviano, encontramos a estátua de Dorival Caymmi, vizinha da Vila dos Pescadores. O mar sempre foi um dos temas preferidos nas canções deste grande compositor baiano, um dos maiores compositores brasileiros. De autoria do escultor Otto Dumovich, a estátua foi inaugurada em 11.12.2008 e retrata Caymmi empunhando um violão, instrumento que tantas vezes utilizou para criar e interpretar suas canções: “É doce morrer no mar“, “Marina“, “Saudade de Itapoã“…

Estatua_Tom

Tom Jobim, por Christina Motta, no Arpoador.

Já na Praia de Ipanema, encontramos Tom Jobim (1927-1994).  Inaugurada em 8.12.2014, a estátua fica próxima a coqueiros e às pedras do Arpoador, onde Tom gostava de pescar. De autoria da escultora Christina Motta, a obra retrata o compositor caminhando em direção ao Leblon com um violão no ombro. “Escolhi um Tom no auge, quando Garota de Ipanema explodiu no mundo e ele tocava com o Sinatra“, disse a escultora. Ela se baseou numa foto de Tom na inauguração de Brasília, em 1961.

Estatua_Zozimo

Zózimo, por Roberto Sá, no final da praia do Leblon, posto 12.

No final do Leblon, e também já no final do passeio, encontra-se a estátua de Zózimo Barroso do Amaral (1941-1997), um dos mais prestigiados jornalistas do Brasil, da segunda metade do século XX. Realizada pelo artista plástico Roberto Sá, foi inaugurada em 25.11.2001. O corpo foi moldado usando as próprias roupas do jornalista, que receberam uma camada de cera e depois foram envolvidas pelo bronze. “Apesar de terem sido queimadas pelo bronze, as roupas de Zózimo estão lá dentro, fazendo parte da escultura“, explica Roberto. Pelo mesmo processo foram moldados o paletó, o relógio, a caneta e a máquina de escrever. E foi nela que Zózimo escreveu esta inesquecível frase: “Brega é perguntar o que é chique. Chique é não responder.”

Esta é a primeira parte do post “Memórias de bronze“, correspondente a um passeio pela orla marítima das praias do Leme ao Leblon. Outros passeios virão. Acompanhados de mais memórias de bronze…

 Autor: Catherine Beltrão

Pianos em telas e versos (Parte I)

Entre amores e paixões vividas nessas mais de seis décadas de existência, talvez o piano tenha sido a maior. Paixão que quase me fez ser concertista, um dia. Amor que me fez (e faz) garimpar a música por trás das cenas de filmes, ou no ar por sobre as montanhas e por entre ondas…

Piano_Lenagal_Musicainspiradora_

“Musica Inspiradora”, de Lena Gal. 2002.
Vídeo: 32 variações em Dó menor, de Beethoven – Gleen Gould. Duração: 12.29

A pesquisa na Internet me fez achar dezenas de obras de arte onde o piano é protagonista. Os versos já não são tantos… Nesta primeira parte do post, vale apresentar o de Carlos Drummond de Andrade, “Onde há pouco falávamos“:

Piano_BertheMorisot_ASonatadeMozart

“A Sonata de Mozart”, de Berthe Morisot. 1894.
Vídeo: “Prelúdio e Fuga em Lá maior”, do Cravo Bem Temperado, vol.2, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 2:33

É um antigo
 piano, foi
 de alguma avó, morta
 em outro século.

Piano_ToulouseLautrec_at-the-piano-madame-juliette-pascal-in-the-salon-of-the-chateau-de-malrome-1896

“Madame Juliette Pascal ao piano”, de Toulouse Lautrec. 1896.
Vídeo: “Variações 1 a 7 de Goldberg”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 9:49

 E ele toca e ele chora e ele canta
 sozinho,
 mas recusa raivoso filtrar o mínimo
 acorde, se o fere
 mão de moça presente.

Ai piano enguiçado, Jesus!
 Sua gente está morta,
 seu prazer sepultado,
 seu destino cumprido,
 e uma tecla
 põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
 É um rato?
 O vento?
 Descemos a escada, olhamos apavorados
 a forma escura, e cessa o seu lamento.

Piano_Renoir2

“Jeunes filles au piano”, de Pierre-Auguste Renoir. 1892.
Vídeo: “Concerto de Brandenburg nº 5″, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 6:07

Mas esquecemos. O dia perdoa.
 Nossa vontade é amar, o piano cabe
 em nosso amor. Pobre piano, o tempo
 aqui passou, dedos se acumularam
 no verniz roído. Floresta de dedos,
 montes de música e valsas e murmúrios
 e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
 Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
 Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
 ele estronda. A poeira profusa salta,
 e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
 circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
 Assim nosso carinho
 encontra nele o fel, e se resigna.

