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Detalhes

Detalhe é um pedaço. De um pensamento. De uma atitude. De um fazer. Quase sempre, um pedaço bem pequeno. Ou até muito pequeno. Mas, um detalhe não é coisa menor. Pode até ficar grande. Muito grande. Imenso. Como são os detalhes de certas pinturas. Ou esculturas.

Mãos. É bom começar pelas mãos. Pelas mãos da “Canção” de Cecília Meireles.

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Detalhe das mãos de “O pensador”, de Rodin.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

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Detalhe das mãos de “David”, de Michelangelo.

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Detalhe das mãos de Plutão, em “O rapto de Prosérpina”, de Bernini.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Van Gogh

Depois das mãos, o detalhe do olhar. O olhar de Vinicius de Moraes, em seu “Soneto da Separação“.

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Detalhe do olhar de Mona Lisa, de Da Vinci.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Lucien Freud.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

E aí chega a hora do detalhe da flor. Mas, dentro da flor, fica a palavra do “Apanhador de desperdícios“, de Manoel de Barros.

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Detalhe de uma das “Ninfeias”, de Monet.

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

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Detalhe de “Flores em um vaso”, de Renoir.

Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

As mãos, o olhar, flores. Palavras. Os versos. Einstein sabia das coisas:

Eu quero conhecer os pensamentos de Deus; o resto são detalhes“.

Autor: Catherine Beltrão

Algumas gotas de cinco fontes romanas

Em se tratando de monumentos, quando se fala em Roma, lembramos logo de quê? Coliseu, Capitólio e… fontes! Não se sabe ao certo, mas parece que existem mais de 2000 fontes em Roma.  Mas como surgiram as fontes romanas?

Fonte - aqueduto Appio

Aqueduto Appio

As cidades antigas eram geralmente construídas perto de onde havia muita água, como foi o caso de Roma. Originalmente, o rio Tibre e as fontes e poços nas proximidades forneciam toda água de que a cidade precisava.  Com o passar dos séculos, foi necessário a construção de estruturas que levassem a água para um número cada vez maior de habitantes. Assim, apareceram os aquedutos, que são galerias subterrâneas ou expostas à superfície que servem para conduzir água. Em 312 a.C, os romanos projetaram o seu primeiro aqueduto, denominado Acquedotto Appio, demonstrando uma inigualável habilidade na construção desse tipo de obra arquitetônica. Já no final do século I d.C, a cidade era abastecida por onze deles, que levavam diariamente, até a capital, nada menos que mil litros de água por habitante, o maior deles possuindo 90 km de extensão.

Fonte - aqueduto Acqua Virgo

Aqueduto Acqua Virgo – vídeo

A construção destes 11 aquedutos fez de Roma uma das cidades mais ricas em água de todos os tempos, suprindo-a com milhões de metros cúbicos que a cada dia alimentava inúmeras fontes e magnificas Termas, os banhos de Roma. Entretanto, no século VI, os godos saquearam Roma e cortaram o fornecimento hídrico da cidade, acabando com essa riqueza e causando o abandono dos grandes Banhos. Somente no século XVI, os papas resolveram o problema renovando os antigos aquedutos e decorando Roma com fontes monumentais que celebram a magnificência e o poder dos pontífices.

Impossível apresentar aqui todas as fontes romanas. Resolvi selecionar cinco delas, todas servidas pelas águas do Aqueduto Água Virgem (Acqua Virgo).

A mais conhecida entre as fontes de Roma é, certamente, a Fontana di Trevi. 

Fonte - di Trevi

Fontana di Trevi

A Fontana di Trevi é o ponto terminal do antigo aqueduto Aqua Virgo, construído por Agripa. Teve intervenções de Nicola Salvi entre 1732 e 1751. De estilo barroco,  esta fonte monumental mede cerca de 26 metros de altura e 20 metros de largura.

A fonte foi restaurada em 1998: as esculturas foram limpas e polidas, e a fonte foi provida de bombas para circulação da água e sua oxigenação. Este cartão postal de Roma passa atualmente pela maior reforma em 252 anos. A restauração da Fontana di Trevi deverá ser encerrada apenas no segundo semestre de 2015.

O ritual de jogar uma moedinha na fonte para garantir um retorno à Roma é planejado por quase todos os turistas. A prefeitura de Roma recolhe anualmente cerca de 600 mil euros em moedas de mais de 130 países que centenas de turistas jogam nas águas da fonte.

Além da Fontana di Trevi, outras quatro fontes também são desservidas pelas águas do Acquedotto Virgo: a Fonte da Tartaruga, a Fonte de Netuno, a Fonte do Mouro e a Fonte dos Quatro Rios. Estas três últimas se situam na Piazza Navona.

Fonte - Tartuaruga

Fontana delle Tartarughe

A Fonte da Tartaruga (Fontana delle Tartarughe), construída em 1558, está situada na Piazza Mattei, no centro histórico de Roma, tendo sido projetada por Giacomo Della Porta (1533-1602), e executada, provavelmente, por Taddeo Landini (1561–1596). Esta fonte está ligada a uma lenda romântica: o duque Mattei, para demonstrar ao pai da sua amada que era um homem poderoso, construiu essa linda fonte em uma noite, diante da sua janela.

Fonte de Netuno

Fontana di Nettuno

Fonte - del Moro

Fontana di Moro

Na Piazza Navona, onde inclusive se situa a Embaixada Brasileira em Roma, se encontram três das mais belas e monumentais fontes de Roma: a  Fonte de Netuno (Fontana di Nettuno), construída em 1557, também projetada por Giacomo Della Porta, e que fica no extremo norte da Praça, com a imponente escultura de Netuno lutando contra um polvo. Situada no outro extremo da Praça,  a Fonte do Mouro (Fontana del Moro), construída em 1576, por Giacomo Della Porta e finalizada mais tarde por Bernini, é uma das mais antigas fontes renascentistas de Roma, representando um mouro circundado por golfinhos e tritões, com a base em mármore cor de rosa.  E, ocupando o centro da praça, a Fonte dos Quatro Rios (Fontana dei Quattro Fiumi), construída em 1651, de autoria de Bernini (1598-1680), um dos maiores artistas do barroco italiano. Nela, as quatro figuras humanas saem de rochas e cavernas, simbolizando os quatro rios conhecidos na época: o Nilo, representando a África, o Ganges, representando a Ásia, o Danúbio, representando a Europa e o Rio da Prata, representando as Américas.

Fonte - Quatro Rios1

Fontana dei Quattro Fiumi – Vídeo

 

Roma, cidade eterna, não se equipara a nenhuma outra neste planeta. Nenhuma outra cidade conseguiu mostrar, até hoje, de forma tão bela e pujante, a relação água, arquitetura, engenharia e arte, tudo a serviço do ser humano.

 Autor: Catherine Beltrão