Piano_VanGogh_MademoiselleGachetatthePiano

“Mademoiselle Gachet ao piano”, de Vincent van Gogh. 1890.
Vídeo: “Prelúdio em Dó menor”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 1:14

Uma parede marca a rua
 e a casa. É toda proteção,
 docilidade, afago. Uma parede
 se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
 ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
 o medo imemorial, os inspetores
 da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
 Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
 Uma cadeira se renova ao meu desejo.
 A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
 e confiantes. A casa vive.
 Confio em cada tábua. Ora, sucede
 que um incubo perturba
 nossa modesta, profunda confidencia.

Piano_AlmeidaJunior_Odescansodomodelo_1882

“O descanso do modelo”, de Almeida Junior. 1892.
“Noturno op.9 nº1″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrrau. Duração: 5:51

É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
 busto e humour. Uma dolência rígida,
 o reumatismo de noites imperiais, irritação
 de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
 e tudo que deixam mudanças,
 viagens, afinadores,
 experimento de jovens,
 brilho fácil de rapsódia,
 outra vez mudanças,
 golpes de ar, madeira bichada,
 tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
 meio grotesco também, nada piedoso.

Piano_EdgarDegas_madamecamusaopiano

“Madame Camus ao piano”, de Edgar Degas. 1869.
Vídeo: “Noturno op.9 nº2″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 4:51

Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
 objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
 de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
 a coleção de retratos, também alguns livros,
 cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
 antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
 bem sei, mas e esse piano?

Está no fundo
 da casa, por baixo
 da zona sensível, muito
 por baixo do sangue.

Está por cima do teto, mais alto
 que a palmeira, mais alto
 que o terraço, mais alto
 que a cólera, a astúcia, o alarme.

Piano_Velasquez

“Manuela González Velázquez tocando piano”, de González Velázquez . 1820.
Vídeo: “Noturno op.9 nº3″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 7:20

Cortaremos o piano
 em mil fragmentos de unha?
 Sepultaremos o piano
 no jardim?
 Como Aníbal o jogaremos
 ao mar?
 Piano, piano, deixa de amofinar!
 No mundo, tamanho peso
 de angústia
 e você, girafa, tentando.

Resta-nos a esperança
 (como na insônia temos a de amanhecer)
 que um dia se mude, sem noticia,
 clandestino, escarninho, vingativo,
 pesado,
 que nos abandone
 e deserto fique esse lugar de sombra
 onde hoje impera. Sempre imperará?

(É um antigo piano, foi
 de alguma dona, hoje
 sem dedos, sem queixo, sem
 música na fria mansão.
 Um pedaço de velha, um resto
 de cova, meu Deus, nesta sala
 onde ainda há pouco falávamos.)

Piano_Cezanne

“Jovem ao piano”, de Paul Cézanne. 1868.
Vídeo: “Bénédiction de Dieu dans la solitude”, de Franz Liszt – Claudio Arrau. Duração: 19:07

Como trilha sonora deste post escolhi 5 peças de J.S. Bach e Ludwig van Beethoven, interpretadas por Gleen Gould e 4 peças de Frédéric Chopin e Franz Liszt, com interpretação de Claudio Arrau. Puro deleite!

Para ler a parte II deste post, acesse aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

A poesia do dia

Todos os dias são de poesia. Mas há dias em que a poesia chega mais perto.

Considerado o “Poeta dos Escravos“, pelo seu monumental “O Navio Negreiro“, o baiano Castro Alves (1847-1871) nasceu em um 14 de março. Em sua homenagem comemora-se neste dia o Dia da Poesia.

A duas flores” é um poema-encanto.

Poesia_CastroAlves1

Castro Alves

São duas flores unidas,
 São duas rosas nascidas
 Talvez do mesmo arrebol,
 Vivendo no mesmo galho,
 Da mesma gota de orvalho,
 Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
 Das duas asas pequenas
 De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
 Como a tribo de andorinhas
 Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
 Que em parelha descem tantos
 Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
 Como as covinhas do rosto,
 Como as estrelas do mar.

Unidas… Ai quem pudera
 Numa eterna primavera
 Viver, qual vive esta flor.
 Juntar as rodas da vida,
 Na rama verde e florida,
 Na verde rama do amor!

Poesia_coracoralina

Cora Coralina

A goiana Cora Coralina (1889-1985) é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, tendo sido seu primeiro livro publicado somente em 1965, com 76 anos de idade. Nasceu em  20 de agosto, dia em que Goiás comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

A “Mãe”  é um poema-reflexão.

Renovadora e reveladora do mundo
 A humanidade se renova no teu ventre.
 Cria teus filhos,
 não os entregues à creche.
 Creche é fria, impessoal.
 Nunca será um lar
 para teu filho.
 Ele, pequenino, precisa de ti.
 Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
 Independência, igualdade de condições…
 Empregos fora do lar?
 És superior àqueles
 que procuras imitar.
 Tens o dom divino
 de ser mãe
 Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
 Serás um animal somente de prazer
 e às vezes nem mais isso.
 Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
 Tumultuada, fingindo ser o que não és.
 Roendo o teu osso negro da amargura.

Poesia_Drummond

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1985) é considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Nasceu em  31 de outubro, dia em que Minas Gerais comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

No meio do caminho” é um poema-vivência.

No meio do caminho tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 tinha uma pedra
 no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
 na vida de minhas retinas tão fatigadas.
 Nunca me esquecerei que no meio do caminho
 tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 no meio do caminho tinha uma pedra.

Poesia_ManoeldeBarros1

Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916-2014) é considerado hoje o maior ou um dos maiores poetas do Brasil. É o poeta “misturador dos sentidos“.  Nasceu em 19 de dezembro, dia em que Mato Grosso comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

Abaixo, um de seus poemas-cósmicos. (Trecho de “Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros“)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras
 fatigadas de informar.
 Dou mais respeito
 às que vivem de barriga no chão
 tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas.
 Dou respeito às coisas desimportantes
 e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade
 das tartarugas mais que a dos mísseis.
 Tenho em mim esse atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado
 para gostar de passarinhos.
 Tenho abundância de ser feliz por isso.
 Meu quintal é maior do que o mundo.
 Sou um apanhador de desperdícios:
 Amo os restos
 como as boas moscas.
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Poesia_einstein

Albert Einstein

Hoje, dia 14 de março, também nasceu Albert Einstein (1879-1955). Um dos maiores físicos que já existiram, Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral e é conhecido por sua fórmula  E=mc² , certamente a equação mais famosa do mundo.  Nesse Dia Nacional da Poesia, impossível não incluir esta unanimidade científica, que certa vez, perguntado sobre qual seria a definição de luz, deu esta resposta:

“ A luz… é a sombra de Deus…”.

Autor: Catherine Beltrão

O amor em traços e versos

O amor é um tema eterno. Não há no mundo quem não tenha amado. Pra falar de amor, surgem os poetas. Pra desenhar o amor, os pintores. Pra viver o amor, qualquer um de nós.

Este post apresenta  oito textos/poemas sobre o amor, de oito escritores que amo, ilustrados com imagens de obras de Edith Blin (1891-1983), a “pintora da alma.

Amor1

“Casal em cinza”, de Edith Blin: 1973, osc, 55 X 36cm

“Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.”

Pablo Neruda

Amor2

“Aproximação”, de Edith Blin: 1970, osc, 49 X 37cm

“Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.

Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.

A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.”

Mario Quintana

Amor3

“Depois da Fantasia”, de Edith Blin: 1972, osc, 48 X 34cm

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Luis de Camões

Amor4

“Duas figuras, uma nos braços da outra”, de Edith Blin: 1977, osc, 50 X 38cm

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.”

Vinicius de Moraes

Amor5

“Inspiré de Rodin II”, de Edith Blin: 1971, osc, 52 X 39cm

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…”

Florbela Espanca

Amor6

“Jovens do futuro”, de Edith Blin : 1978, osc, 53 X 38cm

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.”

Carlos Drummond de Andrade

Amor7

“Pausa I”, de Edith Blin: 1970, osc, 52 X 38cm

Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.” (De Julieta para Romeu)

William Shakespeare

Amor8

“Casal n•5″, de Edith Blin: 1980, osc, 51 X 37cm. Esta obra participou do Nouveau Salon de Paris – CIAC, em janeiro de 1986. Após o evento, a obra desapareceu, sendo desconhecido o seu paradeiro atualmente.

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.”

Fernando Pessoa

Uma nota a ser feita sobre as oito obras de Edith Blin apresentadas neste post: todas elas datam da década de 70, quando a artista tinha mais de 80 anos. É realmente fantástico o vigor e a força que transmitem, sem deixar de lado a ternura que o tema sugere…

Autor: Catherine Beltrão